Rebelião de Zenóbia na 'Historia Augusta'

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Historia Augusta (Grande História) é uma obra latina do século IV que narra a vida dos imperadores romanos entre 117 e 285. Das muitas histórias relatadas está a história de Zenóbia de Palmira e o desafio à autoridade romana, que foi esmagado pelo imperador Aureliano em 273.

Zenóbia (nascida em 240, data da morte desconhecida) era mulher do governador sírio e fundador do Reino de Palmira, Odaenato (reinou 263-267), que foi morto (ou assassinado intencionalmente) durante uma caçada em 267, deixando o filho Vaballato ( 259-273) como sucessor, que como era muito jovem para reinar na época, Zenobia tornou-se regente do filho e expandiu o reino de Palmira, transformando-o num império.

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A sua ascensão ao poder ocorreu durante o período caótico conhecido como Crise do Século III (235-284, também conhecida como Crise Imperial), quando o governo central estava enfraquecido e vários imperadores se sucediam rapidamente no poder. Neste clima, ninguém percebeu — ou teve o poder de lidar com — a expansão constante do poder de Zenóbia até que Aureliano (reinou 270-275) chegou ao poder e pôs fim às suas ambições, trazendo o Império de Palmira de volta ao controlo de Roma. A história da ascensão e queda de Zenóbia é contada em várias obras antigas, entre elas a Historia Augusta.

Historicidade da Historia Augusta

Embora hoje a Historia Augusta seja reconhecida como amplamente ficcional (alguns estudiosos até mesmo a rotulam de "ficção histórica"), era tida como uma história confiável na sua época e por muitos séculos posteriores. O famoso historiador Edward Gibbon (1737-1794) aceitou-a como um registro autêntico da história romana antiga e baseou-se amplamente nela na sua obra de seis volumes A História do Declínio e Queda do Império Romano (The History of the Decline and Fall of the Roman Empire), que, assim como a Historia Augusta, é amplamente considerada imprecisa nos dias de hoje, contudo, ambas tiveram um impacto significativo sobre o público que as leu ou ouviu.

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Em vez de considerar a Historia Augusta como amplamente ficcional, talvez seja melhor considerá-la da mesma forma que se consideraria o género da literatura nāru da antiga Mesopotâmia. A literatura nāru começou a aparecer por volta do milénio II a.C. na Mesopotâmia e é caracterizada por histórias que apresentam uma figura conhecida do passado (geralmente um rei) como personagem principal num conto quase histórico, que exaltava as proezas militares do rei, contava a história de vida e reinado ou, mais frequentemente, usava o rei para exemplificar a relação adequada entre os seres humanos e os deuses. O personagem principal (rei) era sempre uma figura histórica real, mas a história era fictícia ou tendenciosa de uma maneira específica para causar a impressão desejada.

Queen Zenobia's Last Look Upon Palmyra
O Derradeiro Olhar da Rainha Zenóbia sobre Palmira Herbert Schmalz (Public Domain)

Embora a Historia Augusta não se preocupe tanto com os deuses quanto com os imperadores romanos, aplica-se o mesmo paradigma, pois as histórias dos governantes romanos são apresentadas como "momentos de aprendizado" através dos quais se aprende o que significa ser um bom monarca ou um mau monarca, um grande homem ou um fracasso. A obra é certamente tendenciosa na sua apresentação, mas acredita-se que se tenha baseado em fontes históricas confiáveis para as suas narrativas. O foco destas narrativas, no entanto, está sempre em quão eficaz — ou insignificante — foi o reinado de um determinado imperador. Este modelo aplica-se não apenas aos imperadores romanos, mas também aos seus adversários e, mais notavelmente, à rainha Zenóbia de Palmira.

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Zenóbia e Aureliano

Zenóbia tornou-se rainha do Império de Palmira após a morte de Odaenato, quando, aparentemente, foi nomeada regente do filho Vaballato. Pouco depois de assumir o controlo, embarcou numa série de campanhas diplomáticas e militares para consolidar o poder e ampliar o reino. Os imperadores romanos que lutavam para conter a Crise do Século III não tinham tempo nem recursos para lidar com ela até que Aureliano subiu ao poder em 270 e concentrou os seus esforços de forma a forçar e consolidar o controlo das diferentes regiões do império no governo central.

Aureliano chegou ao poder no final da Crise do Século III, quando o império se dividiu em três entidades separadas:

  • o Império Gálico
  • o Império Romano
  • o Império de Palmira

Foi Aureliano quem trabalhou para trazer os impérios Gálico e de Palmira de volta ao controlo de Roma. De acordo com o historiador Jon E. Lewis, Aureliano era "popularmente conhecido como manu ad ferrum ('mão de aço/mão de ferro')", em referência à sua prontidão para defender o império contra todos os inimigos a qualquer momento. Para tal, a Historia Augusta apresenta o imperador como um governante forte que, embora misericordioso, não tolerava dissidência ou rebelião.

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Embora os seus antecessores tivessem permitido a Zenóbia a liberdade de reivindicar e, em seguida, desenvolver um terço do Império Romano no leste, Aureliano não seguiu o exemplo e liderou pessoalmente o exército para esmagar Zenóbia e as forças de Plamira. A Historia Augusta esforça-se para garantir que o leitor compreenda o quão digna era Zenóbia como oponente, pois Aureliano temia parecer vergonhoso entrar em guerra contra uma mulher.

Se os fatos relatados na obra realmente aconteceram não seria tão importante para o escritor (neste caso Vopiscus) qual seria o efeito que a história teria sobre o leitor. A marcha de Aureliano através das "bandas de ladrões da Síria", suportando "ataques constantes" para reconquistar os reinos orientais, mostra a sua coragem, enquanto que a sua carta a Zenobia exigindo a rendição mostra a sua natureza misericordiosa. A carta diz, em parte:

Ó Zenóbia, pode viver com a família no lugar que eu lhe designarei, seguindo o conselho do venerável Senado. Deve entregar ao tesouro de Roma AS suas joias, prata, ouro, as suas vestes de seda, cavalos e camelos. Os palmirenos, no entanto, preservarão os seus direitos locais. (Lewis, pág. 380)

Zenobia responde com arrogância, começando com: "Ninguém, exceto Aureliano, jamais exigiu de mim o que exige na sua carta" e, após recusar os termos, conclui com as linhas: "Aureliano abaixará então o tom com o qual - como se já fosse um conquistador completo - agora me ordena que me renda" (Lewis, pág. 381). Isto teria demonstrado ao leitor o quão altiva era Zenóbia como oponente e o quão honrosas foram as ações de Aureliano ao capturá-la e mostrar clemência. A narrativa então conta brevemente a história da derrota de Zenóbia perante Aureliano e a sua captura.

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Depois de ser levada para Roma e exibida pelas ruas na marcha triunfal, Aureliano liberta-a para viver o resto dos dias em "paz e luxo". Com base noutras fontes antigas sobre Zenóbia, parece que foi realmente o que aconteceu (exceto pelo fato de Zenóbia aparecer em público no triunfo de Aureliano acorrentada com correntes de ouro), mas é a maneira como a Historia Augusta apresenta a história que é interessante.

Zenóbia, a teimosa rebelde oriental, é subjugada pelo nobre imperador romano que, embora forçado pelas circunstâncias a destruir Palmira, faz o possível para resolver o conflito por meios pacíficos e honrosos. O perdão a Zenóbia e o viver de forma pacífica o resto da sua vida num palácio romano também teriam enaltecido o imperador. Embora algumas versões posteriores da lenda de Zenobia afirmem que foi executada em Roma, tal conclusão da sua vida não é mencionada em nenhuma das histórias anteriores. Desconhece-se a data da sua morte, mas parece ter vivido o resto da vida de acordo com seu estatuto de ex-monarca e, presumivelmente, morreu pacificamente como mulher de um romano da classe alta.

Relato na Historia Augusta

O seguinte relato da rebelião de Zenóbia contra Roma e do grande triunfo de Aureliano vem do relato de Flávio Vopisco sobre a Vida de Aureliano na Historia Augusta:

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Depois de tomar Tiana e vencer uma pequena batalha perto de Dafne, Aureliano tomou posse de Antioquia, tendo prometido conceder perdão a todos os habitantes e — seguindo o conselho do venerável Apolônio — mostrou-se muito humano e misericordioso. Em seguida, perto de Emesa, travou uma batalha contra Zenóbia e o seu aliado Zaba — uma grande batalha em que o próprio destino do Império estava em jogo. A cavalaria de Aureliano já estava cansada, vacilante e prestes a fugir, quando, por intervenção divina, uma espécie de aparição celestial renovou a sua coragem, e a infantaria, vindo em auxílio da cavalaria, reagiu com firmeza. Zenóbia e Zaba foram derrotados, e a vitória foi completa. Aureliano, assim tornado senhor do Oriente, entrou em Emesa como conquistador. Primeiro, apresentou-se no templo de Elagábalo, como se fosse cumprir um voto comum — mas lá ele contemplou a mesma figura divina que havia visto vir em seu socorro durante a batalha. Portanto, naquele mesmo lugar, consagrou alguns templos, com presentes esplêndidos; também ergueu em Roma um templo ao Sol e o consagrou com grande pompa.

Depois, marchou sobre Palmira, para encerrar oa seus trabalhos com a tomada daquela cidade. No entanto, os bandos de ladrões da Síria faziam ataques constantes enquanto o seu exército estava em marcha; e durante o cerco, ele correu grande perigo ao ser ferido por uma flecha.

Finalmente, cansado e desanimado por causa das perdas, Aureliano decidiu escrever a Zenóbia, prometendo-lhe — se ela se rendesse — preservar sua vida, na seguinte carta:

"Aureliano, Imperador de Roma e Restaurador do Oriente, a Zenóbia e àqueles que lutam ao seu lado. Deveriam ter feito o que eu ordenei na minha [anterior] carta. Prometo-lhe vida se se render. Ó Zenóbia, poderá viver com a sua família no lugar que eu lhe designar, seguindo o conselho do venerável Senado. Deve entregar ao tesouro de Roma as suas joias, a prata, o ouro, as suas vestes de seda, os cavalos e os camelos. Os palmirenos, no entanto, preservarão os seus direitos locais."

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Zenobia respondeu a esta carta com orgulho e ousadia, nada condizentes com sua sorte. Pois ela imaginava que poderia intimidá-lo.

"Zenobia, Rainha do Oriente, a Aureliano Augusto. Ninguém, exceto Aureliano, jamais me exigiu o que me exige na sua carta. Na guerra, deve-se ouvir apenas a voz da coragem. Exige que eu me renda, como se não soubesse que a rainha Cleópatra preferiu morrer a viver em qualquer outra posição que não fosse a sua. Os persas não nos abandonam, e esperaremos por seu socorro. Os sarracenos e os arménios estão do nosso lado. Os bandidos da Síria derrotaram o seu exército, ó Aureliano; o que acontecerá quando recebermos os reforços que nos chegam de todos os lados? Então abaixará o tom com que — como se já fosse um conquistador — agora me ordena que me renda."

Ao ler esta carta, o imperador não corou, mas ficou irado e, reunindo imediatamenteo o seu exército com os seus generais e cercando Palmira por todos os lados, o grande imperador dedicou a sua atenção a tudo; pois cortou os socorros dos persas e corrompeu as hordas de sarracenos e arménios, conquistando-os às vezes com sua severidade, às vezes com a sua habilidade; em resumo, após muitos ataques, a valente rainha foi vencida. Embora tenha fugido em camelos, com os quais tentou chegar até aos persas, os cavaleiros enviados em sua perseguição capturaram-na e levaram-na até Aureliano.

O tumulto dos soldados — exigindo que Zenóbia fosse entregue para punição — foi muito violento; mas Aureliano concebeu que seria vergonhoso matar uma mulher, então ontentou-se em executar a maioria dos homens que haviam fomentado, preparado e conduzido a guerra, reservando Zenóbia para adornar o seu triunfo e deleitar os olhos do povo romano. É lamentável que ele tenha precisado incluir entre os massacrados o filósofo Longinus, que era — segundo se diz — o mestre de Zenóbia na língua grega. Alega-se que Aureliano consentiu com a sua morte porque lhe foi atribuída a carta acima mencionada, tão cheia de orgulho ofensivo.

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É raro e até difícil que os sírios permaneçam fiéis. Os palmirenos, que haviam sido derrotados e conquistados, vendo que Aureliano havia partido e estava ocupado com os assuntos da Europa, desejaram entregar o poder a um tal Aquiles, parente de Zenóbia, e provocaram uma grande revolta. Mataram seiscentos arqueiros e Sandar, que Aureliano havia deixado como governador na região; mas o imperador, sempre em armas, voltou rapidamente da Europa e destruiu Palmira, como merecia.

No seu magnífico triunfo, celebrado em Roma depois que Aureliano conquistou Tétrico I, o usurpador "imperador da Gália", e outros inimigos, Zenóbia foi levada em procissão exposta à vista do público, adornada com joias e carregada com correntes de ouro tão pesadas que alguns de seus guardas tiveram que segurá-las por ela. Mais tarde, porém, foi tratada com grande humanidade, recebeu um palácio perto de Roma e passou os seus últimos dias em paz e luxo.

Conclusão

A Historia Augusta é a única fonte antiga sobre a vida de Zenóbia que inclui o detalhe de ela estar "carregada com correntes" como parte do triunfo de Aureliano em Roma e, no entanto, esta é a imagem mais famosa relacionada à sua derrota. No século XIX, a escultora neoclássica Harriet Hosner (1830-1908) interpretou esta imagem de forma majestosa na sua obra Zenobia in Chains (1859), retratando Zenobia como uma rainha digna algemada por uma corrente leve, mas ainda mantendo seu poder.

O que aconteceu a Zenóbia após a derrota perante Aureliano é, na verdade, desconhecido. As fontes antigas sobre a sua vida, além da Historia Augusta, são os historiadores Zósimo (cerca de 490), Zonaras (século XII) e Al-Tabari (839-923), cujo relato é baseado no de Adi ibn Zayd (século VI). Presume-se que a Historia Augusta seja a mais próxima da verdade ao relatar o fim da grande rainha, e que ela provavelmente tenha vivido o resto da vida em Roma. Mesmo que não tenha sido assim, de acordo com o paradigma da literatura nāru da Mesopotâmia, a mensagem desta conclusão sobre a sua vida seria que: era o ela deveria ter vivido.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

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Mark, J. J. (2025, novembro 03). Rebelião de Zenóbia na 'Historia Augusta'. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-756/rebeliao-de-zenobia-na-historia-augusta/

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Mark, Joshua J.. "Rebelião de Zenóbia na 'Historia Augusta'." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 03, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-756/rebeliao-de-zenobia-na-historia-augusta/.

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Mark, Joshua J.. "Rebelião de Zenóbia na 'Historia Augusta'." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 03 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-756/rebeliao-de-zenobia-na-historia-augusta/.

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