Inácio de Antioquia e a sua 'Carta aos Efésios'

John S. Knox
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Para muitas pessoas, as origens da igreja cristã estão envoltas em obscuridade para além das narrativas bíblicas relativas a Jesus Cristo e aos seus seguidores judeus. Contudo, após a crucificação de Jesus e o trabalho missionário inicial através do Mediterrâneo por parte de discípulos e apóstolos como São Pedro, São Paulo, São Tiago e São João, outros homens e mulheres influentes difundiram a boa nova de Jesus Cristo através do cultivo e do desenvolvimento eclesiológico.

Ignatius of Antioch
Inácio de Antioquia Fr Lawrence Lew, O.P. (CC BY-NC-ND)

Um dos antigos líderes da igreja foi Inácio de Antioquia (35–108 d.C.), um discípulo do Apóstolo João, bispo de Antioquia, o autoproclamado "portador de Deus" (Gonzalez, pág. 51) e um futuro mártir pela fé. Embora se saiba pouco sobre as acusações pelas quais foi condenado, a caminho de Roma para a sua execução, "Vários cristãos daquela zona vieram vê-lo. Inácio pôde vê-los e conversar com eles. Tinha inclusive consigo um amanuense cristão [um assistente literário] que escreveu as cartas que ditava." (Idem, 52)

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A Carta aos Efésios

Felizmente, para aqueles que esperam aprender mais sobre o cristianismo primitivo, Inácio conseguiu escrever pelo menos sete cartas durante este período, que foram posteriormente compiladas com outros escritos apostólicos, tais como I & II Clemente, A Carta de Policarpo aos Filipenses e A Didaquê. De facto, Lightfoot e Harmer elogiam as cartas de Inácio "devido à luz sem paralelo que lançam sobre a história da igreja nesta época e ao que revelam sobre a personalidade notável do autor" (pág. 79). Elas mostram os ambientes e as atitudes culturais dentro e fora das comunidades cristãs antigas e revelam como os líderes do cristianismo responderam tanto às perseguições civis quanto aos ataques heréticos contra a igreja e a si mesmos, pessoalmente.

Na Carta aos Efésios, Inácio promove e defende especificamente uma estrutura hierárquica estrita, mas benevolente, dentro da igreja.

Uma destas obras, a Carta aos Efésios de Inácio, escrita entre 107 e 110, transmite à igreja em Éfeso (e a futuros leitores) as exortações, admoestações e orientações de Inácio relativamente à relação dos paroquianos com Cristo, com os restantes membros da igreja e com os não-crentes. Como afirma Trebilco, "Inácio prevê que o bispo tenha um controlo muito amplo e generalizado sobre a vida da comunidade" (pág. 663). Para o efeito, Inácio promove e defende especificamente na Carta aos Efésios uma estrutura hierárquica estrita, mas benevolente, dentro da igreja.

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A Hierarquia da Igreja

No que respeita à infraestrutura da igreja, Inácio favorece claramente uma situação em que o bispo detém o mais alto grau de autoridade terrena na comunidade, seguido pelos presbíteros ou diáconos e, por fim, pelos membros da congregação. Inácio afirma: "É evidente, pois, que devemos olhar para o bispo como o próprio Senhor" (Lightfoot, pág. 88). E acrescenta: "É conveniente, portanto, de todas as maneiras, glorificar a Jesus Cristo, que vos glorificou, para que sejais tornados perfeitos numa única obediência ao bispo e ao presbitério e sejais santificados em todos os aspetos." (Idem, pág. 87)

Inácio considerava que todas as igrejas e os seus rebanhos eram representativos da relação de submissão de Jesus para com Deus e da atitude sacrificial de Jesus para com os seus seguidores. Assim, Inácio encorajou a igreja em Éfeso a estar "afinada com o bispo como as cordas a uma lira" (Ibid.) e a "obedecer ao bispo e ao presbitério com mente imperturbada" (Ibid., pág. 93). Os líderes espirituais na igreja foram estabelecidos por nomeação divina; portanto, as congregações saudáveis devem viver em humilde sujeição ao bispo, facilitando a perfeita harmonia dentro da igreja.

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Não sendo estranho às corruptas instituições romanas e judaicas, Inácio não ignorava os perigos de um sistema hierárquico. Embora as perseguições aos cristãos tenham sido intermitentes nos primeiros três séculos, muitos seguidores de Jesus foram martirizados sob os reinados tirânicos de imperadores como Nero, Domiciano e Trajano, que usavam as perseguições para estabilizar os seus impérios (e para desviar as atenções das suas próprias falhas de liderança). Como observa Galli,

Desde os anos 30 d.C. a 311, período em que 54 imperadores governaram o Império, apenas cerca de uma dúzia se deu ao trabalho de hostilizar os cristãos. Além disso, só com Décio (249–251) é que algum tentou deliberadamente uma perseguição a nível imperial. Até então, a perseguição vinha principalmente por instigação de governantes locais, ainda que com a aprovação de Roma. Não obstante, alguns imperadores tiveram contactos diretos e, para os cristãos, desagradáveis com esta fé.

(pág. 20)

A Submissão Fiel

Tendo já observado e experimentado esta perseguição direta, Inácio sustentava que a estrutura de poder dentro do corpo da igreja não devia existir por razões políticas; em vez disso, os membros da igreja deviam coexistir em união irrepreensível para que a igreja "possa participar sempre de Deus" (Lightfoot, 87). Para a igreja primitiva, todos os seres humanos (independentemente da raça ou do género) eram irmãos e irmãs sob a autoridade de Deus, sendo Jesus Cristo o seu único Senhor e Rei. A submissão devia, portanto, produzir uma família de fé amigável — e não uma prisão de oprimidos.

Ignatius of Antioch in the Arena
Inácio de Antioquia na Arena Jan Luyken (Public Domain)

Inácio sugeriu que, se o rebanho seguisse fielmente o bispo e vivesse em paz uns com os outros, a igreja "possa cantar a uma só voz por Jesus Christo ao Pai, para que ele vos ouça e vos reconheça, através do que fazeis bem, como membros do seu Filho" (Idem). Inácio continuou escrevendo: "Quando vos juntais frequentemente, os poderes de Satanás são destruídos e a sua força destrutiva é aniquilada pela concórdia da vossa fé" (Ibid., pág. 90). Assim, a estrutura hierárquica não servia apenas para gerir eficientemente a igreja; tinha a função mais importante de promover os laços comunitários internos e de cultivar uma força maior para difundir a boa nova de Deus ao mundo.

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Além disso, visto que o amor perfeito a Deus e ao próximo devia ser a marca distintiva de um seguidor de Cristo, Inácio alertou contra qualquer coisa que impedisse as verdades de Deus, especialmente os falsos ensinamentos e as afirmações gnósticas que tinham começado a infiltrar-se em alguns círculos cristãos. Ele escreve:

Pois há alguns que, com maliciosa astúcia, se habituaram a portar o Nome, mas comportam-se de maneiras indignas de Deus. Deveis evitá-los como a feras, pois são cães raivosos que mordem em segredo; deveis estar de sobreaviso contra eles, pois são praticamente incuráveis.

(Ibid., pág. 88)

Tais falsos ensinamentos e doutrinas incorretas conduziam apenas a uma rutura na unidade da igreja e, pior ainda, a uma rutura na relação dos paroquianos com Deus.

O Legado

A incumbência de Inácio de Antioquia para a Igreja cristã primitiva era de natureza produtiva e protetora. Para este importante Pai Apostólico, o objetivo último da igreja era alcançar o mundo para Cristo. Os líderes piedosos (como o bispo em Éfeso) criavam seguidores piedosos que seguiam os preceitos bíblicos do verdadeiro cristianismo e evitavam falsos ensinamentos mundanos que conduziam apenas à destruição e à divisão. Com isto em mente, Inácio afirma: "Orai continuamente também pelo resto da humanidade, para que encontrem a Deus, pois neles há esperança de arrependimento" (Ibid., pág. 89).

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Em última análise, para Inácio, o cumprimento deste mandamento divino (cf. Mateus 25) começava e ancorava-se na submissão e na unidade para com Deus, os líderes da igreja e todos os seguidores cristãos.

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Knox, J. S. (2026, setembro 03). Inácio de Antioquia e a sua 'Carta aos Efésios'. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-921/inacio-de-antioquia-e-a-sua-carta-aos-efesios/

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Knox, John S.. "Inácio de Antioquia e a sua 'Carta aos Efésios'." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 03, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-921/inacio-de-antioquia-e-a-sua-carta-aos-efesios/.

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