A Dinastia Xia (cerca de 2070–1600 a.C.) foi o primeiro governo a emergir na China Antiga e o primeiro a adoptar a política de sucessão dinástica. Consequentemente, a Xia foi a primeira Dinastia da China. Longamente considerada como uma construção mítica de historiadores chineses posteriores, as escavações do século XX revelaram sítios arqueológicos que correspondiam às descrições nos relatos de historiadores anteriores.
A Dinastia Xia foi derrubada pela Dinastia Shang (cerca de 1600–1046 a.C.), uma entidade governamental historicamente mais comprovada, que foi, por sua vez, derrubada pela Dinastia Zhou (1046–256 a.C.).
O argumento que defende ser a Dinastia Xia uma construção mitológica afirma que os Zhou (e dinastias posteriores) pretendiam deixar claro que as anteriores tinham perdido o direito de governar devido a uma conduta imoral, criando assim uma protodinastia — a Xia — como um modelo pré-histórico para este fim. Muitos académicos ainda hoje sustentam que a Dinastia Xia é um mito, mas parecem incapazes de explicar por que razão as provas físicas descobertas contrariam a sua tese. Aqueles que acreditam que a Dinastia Xia foi uma realidade encontram-se em igual desvantagem, uma vez que nenhum dos sítios arqueológicos descobertos até agora se identifica positivamente como pertencente à Dinastia Xia, podendo ser tão facilmente interpretados como edifícios do início da Dinastia Shang.
A Ascensão da Xia
De acordo com historiadores como Sima Qian (145–86 a.C.), existiu outrora um grande governante chamado Huang-ti (também Huangdi, ou 'imperador'), mais conhecido como o Imperador Amarelo, que emergiu do sistema tribal da China pré-histórica para governar a região de Shandong entre 2697 e 2597 a.C. O Imperador Amarelo criou a cultura chinesa e estabeleceu uma forma de governo que duraria séculos. É-lhe atribuída a invenção de instrumentos musicais, o desenvolvimento da produção de seda, a instituição de leis e costumes, bem como o desenvolvimento da medicina e da agricultura. Após a sua morte, foi sepultado no condado de Huangling, na província de Shaanxi, num mausoléu que é hoje uma popular atração turística.
Huang-ti foi sucedido pelo seu neto Zhuanxu, um dos célebres Cinco Imperadores, que fundou a tribo Xia. Após derrotarem os seus rivais, os Xia estabeleceram a primeira dinastia na China sob a liderança do Imperador Yao. Yao ordenou a construção de grandes palácios e viu as pequenas aldeias de cabanas transformarem-se em centros urbanos. É considerado um grande rei-filósofo que governou o seu povo com sabedoria e trabalhou em prol dos interesses dos seus súbditos, seguindo os preceitos de Huang-ti.
O Dilúvio
Durante o seu reinado, Yao enfrentou um grave problema no controlo das inundações do Rio Amarelo, que perturbavam a agricultura e causavam o afogamento ou a deslocação do povo. Yao nomeou um homem chamado Gun (reverenciado como um semideus em muitos relatos) para resolver esta situação.
Gun tentou travar as inundações durante nove anos, mas todos os anos as águas tornavam-se mais fortes, cobrindo mais terras e vitimando mais pessoas. Finalmente, Gun construiu uma série de diques que esperava que contivessem as águas, mas os diques colapsaram, provocando ainda mais destruição e morte. Por esta altura, Yao já tinha cedido o poder ao seu sucessor Yu Shun, que não ficou satisfeito com o fracasso de Gun no controlo das águas. Segundo algumas versões da lenda, Gun ter-se-á suicidado, enquanto outras afirmam que foi preso por Yu Shun; outros relatos referem ainda que se exilou nas montanhas. Após o seu desaparecimento, o Imperador Shun nomeou Yu, filho de Gun, para completar o trabalho e travar as inundações.
Yu, o Grande
Yu aprendeu com os erros do pai: Gun tentou fazer demais sozinho, subestimou a necessidade de ajuda e superestimou as suas próprias habilidades. Ele também agiu sem respeito pelas forças da natureza e trabalhou contra a água, em vez de trabalhar com ela. Yu recrutou a ajuda das tribos vizinhas e as fez construir canais que trabalhariam com a água para conduzi-la de volta ao mar.
O projecto de Yu durou treze anos e ele estava tão dedicado à sua tarefa que nunca se deslocou para ir a sua casa, mesmo tendo passado por ela três vezes durante o trabalho. Apesar de a sua mulher e filho ainda jovem clamarem por ele ao vê-lo passar, e de os seus companheiros o incitarem a regressar ao lar para repousar, Yu não abandonou a sua missão até a concluir. Ele afirmava que havia muitas pessoas sem casa, que tinham perdido as suas mulheres e filhos devido às inundações, e que não achava que devia descansar até que o problema estivesse resolvido. A sua determinação e dedicação ao trabalho inspiraram aqueles que o rodeavam, que o admiravam como um modelo a seguir e trabalharam ainda mais arduamente até que as águas do rio fossem contidas e não houvesse mais inundações.
Uma vez resolvido o problema das águas, Shun ficou muito orgulhoso de Yu e colocou-o no comando do seu exército. Yu liderou os homens contra os Sanmiao, uma tribo hostil aos Xia que saqueava continuamente as fronteiras. Ele derrotou os Sanmiao e expulsou-os do território e, como recompensa pelas suas vitórias, Shun declarou-o herdeiro do trono.
O reinado de Yu é considerado o início da Dinastia Xia, e é conhecido como Yu, o Grande, não apenas pelas suas vitórias sobre as inundações e sobre os Sanmiao, mas também pelo estabelecimento de um governo central estável e pela organização do país em nove províncias, de modo a tornar a governação de uma área tão vasta mais gerível.
Morte de Yu e Declínio de Xia
Yu governou durante 45 anos e, no seu leito de morte, nomeou o seu filho Qi como sucessor. Qi era ainda uma criança na época das grandes inundações e muitos amavam-no devido à história de como o seu pai se recusara a voltar a casa até que as cheias fossem travadas, e de como o jovem Qi suportara tão bem a ausência do pai. Yu pretendia nomear o seu ministro como sucessor, não querendo que o filho carregasse o fardo do poder, mas tantas pessoas favoreciam Qi que Yu não teve escolha. Ao nomear Qi seu sucessor, Yu deu início à política de sucessão dinástica.
O filho de Qi, Tai Kang, foi um governante medíocre, mas muitos dos seus sucessores foram altamente qualificados, sendo atribuídas aos Xia posteriores inúmeras invenções e inovações, tais como o desenvolvimento da armadura na guerra e regras de cavalaria em batalha. O quarto governante após Qi foi o grande herói Shao Kang, que revitalizou o país e é bem conhecido através das muitas lendas que narram os seus feitos. A Dinastia Xia começou a declinar sob o reinado de Kong Jia (cerca de 1789–1758 a.C.), que se preocupava mais com as bebidas fortes do que com as responsabilidades da governação. Foi sucedido por Gao, que por sua vez foi sucedido por Fa; nenhum deles fez muito em prol da melhoria da vida da população, excepto das suas próprias. O último imperador foi Jie (1728–1675 a.C.), conhecido como um tirano e que perdeu o Mandato do Céu para governar, sendo derrubado por Tang, que estabeleceu a Dinastia Shang.
A Mitologia vs. a História
Grande parte do que foi mencionado acima era considerado mitologia desde a década de 1920 até meados da década de 1960, quando começaram a surgir evidências arqueológicas que corroboravam as narrativas dos historiadores. Mesmo hoje, o consenso académico é que a história da dinastia Xia é em grande parte mitológica, mesmo que tal dinastia tenha realmente existido. O cepticismo cresceu porque não havia relatos antigos sobre a dinastia Xia e nem havia evidências físicas que comprovassem a sua existência. Acreditava-se que historiadores, especialmente o famoso Sima Qian, tinham criado a Dinastia Xia como um precedente modelo para explicar e justificar a mudança dinástica na China. O estudioso Justin Wintle explica isso:
Sima tinha um propósito político específico [ao dar crédito a figuras e eventos mitológicos]. Na sua visão, tal como na de outros, os governantes tinham o direito de governar através do 'Mandate do Céu'... Se governassem mal, a licença era revogada. O Imperador Amarelo e os seus sucessores, incluindo Yu, não só inventaram todos os elementos essenciais da civilização, como também forneceram um modelo de governo. No entanto, como resultado da corrupção humana, esta ordem divinamente instituída colapsou pouco depois, dando assim início ao conhecido 'ciclo dinástico'. Um novo regime chega ao poder mas, mais cedo ou mais tarde, perde o direito divino de governar, momento em que é substituído por outro que usufrua do Mandato. E esta transferibilidade do Mandato, sugere Sima, é o princípio subjacente da história. (pág. 3).
A interpretação mitológica da dinastia Xia foi contestada nas décadas de 1960/1970 com a descoberta de palácios e casas de quatro paredes (diferentes das casas redondas das eras anteriores) que correspondiam às descrições dos historiadores que escreveram sobre a Dinastia Xia séculos após o seu declínio. Desde então, foram descobertas novas evidências da existência dos Xia, mas nenhum registo escrito em qualquer destas estruturas as identifica positivamente como construções Xia; assim sendo, o debate continua sobre se a primeira Dinastia da China foi uma realidade ou simplesmente uma fabricação de escritores posteriores, motivada por razões políticas.

