Miguel II

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Michael II & Theophilos (by Classical Numismatic Group, Inc., CC BY-SA)
Miguel II e Teófilo Classical Numismatic Group, Inc. (CC BY-SA)

Miguel II, o Amoriano, também conhecido como Miguel "o Gago", foi imperador do Império Bizantino entre os anos de 820 e 829. Fundou a efémera dinastia amoriana, com o nome da sua terra natal na Frígia, que duraria até 867. Tendo sobrevivido à grande rebelião e ao cerco a Constantinopla liderados por Tomás, o Eslavo, o reinado do imperador presenciou poucos sucessos, à medida que o império continuava a desmoronar-se nas suas margens, tendo sido perdas notáveis a Sicília e Creta.

A Sucessão

Miguel era originário da estrategicamente importante cidade de Amorion (também conhecida como Amorium), na Frígia, a capital da província militar de Anatolikon. Amorion protegia a estrada que ligava as Portas da Cilícia à capital bizantina, Constantinopla. Miguel era um comandante militar experiente no exército bizantino e é descrito pelo historiador J. J. Norwich como um "provinciano rude e inculto... de origens humildes, com uma deficiência na fala" (pág. 131). Miguel ascendeu a braço direito do imperador Leão V, o Arménio (reinou 813–820), e foi nomeado para o cargo máximo de Comandante dos Excubitores, um regimento de elite da guarda palaciana.

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Contudo, Miguel desejava mais; aproveitou a oportunidade e tomou o trono em 820, num dos episódios de autopromoção mais descarados e chocantes que os bizantinos testemunharam — e eles já tinham visto uns quantos ao longo dos séculos. Os apoiantes de Miguel não recorreram ao complot de assassinato silencioso, pelas costas, num beco escuro, mas assassinaram o imperador reinante mesmo em frente ao altar da igreja de Santa Sofia, e logo no dia de Natal.

Miguel foi salvo da execução pelos seus apoiantes, que se disfarçaram de coro de monges e massacraram o imperador.

Na verdade, Miguel e os seus apoiantes tinham sido empurrados para esta ação dramática, pois ele tinha sido condenado à morte por Leão apenas no dia anterior. O método inovador de execução decidido envolvia atar a vítima a um macaco e colocar ambos nas fornalhas que aqueciam os banhos do palácio (não é claro o que o macaco teria feito para merecer tal sentença). Miguel, acusado de conspirar uma rebelião e confessando a sua culpa, deveria ser executado no dia de Natal, mas Leão foi persuadido pela sua mulher, Teodósia, de que tal ato não seria particularmente apropriado para aquele dia especial, pelo que a sentença foi adiada para o dia seguinte. A decisão foi fatídica, e Miguel foi salvo daquele fim ignominioso pelos seus apoiantes, que se disfarçaram de coro de monges e massacraram o imperador. Leão provou não ser um alvo fácil, defendendo-se, segundo a lenda, com uma grande cruz de metal durante uma hora, antes de finalmente sucumbir aos assassinos, que lhe deceparam a cabeça.

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The Byzantine Empire in the mid-9th century CE
Império Bizantino no Século IX d.C Bigdaddy1204 (CC BY)

Miguel II foi imediatamente libertado da prisão e coroado, ainda com os grilhões nos tornozelos, uma vez que ninguém conseguiu encontrar as chaves. Entretanto, o corpo mutilado de Leão foi arrastado, despido, pelo Hipódromo de Constantinopla para ridicularização pública. A esposa e os filhos de Leão foram exilados para as Ilhas dos Príncipes, onde os quatro filhos foram posteriormente castrados. A dinastia isáurica, que contara com oito imperadores e uma imperatriz, e governara desde 717, foi varrida, dando início à dinastia amoriana.

Tomás, o Eslavo

Felizmente, Miguel beneficiou da derrota dos búlgaros por Leão V, em 814 , e da morte súbita do seu líder, o cã Krum. Uma paz de 30 anos permitiu que tanto os búlgaros como os bizantinos se concentrassem noutras ameaças. Contudo, infelizmente, quase de imediato, Miguel teve de defender o seu trono contra um usurpador rival, o seu colega general Tomás, o Eslavo (embora, na verdade, fosse originário de Gaziura, na Ásia Menor). Reunindo apoio daqueles que estavam indignados com o homicídio de Leão V e apoiado por todas as províncias (temas) da Ásia Menor, exceto duas, Tomás liderou uma rebelião de três anos que causou danos consideráveis ao regime de Miguel.

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O encantador e astuto Tomás certificou-se de apelar a quase todos os grupos que pudessem ter uma queixa contra o imperador: os pobres sobrecarregados com impostos, os membros da Igreja que se opunham à posição (ainda que moderada) de Miguel contra a veneração de ícones na Igreja Bizantina e até os antigos seguidores do deposto Constantino VI (reinou 780–79). Bizarramente, Tomás chegou ao ponto de afirmar ser, na realidade, o cegado Constantino VI e fez-se coroar como tal em Antioquia. Tomás, sem que a maioria dos seus seguidores soubesse, estava, na verdade, a receber dinheiro do califa Mamun (reinou 813–833) e, em troca, teria provavelmente transformado Constantinopla num feudo do Califado Abássida.

Crucialmente, Tomás pôde também contar com a frota naval da província de Kibyrrhaiotai, localizada ao longo da costa sul da Ásia Menor, e o ponto alto da crise ocorreu quando Tomás sitiou Constantinopla a partir do mar, em dezembro de 821. Fortes tempestades de inverno repeliram os ataques iniciais e, a longo prazo, as maciças fortificações da cidade, as Muralhas de Teodósio, e a colocação criteriosa de catapultas e manganelas garantiram que a capital resistisse às próprias catapultas e máquinas de cerco de Tomás.

Thomas the Slav Attacks Constantinople
Tomás, o Eslavo, ataca Constantinopla Unknown Artist (Public Domain)

O imperador teve também a sorte de contar com o cã búlgaro Omurtag (reinou 814–831) como aliado. O exército de Omurtag ajudou a quebrar finalmente o impasse e a pôr fim ao cerco em março de 823. O exército de Tomás foi esmagado na planície de Keduktos, perto de Heraclea, e arrasado pelas forças de Miguel que saíram da capital. Tomás fugiu do local e, com apenas um punhado de seguidores, barricou-se na cidade fortificada de Arcadiópolis. Miguel perseguiu o seu inimigo e sitiou a cidade, invertendo habilmente os papéis de atacante e defensor. Tomás resistiu durante alguns meses, mas ele e os seus homens foram forçados a comer os seus próprios cavalos para sobreviver. Finalmente, em outubro de 823, Miguel ofereceu um perdão aos defensores caso Tomás fosse entregue. Assim, o aspirante a usurpador foi capturado e executado, tendo primeiro as mãos e os pés decepados e, de seguida, o corpo empalado numa estaca.

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Houve derrotas significativas às mãos dos árabes tanto em Creta como na Sicília.

O Império em Erosão

Embora Miguel pudesse ter sobrevivido a um cerco em casa e esmagado a maior rebelião que o Império Bizantino jamais testemunhara, longe da capital, os acontecimentos eram tudo menos encorajadores. Registaram-se derrotas significativas às mãos dos árabes tanto em Creta como na Sicília, em 825 e 827, respetivamente. Creta, em particular, tornou-se um grande problema para quase toda a gente no Mediterrâneo, à medida que se transformava numa base inexpugnável para piratas, enquanto a cidade de Cândia (Heraclião) se desenvolvia como o maior mercado de escravos da região. Miguel lançou três ataques distintos à ilha entre 827 e 829, mas todos falharam na tentativa de a retomar. A perda de partes da Sicília teria também repercussões significativas, uma vez que os árabes a utilizaram, tal como tantos exércitos antes e depois deles, como uma rampa de lançamento para atacar e conquistar o sul da Itália.

A Relação com a Igreja

Miguel tinha sido apenas um iconoclasta moderado, que não demonstrava grande interesse no debate que alguns dos seus antecessores tinham alimentado através da perseguição àqueles que veneravam ícones. Chegou a perdoar iconófilos notáveis, como Teodoro Estudita, e as suas políticas moderadas tornaram-no, de um modo geral, popular junto de ambos os lados do debate. Uma área que causou algum desconforto eclesiástico foi o segundo casamento do imperador. Enquanto importante representante da Igreja, o governante não deveria voltar a casar, mas, após a morte da sua primeira esposa, Tecla, Miguel casou-se com Eufrosina, filha de Constantino VI. Para piorar a situação, Eufrosina era uma freira. Contudo, Miguel conseguiu contornar a Igreja e os votos anteriores da sua noiva para casar com a sua nova companheira, a qual, com o seu sangue real, conferiu também ao seu reinado e, mais importante ainda, ao seu herdeiro, um ar de legitimidade.

A Morte e o Sucessor

Miguel morreu de causas naturais em outubro de 829 e foi sucedido pelo seu filho Teófilo (reinou 829–842), então com apenas 25 anos. Foi Teófilo quem continuou onde Leão V tinha parado, para dar continuidade veemente à destruição de ícones na Igreja e à perseguição daqueles que os veneravam. Teófilo foi sucedido pelo seu filho Miguel III (reinou 842–867), o último dos imperadores amorianos, cujo início de reinado foi dominado pela sua mãe regente, Teodora.

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Cartwright, M. (2026, julho 07). Miguel II. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16535/miguel-ii/

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Cartwright, Mark. "Miguel II." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 07, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16535/miguel-ii/.

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