Enheduanna

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Cuneiform Writing (by Jan van der Crabben, CC BY-NC-SA)
Escrita Cuneiforme Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

A poetisa acádia Enheduanna (2285-2250 a.C.) é a primeira autora conhecida pelo nome e era filha de Sargão da Acádia (Sargão, o Grande, 2334-2279 a.C.). Contudo, não se sabe se Enheduanna era, de fato, parente consanguínea de Sargão ou se o título era figurativo.

No entanto, é claro que Sargão confiava imensamente em Enheduanna, ao elevá-la à posição de alta sacerdotisa do templo mais importante da Suméria (na cidade de Ur) e deixar a seu cargo a responsabilidade de fundir os deuses sumérios com os acádios de forma a criar a estabilidade necessária para que o seu império prosperasse.

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Além disso, pensasse que ela foi a responsável por ter criado os paradigmas da poesia, dos salmos e das orações usados em todo o mundo antigo, o que levou ao desenvolvimento dos géneros reconhecidos nos dias atuais. O estudioso Paul Kriwaczek escreve:

As suas composições, embora só tenham sido redescobertas nos tempos modernos, permaneceram como modelos de orações de súplica por [séculos]. Por via dos babilónios, elas influenciaram e inspiraram as orações e os salmos da Bíblia Hebraica e os hinos homéricos da Grécia. Por via deles, ecos distantes de Enheduanna, a primeira autora literária nomeada na história, podem até ser ouvidos nos hinos da igreja cristã primitiva. (pág. 121)

A sua influência durante o seu curso de vida foi tão impressionante quanto o seu legado literário. Confiada por seu pai com grande responsabilidade, Enheduanna não apenas superou as expectativas, mas mudou toda a cultura. Por meio das obras escritas, ela alterou a própria natureza dos deuses mesopotâmicos e a percepção que as pessoas tinham do divino.

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Vida

O nome de Enheduanna pode ser traduzido como "Sumo Sacerdotisa de An" (o deus do céu) ou "Sacerdotisa En, esposa do deus Nanna". Originária da cidade de Acádia, no norte, e, como observa Kriwaczek, "teria um nome de nascimento semítico [mas], ao mudar-se para Ur, o coração da cultura suméria, assumiu um título oficial sumério: Enheduanna — 'En' (sacerdote ou sacerdotisa chefe); 'hedu' (ornamento); 'Ana' (do céu)" (pág. 120).

Organizou e presidiu o complexo de templos da cidade, o coração da cidade, e resistiu a uma tentativa de golpe por um rebelde sumério chamado Lugal-Ane, que a forçou ao exílio. O Império Acádio, apesar de toda a riqueza e estabilidade que trouxe à região, era constantemente atormentado por revoltas nas várias regiões sob seu controlo. Uma das responsabilidades de Enheduanna na região da Suméria teria sido manter a população sob controlo por meio da religião.

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os Seus hinos redefiniram os deuses para o povo do Império Acádio sob o governo de Sargão e ajudaram a proporcionar a homogeneidade religiosa subjacente almejada pelo rei.

No caso de Lugal-Ane, no entanto, ela parece ter sido derrotada, pelo menos inicialmente. No seu poema A Exaltação de Inanna, conta a história de ter sido expulsa do seu cargo de alta sacerdotisa e enviada para o exílio. Escreve um pedido de ajuda à deusa Inanna, solicitando que interceda por si perante o deus An:

Ofertas fúnebres foram trazidas, como se eu nunca tivesse vivido ali.

Aproximei-me da luz, mas a luz queimou-me.

Aproximei-me da sombra, mas fui coberta por uma tempestade.

Minha boca melosa ficou coberta de escória. Conte a An sobre Lugal-Ane e meu destino!

Que An o desfaça por mim! Assim que contares a An sobre isso, An libertar-me-á. (linhas 67-76)

Inanna aparentemente ouviu a oração e, por meio da intercessão divina, Enheduanna foi finalmente restaurada ao seu devido lugar no templo. Ela parece ter sido a primeira mulher a ocupar a posição em Ur e o seu comportamento como alta sacerdotisa teria servido como um modelo exemplar para aqueles que a seguiram.

Obras

As suas obras mais conhecidas são: Inninsagurra, Ninmesarra e Inninmehusa, que se traduzem como "A Amante de Grande Coração", "A Exaltação de Inanna" e "Deusa dos Poderes Temíveis", todos os três hinos poderosos à deusa Inanna (mais tarde identificada com deusas como a acádia/assíria Ishtar, a hitita Sauska, a grega Afrodite e a fenícia Astarte, entre outras). Estes hinos redefiniram os deuses para o povo do Império Acádio sob o domínio de Sargão e ajudaram a proporcionar a homogeneidade religiosa subjacente almejada pelo rei. Por mais de quarenta anos, Enheduanna ocupou o cargo de alta sacerdotisa, sobrevivendo até mesmo à tentativa de golpe contra a sua autoridade por Lugal-Ane.

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Além dos hinos, Enheduanna é lembrada pelos 42 poemas que escreveu refletindo as frustrações e as esperanças pessoais; a devoção religiosa; a sua resposta à guerra e os sentimentos sobre o mundo em que vivia. A sua escrita é pessoal e direta e, como observa o historiador Stephen Bertman:

Os hinos fornecem-nos os nomes das principais divindades que os mesopotâmios adoravam e dizem-nos onde se localizam os seus principais templos [mas] são as orações que nos ensinam sobre a humanidade, pois nelas encontramos as esperanças e os medos da vida mortal quotidiana. (pág. 172)

As orações de Enheduanna expressam honestamente as esperanças e os medos, e o fazem com a sua voz muito distinta. Paul Kriwaczek pinta um quadro da poeta trabalhando:

Sentada no seu quarto, ou talvez no seu escritório, pois a diretora de um templo tão grande e prestigiado como o templo de Nanna, em Ur, certamente tinha as melhores condições de trabalho, com o cabelo lindamente penteado por Ilum Palilis [seu cabeleireiro] e sua equipa, ditando para o seu escriba, talvez o próprio Sagadu, cujo selo Wooley encontrou, Enheduanna passou a deixar a sua marca permanente na história ao compor, em seu próprio nome, uma extraordinária série de mais de quarenta obras litúrgicas, que foram copiadas e recopiadas por quase 2.000 anos. (pág. 121)

Além da habilidade e beleza das obras, foi profundo o seu impacto na teologia mesopotâmica. Enheduanna aproximou os deuses do povo da terra, sintetizando as crenças sumérias e acádicas, para criar uma compreensão mais rica do que qualquer uma delas tinha antes. As reflexões de Enheduanna sobre o deus da lua Nanna, por exemplo, tornaram-no uma personagem mais profunda e simpática, e ela elevou Inanna de uma divindade vegetal local à todo-poderosa Rainha do Céu. Estas duas divindades, e as outras que ela transformou através do seu trabalho, pareciam mais compassivas do que antes; deuses para todo o povo e não apenas para os sumérios ou acádios.

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Parte do encanto do trabalho de Enheduanna é a sua sensualidade aberta e devoção ardente. Em A Amante de Grande Coração (também traduzido por vezes simplesmente como Um Hino a Inanna), a poeta escreve:

É magnífica, seu nome é louvado, só em si é magnífica!

Minha senhora... eu sou seu! Sempre será assim! Que seu coração se acalme por mim!

...

A Sua divindade é resplandecente na Terra! O meu corpo experimentou o seu grande castigo.

Lamento, amargura, insónia, angústia, separação... misericórdia, compaixão, cuidado,

Indulgência e homenagem são suas, e causar inundações, abrir o solo duro e transformar

a escuridão em luz. (linhas 218, 244-253)

Noutra parte do poema (linhas 115-131), Enheduanna elogia Inanna pelos seus dons de desejo e excitação e observa como ela tem o poder de "transformar um homem em mulher e uma mulher em homem" (linha 121), uma possível referência à androginia do clero e dos seguidores do culto de Inanna. Os templos de Inanna e os rituais associados eram administrados por clérigos de ambos os sexos, e os devotos eram conhecidos pelo hábito de se vestirem com roupas do sexo oposto, misturando, obscurecendo ou eliminando a distinção entre masculino e feminino em busca da transcendência através de Inanna.

A própria Enhuduanna alude a esta mesma experiência em todas as suas obras, em versos numerosos demais para citar, implorando à deusa que a leve, que seja una com ela, que a destrua e a salve. Estes mesmos sentimentos seriam posteriormente expressos nos salmos da Bíblia, embora geralmente com muito menos sensualidade. O poema bíblico Cântico dos Cânticos é o que mais se aproxima da paixão dos hinos de Enheduanna.

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Controvérsia

Embora não haja dúvidas de que existiu uma mulher chamada Enheduanna e foi uma alta sacerdotisa em Ur, contudo, alguns estudiosos questionam se ela pode ser considerada a autora dos hinos que levam o seu nome. O estudioso Jeremy Black, por exemplo, afirma que, embora haja evidências suficientes para estabelecer a sua historicidade, não há nenhuma que sugira que ela escreveu a poesia pela qual é famosa. Black observa:

Na melhor das hipóteses, podemos dizer que Enheduana tinha um escriba, conhecido por nós pelo seu selo cilíndrico, e que é possível, até provável, que os hinos tenham sido compostos em seu nome... Na pior das hipóteses, deve-se salientar que todas as fontes manuscritas são do segundo milénio a.C., principalmente do século XVIII, cerca de seis séculos depois de ela ter vivido. (pág. 316)

A objeção à autoria de Enheduanna foi contestada com base no fato de que a poetisa se nomeia em várias das suas obras — em The Great-Hearted Mistress, na linha 219, e em The Exaltation of Inanna, nas linhas 66 e 81 — para estabelecer a sua autoria. Escritores posteriores atribuíram-lhe a poesia e, como observa Paul Kriwaczek:

Enheduanna deixou a sua marca permanente na história ao compor, em seu próprio nome, uma série de mais de quarenta obras litúrgicas extraordinárias, que foram copiadas e recopiadas por quase 2.000 anos. (pág. 121)

Ignorar as evidências textuais e históricas da sua autoria com base no argumento de que é "mais provável" que os poemas tenham sido escritos por um escriba do sexo masculino é insustentável. Parece muito mais provável que o selo cilíndrico do seu escriba tenha sido usado em documentos para autenticá-los como provenientes do seu escritório — um uso comum do selo cilíndrico — e não argumenta a favor da autoria do escriba das obras de Enheduanna.

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Conclusão

Em 1927, o arqueólogo britânico Sir Leonard Woolley encontrou o agora famoso disco de calcita de Enhuduanna nas suas escavações no sítio sumério de Ur. As três inscrições no disco identificam as quatro figuras retratadas: Enheduanna, o seu administrador de propriedades Adda, o seu cabeleireiro Ilum Palilis e o seu escriba Sagadu.

A inscrição real no disco diz: "Enheduanna, sacerdotisa zirru, esposa do deus Nanna, filha de Sargão, rei do mundo, no templo da deusa Innana". A figura de Enheduanna está colocada em destaque no disco, enfatizando a sua importância em relação aos outros e, além disso, a sua posição de grande poder e influência na cultura da época.

Wooley também descobriu o complexo do templo onde as sacerdotisas foram enterradas num cemitério especial. Kriwaczek escreve:

Os registros sugerem que as oferendas continuaram a ser feitas as sacerdotisas mortas. O fato de um dos artefatos mais impressionantes, prova física da existência de Enheduanna, ter sido encontrado numa camada datável de muitos séculos após a sua vida, torna provável que ela em particular tenha sido lembrada e honrada muito tempo após a queda da dinastia que a havia nomeado para a administração do templo. (pág. 120)

Outra prova do seu profundo impacto na cultura é que ela ainda é lembrada e honrada nos dias atuais, e ainda são compostos poemas seguindo o modelo que ela criou há mais de 4.000 anos.

Nota do autor: Agradecimentos sinceros à leitora Elizabeth Viverito pelas suas percepções sobre a obra de Enheduanna.

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Perguntas & Respostas

Quem é Enheduanna e o que fez?

Enheduanna é a primeira autora do mundo conhecida pelo nome e foi uma influente poetisa acádia. É-lhe atribuída a criação dos paradigmas da poesia, dos salmos e das orações utilizados em todo o mundo antigo, o que levou ao desenvolvimento dos géneros reconhecidos nos dias de hoje.

Porque é que Enheduanna é famosa?

Enheduanna é famosa por ser a primeira autora conhecida do mundo e uma influente poetisa acádia. Filha de Sargão da Acádia, ela era a alta sacerdotisa do templo mais importante da Suméria, na cidade de Ur.

Porque é que Enheduanna era tão importante?

Enheduanna é a primeira autora do mundo conhecida pelo nome e foi uma influente poetisa acádia. Como alta sacerdotisa, os seus escritos eram religiosos. Ela parece ter sido a primeira mulher a ocupar essa posição em Ur e o seu comportamento como alta sacerdotisa teria servido de modelo exemplar para aqueles que a seguiram.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, dezembro 26). Enheduanna. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10021/enheduanna/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Enheduanna." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, dezembro 26, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10021/enheduanna/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Enheduanna." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10021/enheduanna/.

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