Antiga Mitologia Egípcia

Joshua J. Mark
por , traduzido por Pedro Lucas
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Egyptian God Osiris (by A.K., Copyright)
O Deus Egípcio Osíris A.K. (Copyright)

A mitologia egípcia era o sistema de crenças e a base cultural do Antigo Egito, presente desde pelo menos 4.000 a.C. (como evidenciado por práticas funerárias e pinturas em tumbas) até 30 a.C., com a morte de Cleópatra VII, a última governante da Dinastia Ptolomaica.

Na sociedade egípcia, todos os aspectos da vida eram influenciados pelos mitos, que narravam a criação do mundo e sua manutenção pelas mãos dos deuses. A religião egípcia impactou outras culturas por meio do comércio e tornou-se ainda mais difundida após a abertura da Rota da Seda em 130 a.C., já que Alexandria, importante porto egípcio, era um centro comercial estratégico.

Remover publicidades
Publicidade

A importância da mitologia egípcia para outras culturas estava no desenvolvimento dos conceitos de vida eterna após a morte, deuses benevolentes e reencarnação. Tanto Pitágoras quanto Platão da Grécia, teriam sido influenciados pelas crenças egípcias na reencarnação, e a cultura religiosa romana assimilou elementos do Egito tão profundamente quanto de outras civilizações.

Os egípcios entendiam a existência humana como apenas um breve segmento de uma jornada eterna, guiada e orquestrada por forças sobrenaturais - manifestada nas diversas divindades que compunham o panteão egípcio. De acordo com o historiador Bunson,

Remover publicidades
Publicidade

Heh, chamado de Huh em algumas eras, era um dos deuses originais da Ogdóade [o grupo de oito divindades cultuadas durante o Antigo Império, 2575-2134 a.C.] em Hermópolis. Ele personificava a eternidade - o objetivo e destino final de toda vida humana segundo as crenças egípcias, um estágio existencial onde os mortais alcançavam felicidade perene. (86)

Contudo, a vida terrena não era meramente um prólogo para algo maior, mas sim uma parte de toda a jornada. O conceito egípcio de vida após a morte refletia um mundo-espelho da existência terrestre (especificamente da vida no Egito), e era preciso viver bem essa vida terrena para aproveitar plenamente a jornada eterna.

A Criação do Mundo

Osíris demonstrou ser um deus sábio e justo, recebendo de Atum o governo do mundo, que então partiu para cuidar de seus próprios assuntos.

Para os egípcios, a jornada cósmica começava com a criação do mundo e do universo a partir das trevas e do caos primordial. No princípio, existia apenas uma escuridão aquática infinita, sem forma nem propósito. Neste vazio habitava Heka (deus da magia), que aguardava o momento da criação. Deste silêncio líquido (Nu) emergiu a colina primordial, conhecida como ben-ben, sobre a qual se erguia o grande deus Atum (ou, em algumas versões do mito, Ptah). Atum contemplou o vazio e reconheceu sua solidão. Então, através do poder da magia, uniu-se à própria sombra, gerando dois filhos: Shu (deus do ar, que Atum expeliu com um cuspe) e Tefnut (deusa da umidade, que Atum vomitou). Shu trouxe ao mundo primordial os princípios da vida, enquanto Tefnut estabeleceu os fundamentos da ordem.

Remover publicidades
Publicidade

Deixando seu pai no ben-ben, eles partiram para organizar o cosmos. Com o tempo, Atum, inquieto com a prolongada ausência dos filhos, removeu seu próprio olho e o mandou em sua busca. Enquanto seu olho estava ausente, Atum permaneceu sozinho no monte primordial, no coração do caos, contemplando a eternidade. Quando Shu e Tefnut retornaram trazendo consigo o olho de Atum (posteriormente associado ao Olho Udjat, o Olho de Rá ou o Olho Que Tudo Vê), o deus, transbordando de gratidão pelo retorno seguro de seus filhos, derramou lágrimas de alegria. Essas lágrimas, ao caírem sobre a terra escura e fértil do ben-ben, deram origem aos homens e mulheres.

Isis Wall Painting
Pintura de Ísis em um Muro The Yorck Project Gesellschaft für Bildarchivierung GmbH (GNU FDL)

No entanto, essas primeiras criaturas não tinham onde habitar - então Shu e Tefnut uniram-se e geraram Geb (a Terra) e Nut (o Céu). Geb e Nut, embora irmãos, apaixonaram-se profundamente e tornaram-se inseparáveis. Atum considerou inaceitável o comportamento deles e separou Nut de Geb, elevando-a para os céus. Os dois amantes podiam ver-se eternamente, mas jamais se tocar novamente. Nut, porém, já estava grávida de Geb e, no tempo devido, deu à luz Osíris, Ísis, Set, Néftis e Hórus - os cinco deuses egípcios mais reconhecidos como as primeiras divindades ou, pelo menos, as representações mais conhecidas de antigas figuras divinas. Osíris demonstrou ser um deus sábio e justo, recebendo de Atum o governo do mundo, que então partiu para cuidar de seus próprios assuntos.

Osíris & Set

Osíris governou o mundo com eficiência, co-regendo com sua irmã-esposa Ísis. Ele determinou onde as árvores cresceriam melhor e onde as águas correriam mais doces. Criou o Egito como uma terra perfeita, com o Rio Nilo provendo todas as necessidades de seu povo.

Remover publicidades
Publicidade

Em todas as coisas, agiu em conformidade com o princípio de Ma'at (a harmonia cósmica), honrando seu pai e irmãos ao manter tudo em equilíbrio perfeito. Seu irmão Set, porém, encheu-se de inveja da criação e do poder e glória de Osíris. Mandou tomar em segredo as medidas exatas do irmão e ordenou que construíssem um cofre elaborado, feito precisamente segundo essas especificações. Quando o cofre ficou pronto, Set organizou um grande banquete e convidou Osíris e outros setenta e dois convidados. No auge da festa, ele ofereceu o magnífico cofre como prêmio para quem melhor coubesse dentro dele. Osíris, é claro, encaixou-se perfeitamente. Assim que o deus adentrou o caixão, Set fechou a tampa com força e lançou-o às águas do Nilo. Proclamou então a todos que Osíris estava morto e assumiu o governo do mundo.

Egyptian Hunting in the Marshes
Egípcios caçando nos pântanos Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

Ísis recusou-se a aceitar a morte do marido e partiu em sua busca, encontrando finalmente o caixão dentro de uma árvore em Biblos. O povo da região ajudou-a de boa vontade a recuperar o caixão da árvore e, por isso, Ísis os abençoou (como mais tarde se tornaram os principais exportadores de papiro do Egito, acredita-se que este detalhe foi acrescentado por um escriba para homenagear a cidade, tão importante para o comércio dos escritores). Ela trouxe o corpo de volta ao Egito e começou a reunir ervas e preparar poções para ressuscitar Osíris, deixando sua irmã Néftis encarregada de vigiar o local onde ela escondera o corpo.

Osíris foi ressuscitado por Ísis, mas, por estar incompleto, desceu ao submundo para tornar-se o justo juiz e governante da terra dos mortos.

Enquanto isso, Set começou a temer que Ísis pudesse encontrar o corpo de Osíris e trazê-lo de volta à vida, afinal, ela era extremamente poderosa e versada nessas artes Ao perceber sua ausência, Set interrogou Néftis sobre o paradeiro de Ísis. Quando a deusa respondeu, ele percebeu que ela estava mentindo.

Remover publicidades
Publicidade

Ele conseguiu arrancar dela a localização do corpo oculto de Osíris. Ao chegar lá, ele arrombou o caixão e dilacerou o cadáver em quarenta e duas partes (embora algumas fontes citem apenas catorze). Set então espalhou os fragmentos de Osíris por todo o Egito, para que Ísis jamais pudesse encontrá-los. Satisfeito com sua obra, ele retornou ao palácio para governar.

Quando Ísis voltou e encontrou o caixão destruído e o corpo desaparecido, caiu de joelhos em desespero, inundando a terra com suas lágrimas. Néftis, consumida pela culpa por ter contado o segredo, contou a Ísis o que acontecera e ofereceu-se para ajudá-la a encontrar os pedaços de Osíris. As duas irmãs então começaram a procurar pelas partes de Osíris. Em cada local onde encontravam uma parte do corpo, as deusas realizavam um enterro cerimonial e erguiam um santuário para protegê-la de Set. Foi assim que os quarenta e dois nomos (províncias) do Egito foram estabelecidos pelas duas irmãs.

Elas conseguiram recuperar todos os membros, exceto pelo pênis, que havia sido devorado por um peixe. Ísis então moldou uma réplica do membro perdido e uniu-se ao esposo, concebendo seu filho Hórus. Embora Ísis tivesse conseguido trazer Osíris de volta à vida, sua condição incompleta o impedia de governar o mundo como antes. Assim, ele desceu para reinar no submundo, tornando-se o senhor da vida após a morte.

Remover publicidades
Publicidade
Horus Bird Statuette
Estátua de Pássaro de Hórus A.K. (Copyright)

Hórus (às vezes chamado de Hórus, o Jovem, para diferenciá-lo de Hórus, irmão de Osíris) foi criado em segredo para protegê-lo de Set. Ao atingir a idade adulta, desafiou o tio pelo direito de governar o reino que pertencera a seu pai. A batalha prolongou-se por oitenta anos, até que Hórus finalmente derrotou Set e o baniu do Egito, condenando-o a vagar pelos desertos áridos (embora existam várias versões deste mito - em algumas, Hórus e Set dividem o reino, e em outras, Set é destruído). Hórus então assumiu o trono, tendo sua mãe Ísis e sua tia Néftis como conselheiras, e a harmonia foi restaurada no reino.

A Importância da Ma'at

Embora existam diversas versões deste mito, o elemento comum a todas elas é o conceito de harmonia que é perturbada e precisa ser restaurada. O princípio de Ma'at estava no centro de toda a mitologia egípcia e cada mito, de uma forma ou de outra, baseia-se neste valor fundamental. A historiadora Jill Kamil observa: "A narrativa de histórias desempenhava um papel importante na vida dos antigos egípcios. Os feitos dos deuses e reis não foram registrados nos primeiros tempos, chegando até nós apenas através da tradição oral, que mais tarde foi incorporada à literatura"(Nardo, 52). É interessante notar que, independentemente da época em que esses relatos foram compostos, o princípio do equilíbrio de harmonia, da Ma'at, permanece como seu núcleo central.

A repulsa de Apep [Apófis], a criatura maligna semelhante a um dragão que espreitava no horizonte, era um conto popular. A cada tarde, no pôr do sol, ela tentava impedir a passagem do sol pelo submundo. Um céu claro indicava uma travessia tranquila; um pôr-do-sol vermelho-sangue revelava uma batalha feroz entre as forças do bem e do mal, mas o sol sempre saía vitorioso, garantindo um novo amanhecer. [Os egípcios] narravam como a vegetação que morria na colheita renascia quando o grão brotava, assim como o deus-sol "morria" a cada tarde e renascia na manhã seguinte. (Nardo, 53-54)

Tudo no universo mantinha-se em equilíbrio constante, sem fim, e como os humanos eram parte desse cosmos, também participavam desta harmonia eterna. A Ma'at era possibilitada pela força primordial que existia antes da criação e tornava a vida possível: a heka. A Heka permitia aos deuses cumprirem seus deveres, sustentava toda a vida e personificava-se no deus Heka, que também possibilitava à alma transitar da existência terrena para o além-vida.

Remover publicidades
Publicidade
Shabti Dolls
Shabtis (Estatuetas Funerárias Egípcias) koopmanrob (CC BY-SA)

Quando a alma deixava o corpo na morte, acreditava-se que ela comparecia no Salão da Verdade perante Osíris para o julgamento. O coração do falecido era pesado numa balança de ouro contra a pena branca de Ma'at. Se o coração fosse mais leve que a pena, a alma poderia seguir para o Campo de Juncos, o local de purificação e bênção eterna. Se o coração fosse mais pesado, ele era lançado ao chão, onde seria devorado pelo monstro Ammit (o Devorador), e a alma deixaria de existir.

Embora existisse o conceito de submundo, não havia um "inferno" como entendido pelas religiões monoteístas modernas. Como explica Bunson: "Os egípcios temiam a escuridão eterna e a inconsciência no além-vida, pois ambas as condições negavam a ordem cósmica de luz e movimento evidente no universo" (86). A existência, como parte da jornada cósmica iniciada por Atum e o Ben-Ben, representava o estado natural da alma. Para um egípcio antigo, o verdadeiro terror não era um submundo de tormentos, mas a perspectiva de ser eternamente excluído dessa jornada, a não-existência era infinitamente mais aterradora que qualquer sofrimento, pois mesmo em uma terra de dor perpétua, ao menos se continuava a existir.

Embora tenha surgido no Egito um conceito de submundo semelhante ao inferno cristão, ele nunca foi universalmente aceito. Como observa Bunson: "A eternidade era o destino comum de todo homem, mulher e criança no Egito. Essa crença permeava a visão de mundo do povo... e dava a eles uma certa exuberância vital sem paralelo no mundo antigo" (87). A mitologia dos antigos egípcios refletia essa alegria de viver e inspirou os grandiosos templos e monumentos que hoje compõem o seu legado. A admiração duradoura pela mitologia egípcia e pela cultura que ela moldou é um testemunho do poder da mensagem afirmadora da vida inerente a esses antigos relatos.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Pedro Lucas
Tradutor bilingue (inglês-português) com formação acadêmica em Línguas e Literaturas: Português, Inglês e suas respectivas literaturas. Apaixonado pela literatura e pela língua inglesa, com um forte interesse na relação entre língua, cultura e tradução.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, agosto 18). Antiga Mitologia Egípcia. (P. Lucas, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10650/antiga-mitologia-egipcia/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Antiga Mitologia Egípcia." Traduzido por Pedro Lucas. World History Encyclopedia, agosto 18, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10650/antiga-mitologia-egipcia/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Antiga Mitologia Egípcia." Traduzido por Pedro Lucas. World History Encyclopedia, 18 ago 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10650/antiga-mitologia-egipcia/.

Remover publicidades