A Medicina na Grécia Antiga

Mark Cartwright
por , traduzido por Jéssica Caroline
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Hygieia, Vatican Museums (by Mark Cartwright, CC BY-NC-SA)
Higéia, Museus do Vaticano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Na medicina grega antiga a doença era inicialmente considerada um castigo divino, e a cura, literalmente, um presente dos deuses. No entanto, no século V a.C., houve tentativas de identificar as causas materiais das doenças, em vez das espirituais, e isso levou a um afastamento da superstição em direção à investigação científica, embora, na realidade, as duas nunca tenham estado totalmente separadas. Os praticantes locais de medicina, então, começaram a se interessar mais pelo corpo humano e a explorar a conexão entre causa e efeito, a relação dos sintomas com a própria doença e o sucesso ou fracasso de vários tratamentos.

Concepções Gregas Sobre a Saúde

A medicina grega não era um corpo uniforme de conhecimento e prática, mas sim uma coleção diversificada de métodos e crenças que dependiam de fatores gerais, como a geografia e o período histórico, e de fatores mais específicos, como as tradições locais, o gênero e a classe social do paciente. No entanto, os tópicos comuns que percorriam o pensamento médico grego incluíam uma preocupação com os efeitos positivos e negativos da dieta e a crença de que o paciente poderia realmente fazer algo sobre sua queixa, em contraste com uma mentalidade mais fatalista e espiritual de tempos anteriores.

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Para os gregos da Antiguidade, as doenças podiam ter tanto uma causa divina quanto uma causa física, assim como o tratamento para elas.

No entanto, a distinção entre os mundos espiritual e físico é muitas vezes turva na medicina grega. O deus Asclépio, por exemplo, era considerado uma divindade que concedia a cura, mas também um médico prático altamente qualificado. Os pacientes recorriam ao deus em seus vários santuários (especialmente Epidaurus) para receber conselhos através de sonhos, que seriam então seguidos pelos médicos praticantes locais. Pacientes agradecidos muitas vezes deixavam no local monumentos que revelam alguns dos problemas que precisavam ser tratados, entre eles cegueira, vermes, claudicação, picadas de cobra e afasia. Como demonstra o exemplo de Epidauro, as doenças podiam ter tanto uma causa divina quanto uma causa física, assim como um tratamento também poderia ser de natureza divina ou física.

Descobriu-se que o estilo de vida e fatores como calor, frio e trauma eram importantes para a saúde das pessoas e podiam aliviar ou piorar os sintomas de uma doença ou a própria doença. Além disso, foi reconhecido que a constituição física de uma pessoa também poderia afetar a gravidade ou suscetibilidade a uma doença. Havia também uma crença crescente de que uma melhor compreensão das causas dos sintomas de uma doença poderia ajudar na luta contra a própria doença. Com um maior conhecimento do corpo, também surgiu a crença de que o equilíbrio dos vários fluidos (humores) dentro dele poderia ser um fator causador de doenças. Assim também, a observação dos sintomas e suas variações tornou-se uma preocupação do médico grego.

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Fontes da Medicina Grega

Fontes textuais sobre a prática médica grega começam com cenas da Ilíada de Homero, onde os feridos na Guerra de Tróia são tratados. Por exemplo, Pátroclo limpando a ferida de Eurípilo com água morna. Questões médicas e médicos também são frequentemente mencionados em outros tipos de literatura grega, como peças de comédia, mas as fontes mais detalhadas vêm de cerca de 60 tratados frequentemente atribuídos a Hipócrates (séculos V a IV a.C.), o médico mais famoso de todos. No entanto, nenhum desses tratados médicos pode ser confiantemente atribuído à Hipócrates e quase nada se sabe sobre ele com certeza.

Statue of Asklepios
Estátua de Asclépio Nina Aldin Thune (CC BY-SA)

Os textos hipocráticos tratam de todos os tipos de tópicos médicos, mas podem ser agrupados nas principais categorias de diagnóstico, biologia, tratamento e aconselhamento geral para médicos. Outra fonte são os textos fragmentários do corpus da filosofia natural grega que datam dos séculos VI ao V a.C. Filósofos em geral, vendo os benefícios da boa saúde na mente e na alma, frequentemente se preocupavam diretamente ou indiretamente com o corpo humano e a medicina. Esses pensadores incluem Platão (especialmente em Timeu), Empédocles de Acragas, Filístion de Locri e Anaxágoras.

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Médicos e Praticantes Locais de Medicina

Como não havia qualificações profissionais para os praticantes de medicina, qualquer um poderia se estabelecer como médico e viajar à procura de pacientes para praticar o que era conhecido como tekhnēda medicina (ou a arte da medicina, embora fosse uma arte misteriosa). Os espartanos, no entanto, tinham pessoal específico responsável pelos cuidados médicos em seu exército profissional. Além disso, os praticantes da medicina parecem ter desfrutado, de um modo geral, de grande prestígio, apesar da ausência de um órgão profissional reconhecido para supervisionar e formar os futuros médicos e tratar da presença de algum médico excêntrico, como os que surgem na comédia grega. Como Homero afirma na Ilíada (11.514), 'um médico vale por muitos outros homens'. Não apenas os médicos davam conselhos e tratamento médico, mas outros grupos que poderiam utilizar sua experiência prática, como parteiras e treinadores de ginástica.

O Juramento de Hipócrates era, na verdade, um documento religioso que garantia que um médico operasse dentro e pelos valores da comunidade.

O famoso Juramento de Hipócrates provavelmente era reservado para um seleto grupo de médicos e, na verdade, era um documento religioso que garantia que um médico operasse dentro e para os valores da comunidade. Com o Juramento, o praticante jurava por Apolo, Hígia e Panacéia respeitar seu professor e não administrar veneno, abusar de pacientes de qualquer forma, usar uma faca ou quebrar a confidencialidade entre paciente e médico.

Dentre os famosos praticantes de medicina do século IV a.C. estavam as figuras de Diócles de Caristo (que usava uma bandagem na cabeça e um instrumento em forma de colher (Colher de Diócles) para remover pontas de flechas com seu nome), Praxágoras de Cos (conhecido por sua "descoberta" do pulso e por ser o primeiro a distinguir veias de artérias) e os atenienses Mnesiteu e Dieuches. Esses especialistas em seu campo podiam examinar o rosto de um paciente e fazer um diagnóstico baseado em informações como a dieta do paciente, movimentos intestinais, apetite e hábitos de sono. Os tratamentos geralmente utilizavam plantas naturais, como ervas e raízes, mas também podiam incluir o uso de amuletos e encantamentos. A cirurgia era geralmente evitada, pois era considerada muito arriscada, mas pequenas operações podem ter sido realizadas, especialmente em soldados feridos em batalha.

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Tratamentos Médicos: Guerra

Soldados feridos eram, na verdade, uma das melhores maneiras de um médico aprender seu ofício e ampliar seu conhecimento sobre o corpo humano e seu funcionamento interno. Provavelmente também havia menos risco de o soldado causar problemas se as coisas dessem errado, o que poderia acontecer com pacientes particulares. Além dos problemas de saúde que também podem ter afetado a população civil, como desnutrição, desidratação, hipotermia, febre e febre tifoide, os médicos que tratavam os soldados tiveram que lidar com feridas feitas por espadas, lanças, dardos, flechas e projéteis de fundas. Os médicos locais sabiam da importância de remover corpos estranhos, como pontas de flechas, dos ferimentos e da necessidade de limpar adequadamente os ferimentos (e é por isso que as pontas de flechas se tornaram mais difíceis de remover e, portanto, mais letais). Eles sabiam também da importância de parar a perda excessiva de sangue o mais rápido possível, a fim de evitar hemorragias (embora também pensassem que o sangramento também poderia ser benéfico). A cirurgia pode também ter incluído o uso de ópio como anestésico, embora as muitas referências na literatura a pacientes sendo contidos durante a cirurgia indiquem que o uso de anestésico era raro.

Caduceus
Caduceu The Trustees of the British Museum (Copyright)

Após a cirurgia, as feridas eram fechadas com pontos de sutura feitos de fios de linho e cobertas com ataduras ou esponjas de linho, às vezes embebidas em água, vinho, óleo ou vinagre. As folhas também podiam ser usadas para o mesmo propósito e as feridas também podiam ser seladas usando clara de ovo ou mel. O tratamento pós-operatório também era considerado importante, como a dieta, por exemplo, ou o uso de plantas com propriedades anti-inflamatórias, como o aipo.

Descobertas e Desenvolvimentos

Com o tempo, os médicos passaram a adquirir um conhecimento básico da anatomia humana, auxiliados, sem dúvida, pela observação de soldados gravemente feridos e, a partir do século IV a.C., pela dissecação de animais. No entanto, alguns alegaram que isso era inútil, pois acreditavam que o corpo interno mudava em contato com o ar e a luz e outros ainda, como hoje, protestavam que o uso de animais para tais fins era cruel. A dissecação humana teria de esperar até o período helenístico, quando descobertas como a do sistema nervoso completo foram feitas. Entretanto, havia uma necessidade muito maior de descobrir o que fazia um corpo saudável funcionar bem, em vez do que fazia um insalubre desmoronar. Contudo, a falta de conhecimento prático resultou em alguns erros fundamentais, como a crença de Aristóteles de que o coração e não o cérebro controlava o corpo e a ideia proposta no tratado Sobre a Medicina Antiga (século V a.C.)' de que a dor física surgia da incapacidade do corpo de assimilar certos alimentos. A prática médica grega pode ter incluído erros, talvez muitos e alguns provavelmente até fatais, mas os médicos gregos locais iniciaram a profissão médica na direção certa. Observação, experiência e experimentação significavam que aqueles que seguiram nos tempos helenísticos e romanos, como Galeno e Celso, poderiam continuar suas investigações ao longo do longo caminho em direção a um conhecimento científico maior e mais preciso do corpo humano, das doenças a que é suscetível e das curas potenciais disponíveis.

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Cartwright, M. (2026, julho 14). A Medicina na Grécia Antiga. (J. Caroline, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12140/a-medicina-na-grecia-antiga/

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Cartwright, Mark. "A Medicina na Grécia Antiga." Traduzido por Jéssica Caroline. World History Encyclopedia, julho 14, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12140/a-medicina-na-grecia-antiga/.

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Cartwright, Mark. "A Medicina na Grécia Antiga." Traduzido por Jéssica Caroline. World History Encyclopedia, 14 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12140/a-medicina-na-grecia-antiga/.

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