O termo Filosofia Chinesa Antiga refere-se aos sistemas de crenças desenvolvidos por vários filósofos durante a era conhecida como Cem Escolas de Pensamento, quando esses pensadores formaram suas próprias escolas durante o Período da Primavera e Outono (cerca de 772-476 a.C.) e o Período dos Reinos Combatentes (cerca de 481-221 a.C.), após o início do declínio da Dinastia Zhou (1046-256 a.C.).
O termo Cem Escolas do Pensamento deve ser entendido de forma figurada, no sentido de ‘‘muitas’’, e não literalmente. As dez escolas que se desenvolveram a partir desse período foram:
- Confucianismo
- Taoísmo
- Legalismo
- Moísmo
- Escola dos Nomes
- Escola Yin-Yang
- Escola dos Discursos Menores
- Escola da Diplomacia
- Agriculturalismo
- Sincretismo
Além dessas, havia escolas menores que atraíam adeptos, mas nunca foram formalmente estabelecidas:
- Yangismo (Escola Hedonista)
- Relativismo
- Escola Militar
- Escola de Medicina
Dentre essas 14 escolas de pensamento, três ganhariam destaque e influência — o confucionismo, o taoísmo e o legalismo — condenando as outras completamente ou absorvendo seus conceitos centrais, total ou parcialmente. O Período dos Reinos Combatentes terminou quando o estado de Qin derrotou os outros seis estados e fundou a Dinastia Qin (221–206 a.C.). Por volta de 213 a.C., o imperador Qin, Shi Huangdi (reinou 221–210 a.C.), ordenou que todos os livros das Cem Escolas do Pensamento fossem queimados, exceto os de Legalismo, sua filosofia pessoal, que se tornou a do Estado. As obras das outras escolas que sobreviveram ao período conhecido como a Queima dos Livros e o Enterro dos estudiosos apenas conseguiram sobreviver porque foram escondidas por pessoas que assumiram grandes riscos pessoais.
A Dinastia Qin foi sucedida pela Dinastia Han (202 a.C. – 220 d.C.), que reviveu o aprendizado e o interesse pelas diversas escolas filosóficas de pensamento. Durante o reinado de Han Wu Ti (também conhecido como Wu, o Grande, reinou 141–87 a.C.), o Confucionismo foi adotado como filosofia do Estado e, juntamente com o Taoismo e o Legalismo, passaria a moldar a cultura chinesa até os dias atuais.
Estados Combatentes e Escolas de Pensamento
A dinastia Zhou começou como um governo centralizado durante o reinado do rei Wu (reinou 1046-1043 a.C.), mas foi amplamente expandida por seu irmão, o duque de Wu (reinou 1042-1035 a.C.), que o sucedeu. As revoltas que irromperam após as conquistas do Duque de Wu, e o vasto território que os Zhou agora detinham, incentivaram uma mudança de planos, e o governo chinês foi descentralizado e reorganizado como um sistema feudal no qual senhores, leais ao rei, governavam estados quase autônomos. Isso funcionou bem enquanto os senhores estavam vinculados aos seus juramentos de lealdade, mas, com o tempo, os estados tornaram-se mais poderosos do que o rei e os juramentos foram esquecidos à medida que a autoridade real declinava.
O chamado período Zhou Ocidental (1046-771 a.C.) deu lugar ao período Zhou Oriental (771-256 a.C.) quando bárbaros (provavelmente o povo Xirong do oeste) invadiram e forçaram o governo a se mudar para o leste para melhor defesa. A primeira parte do Período Zhou Oriental é conhecida como Período da Primavera e Outono, em referência ao nome das crônicas estatais da época que registraram esses acontecimentos.
O Período da Primavera e Outono é a era dos maiores avanços na filosofia, literatura chinesa, artes, música e cultura em geral — mesmo tendo sido um tempo de instabilidade — porque os estudiosos e pensadores que antes estavam ligados a uma organização estatal foram deslocados, fundaram suas próprias escolas (ou difundiram sua própria visão sem uma escola formal) e atraíram seguidores. Como cada escola de pensamento diferia significativamente das outras, esse período foi posteriormente denominado como a época da Contenda das Cem Escolas de Pensamento. O termo, como observa o estudioso Forrest E. Baird, sugere ‘’rivalidade filosófica intensa desde o início’’, já que cada uma disputava seguidores com as demais (281). Baird comenta:
[Das principais escolas] apenas duas delas, a Confucionista e a Moísta, eram escolas no sentido usual de comunidades contínuas de mestres e alunos identificadas com pontos de vista específicos. As outras [principais] ‘’escolas’’ foram uma construção de um historiador da Dinastia Han; em retrospecto, ele agrupou indivíduos não afiliados de um período anterior que por acaso compartilhavam ideias semelhantes. Diversas escolas propuseram soluções conflitantes para os urgentes problemas morais, sociais e políticos da caótica dinastia Zhou posterior. (282)
O Período da Primavera e Outono deu lugar ao Período dos Estados Combatentes quando os sete estados intensificaram seus conflitos entre si e mergulharam o país em uma guerra quase constante. Ao mesmo tempo, as escolas filosóficas, em sua maioria, seguiram o mesmo caminho e passaram a criticar umas às outras para elevar sua própria visão em detrimento das demais. O exemplo mais famoso disso é o do estudioso confucionista Mêncio (372–289 a.C.) e suas críticas a Mo Ti (470–391 a.C.) e Yang Zhu (440–360 a.C.) e às suas escolas de Moísmo e hedonismo.
Filósofos e as Principais Escolas
A história das escolas, e o termo Cem Escolas do Pensamento, vem dos Registros do Grande Historiador de Sima Qian (145/135–86 a.C.), o eminente historiador da Dinastia Han que estabeleceu o padrão para todos os demais textos históricos chineses. As escolas e filósofos não abordados por Sima Qian foram tratados posteriormente pelos historiadores da Dinastia Han Ban Biao (3–54 d.C.) e seu filho Ban Gu (32–92 d.C.) em sua obra Hanshu (O Livro de Han) e em seu apêndice, o Yiwenzhi (bibliografia). Na época em que Sima Qian escrevia, o confucionismo havia se tornado a filosofia oficial do Estado e exercia considerável influência. É natural, portanto, que Sima Qian tendesse a favorecer o pensamento confucionista em relação aos demais, mas ainda assim ele se esforça para apresentar as ideias das diferentes escolas com relativa objetividade.
É importante lembrar que cada uma das seguintes escolas foi desenvolvida durante um período de guerra e agitação social, exceto o Taoismo, cujas crenças fundamentais remontam à classe camponesa da Dinastia Shang (cerca de 1600–1046 a.C.), mas que se diz ter sido fundado (ou ao menos codificado) pelo filósofo Lao Tzu (cerca de 500 a.C.), na mesma época que as demais das Cem Escolas. Cada escola procurava fornecer uma orientação sobre a melhor maneira de viver uma existência harmoniosa em tempos de caos e incerteza , e cada uma, de um modo ou de outro, extraía suas crenças centrais da experiência e das tradições populares já estabelecidas, ao apresentar uma visão de vida que permitisse viver em paz consigo mesmo e com os outros.
Confucionismo
O confucionismo foi fundado por Confúcio (551-479 a.C.), que acreditava que os seres humanos eram essencialmente bons e só se desviavam devido à falta de um forte padrão moral. Se as pessoas fossem cuidadosamente instruídas sobre como desenvolver seu próprio padrão moral individual e as maneiras de aderir a esse padrão, elas se comportariam bem de forma consistente. O confucionismo, portanto, enfatizava a importância do ritual. Alguém poderia se tornar “bom” ao observar rituais que o tornavam “bom”. A adesão a esses rituais, independentemente de se importar com eles ou não, construía um caráter forte e moral, que contribuiria para uma comunidade forte e moral — e isso, por sua vez, contribuiria para um estado sólido, moral e estável, resultando no mais alto nível de prosperidade e felicidade para todos.
Taoismo
O taoismo, por outro lado, afirmava que quanto mais leis, regras e rituais se criassem para controlar os outros, mais criminosos se geravam — simplesmente porque, quanto mais regras havia para serem seguidas, maiores eram as chances de que fossem quebradas. Segundo o taoismo, não havia necessidade de observar todas as cerimônias e ritos confucionistas, pois tudo o que se precisava era reconhecer a existência do Tao — a força universal que criou todas as coisas, conecta todas as coisas e liberta todas as coisas — e que flui naturalmente através do mundo observável. Todos os seres humanos faziam parte do Tao e, portanto, parte uns dos outros. Reconhecer que outras pessoas têm as mesmas preocupações básicas, sentimentos e direitos que nós mesmos promoveria empatia e compaixão, e assim a pessoa se tornaria uma “boa pessoa”. Se mais pessoas se conectassem com o Tao, segundo esse raciocínio, mais pessoas se conectariam em um nível fundamental, e o Estado refletiria essa reação ao incentivar uma comunidade nacional de unidade, igualdade, harmonia e prosperidade.
Legalismo
O Legalismo, fundado por Han Feizi (cerca de 280–233 a.C.), mas baseado em princípios anteriores atribuídos a Yang Mang (morreu em 338 a.C.), do estado de Qin, rejeita os fundamentos tanto do Confucionismo quanto do Taoismo ao afirmar que os seres humanos agem apenas por interesse próprio e precisam de leis rígidas para controlar seus impulsos naturais que os levam a comportamentos inadequados. Deixado por conta própria, o legalismo sustenta que a pessoa fará o que quiser, independentemente das circunstâncias ou de quem possa ser prejudicado. A única defesa contra o caos causado pelas pessoas buscando seus próprios interesses é a lei, que prometia punições severas para aqueles que não a obedecessem à risca. Ela foi adotada pela Dinastia Qin porque suas políticas repressivas e impopulares geraram uma insatisfação generalizada, que teria levado à rebelião se não fosse pela rede de polícia secreta e informantes de Shi Huangdi, que apoiavam o legalismo e prendiam qualquer dissidente.
Moísmo
O Moísmo foi fundado por Mo Ti (também conhecido como Mot Tzu, Mozi e Micius) e enfatizava o amor universal como meio de melhorar a si mesmo e a comunidade, além do conceito de consequencialismo (as ações de uma pessoa definem seu caráter) como padrão para determinar quem é “bom” e quem é “mau”. Mo Ti tentou neutralizar os diversos estados em guerra fornecendo-lhes as mesmas defesas e estratégias, de modo que nenhum obtivesse vantagem, reconhecesse a futilidade da guerra e concordasse em viver em paz. Ele esperava que os governantes de cada estado escolhessem o amor universal — pelo qual todos seriam tratados como membros da própria família — em vez da busca pelo poder, mas seus esforços não tiveram sucesso e as guerras continuaram. Sua filosofia foi amplamente esquecida depois que o confucionismo foi adotado como religião oficial pela dinastia Han, mas foi revivida no século XX pelo Partido Comunista Chinês.
Escola dos Nomes
A Escola dos Nomes (também conhecida como Os Lógicos) foi fundada pelos lógicos Hui Shih (cerca de 380 – cerca de 305 a.C.) e Kung-sun Lung (nascido por volta de 380 a.C.), que se interessavam por como as palavras se correlacionavam com os objetos aos quais se referiam. Como afirma o estudioso John M. Koller, “o principal interesse dessa escola era a relação entre linguagem e realidade” (206). A escola era inteiramente teórica e intelectual, pois seus adeptos procuravam determinar até que ponto a palavra “cadeira” (por exemplo) correspondia à realidade de uma cadeira física. Embora a escola fosse rotineiramente ridicularizada, seus preceitos acabariam contribuindo tanto para o pensamento taoista quanto, especialmente, para o confucionista, no que diz respeito à importância do uso preciso da linguagem. Por meio do confucionismo, essa escola de pensamento influenciaria a composição dos Registros do Grande Historiador de Sima Qian.
Escola Yin-Yang
A Escola Yin-Yang (também conhecida como Escola dos Naturalistas) foi fundada pelo polímata Zou Yan (305–240 a.C.), que era um estudioso da Academia Jixia. A Escola Yin-Yang ensinava que todas as coisas estavam em constante estado de fluxo entre o ser/ação (princípio yang) e o não-ser/inação (princípio yin), e o reconhecimento desse padrão explicava o mundo natural, bem como o lugar de cada um nele. Tudo na vida era uma transferência constante das energias do yin e do yang, e isso mantinha o equilíbrio. Uma vez compreendido como o mundo funcionava, percebia-se que ele funcionava da mesma forma para todas as pessoas, não apenas para si próprio, e isso uniria as pessoas em compreensão. A filosofia de Zou Yan foi eventualmente absorvida principalmente pelo taoismo, que, nos dias atuais, está associado ao símbolo do Yin-Yang.
Escola das Conversas Menores
A Escola das Conversas Menores (também conhecida como os Ficcionistas) surgiu da prática de uma política que enviava funcionários do governo às ruas para ouvir e relatar o que o povo estava dizendo. Isso acabou formando a base de uma filosofia centrada, essencialmente, nos pensamentos das pessoas comuns. Essa filosofia nunca teve muitos seguidores, e pouco se sabe sobre quem a fundou ou como era praticada. Seus adeptos eram chamados de “Ficcionistas”, presumivelmente porque não havia como verificar se o que eles relatavam ter ouvido era, de fato, o que haviam escutado.
Escola da Diplomacia
A Escola da Diplomacia, como o nome sugere, focava no treinamento em política diplomática como forma de aprimorar o caráter pessoal e melhorar o estado. Por meio do treinamento diplomático, aprendia-se a tratar os outros com cortesia, ao mesmo tempo em que se buscava convencê-los da superioridade de sua própria posição ou política. Essa escola foi eventualmente absorvida pelo confucionismo.
Agriculturalismo
O Agriculturalismo, cujo principal defensor foi o filósofo Xu Xing (cerca de 372–c. 289 a.C.), era uma filosofia igualitária que sustentava que as classes sociais levavam naturalmente à opressão e que todos, do camponês ao rei, deveriam trabalhar igualmente a terra e beneficiar-se de seu próprio trabalho. Ao fazer isso, todos reconheceriam sua conexão uns com os outros e ajudariam uns aos outros da mesma forma que desejariam ser ajudados. A filosofia de Xu Xing contradizia os princípios básicos do Confucionismo, que enfatizava a importância da estrutura social, e foi desacreditada por Mêncio.
Sincretismo
O sincretismo tentou combinar os conceitos do confucionismo, taoísmo, legalismo e moísmo em um sistema filosófico coeso. O maior defensor dessa escola foi o estudioso confucionista Dong Zhongshu (179–104 a.C.), que essencialmente tomou aquilo que se adequava à visão confucionista dos outros três sistemas. O Confucionismo de Dong Zhongshu acabaria formando a base do Neo-Confucionismo, que ainda é observado na China e, ao redor do mundo, na era moderna.
Conclusão
Entre as escolas menores, a Escola de Medicina é a menos famosa, mas uma das mais significativas. Supostamente foi fundada pelo lendário médico Qibo, que serviu ao Imperador Amarelo, um dos míticos Cinco Imperadores que teriam governado entre cerca de 2852–2070 a.C. As obras de Qibo teriam sido desenvolvidas pelo médico Bian Que (morreu 310 a.C.), que pode ter fundado a escola. Ela enfatizava a importância da saúde por meio da dieta e do autocuidado, e Bian Que, ou um de seus discípulos, compôs o Huangdi Neijing (Cânone Interno do Imperador Amarelo), um dos mais antigos tratados médicos do mundo.
A Escola Militar dedicou-se ao estudo da obra de Sun Tzu (cerca de 500 a.C.) e de seu suposto descendente Sun Bin (morreu 316 a.C.), bem como de seus respectivos tratados sobre a guerra, ambos conhecidos como A Arte da Guerra. Acreditava-se que, por meio da preparação militar, mantinha-se a ordem, e a ordem naturalmente incentivava o bom comportamento. As obras de Sun Tzu e Sun Bin não encorajavam a guerra, mas enfatizavam a importância de encerrar qualquer conflito o mais rápido possível — de vencer — para restaurar a paz e promover a prosperidade. A obra de Sun Tzu se tornaria uma “leitura obrigatória” no mundo dos negócios da década de 1980 e ainda hoje é consultada para estratégias empresariais.
Além dessas duas, havia o Yangismo, a escola hedonista fundada por Yang Zhu, que incentivava a expressão individual sem levar em conta os costumes sociais, e a escola Relativista do sofista Teng Shih (séc. VI a.C.) que, assim como o posterior sofista grego Protágoras (cerca de 485–415 a.C.), ensinava o preceito de que tudo aquilo que alguém acreditasse ser verdadeiro, era verdadeiro ou, na famosa formulação de Protágoras, “De todas as coisas, a medida é o Homem”, significando que tudo é relativo porque a realidade objetiva é necessariamente sujeita à interpretação individual.
Essas diversas escolas de pensamento foram vigorosamente suprimidas pela Dinastia Qin, exceto – como já mencionado – pelo Legalismo, mas seus conceitos e fragmentos das obras de seus fundadores foram preservados por escritores posteriores. Quando a Dinastia Han restaurou a liberdade de expressão e suspendeu as outras políticas repressivas dos Qin, essas escolas voltaram à luz e o que restava de suas obras foi incorporado às principais escolas do Confucionismo, Taoismo e Legalismo, todas as quais continuaram a influenciar a cultura chinesa por mais de 2.000 anos e também moldaram as filosofias, práticas empresariais e vidas pessoais de pessoas em todo o mundo.
