Sinagoga Antiga em Israel e na Diáspora

Dana Murray
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Um aspecto único e fundamental da antiga sociedade judaica, tanto em Israel como na diáspora, a antiga sinagoga representa uma forma inclusiva e localizada de culto que só se cristalizou após a destruição do Templo no ano de 70 d.C. Na antiguidade, havia uma variedade de termos que representavam a estrutura, embora alguns deles não fossem exclusivos da sinagoga e pudessem referir-se a outra coisa, como um templo. Estes termos incluem proseuchē, que significa "casa de oração" ou "salão de oração"; synagoge, que significa "local de reunião"; hagios topos, que significa "lugar sagrado"; qahal, que significa "assembleia"; e bet kneset ou bet ha-kneset, que significa "casa de reunião". O termo mais antigo, proseuchē, teve origem no Egito helenístico do século III a.C. e identifica claramente uma característica fundamental da estrutura: a oração. Embora a leitura da Torá diferenciasse a sinagoga de outros edifícios públicos ou locais de culto, tal como o Templo antes dela, a Torá não era a única característica distintiva da sinagoga. Outras características distintivas incluíam as atividades que nelas se realizavam, bem como a arte e a arquitetura das próprias estruturas.

Kfar Bar'am Synagogue
Sinagoga Kfar Bar'am MASQUERAID (CC BY-SA)

O Papel da Antiga Sinagoga

Testemunhos literários e inscrições sugerem que estavam todos associados à sinagoga antiga os processos judiciais, arquivos, tesouros, orações, jejuns públicos, refeições comunitárias e hospedagem para judeus viajantes. A leitura pública e o ensino da Torá tinham precedência sobre tudo o mais, proporcionando a atividade litúrgica que diferenciava a sinagoga, mas a sinagoga era muito mais do que uma instituição religiosa e deve ser considerada como distintamente diferente da sua antecessora, o Templo.

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Ao contrário da exclusividade do ritual do Templo, os participantes da sinagoga antiga participavam na realização e condução de cerimónias, recitavam orações e liam a Torá.

Após a destruição do Segundo Templo e da ascensão do judaísmo rabínico, uma forma mais democrática de culto começou a se enraizar, bem como conceitos como urbanização e institucionalização, que se espalharam por todo o Império Romano e, mais tarde, Bizantino. Com o fim do período do Segundo Templo, chegou o fim da prática do sacrifício, e assim a leitura da Torá preencheu o vazio. Como resultado, a Arca dos Pergaminhos e o santuário da Torá desenvolveram-se, emergindo eventualmente como o ponto focal da sinagoga, representando um símbolo de sobrevivência e preservação. Quase todas as sinagogas antigas na terra de Israel apresentam vestígios e fragmentos de um santuário da Torá, seja na forma de uma plataforma elevada como base para a edícula, um nicho ou uma abside. Estas evidências demonstram a importância do santuário da Torá como uma das poucas características consistentes dentro da sinagoga antiga. No entanto, a aparência do santuário da Torá não foi a única característica emergente que acompanhou a ascensão do judaísmo rabínico. Ao contrário da exclusividade do ritual mediado por sacerdotes atribuído ao Templo, os participantes da antiga sinagoga estavam envolvidos na realização e condução de cerimónias, recitavam orações e liam a Torá. Uma nova natureza participativa do culto estava a desenvolver-se durante este período e foi preservada através dos vestígios arquitetónicos.

À medida que a classe rabínica ganhava poder, critérios que poderiam ser considerados "não religiosos" começaram a ficar sob o controlo dos rabinos e, portanto, do domínio "religioso". Em termos de questões jurídicas, os casos tanaíticos podem estar relacionados a acordos de divórcio/viúvez, indenizações por humilhação pública, escrituras datadas no sábado e assim por diante. Apesar de existirem outros locais para resolver as questões jurídicas, os juízes rabínicos serviam como um local alternativo e aparentemente popular. Geralmente, a atividade jurídica rabínica girava em torno de questões patrimoniais e familiares, que ocasionalmente se cruzavam com a lei ritual, como em Deuteronómio 5-10 e halîsâ, uma cerimónia relativa à obrigação de um homem se casar com a viúva sem filhos do seu irmão. Simplesmente, além da leitura e do estudo da Torá, a separação entre funções religiosas e não religiosas não é tão clara quanto se poderia supor em termos das atividades realizadas na antiga sinagoga. Separadas ou não, tanto as atividades religiosas quanto as não religiosas atribuídas à sinagoga tiveram origem em resposta às necessidades da comunidade, diferindo na sua distribuição pelo mundo antigo, com exceção do estudo da Torá, em torno do qual girava o objetivo final da sinagoga.

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Como resultado do domínio da Torá no desempenho da sinagoga, parece razoável que ela se tornasse um motivo popular com o surgimento da arte judaica no final da antiguidade e, de fato, a Arca da Torá tornar-se-ia exatamente isso. No entanto, o domínio da Torá também seria expresso por outros meios, como o desenvolvimento do santuário da Torá como ponto focal e a declaração física da linhagem religiosa e histórica da Judéia. No entanto, além do santuário da Torá a antiga sinagoga viria a desenvolver características e traços adicionais que refletiam as necessidades e práticas comunitárias, todas evidentes nos vestígios arqueológicos.

A Forma e a Estrutura da Sinagoga Antiga

Ao contrário do Templo ou do Tabernáculo, uma sinagoga podia ser estabelecida em qualquer lugar, pois não se acreditava que a sinagoga fosse ordenada por Yahweh(YHWH/Javé)//Deus. No entanto, fontes como os Sábios sugerem um certo nível de santidade na sinagoga ao enfatizar a importância das escrituras, e a aparição do Tabernáculo na arte sinagogal pode representar um "selo de aprovação" ou santidade também. É importante lembrar, no entanto, que embora a sinagoga representasse muito mais para a comunidade do que um local de culto ou oração, só era considerada "santa" ou "sagrada" com a presença da Torá.

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Como as sinagogas não estavam restritas a um local específico e como não existe um projeto ou planta uniforme da sinagoga antiga, a comunidade tinha liberdade para construir as estruturas de acordo com as suas próprias necessidades locais: podiam estar localizadas à beira-mar, ao longo das margens dos rios, no centro da cidade ou em bairros residenciais. A única característica comum em termos de localização era a conveniência para a comunidade, tanto para as atividades comerciais quanto comunitárias.

A sinagoga deve ser entendida como um mediador físico entre o indivíduo e a comunidade em geral. Como espaço público, a sinagoga tornou-se um ponto focal no judaísmo, muito semelhante ao Templo antes do ano 70. Como estrutura, a sinagoga antiga pode ter consistido num único edifício público ou num complexo incluindo salas e pátios, variando a disposição de cada edifício. A evidência de salas extras, bem como fontes, cisternas e bacias, demonstra várias características da comunidade judaica local na qual o edifício foi estabelecido. Mais uma vez, a procura local influência o projeto e a função da sinagoga dentro de cada comunidade individual, e é através do exame dos vestígios que podem ser discernidos os requisitos comunitários específicos. Por exemplo, a presença de salas extras sugere várias possibilidades. A primeira possibilidade indica alojamentos ou serviços de hospedagem nos quais a sinagoga oferecia acomodações temporárias para viajantes, peregrinos ou funcionários da sinagoga. O aparecimento de salas extras também pode indicar a existência de uma sala de jantar, escola, banhos rituais (miqva'ot) ou espaço adicional para circunstâncias como a Lua Nova ou o Sabat (Sabá).

Sem uma planta arquitétonica universal, fica claro que cada comunidade valorizava e exigia diferentes características arquitetónicas ou funcionais, e o projeto de uma sinagoga era decidido pelos líderes da comunidade, e não de acordo com um padrão estabelecido para sinagogas. Dito isso, no entanto, como o santuário da Torá estava localizado ao longo da parede orientada para Jerusalém dentro de cada sinagoga na antiguidade, é razoável sugerir que um judeu viajando de Óstia para Ein Gedi se sentiria confortável dentro da sinagoga estrangeira, no que diz respeito à característica fundamental, ou seja, a Torá.

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Map of Diaspora Synagogues (1st - 2nd centuries CE)
Sinagogas da Diáspora (Séculos I e II) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A Antiga Sinagoga na Diáspora

Até agora, muita atenção tem sido dada às sinagogas do antigo Israel, mas muitas das mesmas conclusões podem ser tiradas em relação à sinagoga da diáspora. Os indivíduos que viviam na diáspora experimentaram uma desconexão do Templo num período muito anterior ao ano 70. Como resultado, foram desenvolvidos acomodações e modos suplementares de culto para aqueles que não podiam fazer a peregrinação ao Templo. Infelizmente, as sinagogas em Delos e Óstia são os únicos locais que podem ser datados arqueologicamente antes do século II; no entanto, é provável que a arquitetura das sinagogas ainda não tivesse se desenvolvido a um nível distinguível até aquela época. Considerando que várias sinagogas da diáspora começaram como estruturas domésticas, adquirindo características monumentais apenas mais tarde, a teoria é especialmente convincente.

A função e o estilo da sinagoga da diáspora não eram diferentes da sinagoga do antigo Israel. Assim como as contrapartes em Israel, as sinagogas da diáspora apresentam algumas variações em termos de estilo e conteúdo artístico, mas uma tradição comum e compartilhada parece ter influenciado os judeus em todos os lugares. Há pouca consistência em termos de localização, mas a inconsistência é uma tendência comum tanto nas sinagogas em Israel quanto nas da diáspora. A única qualidade que as localizações compartilham é a conveniência que proporcionavam à comunidade, tanto comercial quanto comunitária. Além disso, a localização pode representar a proeminência e a aceitação social da comunidade judaica local, especialmente na diáspora. Por exemplo, numa cidade metropolitana como Alexandria, se uma sinagoga fosse descoberta no centro da cidade ou ao longo da rua central, tal sugeriria um alto nível de aceitação da comunidade judaica pela população em geral. A proeminência da comunidade também se refletiria na existência da sinagoga, tanto em termos de design quanto de manutenção, pois exigiria grandes despesas da própria comunidade judaica. Curiosamente, as inscrições sugerem que não foram apenas judeus, mas também não judeus que doaram à sinagoga, talvez em cumprimento de um voto. Em certas circunstâncias, alguns cristãos até preferiam frequentar os serviços da sinagoga em vez dos das suas próprias igrejas, como era o caso em Antioquia.

Além da localização e da mera existência da sinagoga, a orientação do interior demonstra uma expressão universal de lealdade, já que cada sinagoga na antiguidade era orientada para Jerusalém. Isto sugere uma preservação da memória do Templo, bem como da história dos judeus de maneira mais geral. Com cada sinagoga orientada para Jerusalém, a comunidade era lembrada do Templo e da sua destruição. A parede orientada para Jerusalém tornou-se um memorial que se repetia em todos os lugares. Era ao longo desta parede que ficava o santuário da Torá e, apesar das variações de estilo, incluindo a forma de edícula, nicho ou abside, o santuário da Torá era o ponto focal de cada sinagoga, marcando uma mudança no significado da instituição após o ano de 70, ao incutir uma qualidade sagrada ou santa.

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Além da presença da Torá, havia outra característica amplamente difundida nas sinagogas de Israel e da diáspora: a preocupação com a pureza. Assim como elas — juntamente com os sacrifícios — dominavam o judaísmo do Templo, as preocupações com a pureza persistiram e refletiram-se na arquitetura das sinagogas. Quer fossem incorporadas ao projeto na forma de uma fonte ou bacia, ou que a sinagoga estivesse simplesmente localizada perto de um recurso hídrico, a necessidade de instalações hídricas era amplamente estabelecida tanto em Israel quanto na diáspora. Apesar dos restos limitados de miqva'ot perto das sinagogas da diáspora, elas estavam ocasionalmente presentes no antigo Israel, talvez como uma tradição remanescente do Templo. Fontes, cisternas ou bacias, por outro lado, eram frequentemente localizadas no pátio ou na entrada da sinagoga da diáspora, sugerindo uma função semelhante à dos miqva'ot, complementando a Mishná e Tohorot, uma construção pós-ano 70 que expressa leis de pureza, limpeza e impureza. A existência de tais preocupações sugere que a sinagoga representava mais do que um centro comunitário, enquanto a inclusão de salas adicionais e evidências inscrecionais de apoio indicam que a sinagoga era mais do que uma instituição religiosa. O fato de que estas evidências estão espalhadas por todo o antigo mundo judaico, tanto em Israel quanto na diáspora, demonstra as expressões expansivas e diversificadas da identidade judaica em resposta às influências e tradições locais.

Conclusão

Por fim, a sinagoga cresceu em popularidade após a destruição do Templo, permitindo que a oração e o estudo substituíssem as práticas sacrificiais como forma de servir a Deus. Ao contrário do Templo, a participação na sinagoga era aberta aos membros da congregação que eram convidados pelos líderes da sinagoga para ler as escrituras e até mesmo pregar. Embora a leitura da Torá se tenha tornado a característica proeminente da sinagoga, conforme refletido pela inclusão universal do santuário da Torá nos vestígios arqueológicos, a sinagoga representava muito mais do que uma casa de oração. Era também uma instituição para ensino, hospedagem, refeições comunitárias, jejuns públicos, processos judiciais, açoites públicos, elogios fúnebres, casamentos e assim por diante. Essencialmente, a sinagoga representava um antigo centro comunitário, uma instituição que se desenvolveu em várias comunidades da Judeia em todo o mundo antigo em resposta às necessidades e preferências sociais locais. Como resultado, a sinagoga desenvolveu-se na forma de um salão de assembleias e, embora os projetos arquitetónicos possam variar, características como o santuário da Torá ajudam a identificá-las nos registros arqueológicos. Além disso, a variedade de projetos arquitetónicos revelou que a existência de um culto uniforme não exigia um espaço uniforme.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
A tradução faz parte do meu ser, desde interpretar o mundo até dominar a arte da transferência linguística. Cursos em turismo, literatura e história culminaram no meu papel como autora independente e coautora de coleções de contos literários.

Sobre o Autor

Dana Murray
Estudante de doutoramento com interesse em arte, arquitetura e religião da Grécia Antiga e do Próximo Oriente.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Murray, D. (2025, dezembro 02). Sinagoga Antiga em Israel e na Diáspora. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-828/sinagoga-antiga-em-israel-e-na-diaspora/

Estilo Chicago

Murray, Dana. "Sinagoga Antiga em Israel e na Diáspora." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, dezembro 02, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-828/sinagoga-antiga-em-israel-e-na-diaspora/.

Estilo MLA

Murray, Dana. "Sinagoga Antiga em Israel e na Diáspora." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-828/sinagoga-antiga-em-israel-e-na-diaspora/.

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