Batalha de Kadesh e o Primeiro Tratado de Paz

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Ramsés II (o Grande, 1279-1213 a.C.) governou o Egito durante 67 anos e, ainda hoje, a paisagem egípcia testemunha a prosperidade do seu reinado nos inúmeros templos e monumentos que mandou erigir em honra das suas conquistas e feitos. Praticamente não existe sítio arqueológico no Egito que não mencione o nome de Ramsés II, sendo lendário o seu relato da vitória na Batalha de Kadesh, em 1274 a.C. Contudo, entre os momentos mais marcantes do seu consulado como faraó, não figura um ato de guerra, mas sim um ato de paz: a assinatura do primeiro tratado de paz da história.

Embora exista um tratado anterior, conhecido como Tratado de Mesilim, entre as cidades mesopotâmicas de Umma e Lagash, datado de 2550 a.C., o consenso académico recusa a sua classificação como um verdadeiro tratado de paz, definindo-o como um Tratado de Delimitação (ou seja, um acordo que estabelece fronteiras ou limites). Além disso, dado que o Tratado de Mesilim constitui, na verdade, um acordo escrito entre as divindades de Umma e Lagash, e não entre os soberanos das cidades ou os seus representantes, não pode ser considerado um tratado de paz em sentido estrito. Assim, o Tratado de Kadesh, de 1258 a.C., detém a distinção de ser o primeiro tratado de paz da história da humanidade.

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A Ameaça Hitita

No quinto ano do seu reinado, o jovem faraó Ramsés II marchou da sua cidade de Per-Ramsés ("Casa de Ramsés") em direção à Síria, com o intuito de assegurar a cidade de Kadesh, um ponto estratégico de elevado valor nas rotas comerciais da época. O rei hitita Muwatalli II (1295-1272 a.C.) vinha a realizar incursões regulares em território egípcio há algum tempo e, tendo entretanto fortificado Kadesh, representava já mais do que um mero incómodo para Ramsés II.

Os hititas da Anatólia consolidavam o seu poder desde o II milénio a.C., até que, por volta de 1530 a.C., substituíram a Babilónia como reino de relevo e começaram a testar a capacidade de resposta do seu vizinho, o Egito. Cartas de intenções tinham sido enviadas ao faraó Akhenaton (1353-1336 a.C.), da XVIII dinastia, contudo, o monarca nunca respondeu nem demonstrou qualquer preocupação perante a atividade hitita ao longo das suas fronteiras. O general de Akhenaton, Horemheb (que viria a reinar como faraó entre 1320-1292 a.C.), empreendeu campanhas contra os hititas sem sucesso e, à data do reinado de Tutankhamon (sucessor de Akhenaton em 1336 a.C.), o poder hitita tinha crescido de tal forma que se sentiam suficientemente audazes para fortificar regiões nas fronteiras do Egito, ou nas suas imediações.

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Quando Horemheb ascendeu ao trono em 1320 a.C., iniciou uma política mais assertiva contra os hititas e garantiu as fronteiras do Egito, embora nunca tenha resolvido de forma definitiva o problema das incursões hititas. Seti I (cerca de 1290-1279 a.C.) tinha assegurado a Palestina e Kadesh para o Egito, mas, satisfeito com a vitória, não tomou providências para a guarnição permanente daquela praça-forte. Agora, Ramsés II, da XIX dinastia, via-se confrontado com a necessidade de resolver a questão da invasão hitita e, em 1274 a.C., concentrou as suas forças em Per-Ramsés para expulsar os hititas de Kadesh e desarticular a força do seu exército.

Ramesses II at The Battle of Kadesh
Ramsés II na Batalha de Kadesh Cave cattum (CC BY-SA)

Ramsés em Marcha

Avançando no seu carro de combate à frente de quatro divisões (totalizando 20 000 homens), Ramsés II, plenamente confiante na vitória, imprimiu tal celeridade à sua primeira divisão que esta rapidamente se distanciou das restantes três. Ao aproximar-se de Kadesh, dois beduínos foram feitos prisioneiros e interrogados sobre o paradeiro de Muwatalli II e do seu exército, tendo respondido que as forças hititas se encontravam longe de Kadesh e que Muwatalli II temia o poderio do Egito e do jovem faraó. Tratava-se, contudo, de espiões infiltrados pelos hititas; Muwatalli II já tinha fortificado Kadesh e os seus carros de combate (3500 unidades) e infantaria (37 000 homens) aguardavam apenas atrás da colina próxima.

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Ramsés avançava no seu carro de combate à frente de 20 000 homens, imbuído de uma total confiança na vitória.

Segundo alguns relatos da batalha, Ramsés II capturou outros espiões que revelaram a amarga verdade sobre a sua situação, mas esta informação crucial chegou demasiado tarde. No seu ímpeto para tomar Kadesh e vencer o rei hitita, Ramsés II acabou por se isolar do resto do seu exército. Enviou apressadamente mensageiros às restantes três divisões, momentos antes de os carros de combate hititas investirem contra o seu acampamento. Ramsés II descreve a sua situação no Poema de Pentaur que, conjuntamente com o Boletim, constitui a versão egípcia da batalha:

Nenhum dos meus príncipes, dos meus dignatários e dos meus grandes estava comigo, nenhum comandante, nenhum cavaleiro; Pois os meus guerreiros e os meus carros de combate tinham-me abandonado à minha sorte, Nenhum deles ali estava para tomar parte na contenda… Eis-me aqui, inteiramente só; Não há ninguém ao meu lado, Os meus guerreiros e os meus carros, aterrorizados, desertaram; ninguém ouviu a minha voz, Quando eu, o seu rei, clamei por socorro a esses cobardes. Contudo, considero que a graça de Amon é muito mais valiosa para mim Do que um milhão de combatentes e dez mil carros de combate.

A Divisão de Ptah chegou a tempo de evitar a rota completa do exército egípcio, tendo Ramsés II liderado pessoalmente os remanescentes da Divisão de Amon em sucessivas investidas, empurrando as forças hititas de volta para o rio Orontes, onde muitos acabaram por se afogar. Nesse momento, Muwatalli II precisaria apenas de avançar a partir das muralhas de Kadesh para encurralar as forças de Ramsés II entre o contingente posicionado junto ao rio e a sua própria linha de progressão; contudo, por razões desconhecidas, optou por permanecer na cidade e nunca empenhou as suas tropas de reserva no combate.

Kadesh Treaty
Tratado de Kadesh Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A Vitória Egípcia

Ramsés II proclamou uma retumbante vitória em Kadesh e ordenou que um escriba registasse o seu relato da gloriosa batalha; o relato de Muwatalli II divergia consideravelmente, destacando-se, sobretudo, o facto de este ter consignado Kadesh como uma vitória hitita. Embora Ramsés II não tenha alcançado o seu objetivo de conquistar a cidade, conseguiu, contudo, desbaratar o exército hitita no campo de batalha e, apesar de Muwatalli II ter mantido o controlo de Kadesh, falhou na intenção de aniquilar os egípcios, como era seu desejo. Um dos motivos para este desfecho, para além da sua estranha relutância em empenhar as tropas de reserva, foi a maior velocidade e agilidade do carro de combate egípcio, tripulado por dois homens, em comparação com o veículo hitita, mais pesado e tripulado por três.

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Após a morte de Muwatalli II, Hattusili III (falecido em 1237 a.C.) ascendeu ao trono do Império Hitita, sendo sob o seu reinado que foi assinado, em 1258 a.C., o primeiro tratado de paz da história, que estipulava, em parte:

Ramsés, o grande rei, o rei do país do Egito, nunca atacará o país de Hatti para tomar posse de uma parte (deste país). E Hattusili, o grande rei, o rei do país de Hatti, nunca atacará o país do Egito para tomar posse de uma parte (daquele país).

A Batalha de Kadesh, considerada hoje um empate para ambas as partes, marcou o início do fim das hostilidades entre as duas nações, na medida em que, por fim, ambos os soberanos compreenderam que nenhum poderia obter uma vantagem substancial sobre o outro e que o melhor caminho a seguir era a via da paz. Os hititas e os egípcios estabeleceram então uma nova relação, na qual partilharam os seus conhecimentos e experiências em vez de trocarem golpes no campo de batalha.

Os hititas eram exímios na metalurgia e ensinaram aos egípcios como fabricar armas e ferramentas superiores, enquanto os egípcios, mestres da agricultura, partilharam o seu saber com os hititas. As duas nações mantiveram uma relação mutuamente benéfica até ao colapso do Império Hitita, por volta de 1200 a.C., devido aos ataques combinados e incessantes dos Povos do Mar, dos assírios e da tribo conhecida como Kaska. A relação pacífica e produtiva entre as duas nações permitiu, contudo, que ambos melhorassem as condições de vida das suas populações e as economias dos seus países, em vez de desperdiçarem os seus recursos na guerra.

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Mark, J. J. (2026, julho 18). Batalha de Kadesh e o Primeiro Tratado de Paz. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-78/batalha-de-kadesh-e-o-primeiro-tratado-de-paz/

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Mark, Joshua J.. "Batalha de Kadesh e o Primeiro Tratado de Paz." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 18, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-78/batalha-de-kadesh-e-o-primeiro-tratado-de-paz/.

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Mark, Joshua J.. "Batalha de Kadesh e o Primeiro Tratado de Paz." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 18 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-78/batalha-de-kadesh-e-o-primeiro-tratado-de-paz/.

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