Dinastia Tang

Emily Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Emperor Xuanzong (by Zhuwq, Public Domain)
Imperador Xuanzong Zhuwq (Public Domain)

A Dinastia Tang (618-907 d.C.) foi uma das maiores da história imperial chinesa; uma época áurea de reformas e avanços culturais, que lançou as bases para políticas ainda hoje se observam na China. O segundo imperador, Taizong (reinou 626-649), foi um governante exemplar que reformou o governo, a estrutura social, as forças armadas, a educação e as práticas religiosas.

Sob o sucessor de Taizong, Gaozong (reinou 649-683), o país passou por novas reformas quando a mulher de Gaozong, Wu Zetian (reinou 624-705), assumiu o controlo do governo. Wu Zetian é a única governante feminina da China e, embora ainda seja vista como uma figura muito controversa hoje em dia, as suas reformas lançaram as bases para o sucesso posterior do grande imperador Xuanzong (reinou 712-756), sob cujo reinado, a China se tornou o país mais próspero do mundo.

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Muitos dos mais impressionantes avanços e invenções da história chinesa — desde a pólvora e a impressão até ao ar condicionado, aos fogões a gás e a progressos significativos na medicina, ciência, arquitetura e literatura — remontam à dinastia Tang. Os imperadores Taizong, Wu Zetian e Xuanzong fizeram da dinastia Tang a grande era que foi, e embora a dinastia permanecesse no poder, a idade de ouro terminou com o declínio de Xuanzong, que lançou o país no caos. Os Tang foram sucedidos pela dinastia Sung (960-1234), que trouxe a ordem de volta à China.

A Ascensão da Dinastia Tang

Após a queda da dinastia Han (202 a.C.-220 d.C.), o país passou por um período de mudanças no governo, no qual as dinastias Wei, Jin e Wu Hu governaram sucessivamente. A dinastia Wu Hu foi substituída pela dinastia Sui (589-618), que começou bem e fez muitos avanços, mas, como tantas outras dinastias na história da China, terminou mal, com um tirano no trono que se preocupava mais consigo mesmo e com o seu luxo do que com o bem do povo.

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A dinastia Sui foi responsável pela racionalização da burocracia e por um crescente interesse pelas artes. Uma das versões mais conhecidas da lenda de Mulan, a rapariga que toma o lugar do pai no exército e se torna uma heroína de guerra, data deste período. No entanto, quanto mais confortável e poderosa a dinastia Sui se tornava no seu reinado, mais poder e luxo desejava.

Os dois últimos reis, Wen e Yang, dedicaram todos os seus esforços à expansão militar na península coreana e à construção de enormes monumentos para honrar os seus nomes. Yang herdou um governo falido do seu pai, mas continuou as suas políticas o que conduziu a um maior endividamento do país. Acabou por ser assassinado pelo seu chanceler, Yuwen Huaji, e um popular general do exército, Li-Yuan, duque de Tang, rebelou-se e assumiu o poder. Li-Yuan tornou-se então o Imperador Gaozu (reinou 618-626) e fundou a Dinastia Tang.

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Gaozu criou o Código Legal Tang no Ano de 624, que seria usado por dinastias futuras e foi até mesmo copiado por outras nações, como o Japão, a Coreia e o Vietname.

Gaozu e Taizong

Gaozu foi um monarca eficaz que reformou as políticas que tinham levado a abusos durante a Dinastia Sui. Foi Gaozu quem implementou as práticas burocráticas que ainda são usadas na China hoje. Embora governasse bem, o seu filho, Li-Shimin, conseguiu apresentar ainda melhores directivas. Li-Shimin lutou ao lado do pai para estabelecer a dinastia Tang e sentiu que deveria desempenhar um papel mais importante na formulação de políticas. Li-Shimin foi recompensado com o cargo de duque de Qin (e ficou conhecido como Qin Wang), mas sentiu que merecia mais.

Gaozu manteve o governo, porém, criou o Código Legal Tang em 624, que seria usado por dinastias futuras e foi até copiado por outras nações, comoo Japão, a Coreia e o Vietname. Ele também reformou a aristocracia para evitar a tributação excessiva dos camponeses e redistribuiu parcelas de terra.

Por volta desta época, nomeou o seu filho Li-Jiancheng como herdeiro, e o decreto foi mais do que Li-Shimin podia tolerar; esperava ser nomeado devido aos seus esforços em reprimir as rebeliões Sui. Li-Shimin organizou um golpe e assassinou os irmãos, incluindo Li-Jiancheng, e então forçou Gaozu a abdicar em seu favor. Uma vez imperador, assumiu o nome de Taizong, mandou executar os oponentes e, em seguida, usou o conceito de culto aos ancestrais a seu favor e declarou que todos aqueles que tinham sido mortos eram agora os seus conselheiros celestiais.

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Map of the Tang Dynasty of China, c. 669 CE
Mapa da Dinastia Tang da China, cerca de 669 d.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Taizong mostrou-se um general tão eficaz sob a administração do pai que ninguém o desafiou depois que assumiu o controlo. A fé que depositavam nele não era infundada, e provou ser um imperador ainda mais eficaz do que o pai. Taizong é frequentemente citado pelas muitas reformas e pela política de tolerância religiosa, que permitiu que diversas religiões, como o Cristianismo e o Budismo, se estabelecessem na China ao lado das práticas indígenas do Confucionismo e do Taoísmo. Taizong aprimorou tudo o que o pai tinha conquistado e passou a ser considerado o cofundador da dinastia Tang e um modelo de governo justo e eficiente.

Wu Zetian

Por volta do ano de 638, Taizong escolheu uma bela jovem de 14 anos chamada Wu Zhao como uma de suas concubinas. Ela era tão encantadora que atraiu a atenção do filho, príncipe Li Zhi, com quem teve um caso amoroso, enquanto ainda era uma das concubinas de Taizong. Quando Taizong morreu em 649, Wu submeteu-se ao costume estabelecido e teve a cabeça raspada com as restantes concubinas de Taizong. Foi enviada para um templo para viver o resto da sua vida como freira, mas Li Zhi, agora Imperador Gaozong, mandou-a trazer de volta para a corte porque estava apaixonado por ela.

Wu tornou-se a primeira concubina de Gaozong, e o amor dele por ela incomodou a mulher, Lady Wang, e a antiga primeira concubina, Lady Xiao. Para se livrar delas e aumentar seu poder, diz-se que Wu assassinou a própria filha bebé e incriminou Lady Wang pelo crime. Ela rapidamente se tornou o poder por trás do trono e, quando Gaozong morreu em 683, declarou-se Imperatriz Wu Zetian ("Governante do Céu", reinou 683-704) e mudou o nome da dinastia para Zhou, a fim de mostrar o início de uma nova era.

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Empress Wu Zetian
Imperatriz Wu Zetian Unknown (Public Domain)

Wu Zetian foi uma das maiores governantes da China antiga, que melhorou a educação, a tributação, a agricultura e reformou o governo e os excessos da aristocracia chinesa. Foi criticada por historiadores posteriores como uma tirana que criou uma força policial secreta e iniciou uma política de pagar informadores para alertá-la sobre possíveis rebeliões no país. Nos últimos anos, porém, tem havido uma tendência entre os historiadores de reavaliar estas alegações, e as políticas da Imperatriz Wu são agora vistas como estabilizadoras do país. Seguindo o padrão de outros governantes da China, tornou-se mais interessada no seu próprio conforto e prazer no final do reinado e foi forçada a abdicar em favor do seu filho Zhongzong. Ela morreu em 705.

Imperador Xuanzong

O imperador Zhongzong foi envenenado pela mulher, Lady Wei, para que o filho pudesse governar, mas Wei e o filho foram assassinados pela filha de Wu, a princesa Taiping, que colocou o irmão Ruizong no trono. Ruizong abdicou após o avistamento de um cometa, fenómeno que interpretou — sob a influência de Taiping — como um sinal da sua inaptidão para governar. Sucedeu-lhe o seu filho, o imperador Xuanzong (reinou 712–756). Contudo, Taiping, que antecipava ganhar influência sob o novo reinado, acabou por se suicidar por enforcamento ao perceber que as suas expectativas de poder não seriam concretizadas.

O reinado de Xuanzong marcou o início da era dourada da Dinastia Tang. Se, sob os reinados de Taizong e Wu Zetian, o Budismo fora elevado a religião mais popular do império, Xuanzong considerava os seus ensinamentos desprovidos de espiritualidade. Assim, o imperador promoveu o Taoísmo, chegando a decretar que 'cada habitação possuísse uma cópia dos ensinamentos de Tao' (Wintle, pág. 148). Embora o Budismo tivesse dado origem a diversas escolas de pensamento, Xuanzong considerava o Taoísmo uma crença unificadora, capaz de promover uma harmonia superior. Segundo o académico Justin Wintle, as suas reformas religiosas e políticas resultaram numa estabilidade interna que fomentou a produtividade e o comércio externo.

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Xuanzong aboliu a pena de morte e impulsionou a economia através do reforço da segurança na Rota da Seda, do comércio marítimo e de reformas financeiras. Mandou erguer templos e complexos administrativos, construiu estradas e fomentou a indústria. Reorganizou a estrutura militar, pondo fim à conscrição forçada de camponeses e criando um exército profissional de veteranos, consideravelmente mais eficaz na defesa das fronteiras e na recuperação de territórios ocupados por tribos nómadas.

Os Avanços Culturais

Xuanzong era um homem culto, um poeta, que patrocinava as artes e incentivava a expressão criativa. Durante a Dinastia Tang, foram produzidas mais de 50.000 obras literárias, entre poemas, peças de teatro e contos, a maioria sob o reinado de Xuanzong, período em que se concluiu também uma vasta enciclopédia. A xilogravura, iniciada em larga escala sob o reinado de Taizong, foi aperfeiçoada, resultando numa maior disponibilidade de livros. Este avanço impulsionou a literacia e permitiu o acesso das classes desfavorecidas a melhores empregos, uma vez que estas passaram a estar aptas a prestar os exames de admissão à função pública.

Construíram-se bibliotecas públicas para reunir todos os livros impressos, e imprimiram-se calendários para ampla distribuição. Os avanços na medicina, como o reconhecimento dos sintomas de uma doença e como tratá-la, estavam agora disponíveis fora da profissão médica por meio de livros que também sugeriam hábitos preventivos e promoviam a dieta como contribuintes para a saúde da pessoa.

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Chinese woodblock print
Gravura Chinesa em Xilogravura The Trustees of the British Museum (Copyright)

Os avanços tecnológicos permitiram a criação de relógios, tendo o primeiro mecanismo de relojoaria do mundo sido inventado pelo engenheiro Yi Xing, em 725. O domínio da mecânica resultou igualmente na criação de autómatos(figuras motorizadas que se moviam de forma autónoma). Embora existissem marionetas motorizadas na China desde a Dinastia Qin (221–206 a.C.), os autómatos da Dinastia Tang eram mais complexos, baseando-se em projectos de Heron de Alexandria (cerca de 10–70 d.C.), célebre pelas suas invenções no Egipto. Entre os exemplos de autómatos Tang, contava-se um monge motorizado que recolhia donativos e um vertedor de vinho automático, em forma de montanha, que utilizava uma bomba hidráulica.

A dinastia Tang também inventou a pólvora, a impermeabilização, a protecção contra incêndios, os fogões a gás e o ar condicionado. Desenvolveram máquinas agrícolas para acelerar os processos da plantação, irrigação e colheita. Os pobres, que costumavam usar principalmente peles de animais, agora podiam comprar o linho usado pela classe média, embora o material fosse mais grosso. A qualidade de vida do povo da China melhorou radicalmente, e o aumento do comércio trouxe novas ideias, invenções e produtos em maior número do que nunca. A dinastia Tang estava no auge quando Xuanzong começou o seu declínio pessoal, o que levou à queda de toda a dinastia e mergulhou o país no caos.

A Rebelião de An Lushan

O reinado de Xuanzong foi pautado pelo sucesso, uma vez que o imperador compreendeu que uma governação equilibrada promovia a equidade e a justiça, melhorando a vida de todos os cidadãos. Uma das reformas governamentais mais significativas de Wu Zetian, que Xuanzong preservou, foi a nomeação de indivíduos para cargos de elevada responsabilidade com base no mérito, em detrimento das ligações familiares. Os professores eram contratados pelo domínio das suas matérias e não por serem parentes de outros dignitários; da mesma forma, os administradores agrícolas eram promovidos pela sua competência técnica, aplicando-se este critério a todas as restantes nomeações.

Esta política começou a mudar quando Xuanzong se cansou da vida pública por volta de 734 e passou a depender mais dos conselhos de sua consorte, Lady Wu Hui-fei, que sugeriu que promovesse um amigo próximo da sua família, Li-Linfu, a um cargo mais proeminente, a fim de assumir parte do fardo do governo. Li-Linfu foi nomeado chanceler e esta única decisão de Xuanzong contribuiria mais para destruir a Dinastia Tang do que qualquer outra. Li-Linfu era um homem corrupto e sedento de poder que só se preocupava em se promover a si mesmo. Enquanto desempenhava o papel de servo devoto do imperador, conspirava secretamente para tomar o poder e depor Xuanzong.

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O imperador nada suspeitava, depositando em Li Linfu a maior confiança. No ano de 737, com a morte da Consorte Wu, Xuanzong retirou-se ainda mais para os seus prazeres privados, delegando a gestão dos assuntos de Estado a Li Linfu. O imperador mandou trazer para o palácio mais de quatro mil das mais belas mulheres para o seu deleite, mantendo-as cativas para o seu entretenimento. Contudo, todas elas se tornaram insignificantes assim que ele conheceu aquela que seria o seu verdadeiro amor e que viria a acelerar o declínio da Dinastia Tang tanto quanto qualquer plano que Li Linfu pudesse ter urdido.

Glazed Tang Dynasty Camel
Camelo Vidrado da Dinastia Tang James Blake Wiener (CC BY-NC-SA)

Em 741, Xuanzong deixou-se arrebatar por uma paixão pela sua nora, Yang Guifei. Após abandonar o marido para se instalar no palácio imperial com o monarca, Yang tornou-se o centro da sua vida, levando-o a descurar ainda mais as obrigações da coroa ao ceder a todos os seus caprichos. O que começou com pequenas solicitações, prontamente satisfeitas, evoluiu para exigências de maior fôlego, até que ela o convenceu a promover membros da sua família a cargos de relevo, apesar de estes não possuírem competência para os exercer.

Todo o progresso e as importantes reformas empreendidas por Xuanzong começaram a desmoronar-se à medida que os membros da família de Yang abusavam dos seus cargos e negligenciavam as suas funções. Entretanto, Li Linfu ditava as suas próprias políticas, promovendo os familiares de Yang para quaisquer postos de conveniência que estes pudessem comprar.

A política de integração de cidadãos estrangeiros no exército (fruto das reformas militares de Xuanzong) permitiu a ascensão de alguns destes homens a postos de comando muito elevados, situação que Li Linfu aproveitou para nomear comandantes da sua estrita confiança. Embora alguns fossem oficiais competentes, muitos careciam de mérito e deviam as suas patentes exclusivamente a Li Linfu. Aquando da sua morte, em 753, este já havia condenado a dinastia que fingira servir. Os comandantes sem aptidão e os burocratas incompetentes focavam-se apenas no seu próprio poder e luxo, enquanto o povo sofria as consequências.

Um general de origem sogdiana e turca chamado An Lushan, viu nos abusos da família Yang a prova de que Xuanzong já não possuía condições para governar. No comando das melhores tropas do exército chinês, An Lushan sentiu que tinha o dever de agir e liderar os seus homens na restauração de um governo legítimo. Assim, no ano de 755, desencadeou uma rebelião contra a casa reinante, marchando sobre a capital com um exército de mais de 180.000 soldados. Embora tenha derrubado Xuanzong e proclamado-se imperador, acabou por ser desafiado pelas forças Tang, que esmagaram a sua revolta. Contudo, An Lushan iniciara um processo irreversível. Entre 755 e 763, o país foi devastado por guerras que ceifaram a vida a cerca de 36 milhões de pessoas.

Xuanzong fugiu da capital em 755, acompanhado por Lady Yang e família. Os soldados da escolta militar, que os seguiam, culparam Yang pelas desgraças do império e assassinaram os seus familiares durante o percurso. Reconhecendo que se deixara seduzir e desviar dos seus deveres, Xuanzong permitiu que Lady Yang fosse estrangulada. O romance entre ambos seria mais tarde romantizado pelo poeta Bai Juyi, em 806, na sua célebre obra Cântico do Eterno Lamento (um poema que permanece popular até aos dias de hoje). Após a morte de Lady Yang, Xuanzong abdicou a favor do filho, Li Heng, que ascendeu ao trono como Imperador Suzong (reinou 756–762). Suzong combateu as forças rebeldes, mas não logrou derrotá-las por completo.

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O desânimo e a frustração abateram-se sobre pai e filho face ao fracasso das estratégias de Suzong. Xuanzong sucumbiu a uma doença a 762, e Suzong viria a falecer do mesmo mal menos de duas semanas depois. Sucedeu-lhe o seu filho, Li Yu, que ascendeu ao trono como Imperador Daizong (reinou 762–779). Embora Daizong tenha esmagado a rebelião de An Lushan em 763, o país estava em ruínas e estava comprometido o tradicional respeito devotado ao imperador e à casa real. Senhores da guerra independentes governavam agora diversas partes da China, e Daizong não conseguia exercer o tipo de autoridade de que Xuanzong gozara no início do reinado.

A Dinastia Tang Posterior

No ano de 780, Daizong foi sucedido pelo seu filho, Dezong (reinou 780–805), que se viu impotente para travar o crescente poder dos senhores da guerra regionais. Na esperança de obter melhores resultados, entregou o comando do exército aos eunucos do palácio; contudo, estes limitaram-se a minar a autoridade imperial ao afirmarem o seu próprio poder militar. Dezong foi sucedido em 805 pelo filho Shunzong, de saúde frágil, que rapidamente abdicou a favor do seu próprio filho, Xianzong (reinou 806–820).

O imperador Xianzong está entre os poucos bons imperadores da dinastia Tang posterior. Xianzong extinguiu o controlo que os eunucos exerciam sobre o aparelho militar e assumiu o comando pessoal do exército. De seguida, liderou as suas forças contra os senhores da guerra e submeteu-os, estabilizando o país. Restaurou o sistema de mérito nas nomeações imperiais, uma iniciativa de Wu Zetian que fora um pilar fundamental do sucesso do reinado de Xuanzong. Sob a sua égide, a China começou a recuperar lentamente a prosperidade que conhecera no início do governo de Xuanzong, à medida que Xianzong restabelecia o respeito pela autoridade do trono.

Em 813, começaram a eclodir revoltas, provavelmente instigadas por antigos senhores da guerra ou pelos seus familiares; Xianzong liderou novamente o exército pessoalmente para o combate, mas saiu derrotado. Após reorganizar as forças, obteve uma vitória sobre o insurgente Li Shidao no ano de 817, restabelecendo a ordem no país. Pouco depois, o erudito confucionista Han Yu declarou que estas revoltas e o declínio da dinastia se deviam ao Budismo, que subvertia os valores tradicionais chineses ao desviar a atenção de tradições fundamentais. A crítica de Han Yu tornou-se amplamente conhecida, gerando uma forte reação contra os budistas e as suas práticas.

Xianzong nada fez para travar as perseguições aos budistas pois, por volta de 819, tornara-se obcecado com a sua própria mortalidade, ingerindo grandes quantidades de elixires que prometiam a longevidade e até a imortalidade. Estas poções tornaram-no irritável e errático, acabando por ser assassinado por um dos seus eunucos em 820. Xianzong foi sucedido pelo filho Muzong (reinou 821–824), que passava o tempo a jogar polo e a beber, até morrer num acidente durante uma partida desse mesmo desporto.

Sucedeu-lhe o seu filho Jinzong (reinou 824–826), que se limitou a desperdiçar os seus dias em libações com as suas concubinas, até ser assassinado pelos seus eunucos e substituído pelo seu irmão Wenzong (reinou 826–840). Wenzong encarava as suas responsabilidades com seriedade, mas era indeciso e deixava-se influenciar facilmente pelos conselhos de diferentes assessores. É considerado um bom imperador devido aos seus esforços para estabilizar o país e dar continuidade às políticas de Xianzong.

Tang Dynasty Horse
Cavalo da Dinastia Tang James Blake Wiener (CC BY-NC-SA)

Aquando da sua morte em 840, sucedeu-lhe o seu irmão de 16 anos, Wuzong (840–846), que levou a sério as críticas de Han Yu ao Budismo e deu início a uma perseguição governamental a todas as religiões, com excepção do Taoísmo. Citando a tese de Han Yu de que os mosteiros e templos budistas não passavam de fachadas para líderes rebeldes, ordenou o seu encerramento. Entre 842 e 845, as monjas e os sacerdotes budistas foram assassinados ou expulsos dos seus mosteiros. As imagens budistas foram destruídas e muitas delas fundidas para criar novas estátuas em honra do imperador.

A par do Budismo, todas as outras religiões de origem não chinesa foram igualmente fustigadas. O Maniqueísmo, o Zoroastrismo, o Judaísmo e o Cristianismo Nestoriano (que fora bem-acolhido pelo segundo imperador, Taizong) sofreram perseguições idênticas, através da destruição do seu património e de proibições legais. Wuzong morreu em 846, após se ter envenenado com um elixir da imortalidade, sucedendo-lhe Li Chen, o décimo terceiro filho de Xianzong. Este assumiu o nome de Xuanzong (reinou 846–859), num esforço para se associar à era de ouro da Dinastia Tang.

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Xuanzong II pôs fim às perseguições religiosas dos anos anteriores, mas apenas permitiu a reabertura dos templos e mosteiros budistas. As igrejas, sinagogas e templos do Maniqueísmo e do Zoroatrismo permaneceram encerrados e estas fés interditas. Xuanzong II moldou o seu reinado de forma tão fiel ao do grande Taizong que, após a sua morte, passou a ser referido como o 'Pequeno Taizong'.

Xuanzong II reativou as políticas do início da Dinastia Tang e deu início a reformas na administração e no exército. O património cultural chinês tornou-se o foco central do seu reinado, num esforço por recuperar a glória dos primeiros anos da dinastia. Contudo, em 859, Xuanzong II acabou por morrer acidentalmente após ter ingerido um elixir, sucedendo-lhe o seu filho Yizong (reinou 859–873), que em nada se assemelhava ao pai e viria a acelerar o declínio da dinastia.

Declínio e Queda da Dinastia Tang

Como se pode observar, a Dinastia Tang conseguiu manter-se no poder após 763, mas nunca voltou a atingir o seu antigo padrão de excelência, salvo em casos isolados de imperadores como Xianzong e Xuanzong II. Embora Taizong, Wu Zetian e o primeiro Xuanzong tivessem estabelecido políticas que qualquer governante poderia manter, o sucesso dos seus reinados deveu-se às suas personalidades individuais e à forma como implementaram as reformas que criaram. Justin Wintle escreve: "Em retrospetiva, os Tang depositaram uma confiança excessiva no seu próprio talento como governantes imperiais" (139). No caso destes três imperadores, os seus talentos individuais não puderam ser transmitidos a um sucessor.

Após a morte do primeiro Xuanzong, a dinastia entrou num declínio contínuo até se desmoronar. Xuanzong, tal como muitos governantes antes e depois dele, perdeu de vista as suas responsabilidades para com o povo e entregou-se aos seus próprios prazeres à custa deste. A Rebelião de An Lushan exemplificou quão completa era a sua desconexão com os súbditos, sendo que tal revolta só foi possível porque o governo perdera o respeito e o controlo sobre a população. O historiador Harold M. Tanner comenta o seguinte sobre este tema:

A dinastia Tang é célebre pela sua expansão territorial, pelas suas magníficas cidades e palácios, pelo seu próspero comércio externo, pela sua arte, literatura e vida religiosa, bem como pelo estilo de vida luxuoso da sua aristocracia. Este poder e glória só foram possíveis porque o governo imperial controlava a produção de cereais, a mão-de-obra e os exércitos. Quando o Estado Tang perdeu o controlo sobre estes elementos, o seu poder definhou e a sua capacidade para lidar com crises internas e externas ficou seriamente comprometida. (pág. 172)

O golpe de misericórdia surgiu com a Rebelião de Huang Chao (874–884), liderada por um antigo funcionário governamental. Huang Chao era um contrabandista de sal que realizara repetidamente os exames imperiais para se tornar burocrata, tendo reprovado sucessivamente. Frustrado pela sua incapacidade de ascender socialmente, bem como pelo estado em que o país se encontrava sob o imperador Yizong, juntou-se às forças rebeldes de Wang Xianzhi. Yizong foi um governante medíocre que priorizou os seus próprios prazeres em detrimento dos seus deveres para com o povo, passando mais tempo em libações com as suas concubinas do que a tratar dos assuntos de Estado.

A China era assolada por uma fome generalizada devido à seca, e o governo nada fazia para ajudar a alimentar a população; entretanto, Yizong e a corte imperial continuavam a usufruir da melhor comida e bebida. Quando Yizong faleceu em 873, o seu filho Xizong (reinou 873–888) subiu ao trono, dando continuidade às políticas de autogratificação à custa do povo. Por esta altura, Huang Chao já tinha subido na hierarquia das forças rebeldes e liderava as tropas em batalha contra as forças Tang. Esta rebelião custou mais de 100.000 vidas e destruiu a capital, Chang'an.

Os imperadores da Dinastia Tang que se seguiram à rebelião de Huang Chao revelaram-se ineficazes, e a dinastia chegou ao fim em 907, Zhaozong (reinou 888–904) era bem-intencionado e fez o seu melhor, mas não logrou reverter o declínio da dinastia, que progredia de forma contínua desde a Rebelião de An Lushan. No ano de 904, o poderoso senhor da guerra Zhu Quanzhong (também conhecido como Zhu Wen, 907–912) mandou assassinar Zhaozong, colocando o filho deste, Ai, de apenas onze anos, no trono imperial como um governante fantoche.

Ai foi o último dos imperadores Tang e ocupou o trono entre 904 e 907, ano em que Zhu o mandou assassinar aos 15 anos de idade. Seguiu-se o Período das Cinco Dinastias e dos Dez Reinos (907–960), durante o qual as famílias e os aliados dos senhores da guerra (que tinham reclamado territórios após a Rebelião de An Lushan) consolidaram o seu domínio. A China permaneceu dividida entre estes reinos até à ascensão da Dinastia Song (960–1234), que voltou a unir o país sob um governo centralizado.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Emily Mark
Emily Mark estudou história e filosofia na Universidade de Tianjin, na China, e inglês na SUNY New Paltz, em Nova York. Publicou poesia e artigos de história. Seus relatos de viagens estrearam na Timeless Travels Magazine. É formada pela Universidade do Estado de Nova York em Delhi, em 2018.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, E. (2026, março 23). Dinastia Tang. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13980/dinastia-tang/

Estilo Chicago

Mark, Emily. "Dinastia Tang." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 23, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13980/dinastia-tang/.

Estilo MLA

Mark, Emily. "Dinastia Tang." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 23 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13980/dinastia-tang/.

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