A Canção do Arrependimento Eterno é um poema narrativo da Dinastia Tang (618–907 d.C.) inspirado no romance de Xuanzong (reinou 712–756), o sétimo imperador da dinastia, e sua consorte, a Dama Yang. Foi escrito pelo poeta chinês Bai Juyi (772–846) e é a obra mais famosa dele.
O poema fez sucesso logo após ser publicado por Bai em 806 d.C. e, desde então, é memorizado com frequência por estudantes chineses. Embora seja uma versão romantizada do caso real de Xuanzong com a Dama Yang, o poema se passa muitos anos antes, na Dinastia Han (202 a.C. a 220 d.C.). Bai Juyi é conhecido por seus poemas extremamente românticos que utilizam imagens vívidas, mas bastante simplificadas. O desejo dele era que todos pudessem desfrutar de suas obras sem terem dificuldade de entender o significado.
Bai Juyi escreveu mais de 2.800 poemas de diferentes temas que até hoje são muito lidos na China, além de também serem populares no Japão. A Canção do Arrependimento Eterno, também conhecida como Canção do Remorso Eterno, se tornou sua criação mais popular devido aos temas que aborda: amor romântico profundo, perda e a ideia de um amor que transcende a morte.
A História Real
Xuanzong é considerado um dos melhores monarcas da história da China por suas medidas iniciais. Ele seguiu o exemplo de seus dois predecessores, Taizong (reinou 626–649) e a imperatriz Wu Zetian (reinou 690–704), na reestruturação das leis, na simplificação de processos burocráticos e na melhoria das condições de vida da população. No começo do reinado de Xuanzong, a China alcançou uma riqueza e prosperidade sem precedentes, se tornando o país mais rico do mundo naquela época.
Mas, por volta de 734, Xuanzong se cansou de suas responsabilidades e passou a contar mais com a esposa para tomar decisões. Ela sugeriu que ele nomeasse um amigo da família chamado Li-Linfu como chanceler. Quando a esposa morreu, Xuanzong passou a se afastar das questões públicas e a confiar cada vez mais a administração do governo a Li-Linfu. Ele mandou levar mais de 3.000 belas jovens para o palácio a fim de entretê-lo e as manteve lá contra a vontade delas.
Mesmo com todas aquelas mulheres sob seu controle, Xuanzong continuou infeliz até que, em 741, ele se apaixonou por Yang Guifei, a jovem esposa de seu filho. Xuanzong fez com que Yang se mudasse para o palácio com as outras mulheres, mas só ficava com ela. Ela abandonou o marido e passou a ser a consorte do imperador. Ele negligenciou seus deveres como imperador devido a esse romance e concordava com tudo que a Dama Yang pedia. Ela começou com pedidos simples, que ele acatava, então os pedidos se tornaram cada vez mais incisivos até que ela fez com que Xuanzong promovesse os membros da família dela a cargos importantes, mesmo que esses parentes não fossem adequados para a posição.
Todas as mudanças e avanços importantes que Xuanzong havia feito começaram a ruir conforme os membros da família Yang abusavam de seus cargos e negligenciavam suas obrigações. Ao mesmo tempo, a política de incorporar estrangeiros ao exército (que começou com as reformas militares de Xuanzong) acabou promovendo algumas dessas pessoas a cargos importantes de comando. Li-Linfu aproveitou a situação para colocar homens leais a ele no comando do exército e, enquanto isso, também aceitava subornos da família Yang para nomeá-los a cargos burocráticos confortáveis. A antiga prosperidade do país começou a entrar em declínio à medida que as autoridades passavam mais tempo se divertindo do que cumprindo seus deveres.
Um general meio sogdiano e meio turco chamado An Lushan, que era amigo da Dama Yang, viu os abusos da família Yang como um sinal de que Xuanzong já não estava mais apto a governar. An Lushan comandava as melhores tropas do exército chinês e sentia que tinha o dever de agir e liderar os soldados para restabelecer um governo adequado. Dessa forma, em 755 d.C, ele organizou uma rebelião contra a Dinastia Tang. An Lushan depôs Xuanzong e declarou a si mesmo como imperador. Ele foi confrontado pelas forças da Dinastia Tang e a rebelião foi detida, mas não sem dar início a algo que não poderia ser impedido. O país ficaria devastado de 755 a 763, e cerca de 36 milhões de pessoas morreriam.
Em 755, Xuanzong deixou a capital com a Dama Yang e a família dela. Os militares da escolta que os acompanhavam culparam Yang por todos os problemas e assassinaram a família da mulher durante a viagem. Então, os comandantes do exército exigiram que a Dama Yang também fosse executada. Xuanzong resistiu, mas os soldados não cederam, e ele não teve escolha a não ser aceitar. Ele admitiu que se deixou levar por seus desejos, negligenciando os deveres, e permitiu que a Dama Yang fosse estrangulada.
Xuanzong não queria mais governar e estava deprimido com a morte da Dama Yang. Ele abdicou para dar lugar ao filho Suzong (reinou 756–762) e se afastou da vida em público. Suzong liderou o exército da Dinastia Tang, mas não conseguiu derrotar An Lushan independentemente do quanto tentasse. Suzong e Xuanzong morreram de doença com duas semanas de diferença entre si, em 762, e Daizong (reinou 762–779) assumiu o trono, enfim restaurando a ordem.
A História no Poema
No poema, um imperador da Dinastia Han se apaixona por uma bela jovem que desconhece o mundo. O poema conta que ela foi criada nas câmaras internas, escondida de todos. Ela era tão linda que se virasse o rosto e sorrisse, lançaria um poderoso feitiço e as beldades dos Seis Palácios desapareceriam no nada. O imperador a escolheu como concubina e ficou tão encantado por ela que se esqueceu dos deveres que tinha. O poema diz que o imperador negligenciou o mundo a partir de então.
Os dois amantes aproveitaram cada minuto que puderam passar juntos até uma guerra começar e o imperador ter que liderar as tropas para a batalha. Ele não podia deixá-la sozinha, então a levou para a guerra com ele. Os homens perceberam que o imperador estava distraído e que seriam derrotados e mortos a menos que seu líder voltasse a reciciocinar com clareza. Eles exigiram que a mulher morresse e o imperador não teve escolha a não ser concordar. Após a morte dela, o imperador voltou a se concentrar e liderou o exército para a vitória. Em seguida, ele retornou para o palácio, onde refletiu sobre todos os momentos felizes que teve com a amada e remoeu sua ausência.
O imperador mandou um monge taoísta contatar a terra dos mortos para poder falar com a amada mais uma vez. O poema descreve o taoísta procurando por ela em todos os lugares e enfim a despertando de seu sono em uma ilha mágica no pós-vida. Mas ela seguiu em frente e já não tem mais nenhum envolvimento com os desejos do mundo mortal. O poema diz que ao virar o rosto para olhar em direção à terra, ela via apenas névoa e nuvens de poeira.
Ela agradeceu ao mensageiro do imperador por ter ido até lá e pediu que ele entregasse uma mensagem; ela então quebrou seu grampo dourado ao meio e deu uma parte ao taoísta junto a um pedaço de uma caixa de laca. O espírito da dama pediu ao mensageiro que levasse aqueles presentes ao imperador e dissesse a ele que ela ainda o amava e que, assim como aqueles fragmentos preciosos, as almas deles foram feitas uma para a outra e se reencontrariam em algum momento, seja na terra ou nos céus.
Ela referenciou o mito de Niu Lang e Zhi Nu, o deus e a deusa do amor, que só podem se encontrar no céu noturno na sétima noite do sétimo mês de cada ano (representados pela estrela Vega, que é Zhi Nu, e pela estrela Altair, Niu Lang, que ficam em lados opostos da Via Láctea, exceto uma vez por ano, na sétima noite do sétimo mês). O poema encerra com os versos: “Mesmo os céus e a terra um dia terão um fim. Mas o arrependimento de nossa separação será eterno.”
A Importância do Poema
Os dois poetas mais famosos da Dinastia Tang foram Li Po (701–762) e Du Fu (712–770), ambos elogiados pela utilização de imagens vívidas e alusões inteligentes ao retratar momentos do cotidiano. Xuanzong foi o taoísta que decretou o taoísmo como religião nacional, mas os princípios confucionistas de decoro ainda regiam o comportamento e as atitudes das pessoas, e era esperado que a arte refletisse tais princípios, coisa que os poetas faziam.
Esperava-se que a poesia retratasse a realidade, mesmo que com exageros ou detalhes que não fossem totalmente verdadeiros. Li Po, por exemplo, escreveu um poema sobre uma festa em que o narrador elogia “uma bebedeira de pelo menos trezentas doses” e diz “tudo que quero é ficar bêbado para sempre, sóbrio jamais”. Esses versos não refletem os valores confucionistas, ainda assim, Li Po foi elogiado, pois o poema retratava com precisão as atitudes de uma pessoa bebendo em uma festa.
A Canção do Arrependimento Eterno aborda temas com os quais as pessoas sempre se identificarão, como amor, sacrifício, morte e esperança de que um dia se reunirão com aqueles que perderam.
A poesia de Bai Juyi era criticada com frequência por ser considerada imprópria e por não refletir a realidade nem os valores confucionistas. Suas obras eram vistas como inferiores por ter conteúdo e imagens mais acessíveis do que as de poetas como Li Po ou Du Fu.
A Canção do Arrependimento Eterno foi particularmente criticada pelos eruditos confucionistas por distorcer a ideia das pessoas do que de fato aconteceu com a Dama Yang e o que levou à morte dela. Críticos literários condenaram a sensualidade e o romantismo do poema e alegaram que Bai estava baixando o nível da própria arte ao escrever para as massas.
Porém, o povo amou o poema e ele se tornou um sucesso de vendas quando Bai o publicou. Os fãs do trabalho de Bai não se importavam com o julgamento dos eruditos ou dos críticos, eles apenas se emocionavam com a beleza dos versos e com aquela trágica história de amor. Isso elevou a Dama Yang de seu papel na história como a mulher que derrubou a Dinastia Tang para a jovem que se deixou sacrificar em prol do bem maior do país. O final do poema, quando ela fala com o mensageiro no pós-vida, ofereceu consolo àqueles que perderam pessoas queridas, o que deixava a obra muito cativante.
O poema também elevou a Dama Yang a um patamar mítico como uma das Quatro Beldades da China. As Quatro Beldades são quatro mulheres cujas ações afetaram drasticamente o destino da nação. Elas são: Xi Shi do Período da Primavera e do Outono; Wang Zhaojun da Dinastia Han; Diaochan, uma personagem fictícia do livro “Romance dos Três Reinos”; e Yang Guifei. Algumas listas incluem uma Quinta Beldade, a Consorte Yu (também conhecida como Dama Yu), famosa por ter sido a concubina de Xiang-Yu e por ter se sacrificado pelo amado em 202 a.C., na Batalha de Gaixia. Outras listas substituem Diaochan pela Consorte Yu.
O tema da bela mulher que morre para salvar o amado ou que arruína um homem em ascensão (ou, frequentemente, os dois) era muito popular na China Antiga, e continua sendo até os dias de hoje. A versão de Bai Juyi da morte da Dama Yang e do luto de Xuanzong provavelmente serviu de inspiração para muitas pessoas escreverem histórias semelhantes, mas a obra mais conhecida que se inspira no poema de Bai é “O Conto de Genji”, de Murasaki Shikibu, um clássico da literatura japonesa publicado em 1008 d.C. que ainda é muito lido atualmente. Não é de se surpreender, visto que a Canção do Arrependimento Eterno aborda temas com os quais as pessoas sempre se identificarão, como amor, sacrifício, morte e esperança de que um dia se reunirão com aqueles que perderam.
O Poema Completo
Segue o poema completo de Bai Juyi, traduzido para o português a partir da adaptação de DW Draffin:
Um certo Imperador da Dinastia Han
amava o amor mais que a vida
e desejava uma mulher tão linda
que o fizesse esquecer da corte e de todos os seus deveres.
O império poderia colapsar e Ele não se importaria.Por anos governou o império
buscando aquela que nunca encontrava.
Mas uma jovem da casa Yang
a maioridade chegava.
Criada nas câmaras femininas,
ela permaneceu escondida do mundo.
Com graça e elegância naturais,
sua beleza fascinava.
Chegou o dia em que foi selecionada
para servir Sua Majestade.
E o coração gélido e solitário Dele com um doce sorriso derreteu.
Damas de companhia dos seis palácios
e seus rostos vazios polvilhados não se comparavam.As gentis águas termais
banhavam sua pele pálida.
Tão frágil e delicada
que as servas precisavam a tirar da água.
O imperador chamou por ela.
Seu rosto era como uma flor,
seu cabelo azeviche adornado com ouro.
Juntos eles se aqueciam
em noites de primavera em uma tenda de hibisco,
lamentando a efemeridade daquelas noites,
nunca se levantavam na alvorada, na cama ficavam.As audiências matinais continuavam,
mas Sua Majestade já não aparecia.
A jovem passava o tempo todo ao lado do imperador,
agradando-o, alimentando-o em banquetes.
Por toda a primavera ela o acompanhou
e com Ele toda noite dormiu.
3000 beldades viviam no palácio interno,
mas aquela jovem foi amada por Ele mais que todas as 3000.
Só de a observar Ele se encantava,
enquanto ela se maquiava no Pavilhão Dourado
antes de iniciarem a noite.
O vinho e o ar primaveril
a intoxicavam após os banquetes na Mansão de Jade.Todos os seus irmãos e irmãs
foram presentados com terras.
A ascensão social e a riqueza repentina
fizeram outros invejarem a família.
Os planos de novos casais mudaram por toda parte.
De que servia gerar meninos,
quando meninas muito mais faziam?O Palácio do Monte Li se elevava tão alto
que suas torres nas nuvens azul celeste encostavam.
As melodias sublimes carregadas pelo vento,
ouvidas de qualquer lugar.
A orquestra tocava baladas
e dançarinas se moviam em um ritmo impecável.
Sua Majestade podia assistir e escutar
o dia inteiro, e ainda não se contentava.
Então tambores de guerra de Yuyang
quebraram o feitiço e a terra estremeceu.
A Canção das Saias de Arco-Íris e das Vestes de Plumas
foi interrompida.
Os nove circuitos de muralhas e torreões
que cercavam o palácio imperial
por fumaça e poeira foram engolidos
enquanto mil carruagens e incontáveis guerreiros
se apressavam para o sudoeste.Idas e vindas, paradas e retomadas,
ornamentos de jade balançando nos estandartes imperiais
da carruagem do imperador.
Uma jornada de mais de cem li
para além do portão oeste da capital.
Os seis exércitos do imperador agora
recusavam as ordens de marchar um passo sequer.
Deram um ultimato: ela ou eles.
A bela donzela que Ele adorava,
suas sobrancelhas adoráveis como as antenas plumosas da uma mariposa,
morreu surrada em frente aos cavalos.Intricados adornos caíram de sua cabeça para o chão
e ninguém pegou.
O acessório de martim-pescador,
o grampo de pardal dourado, a presilha de jade,
todos enlameados.
Sua Majestade cobriu o rosto.
Não conseguiu olhar. Não conseguiu a salvar.
Tudo que viu foram as lágrimas e o sangue
que escorriam pelo solo.Um vento frio e lúgubre
carregava a areia.
Caminhos de madeira serpenteavam
para o alto e entre as nuvens
através dos pavilhões da passagem
do Monte Jian.
Pela estrada sob o Monte Emei poucos passavam.
Os estandartes pendurados sem vida nos mastros.
O céu desapiedado.
Em Shu os rios eram azuis
e em Shu as montanhas eram verdes.
O imperador pensava nela dia e noite.
No segundo palácio, Ele ergueu o rosto
tomado de desolação para a lua.
Os uivos do vento em tempestades noturnas
eram a canção de seu arrependimento.Derrotada a rebelião,
a carruagem de dragão do imperador retornou.
E após a volta,
não conseguiu mais partir.
Mas na terra das colinas de Mawei,
não via o rosto de jade,
apenas o ponto solitário
onde ela morreu.
O imperador e seus ministros
choraram a ponto de enxarcar os robes.Direcionaram os cavalos para o leste
e os deixaram andar no próprio ritmo
de volta à capital.
Voltaram e viram lagoas e jardins
exatamente como deixaram.
Os lótus das lagoas de Taiye
e os salgueiros do Palácio Weiyang...
Oh, mas as flores de lótus eram seu rosto
e os galhos dos salgueiros
eram suas delicadas sobrancelhas.
Seu rosto estava em todos os lugares.
Lágrimas mais uma vez encheram Seus olhos.
Se foram os dias frescos de primavera
com os pessegueiros e ameixeiras em flor.
Já era outono, quando as folhas
das árvores wutong caem.
Os palácios do oeste e do sul
estavam cobertos de grama ressecada
e folhas vermelhas espalhadas
nos degraus amontoadas.
O cabelo das artistas
da Ópera Real do Jardim das Peras
todo branco se tornou.
Os eunucos e as servas
da Residência da Pimenta de repente envelheceram.À noite, Ele se sentava no palácio em silêncio,
sozinho com os próprios pensamentos,
e apenas os vagalumes de companhia.
Uma única lanterna queimava até o fim,
e Ele ainda não conseguia dormir.
Os sinos tocavam e os tambores retumbavam
com o início de cada vigília,
marcando o começo de mais uma longa noite.
A Via Láctea brilhava intensa.
Oh, como Ele ansiava pelas manhãs.
Os azulejos com mandarins estavam gelados
e o gelo não derreteria.
A manta de jadeíta da cama esfriou.
Não poderia ser diferente. Ninguém podia aquecê-lo.Um ano passou, um ano inteiro desde que
os vivos foram separados dos mortos.
O espírito da amada não apareceu em Seus sonhos.
Um monge taoísta de Linqiong
visitou a capital.
Era tão devoto
que os mortos falavam com ele.
Comovido com a angústia de Sua Majestade,
ele aceitou procurar o espírito da jovem
no pós vida para o Imperador.
Acima, para o céu ele disparou
feito um raio,
correndo muito além das nuvens.
O monge subiu aos céus
e desceu para a terra,
buscando aquele espírito por toda a parte.
Lá em cima, não deixou nenhum recanto por vasculhar,
nem lá embaixo, até as Fontes Douradas.
Mas sinal algum dela foi encontrado
em nenhum dos imensos planos.Mas o que era aquilo que diziam
sobre uma montanha flutuando no mar,
cheia de espíritos celestiais?
Quando o monge se aproximou,
o monte flutuante estava envolto em névoa.
Mas uma elegante torre despontava,
perfurando as vibrantes nuvens.
Naquela torre,
encontrou uma miríade de celestiais
cheias de graça feminina.
Uma se destacava.
Seu nome era Tàizhēn
e seu rosto era pálido e adorável.
Aquela face branca como a neve
não era como a do amor perdido do Imperador?
O monge foi à torre dourada
e bateu na porta de jade
da ala oeste.
Ele implorou para que Xiǎoyù levasse
uma mensagem a Shuāngchéng.
Assim foi feito, pois o monge era
um emissário do Imperador Han,
o Filho do Céu.Dentro da magnífica tenda,
a jovem despertou de um longo sonho.
Colocou o travesseiro de lado
e pegou seus robes.
Então vagou atordoada pela tenda.
Enfim encontrou as cortinas de renda perolada
e atravessou as telas de prata.
Foi até o monge com o cabelo desalinhado,
dormiu demais.
O adereço na cabeça estava torto
enquanto descia os degraus até ele.
Ergueu os braços e um vento celestial
soprou as mangas de suas vestes.
Era um movimento que ela se recordava
da Dança das Saias de Arco-Íris e das Vestes de Plumas.
Mas sua expressão de jade agora estava
cruzada por caminhos de lágrimas.
Como uma flor de pereira
úmida das chuvas de primavera.Fixou o olhar tormentoso no monge
e pediu que transmitisse sua gratidão
por ter sido salva por Sua Majestade.
Mas no período em que estiveram separados,
uma distância se formou entre os dois,
e agora ela tinha apenas uma vaga sensação de familiaridade.
A paixão que compartilharam
no Salão do Sol Resplandecente
esmaeceu.No inverno, os dias e meses
eram longos no Palácio Penglai.
Ela baixou o olhar para onde os mortais residiam.
Mas não conseguia ver Chang’an
através de tanta névoa e poeira.
Para demonstrar sua gratidão, tudo que podia fazer
era oferecer antiguidades e recordações
como sinal de profunda afeição.
Ela homenageou o monge
com uma caixa incrustada e um grampo dourado.
Mas guardou uma parte do grampo
e também da caixa.
Assim essas partes
ficariam para sempre separadas.Ela pediu que dissesse a Sua Majestade
para continuar tão firme em sua devoção a ela
quanto o ouro e as decorações nos presentes.
Um dia voltariam a se encontrar,
seja nos céus lá no alto
ou na terra entre os mortais.
Passou ao monge uma última mensagem,
uma promessa secreta da qual
apenas os dois teriam ciência:
“No sétimo dia
do sétimo mês lunar,
no Salão da Longevidade,
à meia-noite, quando não houver ninguém,
faremos nosso acordo secreto.
Nos céus, juramos ser
como dois pássaros, voando lado a lado.
Na terra, juramos ser
como dois galhos entrelaçados de uma árvore.
Mesmo os céus e a terra
um dia terão um fim.
Mas o arrependimento de nossa separação
será eterno.”

