William, o Conquistador

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
publicado em 30 Janeiro 2019
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Disponível noutras línguas: Inglês, africâner, francês, Polaco, espanhol, Turco
Statue of William the Conqueror (by Man vyi, Public Domain)
Estátua de William, o Conquistador
Man vyi (Public Domain)

William, o Conquistador (c.1027-1087), também conhecido como William, Duque da Normandia, liderou a Conquista Normanda da Inglaterra em 1066, quando derrotou e matou seu rival Harold Godwinson na Batalha de Hastings. Coroado como Rei William I da Inglaterra no Dia de Natal de 1066, assumiu totalmente seu reino após cinco anos de duras batalhas contra rebeldes e invasores.

Continuando a reinar sobre a Normandia, as políticas de William a respeito de distribuição de terras entre a elite normanda, assegurou que a história da Inglaterra e da França seriam inseparáveis nos séculos seguintes. Diplomata habilidoso, comandante militar talentoso e soberano cruel, William morreu de causas naturais em Caen, Normandia, em 1087, onde se encontra sua tumba.

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Vida Familiar e Pessoal

William nasceu em Falaise, Normandia, c. 1027. Filho ilegítimo do Duque Robert I da Normandia (duc. 1028-1035), daí ser chamado, algumas vezes, de William, o Bastardo. A mãe de William era Herleve de Falaise, filha de um rico comerciante em Rouen, que exercia o cargo de camareiro-mor na corte ducal. Os meios-irmãos (filhos da mesma mãe) Odo de Bayeux, bispo daquela cidade e futuro Conde de Kent, e Robert (futuro) Conde de Mortain. Em 1053 (ou 1050 em algumas fontes) William casou-se com Mathilda (+1083), filha do Conde de Flandres e sobrinha de Henri I da França (*1031 +1060) em um casamento que convenientemente cimentou as florescentes relações diplomáticas entre as três regiões. Juntos tiveram quatro filhos e quatro (ou cinco) filhas.

William de Poitiers, um bem-informado contemporâneo, mas obviamente pro-normando, descreve o jovem duque nos seguintes termos em sua crônica do século XI, History of William the Conqueror (História de William, o Conquistador):

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Agora, finalmente, surgiu o mais jovial e mais esperado com alegria, especialmente para aqueles que desejavam paz e justiça. Nosso duque, já adulto em sagacidade e força física, se não em anos, aceitou o título das armas de cavalaria, causa de um tremor que varreu toda a França. Armado e montado, não possuía nenhum igual em toda a Gália. Era uma visão ao mesmo tempo encantadora e terrível vê-lo comandando seu cavalo, espada na cinta, seu escudo reluzente, seu elmo e sua lança igualmente ameaçadores. (Allen Brown,18)

A descrição soa mais como um discurso de elogio, mas é talvez significativo que o selo do duque era o de um cavaleiro montado, o primeiro deste tipo empregado por um governante europeu e muito copiado a partir de então. William possuía outros talentos ao lado de sua capacidade de militar, como demonstrou por toda sua carreira. O duque era um planejador meticuloso, um mestre em agarrar oportunidades políticas para obter o máximo ganho e capacitado administrador. Foi também um amante da caça e rígidas leis florestais, mais tarde introduzidas por ele na Inglaterra, foram, em parte, criadas para garantir que seus queridos cervos não fossem molestados por caçadores ilegais e, além disso tudo, era considerado um ótimo arqueiro.

Coin of William the Conqueror
Moeda de William, o Conquistador
PHGCOM (Public Domain)

Duque da Normandia

Quando o Duque Robert morreu na Ásia Menor, durante uma peregrinação, William tornou-se o Duque da Normandia em 1035. Felizmente para William, seu pai já havia assegurado juramentos de lealdade de seus barões a respeito de seu filho, escolhido como herdeiro. Na realidade, William era ainda uma criança e, Gilbert de Brionne, seu tutor, governava em seu nome. Em 1040, aconteceu uma guerra civil na Normandia quando Gilbert foi assassinado e barões rebeldes procuraram expandir suas terras, muitas vezes com a construção de castelos. Foram gastos sete longos anos para William organizar seu ducado, mas ele conseguiu, pelo menos, contar com amigos poderosos, notavelmente o Arcebispo de Rouen, Mauger, irmão de William e o poderoso esposo de sua mãe, Herluin de Conteville. Finalmente, em 1047 e com a ajuda de Henry I – que visava proteger rotas comerciais vitais através de Normandia e o futuro de um de seus vassalos – os rebeldes sofreram uma significativa derrota em Val-ès-Dunes, próximo a Caen. Ocorreriam mais batalhas ainda e alguns sítios notáveis, incluindo um esforço de três anos contra o Castelo de Brionnne, propriedade de Guy de Bourgogne, que se encerrou com sucesso para William.

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William fazia uso de quaisquer métodos disponíveis, incluindo terror e Mutilações, para se tornar o mais poderoso nobre na frança.

Os próximos 20 anos veriam uma forte elevação no poder do ducado, não sem lutas, mas os anos de guerra iriam treinar William para ser um dos mais formidáveis estrategistas militares e comandante de campo da Idade Média (e um dos mais afortunados). Embarcando em uma prolongada guerra de expansão, especialmente contra os rivais de longo tempo, como Flandres e Anjou, William fazia uso de qualquer método disponível, incluindo terror e mutilações, bem como casamentos arranjados por conveniência política para os membros chave de seu círculo íntimo, para, ao final, tornar-se o mais, poderoso nobre na França.

William era, então, também poderoso e, em 1053, o Rei francês escolheu ficar do lado do tio do duque normando, Wiilliam de Arques, na época um barão rebelde. O duque, no entanto, atacou o suprimento de grãos do inimigo e seu tio foi obrigado a se render. O ducado possuía uma robusta defesa na Normandia e, em 1054, uma força francesa, procurando vingança pelos acontecimentos do ano anterior, invadiu a região. O exército francês foi derrotado em Montemer e, novamente, contra o mesmo inimigo, porém com um resultado mais enfático, em Varaville, em 1057. O Rei Henry quase não escapava com vida em Varaville. O Rei francês, ilhado com a metade de seu exército por um rio com correnteza, ficou furioso, mas nada pôde fazer para impedir o massacre. William era incontrolável. Nos anos seguintes, adicionou ao seu ducado diversas dependências pessoais, incluindo a Ilhas do Canal (Îles Normandes) e os ducados da Bretanha e Maine. Isto e mais a morte de Henry da França e o fato de que seu jovem filho, herdeiro do trono, encontrava-se sob a tutela do pai de William, Robert de Flandres, significava que o ducado de William estava seguro com relação aos seus vizinhos. As ambições do duque poderiam, a partir de agora, ampliar-se além da França.

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William voltou seus olhos para o trono da Inglaterra, mas, ainda tecnicamente um vassalo do Rei da França, não podia atacar sem alguma justificativa anterior e ações diplomáticas. Os barões normandos também precisavam ser convencidos do valor de invadir a Inglaterra, porém a promessa de terra, títulos e riquezas mostraram-se motivações suficientes.

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William propôs, como justificativa para a invasão da Inglaterra, não menos a pretensão de que ele era o rei inglês por direito. Baseava-se na relação do Duque com Edward, o Confessor, Rei da Inglaterra de 1042 a 1066. O Conde Richard I da Normandia era avô de Edward e bisavô de William. William colocou a tese de que Edward, sem filhos próprios, havia, em uma ocasião, prometido ao normando que ele poderia ser o herdeiro oficial de Edward. Como se ficou sabendo, Edward, em seu leito de morte, havia escolhido o anglo-saxão Harold Godwinson como seu sucessor, um membro da poderosíssima família Godwine e, na época, o principal comandante militar na Inglaterra.

Em outro acontecimento para a pretensão de William (pelo menos de acordo com os cronistas normandos), Harold havia visitado a Normandia em c.1064, onde fora capturado pelo Conde Guy de Ponthieu e entregue a William (que fez bom uso dele em suas batalhas para dominar Conan, o Conde da Bretanha). Uma condição para a libertação de Harold foi que este havia prometido se tornar vassalo de William e preparar o caminho para a invasão. Então, William sentiu-se enganado quando Harold foi coroado Harold II da Inglaterra em janeiro de 1066. Fontes anglo-saxãs discordam muito dessa história, porém foi suficiente para convencer outros reis europeus de que William possuía algum direito para invadir. Além disso, William recebeu a bênção do Papa, que se encontrava já há alguns anos em grande desacordo com o Arcebispo de Canterbury, recusando a reconhecer que ele tinha direito àquela p0seição. Convencido que tinha o direito e com Deus a seu lado, William realizou uma preparação meticulosa para a invasão do Sul da Inglaterra no verão de 1066.

A Conquista Normanda da Inglaterra

Necessário ser dito que William foi bafejado pela sorte em sua invasão, pois seu inimigo, Harold II, encontrava-se enfrentando outra invasão, por Harald Hardrada, Rei da Noruega (ou Harold III, rein. 1046-1066) poucas semanas antes da chegada do Conquistador. Harold derrotou-o na Batalha de Stamford Brridge, próximo a York, em 25 de setembro de 1066 e, em seguida, marchou para enfrentar o exército de William de 5.000 a 8.000 homens, incluindo 1.000 a 2.000 cavaleiros. Os dois exércitos, provavelmente semelhantes em número, se defrontaram em Hastings em 14 de outubro. Com arqueiros e cavaleiros contra a infantaria anglo-saxã, William saiu-se vitorioso e Harold foi morto. Quando os reforços chegaram da Normandia, William marchou sobre Londres, primeiro tomando fortalezas importantes como Romney, Dover, Winchester e Canterbury. Muitos dos nobres anglo-saxões e o Arcebispo de Canterbury juraram obediência ao novo rei, que foi coroado no Natal de 1066, na Abadia de Westminster.

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Norman Conquest of Britain, 1066 - 1086
Conquista Normanda da Bretanha, 1066-1086
Simeon Netchev (CC BY-NC-SA)

A partir de agora, William I da Inglaterra e Duque da Normandia, o Conquistador, teve de entrar em combates mais cinco anos antes da Inglaterra ficar completamente controlada. Tática de terra arrasada, construção de centenas de castelos em elevações, prisão e mutilações de rebeldes e cidades importantes, como Exeter e York, dominar duas mini-invasões da Irlanda lideradas pelos filhos de Harold, esmagar uma força de rebeldes dinamarqueses em East Anglia e a redistribuir completamente as propriedades para normandos leais, finalmente asseguraram seu novo reino. A Igreja foi reestruturada, com os bispos normandos ficando com a melhor parte, muitos centros religiosos importantes foram deslocados para mais próximos de cidades, como Winchester, York e Canterbury.

Reino Pós-Conquista

William conseguiu para si um novo e rico reino, porém não ignorou suas terras na França e, frequentemente, para lá retornava, deixando, nessas ocasiões, governando a Inglaterra seu meio-irmão Odo de Bayeux, Conde de Kent e seu amigo íntimo William FitzOsbern, Conde de Hereford. De fato, algumas vezes William devia entrar em combate para defender suas terras na França, principalmente contra Fulk, Conde de Anjou em 1073. Philip I, Rei da França (rein.1060-1108), também se tornou ambicioso em tomar partes do ducado de William e apoiar rebeldes dentro do ducado, notavelmente na Bretanha. Houve, inclusive, uma falida rebelião na Inglaterra em 1075. Liderada por Ralph de Gael, esta conspiração menor foi abatida sem William ter de sair da Normandia. Ainda mais, foi um sinal das inerentes tensões envolvidas em conciliar um reino e ducado cheios de nobres sedentos para expandirem seus interesses em um, em outro ou em ambos os territórios.

No final das contas, as vitórias militares tiveram um fim repentino. Em 1077 o duque sofreu uma derrota próximo a Dol, na Bretanha. Dentro de um ano, irrompeu nova rebelião, desta vez liderada por Robert, filho mais velho de William, que sentia que não possuía suficientes poderes para si próprio. Novamente, Philip da França viu uma oportunidade para desestabilizar a situação e deu um castelo – Gerberoi na fronteira com a Normandia – para Robert usar como base. William tentou sitiar Gerberoi, mas seu filho parece ter aprendido o modo de guerrear de seu pai e William foi derrotado em um confronto de campo. Felizmente, William e Robert de reconciliaram e o jovem homem foi necessário, pois foi enviado para repelir as incursões na Northumbria, vindas da Escócia, em 1079.

Great Domesday Book
O Grande Domesday Book
UK National Archives (CC BY)

Domesday Book

Longe de ser um simples guerreiro, William era um administrador capaz. Em 1086-1087, o Rei ordenou que se fizesse um levantamento e registro de todos os proprietários de terras, propriedades, arrendatários e servos da Inglaterra. Após a mudança da elite anglo-saxã para os normandos e maciça redistribuição de propriedades, o Rei provavelmente estava interessado em saber quem possuía o que em seu reino. Os dados do levantamento seriam unificados em um único documento, o Domesday Book (na realidade dois livros, porque um, o Little Domesday parece ser um registro mais detalhado e que nunca foi condensado no formato do grande volume, o Great Domesday). Ao que parece o Domesday Book foi compilado para que um novo imposto pudesse ser mais precisamente cobrado e assegurar que os proprietários fornecessem o correto serviço militar feudal que deles se esperava. O registro conseguiu ser, então, uma ferramenta muito útil para se conseguir o pagamento de um exército, tendo em vista a ameaça de uma invasão dinamarquesa da Inglaterra, que se mostrava iminente em 1085. Domesday Book, o mais compreensivo levantamento jamais feito em um reino medieval e um inestimável conhecimento em muitos aspectos da vida diária na Inglaterra medieval, é mantido nos UK National Archives, em Londres. Permanece ele como uma das maiores conquistas de Wiliam.

Morte e Legado

Felizmente para William, a invasão dinamarquesa nunca se materializou. Canuto IV da Dinamarca (rein. 1080-1086), que planejava a proeza, foi assassinado como parte de uma rebelião que foi motivada pela imposição, pelo rei, de impostos e multas para financiar sua frota e exército de invasão. No entanto, inesperadamente, o desastre golpeou William quando ele atacava a cidade de Mantes em retaliação por suas incursões sobre a Normandia. Em 9 de setembro de 1087, William morreu de doença, talvez por uma lesão quando cavalgava e exacerbada por sua obesidade que o afligiu mais tarde na vida. Ele foi enterrado no monastério de Santo Estêvão em Caen, que ele mesmo havia construído, embora durante o funeral tenha ocorrido problemas: um incêndio nas casas vizinhas interrompeu a procissão, um homem gritou durante a cerimônia que a catedral havia sido construída nas terras de seu pai sem nenhuma compensação, e o sarcófago era menor que o corpo, tanto que quando tentaram colocar o imenso corpo dentro dele, o estômago estourou e encheu a catedral com um odor repugnante.

De acordo com um manuscrito medieval, o epitáfio do Rei seria o seguinte:

Governou os orgulhosos normandos, com sua mão firme,

Dominou os bretões, vencidos por seus exércitos.

Os guerreiros de Maine curvaram-se perante ele por seu valor,

E se mantiveram obedientes, por seu correto governo.

Aqui jaz o grande Rei em sua pequena urna,

E tão dominuta casa, abriga um poderoso senhor.

(De obitu Willelmi, Allen Brown, 49 )

William the Conqueror on Horseback, Bayeux Tapestry
William, o Conquistador, Cavalgando, Tapeçaria de Bayeux
Myrabella (Public Domain)

A anti-normanda Crônica Anglo-Saxã (Anglo-Saxon Chronicle, para o ano 1087) fornece o seguinte e, talvez, mais equilibrado sumário do reinado de William:

O Rei William, de quem falamos, foi um verdadeiro homem, sábio e muito poderoso, mais venerado e forte que qualquer predecessor que tenha existido. Era gentil para os bons homens que amavam a Deus e mais severo, além que qualquer medida, para com aquelas pessoas que resistiam à sua vontade.

(Citado em Allen Brown, 79)

Após a morte de William, seu reino inglês foi assumido por seu filho William II Rufus (rein. 1087-1100). Enquanto isso, outro filho, Robert Curthose, assumiu as terras da família na Normandia. Ambos os governantes se esforçaram para manter seus respectivos domínios de usurpadores e nobres ambiciosos. Inglaterra e Normandia seriam governadas por um único monarca a partir de 1106, seis anos no reinado de Henry I da Inglaterra (1100-1135), outro filho de William, o Conquistador.

William, o Conquistador, então, viveu uma agitada vida de guerras quase incessantes e de viagens entre a Inglaterra e o Norte da França. É a subsequente história entrelaçada desses dois países onde vemos o maior dos legados de William, para o bem ou para o mal. Unindo os dois países, misturando as elites governantes e elevando fortemente o comércio, as repercussões políticas e culturais da conquista da Inglaterra por William, seriam sentidas na história dos próximos séculos.

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Sobre o tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é autor, pesquisador, historiador e editor em tempo integral. Seus principais interesses incluem arte, arquitetura e descobrir as ideias que todas as civilizações compartilham. Ele possui mestrado em Filosofia Política e é diretor editorial da WHE.

Citar este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2019, Janeiro 30). William, o Conquistador [William the Conqueror]. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16891/william-o-conquistador/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "William, o Conquistador." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. Última modificação Janeiro 30, 2019. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16891/william-o-conquistador/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "William, o Conquistador." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 30 Jan 2019. Web. 24 Abr 2024.