Xolotl foi o deus cão do povo Mexica, comumente conhecidos como os Aztecas. Ele esta representado em códices, estatuárias e outros exemplos de arte azteca, como um cão ou um deus com duas cabeças de cachorro. Embora essa figura possa parecer obscura, seu nome e seu papel ecoam até os dias de hoje por meio de um anfíbio ciriticamente ameaçado de extinção, um companheiro desgrenhado, porém leal, em uma aventura rumo ao pós-vida e, talvez sem surpresa, de uma raça de cachorro sem pelos.
Etimologia e Associações
O nome Xolotl vem da língua náuatle e se pronuncia 'SHOH-lot', com ênfase na penúltima sílaba, como é comum nas palavras em náuatle. Xolochaui, outro termo da mesma língua, significa 'enrugar ou dobrar', e o próprio Xolotl costuma ser representado na arte com sulcos profrundos na pele do rosto.
O nome dele era sinônimo do termo Náuatle para 'gêmeo', xolotl, e aparecia também na palavra para o maguey (agave) duplo, mexolotl, uma planta que tinha vários usos na cultura azteca, incluindo rituais de sangria, a produção de cortas fibrosas e a fermentação do pulque.
Embora gêmeos fossem geralmente vistos como um mau presságio e encarados com apreensão na civilização azteca, Xolotl era o deus patrono dos gêmeos e de pessoas com anomalias físicas, um tema que despertava grande fascínio nas culturas mesoamericanas. "Nas representações olmecas, são abundantes as imagens de anões corcundas. Em vez de serem alvo de escárnio, essas figuras são frequentemente retratadas como dotadas de grandes poderes sobrenaturais" (Miller & Taube, 75). Segundo uma fonte, indivíduos com anomalias físicas eram chamados de xolome. De fato, xolotl também é o nome em naúatle para pajens de corte. Esses pajens eram muitas vezes pessoas com anomalias físicas, algumas das quais, como as que serviam na corte de Motecuhzoma II (conhecido como Montezuma), divertiam o tlatoani e às vezes o aconselhavam em assuntos ligados à religião e ao governo Azteca. Provavelmente em referência a Xolotl, cães de duas cabeças e figuras com corcunda ou nanismo aparecem com frequência na arte cerâmica protoclassista do oeste do México.
Psicopompo e Companheiro de Quetzalcoatl
Embora cães fossem criados principalmente na Mesoamérica para servir de alimento e fossem considerados pelos Aztecas como criaturas impuras e desprovidas de virtude, também eram vistos como companheiros e guias de seus donos após a morte. Como observam Miller e Taube: "Tanto na crença Azteca quanto na Maia, os cães, talvez incorporando o papel de Xolotl, guiavam seus donos ao Submundo depois da morte e eram especialmente úteis para atravessar corpos d'agua" (80).
Como companheiro canino do poderoso deus Quetzalcoatl, também conhecido como Ehecatl-Quetzalcoatl em sua manifestação como deus do vento, Xolotl é representado na arte usando o peitoral de concha característico desse deus, chamado em náuatle de ehecailacacozcatl, "jóia do vento". Por meio dessa relação, Xolotl foi associado à estrela vespertina, espelhando a identificação de Quetzalcoatl com a estrela matutina, papel no qual ele era chamado de Tlahuizcalpantecuhtli, "Senhor da Alvorada". Segundo Manuel Aguilar-Moreno em seu livro Handbook to Life in the Aztec World, Xolotl acompanhou Quetzalcoatl em sua missão de recuperar ossos do submundo para criar a humanidade, função coerente com sua natureza canina no imaginário mesoamericano.
Criação do Quinto Sol
Xolotl também aparece como um sacrifício relutante no mito asteca da criação do quinto sol. Após a destruição dos quatro sóis anteriores, os deuses se reúnem em Teotihuacan para testemunhar um sacrifício que dará origem a um novo sol e uma nova lua. Esse quinto sol — Nahui Ollin, que significa ‘4 Movimento’ — e sua lua nascem do sacrifício de dois deuses, Nanahuatzin e Tecciztecatl, respectivamente. Mas, mesmo depois de criados o sol e a lua, os deuses percebem que eles não se movem sem um sacrifício adicional. É então que os próprios deuses começam a se alinhar para entregar suas vidas pela cuasa; Agular-Moreno escreve: "Embora ambos os corpos celestes tivessem aparecidos, nenhum se movia, Interpretando isso como um sinal de seu destino, os deuses aceitaram livremente a morte, sacrificando-se...e oferencendo seu próprio sangue, ou chalchiuatl (água preciosa), para gerar o movimento do sol" (Aguilar-Moreno 2006, 161).
Embora a maioria dos deuses se oferecesse voluntariamente como sacrifício, estabelecendo um precedente mítico para a cultura de sacrifícios humanos dos astecas, Xolotl tenta escapar. Segundo Fray Bernardino de Sahagún, sacerdote e autor do Códice Florentino, Xolotl faz sua primeira tentativa de fuga transformando-se em uma planta de milho dupla. Quando é descoberto nessa forma, transforma-se em uma planta de maguey duplo e, quando essa transformação também não consegue escondê-lo, assume a forma de uma salamandra conhecida hoje pelo nome nahuatl de axolotl. A palavra axolotl combina os termos nahuatl xolotl (explicado acima) e atl, que significa “água”, podendo ser livremente traduzida como “gêmeo da água”. Mesmo na forma de axolotl, Xolotl acaba sendo capturado e sacrificado junto com os demais deuses, que, por serem extra-mortais, não morriam de fato, mas retornavam para cumprir seu papel no ciclo de reciprocidade sacrificial com a humanidade, central nas crenças astecas.
Xolotl na Cultura Moderna
Como mencionado acima, a influência de Xolotl na cultura e na visão de mundo dos astecas não desapareceu com a queda de seu império. Séculos depois de suas tentativas míticas de enganar a morte, os axolotes ainda carregam o nome do deus-cão. Criticamente ameaçados, esses anfíbios são, mesmo assim, extremamente populares na arte, como bichos de pelúcia e em qualquer outra forma capaz de imitar ou representar seu formato único. Os axolotes até inspiram não uma, mas duas espécies de Pokémon, Wooper e Mudkip, acrescentando um toque distintivo a uma das franquias de mídia de maior sucesso de todos os tempos.
Uma homenagem a Xolotl também aparece no filme Coco da Disney, de 2017, na forma de um cão chamado Dante. Leal e fiel, à maneira de Xolotl, Dante acompanha o jovem protagonista Miguel em sua jornada pelo mundo dos mortos para visitar seus parentes falecidos. Os temas e o design do filme fazem referência às tradições do Día de los Muertos, uma celebração que, por sua vez, tem raízes nas tradições culturais astecas. Uma dessas tradições, preservada desde os tempos antigos da Mesoamérica, envolve o uso de flores de cravo-de-defunto (ou cravo-túnico) conhecidas pelos falantes de náuatle como cempoalxochitl, que significa “flor 20 (pétalas)”, desempenhando um papel simbólico como oferendas aos mortos. Dante, quase certamente batizado em homenagem a Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, representa um eco de Xolotl não apenas em seu papel de guia pelo submundo, mas também em sua aparência. Ele é quase todo sem pelos, exceto por alguns tufos ao redor das orelhas e da cauda, cuidadosamente enrugado, e com um físico bastante fora do comum. Até sua orelha esquerda ligeiramente rasgada pode ser uma referência aos códices existentes em que Xolotl é frequentemente retratado com a orelha de borda irregular.
Por fim, o design de Dante também se inspira em uma raça real de cães sem pelos conhecida como xoloitzcuintli, literalmente “cão xolo”, a partir do termo náuatle itzcuintli, que significa “cão”. Essa raça, nativa do atual México, provavelmente era comum no mundo asteca, e sua pele lisa aparece em várias tonalidades, sempre destacando suas rugas – o xolochaui vivo e bem no mundo moderno. Segundo o American Kennel Club (AKC - Clube Canino Americano), os xoloitzcuintli costumam ser brincalhões, cheios de energia e afetuosos, e o AKC também descreve a raça como alerta, leal e calma, muito condizente com o companheiro firme da imaginação mesoamericana.
Seja na forma de Pokémon, psicopompo ou cãozinho de verdade, Xolotl deixou um pequeno legado no mundo moderno, oferecendo a quem conhece sua história a oportunidade de observar a representação viva de um deus asteca.

