Mozi

Definição

Joshua J. Mark
por , traduzido por Eric Azevedo
publicado em 01 Julho 2020
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Disponível em outros idiomas: Inglês
Mo Ti (by Iflwlou, Public Domain)
Mo Ti
Iflwlou (Public Domain)

Mozi (470-391 AEC, também conhecido como Mot Tzu, Mo Ti e Micius) foi um filósofo chinês do Período dos Estados Combatentes (c. 481-221 AEC), associado às Cem Escolas de Pensamento (diferentes escolas filosóficas que se estabeleceram nessa era). Ele é o fundador do Moísmo, um sistema filosófico que avança o conceito de consequencialismo (onde as ações definem o valor moral de um indivíduo) e enfatiza o amor universal como o significado para a vida e a solução para todos os conflitos.

Pouco se conhece sobre sua vida, além do fato de que ele foi um carpinteiro e inventou vários mecanismos (sem detalhes conhecidos), e era do estado de Lu (que hoje é a província de Shandong) - a mesma região do filósofo Confúcio (551-479 AEC), que possuía preceitos dos quais Mozi veementemente discordava, assim como também rejeitava a visão de Lao Tzu (c. 500 AEC), o lendário (e provavelmente mítico) fundador do Taoísmo.

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A habilidade de Mozi na carpintaria fez dele um valioso ativo aos estados combatentes, na construção de escadas de cerco e fortificações de qualidade. Em um esforço de igualar as vantagens de um estado sobre o outro, ele forneceu a cada um exatamente o mesmo benefício, não apenas em produtos materiais mas também em estratégia e informação. Ele esperava, com esse estratagema, neutralizar seus esforços e trazê-los a uma compreensão sobre o valor da paz e da futilidade da guerra, mas seus esforços foram em vão. Mesmo sendo capaz de claramente provar seu ponto a alguns reis, nenhum deles adotou sua filosofia. Ele parece ter continuado, apesar da aparente inutilidade de sua missão, até que percebeu que nenhum dos estados escolheriam o caminho do amor universal ao invés de buscar poder pessoal.

SUA DEDICAÇÃO À CAUSA DA PAZ FOI RECONHECIDA & SUA FILOSOFIA ATÉ ATRAIU ADEPTOS, SÓ NÃO AQUELES QUE ELE ESPERAVA CONVERTER.

Sua dedicação à causa da paz foi reconhecida e admirada até mesmo por seu crítico mais ferrenho, o filósofo confuciano Mêncio (372-289 AEC), e sua filosofia até atraiu adeptos, só não aqueles que ele esperava converter. Quando o estado de Qin finalmente derrotou os outros e estabeleceu a Dinastia Qin (220-206 AEC), as obras de Mozi (assim como as de Confúcio e as de Lao Tzu) foram proibidas e abraçou-se a filosofia do Legalismo. Durante a Dinastia Han (202 AEC - 220 EC), o Confucionismo foi estabelecido como a filosofia nacional, e o Moísmo foi esquecido até seu ressurgimento no século 20 EC.

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Os Estados Combatentes & Mozi

O Período dos Estados Combatentes (c. 481-221 AEC) foi a era onde vários estados independentes lutaram entre si pelo controle absoluto do governo. A Dinastia Zhou (1046-256 AEC) ainda tinha seu reinado sobre Luoyang reconhecido, porém apenas em nome; ela não tinha mais poder para fazer suas leis serem cumpridas ou para desempenhar papéis associados a um estado forte e estável.

A Dinastia Zhou definiu-se como um governo descentralizado com estados separados, quase autônomos, leais ao rei Zhou, aos quais ele havia concedido territórios. Ao longo do tempo, esses estados tornaram-se mais poderosos que o rei e, enquanto sua autoridade diminuía, cada estado começou a competir contra os outros por supremacia. Porém nenhum deles conseguia ganhar vantagem sobre os outros, já que todos utilizavam-se das mesmas táticas e seguiam os mesmos códigos de honra em batalha.

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Chinese Warring States, 3rd century BCE
Período dos Estados Guerreiros, século III a. C.
Philg88 (CC BY-SA)

Mozi era um carpinteiro e artesão muito habilidoso, tornando-se experiente na construção de escadas de cerco e no desenho de fortificações. Por isso, era muito demandado pelos governantes dos sete estados para ajudá-los a derrotar uns aos outros. Apesar de inicialmente parecer que Mozi realmente desenhou e construiu inúmeros equipamentos e fortificações para as partes em conflito, ele depois reconheceu que a guerra era sem sentido e contrária à virtude da vida. Assim, ele começou a tentar manter a habilidade de defesa ou ataque de cada estado no mesmo nível, para manter o equilíbrio entre eles.

Como observado, os estados já estavam frustrados nas tentativas de prevalecer sobre os demais, e isso os levou a procurar a ajuda de Mozi para fornecê-los uma vantagem; mas, ao invés disso, ele igualou ainda mais as condições, para provar a eles a futilidade dos embates contínuos. Ele entendia que os estados estavam lutando contra os outros por interesse próprio, não por quererem fazer bem às pessoas, e acreditava que esse tipo de comportamento era puramente egoísta e fundamentalmente imoral. O historiador Will Durant comenta:

[Mozi acreditava que] o egoísmo é a fonte de todo o mau, desde o egoísmo sentido por uma criança até ao da conquista de um império, [e] estranha como um homem que rouba um porco é universalmente condenado e geralmente punido enquanto um homem que invade e se apropria de um reino é um heroi para o seu povo e um modelo para a posteridade. (678)

Mozi dedicou-se a viajar entre os estados combatentes em um esforço de convencer os governantes a abraçar o amor e o pacifismo. Um dos exemplos mais conhecidos de sua estratégia foi quando ele viajou ao estado de Chu para fazer com que seu líder, Gonshu Ban, não atacasse o estado de Sung. Mozi habilmente derrotou Gonshu Ban em uma série de manobras militares e depois informou Gonshu de que ele já havia fornecido a Sung auxílio em fortificações e estratégias, fazendo com que qualquer ataque fosse inútil. Gonshu Ban então suspendeu seu ataque.

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Moísmo

Através de acontecimentos como esses, Mozi pode ter causado impacto em um governante e foi capaz de salvar vidas; mas, mesmo assim, seus sucessos parecem ter sido poucos. Ainda que seus esforços foram em sua maioria malsucedidos e que ele fosse muitas vezes zombado, ele não se dissuadiu de seu caminho. Ele antes já havia montado uma escola em Lu, seu estado natal, onde ele treinava alunos em carpintaria e em filosofia chinesa, e muitos desses alunos tornaram-se discípulos fervorosos, que o ajudaram a difundir sua mensagem de amor universal.

SIMPLICIDADE EM TODAS AS COISAS & ADESÃO AO PRINCÍPIO DO AMOR UNIVERSAL ERAM O CORAÇÃO DO MOÍSMO

Mozi acreditava que o amor iniciava-se bem perto do indivíduo, através de sua família e seus amigos, mas não deveria, de forma alguma, terminar ali. Ele pregava um “amor imparcial”, pelo qual o indivíduo trataria todas as pessoas como se fossem parte de sua família. Esse ensinamento entrava em conflito com o já popular conceito de Confúcio sobre respeitar a família e os ancestrais acima de todos, mas Mozi respondia a essas críticas apontando que, em sua filosofia, o indivíduo ainda deveria honrar sua família e parentes mas também tratar os outros da mesma maneira.

Essa crença constituía a base da ética do consequencialismo para Mozi, onde o comportamento do indivíduo, independente de costumes previstos, acaba ditando o seu caráter, e, por extensão, a qualidade do estado. Quando o indivíduo é gentil e vive uma existência harmoniosa, atrai bondade e harmonia para si; inversamente, quando o indivíduo é contencioso e rancoroso, atrai uma resposta semelhante dos outros. A simplicidade em todas as coisas e adesão ao princípio do amor universal eram o coração do Moísmo. Mozi escreveu:

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Com as pessoas amando umas as outras, o forte não faria dos fracos sua presa, a maioria não roubaria da minoria, o rico não ofenderia o pobre, o nobre não seria insolente ao humilde, e o ardiloso não enganaria o ingênuo. (Durant, 678).

Através do amor, e do compartilhamento de todas as coisas, ele dizia, a China encontraria paz e poderia superar os constantes conflitos que marcavam o mundo que conhecia.

Mencius
Mencius
Xiao Niao (CC BY-NC-ND)

Sua filosofia conquistou grande apoio popular mas foi criticada por ser muito idealista e impraticável. O filósofo Mêncio, o grande defensor e catalogador do Confucionismo, julgou o conceito de Mozi sobre o amor universal como subversivo e reivindicou que fosse censurado. Ele considerava o Moísmo como uma crença perigosa, no mesmo nível do hedonismo presente no egoísmo moral do filósofo Yang Zhu (440-360 AEC). Mêncio alegava que ambas minavam os conhecimentos e práticas tradicionais e possuíam o propósito de transformar pessoas racionais em animais selvagens. O estudioso Arthur Waley comenta:

[Mêncio] fala sobre Mozi - que ensinou que todas as pessoas devem amar umas às outras na mesma intensidade a que amam a si próprias - como alguém que 'aboliu a paternidade', apenas porque, na filosofia de Mozi, os pais perdem a posição única que eles possuem no Confucionismo. Já que Yang Zhu sustentava que cada indivíduo deveria aperfeiçoar-se espiritual e fisicamente, ao invés de sacrificar-se ao suposto bem da comunidade, Mêncio dizia que os seguidores de Yang Zhu 'aboliam a realeza', ou seja, não aceitavam qualquer tipo de autoridade de governo; assim, tanto Yang Zhu quanto Mozi desejavam reduzir a humanidade ao nível de animais selvagens. (120-121)

Na verdade, Mozi argumentava o contrário do que Mêncio alegava: ao adotar o amor universal por todas as pessoas, independentemente de sua classe social ou de sua relação com alguém, o indivíduo estaria na verdade preservando os preceitos fundamentais de um verdadeiro governo, o cuidado e proteção do povo, assim como o espírito do Confucionismo na melhoria da conduta e do caráter moral do indivíduo. A visão de Mozi mesmo assim acabava contradizendo a insistência do Confucionismo sobre a importância de ritos e de comportamento decente na criação do bom caráter, e também refutava a alegação do Taoísmo de que o indivíduo precisa apenas alinhar-se com o Tao cósmico para encontrar paz de espírito.

Conflito com Confucionismo & Taoísmo

O conceito confuciano sobre caráter, à primeira vista, parece alinhado ao consequencialismo de Mozi - o comportamento define o indivíduo -, mas a diferença significante é que Mozi diz que o comportamento do indivíduo é um reflexo de seu próprio trabalho espiritual, enquanto Confúcio afirma ser o resultado de seguir-se ritos precisos de forma específica.

Confúcio acreditava que uma conduta correta encorajava um bom caráter; se alguém se comportasse bem, em concordância com os costumes aceitos, esse alguém tornaria-se uma boa pessoa. Mozi sustentava que seguir ritos e costumes não faziam de alguém bom; o indivíduo deveria dedicar-se a trabalhar seu lado pessoal e espiritual, subjugando o interesse próprio pelo bem dos outros, para que fosse considerado uma boa pessoa.

Confucius
Confúcio
Rob Web (CC BY-NC-SA)

Mozi também discordava da visão taoísta sobre a existência de uma força cósmica, o Tao, que permeia e conecta todas as coisas. A filosofia de Mozi também parece alinhar-se a aspectos do Taoísmo, com o princípio de que há um “fluxo” natural na existência humana. Esse “fluxo”, uma vez que é entendido e reconhecido, encoraja uma relação mais pacífica e harmoniosa com o mundo, com si mesmo e com os outros. Mas, enquanto no Taoísmo esse princípio é entendido como o Tao, no Moísmo ele é o amor universal. Os efeitos de se aceitar a filosofia do amor universal são observáveis no indivíduo, dizia Mozi, mas não é possível afirmar o mesmo sobre um indivíduo agindo sob influência de uma força invisível. O estudioso John M. Koller comenta:

[Mozi] defendia que a melhoria da condição humana se daria através do cuidado pelo bem-estar imediato do povo. O lema dos moístas era “promover bem-estar geral e eliminar o mau”. O critério defendido para se medir o quanto algo é bom é a sua utilidade para alcançar a felicidade humana. Por fim, de acordo com o Moísmo, o valor é mensurável em termos dos benefícios trazidos às pessoas. Os benefícios, por sua vez, poderiam ser medidos em termos de aumento da riqueza, da população e do contentamento. (205)

Mozi afirmava que apenas através da reflexão, do autoestudo, de um comportamento que fosse verdadeiro a si mesmo e do conceito de amor universal é que o indivíduo consegue tornar-se bom; e não seguindo ritos e conformidade, e nem através da conexão com alguma “força” invisível que fluísse através da existência. Ele argumentava que aquilo que era bom para a humanidade era facilmente compreendido através de observação empírica. Pode-se reconhecer o “bem” através de seus efeitos nas pessoas, da mesma forma que se é possível entender aquilo que é “mau” por reações negativas e sofrimento.

Mozi & Espíritos

A filosofia de Mozi foi obviamente rejeitada por confucionistas e taoístas, o que não era ajudado pelo fato de que ele acreditava na existência de espíritos, que diariamente interagiam e transitavam entre os vivos (o que ia contra ao entendimento aceito de que os mortos existiam em outro plano ou que aparecessem apenas quando aflitos), mesmo que ele baseasse essa crença em fundamentos racionais. Ele ilustrava que, quando se descreve como uma máquina funciona a alguém que ainda não está familiarizado com ela, ou quando alguém retrata como as pessoas se comportam e se comunicam em uma localidade que ninguém visitou, deve-se aceitar o que é dito se o relato for crível e se quem os narra já se provou confiável no passado. Seguindo essa linha de raciocínio, deve-se aceitar o que é falado sobre espíritos se quem conta sobre eles possui reconhecida confiança em relação a outras coisas que tenha dito sobre outros assuntos.

Já que registros antigos históricos e também contemporâneos continham referências de espíritos interagindo com os vivos, eles deveriam ser aceitos como realidade da mesma forma que se reconheciam relatos históricos estabelecidos e também notícias recentes, mesmo que não se tenha vivenciado experiências com espíritos. Ele ainda dizia que, mesmo que espíritos não existissem da mesma forma do que o relatado, os rituais comuns relacionados a honrá-los, agradá-los ou proteger-se deles seriam ocasiões para “reunir nossos parentes e vizinhos e participar do prazer na comunhão dos alimentos e bebidas sagrados” (Durant, 678). Essas reuniões ofereceriam às pessoas a oportunidade de expressar o amor uns aos outros e também aos falecidos, e estreitaria os laços da comunidade.

Hungry Ghosts
Fantasmas famintos
Unknown Artist (Public Domain)

Mesmo assim, seus argumentos não foram bem-sucedidos já que a crença de que existiam espíritos que andavam, falavam e interagiam com os vivos se contradizia com a duradoura fé no culto aos ancestrais, na qual os mortos desfrutavam de uma existência separada do mundo da mortalidade e dos conflitos. Relatos de aparições nunca foram recebidos bem na China antiga, já que elas eram entendidos como os mortos estando incomodados, perturbando a ordem natural.

Conclusão

O Período dos Estados Combatentes finalizou-se com a vitória do estado de Qin sobre outros seis estados e com a ascensão do primeiro imperador da China, Shi Huangdi (r. 221-210 AEC). Seguindo a ascensão de Shi Huangdi ao poder, o imperador chinês ordenou que todos os livros que não apoiassem sua filosofia de Legalismo ou a versão da história sustentada por sua dinastia fossem queimados.

Os trabalhos de Confúcio, Mozi e de muitos outros foram queimados, porém conceitos confucianos sobreviveram através da devoção de seus seguidores e da ampla aceitação de seus preceitos, que foram restabelecidos durante a Dinastia Han. O Taoísmo também sobreviveu, já que seus princípios já haviam há muito se enraizado na cultura através de sua proximidade com o folclore e mitos.

Porém, a filosofia de Mozi - que nunca havia conquistado ampla aceitação como as duas anteriores - foi amplamente esquecida, assim como seu nome, pela época que o imperador Wu, o Grande (r. 141-87 AEC), da Dinastia Han, adotou o Confucionismo como a filosofia nacional da China. A obra de Mozi foi mais ou menos ignorada até que o Partido Comunista da China renovou o interesse nela, em meados do século 20 EC, reconhecendo-a como uma espécie de visão protocomunista. Hoje ele é reconhecido como um dos grandes filósofos da China, e seu conceito de consequencialismo é reconhecido no mesmo nível que qualquer outro sistema filosófico.

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Sobre o tradutor

Eric Azevedo
With a Bachelor's degree in Economics at University of Sao Paulo (USP, Brazil), Eric has experience on translating articles and publications, besides having a particular interest in all things related to History, Philosophy and Arts.

Sobre o autor

Joshua J. Mark
Escritor freelancer e ex-professor de Filosofia no Marist College, em Nova York. Joshua J. Mark viveu na Grécia e na Alemanha, viajou pelo Egito. Lecionou História, Redação, Literatura e Filosofia em várias universidades.

Cite este trabalho

Estilo APA

Mark, J. J. (2020, Julho 01). Mozi [Mo Ti]. (E. Azevedo, Tradutora). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11666/mozi/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Mozi." Traduzido por Eric Azevedo. World History Encyclopedia. Última modificação Julho 01, 2020. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11666/mozi/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Mozi." Traduzido por Eric Azevedo. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 01 Jul 2020. Web. 15 Mai 2022.