Civilização Tarasca

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Ricardo Albuquerque
publicado em 11 Dezembro 2013
Disponível noutras línguas: Inglês, francês, espanhol
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The Tarascan Empire (by Maunus, Public Domain)
O Império Tarasca
Maunus (Public Domain)

A Civilização Tarasca (também chamada Purépecha, devido à sua linguagem) dominou o México ocidental e construiu um império que entraria em conflito direto com outra grande civilização mesoamericana do período Pós-clássico, os astecas. O estado tarasca, com sua capital em Tzintzuntzan, no Lago Pátzcuaro, controlava uma região de mais de 75.000 quilômetros quadrados, inferior apenas ao império asteca.

Origens Culturais

A história da civilização tarasca vem sendo reunida a partir dos registros arqueológicos e da tradição oral, principalmente aquelas relatadas na Relación de Michoacán, obra escrita pelo frade franciscano Jerônimo de Alcalá em meados do século XVI. Ainda que os tarascas tenham uma dívida cultural com as civilizações anteriores tribais dos Bajío e de Michoacán, a cultura purépecha, de fato, possui uma história de mais de dois milênios. Os tarascas estavam baseados nas áreas centrais e setentrionais de Michoacán (que significa "local dos mestres pescadores”), em torno das bacias lagunares de Cacapu, Cuitzeo e Pátzcuaro (situadas no atual México ocidental). Já desde o período Pré-clássico tardio (150 a.C.-350 d.C.), a sociedade purépecha desenvolveu uma cultura mais sofisticada, com um alto grau de centralização política e estratificação social no período Pós-clássico Médio (1000/1100-1350 d.C.). De acordo com a Relación, a tribo mais importante eram os wakúsecha (do grupo étnico chichimeca), cujo chefe Tariakuri fundou a primeira capital em Pátzcuaro por volta de 1325.

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O território controlado pelo estado tarasca duplicou em relação às gerações anteriores, com o correspondente aumento da produção e comércio de milho, obsidiana, basalto e cerâmica. A elevação do nível do lago na bacia de Pátzcuaro resultou no abandono de muitas áreas mais baixas e a competição por recursos tornou-se ainda mais feroz. Não demorou para que a concentração populacional aumentasse de forma substancial nas terras mais altas de Zacapu: 20.000 pessoas habitavam somente 13 povoados. Este período foi marcado por um aumento das rivalidades de estados locais e uma instabilidade generalizada entre a elite governante, mas as fundações do grande império tarasca agora estavam colocadas.

Tzintzuntzan, no Lago Pátzcuaro, era o centro administrativo, comercial e religioso do estado tarasca, além da sede do rei ou Kasonsí.

Tzintzuntzan

A partir do período Pós-clássico tardio (1350-1520, também conhecido como fase Tariacuri neste contexto), a capital tarasca e seu maior povoado situava-se em Tzintzuntzan, no braço setentrional do Lago Pátzcuaro. Os tarasca também controlavam, através de um sistema político altamente centralizado e hierarquizado, cerca de 90 cidades no entorno do lago. Por volta de 1522, a população do vale alcançava 80.000 pessoas, enquanto Tzintzuntzan ostentava uma população de 35.000. A capital abrigava o centro administrativo, comercial e religioso do império tarasca, além da sede do rei ou Kasonsí. Extensos projetos de irrigação e terraceamento foram realizados para garantir a sustentabilidade desta larga população com base na agricultura local, mas havia a necessidade de substanciais importações de produtos e matérias-primas.

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A rede de mercados locais e o sistema de tributos garantia um fluxo adequado de produtos básicos, mas também de cerâmica, conchas e metais (particularmente lingotes de ouro e prata), além de trabalhadores para atender à demanda de mão de obra. Nestes locais de mercado eram comercializados frutas, vegetais, flores, tabaco, comida pronta, produtos artesanais e matérias-primas, tais como obsidiana, cobre e ligas de bronze. O estado controlava a mineração e fundição de prata e ouro (no Vale do Balsas e Jalisco) e a fabricação de produtos com estes preciosos materiais ficava a cargo de artesãos habilidosos, que provavelmente residiam no complexo palaciano de Tzintzuntzan. Há evidências de produção independente de ouro e prata nas regiões sudeste e ocidentais, compatíveis com a existência de centros administrativos secundários e terciários. Além disso, os tarascas importavam turquesa, cristais de rocha e pedras semipreciosas, enquanto que, de tributos locais, recebiam algodão, cacau, sal e penas exóticas. Os tarascas destacavam-se na produção de bronze com estanho, cobre e sinos de ligas de bronze (usados em danças cerimoniais) dentro da Mesoamérica.

Tarascan Incense Burner
Queimador de Incenso Tarasca
Madman2001 (CC BY-SA)

O estado controlava também a alocação de terras, minas de cobre e obsidiana, florestas, a indústria pesqueira e as manufaturas em geral. Porém, não se sabe exatamente o grau de controle exercido e, portanto, comunidades locais e tradicionais líderes tribais podem ter recebido acesso a estes recursos através do rei. Os grupos étnicos diversos dentro do império, embora politicamente subalternos a Tzintzuntzan, mantinham suas próprias linguagens e identidades locais e, em tempos de guerra, o tributo regular aos senhores tarascas era acrescido com o fornecimento de guerreiros.

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De acordo com a Relación de Michoacán, a nobreza tarasca estava dividida em três grupos: realeza e os nobres de alto e baixo nível (a elite wakúsecha). A realeza morava na capital e no sítio sagrado de Ihuatzio, a antiga capital tarasca. O funeral de um rei tarasca é descrito na Relación. Durante a cerimônia, a comitiva do governante morto é sacrificada para acompanhá-lo à terra dos mortos - 40 escravos masculinos, sete escravas favoritas, cozinheiro, copeiro, camareiro e, finalmente, o doutor que falhara em prevenir sua morte.

Religião

A religião tarasca era liderada por um Alto Sacerdote Supremo, que chefiava uma classe sacerdotal com vários níveis. Os sacerdotes eram facilmente identificados pelas cabaças de tabaco que usavam em torno do pescoço. De acordo com a religião tarasca, a bacia de Pátzcuaro era o centro do cosmos, ou ao menos seu núcleo de poder. O universo consistia em três partes: céu, terra e o submundo. Sua divindade mais importante, o deus sol Kurikaweri, governava o céu, enquanto sua esposa, Kwerawáperi, era a deusa da mãe-terra. A filha mais importante era Xarátenga, a deusa da lua e do mar.

Os tarascas parecem ter absorvido divindades locais e as metamorfoseado ou combinado com os seus deuses originais. Além disso, os deuses das tribos conquistadas passavam a parte parte do panteão oficial tarasca. Kurikaweri era reverenciado com a queima de madeira, sacrifícios humanos e de sangue, e havia pirâmides em honra aos deuses, cinco em Tzintzuntzan e cinco em Ihuatzio. Uma característica peculiar da religião tarasca era a ausência de outras divindades comuns na Mesoamérica, como o deus da chuva (Tlaloc) e o da serpente emplumada (Quetzalcoatl). Tampouco usavam o calendário de 260 dias, empregando o ano solar com 18 meses de 20 dias.

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Tarascan Yacata, Tzintzuntzan
Yacata Tarasca, Tzintzuntzan
Thelmadatter (CC BY-SA)

Arte e Arquitetura

Uma característica única da arquitetura tarasca do período Pós-clássico são as monumentais estruturas que combinam pirâmides retangulares e circulares em degraus, conhecidas como yácatas. Tinham o formato de buracos de fechadura, mas havia também pirâmides retangulares mais tradicionais. Em Tzintzuntzan, cinco destas estruturas alinham-se numa enorme plataforma de 440 metros de comprimento. As yácatas eram originalmente decoradas com placas de pedra vulcânica bem ajustadas e escavações no interior revelaram tumbas ricas em artefatos. Na frente das yácatas, esculturas eram colocadas para receber oferendas sacrificiais (chacmools), tal como ocorria em muitas outras culturas mesoamericanas. Em Ihuatzio existe também um campo para o jogo de bola mesoamericano.

As estratégias militares e o uso de armas de metal permitiram ao estado tarasca manter sua independência diante do poderoso império asteca.

A cerâmica tarasca também se distinguia pelos jarros com bicos e alças em formato de esporas (algumas vezes com a forma de animais e plantas), tigelas com tripés, vasilhas em miniatura e cachimbos com longos cabos, todos ricamente decorados. Eram altamente especializados em trabalhos com metais, especialmente prata e ouro. Além disso, contavam com artesãos especializados em obsidiana, em especial brincos e decorações labiais, cobertos com lâminas de ouro e incrustados com turquesa.

A Ameaça Asteca

Os impérios contemporâneos em expansão dos tarascas e seus vizinhos do sul e oeste, os astecas, eventualmente passaram a competir por território e recursos. Na verdade, de certa forma estes dois grandes poderes mesoamericanos contrabalançavam um ao outro. Os tarascas, talvez empregando subterfúgios e sabotagem, repeliram os astecas até uma distância de 50 milhas de Tenochtitlán (atual Cidade do México), na década de 1470, o que levou ao estabelecimento de uma fronteira norte-sul entre os rios Lerma e Balsas, protegida por fortificações instaladas estrategicamente para controlar os vales mais vulneráveis. Com esta divisa segura, os tarascas continuaram sua política de expansão em outros locais. A melhor fonte arqueológica sobre o poder militar tarasca e as inovações adotadas é a fortaleza de Acambaro. Tais fortalezas, as estratégias militares que empregavam e o uso de armas de metal são razões que ajudam a explicar como o estado tarasca manteve sua independência diante do poderoso império asteca.

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A despeito das hostilidades entre as duas civilizações, há evidências de comércio entre eles, especialmente em áreas estratégicas, tais como a cidade fronteiriça e centro comercial de Taximoroa, mas também de tribos que atuavam como intermediárias em zonas de transição entre os dois impérios. O registro arqueológico do intercâmbio cultural em termos de estilos artísticos, porém, é limitado a um punhado de vasilhas de cerâmica encontradas nos respectivos territórios comerciais parceiros.

Quando os espanhóis chegaram a Michoacán em 1522, os tarascas, que haviam rejeitado os pedidos de ajuda anteriores dos astecas, chegaram a termos relativamente pacíficos com os novos senhores da Mesoamérica e se tornaram um mero estado vassalo.

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Bibliografia

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Sobre o tradutor

Ricardo Albuquerque
Ricardo é um jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é autor, pesquisador, historiador e editor em tempo integral. Seus principais interesses incluem arte, arquitetura e descobrir as ideias que todas as civilizações compartilham. Ele possui mestrado em Filosofia Política e é diretor editorial da WHE.

Citar este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2013, Dezembro 11). Civilização Tarasca [Tarascan Civilization]. (R. Albuquerque, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12401/civilizacao-tarasca/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Civilização Tarasca." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. Última modificação Dezembro 11, 2013. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12401/civilizacao-tarasca/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Civilização Tarasca." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 11 Dez 2013. Web. 20 Mai 2024.