Os antigos egípcios enfrentavam a mesma vasta gama de doenças que as pessoas enfrentam nos dias de hoje, mas, ao contrário da maioria das pessoas na era moderna, atribuíam-nas a causas sobrenaturais. A constipação, por exemplo, era comum, mas os sintomas não seriam tratados com medicamentos e repouso, ou pelo menos não apenas com isso, mas sim com feitiços e encantamentos. O Papiro de Ebers (datado de cerca de 1550 a.C.), o texto médico mais longo e completo que se conserva, expressa claramente a visão egípcia do tratamento médico: «A magia é eficaz em conjunto com a medicina. A medicina é eficaz em conjunto com a magia.» A magia a que se referia assumia a forma de feitiços, encantamentos e rituais, que invocavam poderes sobrenaturais superiores para curar o doente ou tratar os sintomas.
Heka era o deus da magia e também da medicina, mas invocavam-se várias divindades para diferentes doenças. Serket (Selket) era invocada para a picada do escorpião. Sekhmet era chamada para uma diversidade de problemas médicos. Apelava-se a Nefertum na administração da aromaterapia. Bes e Tueris (Taweret) protegiam as grávidas e as crianças. Sobek intervinha nas cirurgias. Contudo, podia recorrer-se a qualquer deus para obter ajuda, e Ísis e Hathor eram também invocadas, tal como o deus-demónio Pazuzu. Até Set, um deus associado ao caos e à discórdia, surge por vezes em fórmulas mágicas devido às suas qualidades protetoras e à sua grande força. No entanto, todas estas divindades, por mais poderosas que fossem, tinham de ser convocadas por um praticante experiente, e este era o médico do Antigo Egipto: em parte mágico, em parte sacerdote e em parte médico.
As Lesões e as Doenças
As lesões físicas eram comuns numa cultura que não só se dedicava a projetos de construção monumentais, mas também tinha de lidar com ataques de animais selvagens, como leões, hipopótamos, chacais e outros. As lesões eram facilmente reconhecidas e tratadas de forma muito semelhante à atual: ligaduras, talas e gessos. No entanto, como os egípcios não tinham noção de bactérias nem da teoria dos germes, a causa da doença era menos clara. Acreditava-se que os deuses desejavam apenas o melhor para o povo da terra e, por isso, a causa de uma doença como o cancro era tão misteriosa para os antigos egípcios como a origem do mal e do sofrimento o é para as pessoas com inclinação religiosa nos dias de hoje.
Considerava-se que as causas mais comuns das doenças eram o pecado, os espíritos malignos, um fantasma irado ou a vontade dos deuses de ensinar uma lição importante a alguém. Embora os embalsamadores que dissecavam os corpos após a morte tivessem conhecimento dos órgãos internos e da sua relação espacial entre si na cavidade corporal, não partilhavam esta informação com os médicos, e estes não consultavam os embalsamadores; as duas profissões eram consideradas distintamente diferentes, sem nada de relevante a contribuir uma para a outra.
Os médicos sabiam que o coração era uma bomba e que as veias e artérias forneciam sangue ao corpo, mas não sabiam como. Estavam cientes das doenças do fígado, mas desconheciam a função deste órgão. O cérebro era considerado um órgão inútil; acreditava-se que todo o pensamento, sentimento e caráter de uma pessoa provinham do coração. Acreditava-se que o útero da mulher era um órgão que flutuava livremente e que podia afetar todas as outras partes do corpo. Ainda assim, embora o seu conhecimento da fisiologia fosse limitado, os médicos egípcios parecem ter tido bastante sucesso no tratamento dos seus doentes e eram muito respeitados por outras culturas.
Os Textos Médicos
Os textos médicos do Antigo Egito eram considerados, na sua época, tão eficazes e fiáveis quanto qualquer equivalente moderno. Eram escritos por médicos para médicos e apresentavam curas e tratamentos práticos e mágicos. Eram escritos em rolos de papiro que eram guardados na parte do templo conhecida como Per-Ankh («Casa da Vida»), mas é provável que os médicos levassem consigo cópias, uma vez que faziam frequentemente visitas ao domicílio.
Hoje em dia, estes textos são todos conhecidos pelos nomes das pessoas que os descobriram, adquiriram ou doaram aos museus onde se encontram. Os textos principais são:
O Papiro Ginecológico de Kahun (cerca de 1800 a.C.) aborda questões relacionadas com a conceção e a gravidez, bem como com a contraceção.
O Papiro Médico de Londres (cerca de 1782-1570 a.C.) apresenta receitas para problemas relacionados com os olhos, a pele, queimaduras e gravidez.
O Papiro de Edwin Smith (cerca de 1600 a.C.) é a obra mais antiga sobre técnicas cirúrgicas.
O Papiro de Ebers (cerca de 1550 a.C.) aborda o cancro, as doenças cardíacas, a diabetes, o controlo da natalidade e a depressão.
O Papiro Médico de Berlim (também conhecido como Papiro de Brugsch, datado do Império Novo, cerca de 1570 – cerca de 1069 a.C.) aborda a contraceção e a fertilidade e inclui os primeiros testes de gravidez conhecidos.
O Papiro Médico de Hearst (datado do Império Novo) aborda infeções do trato urinário e problemas digestivos.
O Papiro Médico de Chester Beatty, datado de cerca de 1200 a.C., prescreve tratamentos para doenças anorretais (problemas associados ao ânus e ao reto) e prescreve canábis para doentes com cancro (antecipando-se à menção da canábis em Heródoto, há muito considerada a menção mais antiga da substância).
O Papiro Mágico Demótico de Londres e Leiden (cerca do século III d.C.) é inteiramente dedicado a feitiços mágicos e adivinhação.
Cada médico tinha a sua própria área de especialização e consultava o texto correspondente à sua área.
O Tratamento Médico
Os médicos iniciavam o diagnóstico e o tratamento de um doente examinando-o e chegando a uma de três conclusões:
- Trata-se de uma doença que vou tratar.
- Trata-se de uma doença com que vou combater.
- Trata-se de uma doença para a qual nada posso fazer.
O cancro, por exemplo, não tinha cura naquela altura, tal como não tem hoje. As doenças cardíacas podiam ser combatidas através de feitiços, medicamentos e uma mudança na alimentação. Os problemas de pele e de olhos podiam ser tratados com pomadas, feitiços e encantamentos. Depois de o médico ter determinado se era possível fazer alguma coisa, o passo seguinte era compreender a natureza do problema. Partia-se do princípio de que a causa principal era alguma entidade sobrenatural, mas o médico tinha de compreender como é que essa entidade estava a atacar o corpo e porquê. Fazia-se uma série de perguntas ao doente para determinar o que este estava a sentir, bem como o que poderia ter feito para merecer a aflição.
Um exemplo deste procedimento, retirado do Papiro de Ebers, aborda o problema de um doente que apresenta o que parece ser uma «doença mortal». O médico recebe instruções para examinar cuidadosamente o doente e, se o corpo parecer isento de doença, exceto «na superfície das costelas», deve então recitar um feitiço contra a doença e prescrever uma mistura de pedra-de-sangue, grãos vermelhos e alfarroba, cozida em óleo e a tomar nas quatro manhãs seguintes com mel. O feitiço a recitar não é especificado neste caso, mas em muitos outros é indicado.
Os medicamentos eram normalmente misturados com cerveja, vinho ou mel, e cada um destes tinha as suas próprias propriedades medicinais. A cerveja era a bebida mais popular no antigo Egito, servindo frequentemente como pagamento, e era considerada um presente dos deuses para a saúde e o prazer do povo. Tenenet era a deusa da cerveja, mas a bebida era mais frequentemente associada a Hathor (um dos cujos epítetos era «A Senhora da Embriaguez»). Nos textos médicos aparecem feitiços que invocam Hathor, mas um deles, especialmente interessante, invoca Set.
Embora Set pareça ter sido originalmente um deus protetor, ao longo da maior parte da história do Egito, foi o arqui-vilão que assassinou o seu irmão Osíris e mergulhou a terra no caos. No entanto, em certas épocas, ele surge como protetor e defensor, e o seu nome é até adotado por alguns reis (Seti I, por exemplo) que o honravam especialmente. Num feitiço, recitado para curar uma doença não identificada, Set é invocado para emprestar o seu poder ao remédio prescrito: a cerveja. A egiptóloga Alison Roberts observa que «a influência de Set na cerveja bebida pelo doente é tão grande que os demónios atormentadores ficam confusos e são afastados, deixando a pessoa recuperada» (pág. 98). O feitiço diz, em parte:
Não há como conter Set. Que ele realize o seu desejo de capturar um coração através daquele seu nome «cerveja» — para confundir um coração e para capturar o coração de um inimigo.
(Roberts, pág.98)
Acreditava-se que a cerveja «alegra o coração» em geral, mas quando alguém estava doente, os medicamentos misturados com cerveja — e combinados com feitiços — eram considerados particularmente eficazes. A cerveja e o vinho também eram prescritos para crianças e mães que amamentavam. Uma receita do Papiro de Ebers para a incontinência infantil recomenda que a mãe beba um copo de cerveja misturada com sementes de erva e junco durante quatro dias, enquanto amamenta a criança.
O Papiro Ginecológico de Kahun centra-se principalmente no útero como fonte das doenças da mulher e prescreve frequentemente a «fumigação do útero» como cura. Isto seria feito direcionando o fumo de incenso ou inserindo incenso na vagina da mulher. As prescrições mencionam frequentemente «corrimentos do útero» como a principal causa dos problemas, como nesta passagem:
Exame de uma mulher que sofre das costas, do ventre e da barriga das pernas Dirás disso: «Trata-se de corrimentos do útero.»
Tratá-la-ás com uma medida de fruto de alfarrobeira, uma medida de grãos, 1 hin de leite de vaca Ferve, deixa arrefecer, mistura tudo e dá a beber durante 4 manhãs.
(Coluna I.8-12)
Um teste de fertilidade sugeria colocar uma cebola na vagina da mulher; se o cheiro da cebola estivesse no seu hálito na manhã seguinte, considerava-se que ela era fértil. Também são abordados testes de gravidez nos quais plantas (especificamente trigo-emmer e cevada) são regadas com a urina da mulher; se as plantas florescessem, ela estava grávida. Também se pensava que se podia determinar o sexo da criança desta mesma forma. Se as sementes de trigo-emmer germinassem primeiro, a criança seria do sexo feminino; se a cevada reagisse primeiro, a criança seria do sexo masculino. Os contraceptivos também são descritos no texto, sendo citado um método que consistia na inserção de um tampão de excremento de crocodilo na vagina. São igualmente apresentados feitiços que acompanham estes procedimentos para os tornar mais eficazes.
O Papiro Mágico Demótico é inteiramente dedicado a feitiços, rituais e encantamentos para invocar os deuses e espíritos em busca de ajuda, e acredita-se que alguns deles instruam o médico-mago sobre como ressuscitar os mortos. Embora isso possa ser verdade, parece que o objetivo desses feitiços era, principalmente, obter informações sobre a causa da morte através da invocação do espírito do falecido. São apresentados feitiços para invocar um homem afogado ou um homem assassinado, por exemplo. Para invocar o espírito do homem afogado, o médico deve colocar uma pedra de alfarroba-do-mar (um objeto ainda não identificado) no braseiro e chamar o seu nome; já no caso do homem assassinado, deve-se colocar excrementos de burro e um amuleto de Neftis no braseiro. Para dispersar os espíritos, colocavam-se excrementos de macaco no fogo.
No entanto, nem todos os textos médicos incluíam feitiços mágicos nos tratamentos. O Papiro de Edwin Smith, na sua maior parte, apresenta procedimentos diretos para o tratamento de lesões. Começando pela cabeça, o texto percorre o corpo, indicando o tipo de lesão sofrida e sugerindo a melhor forma de lidar com o problema. Embora apareçam oito feitiços mágicos no verso do papiro, a maior parte da obra dedica-se inteiramente a procedimentos médicos que abordam diretamente as lesões, sem recorrer a intervenções sobrenaturais.
Conclusão
Os antigos Egípcios conheciam o conceito de que as doenças podiam ter origem natural já no início do Império Antigo (cerca de 2613-2181 a.C.). O arquiteto Imhotep (cerca de 2667-2600 a.C.), mais conhecido pelo seu trabalho na Pirâmide de Degraus do rei Djoser em Sacará, escreveu tratados médicos salientando essa possibilidade e afirmando que a doença não era necessariamente um castigo dos deuses ou obra de espíritos malignos. As suas ideias não foram ignoradas, visto que era extremamente respeitado pelo seu trabalho, vindo mais tarde a ser divinizado como deus da medicina e da cura.
Mesmo assim, na ausência de qualquer outra causa provável para a doença, os egípcios continuaram a acreditar em elementos sobrenaturais que influenciavam a saúde das pessoas. Embora os títulos de swnw (médico de clínica geral) e sau (praticante de magia) apareçam em inscrições relacionadas com médicos, a magia era importante para ambos. Isto não é surpreendente, uma vez que os seres humanos procurarão sempre uma razão para qualquer experiência. Quando confrontado com algum fenómeno aparentemente inexplicável, a pessoa encontrará uma causa para o mesmo naquilo que parecer mais razoável para o seu sistema de crenças.
Os primeiros mitos eram contados para explicar o nascer do sol, a mudança das estações e a razão do sofrimento; e todos eles continham um elemento sobrenatural. Os deuses estavam presentes em todos os aspetos da vida dos antigos egípcios. Por isso, quando se tratava de determinar a causa principal de uma doença, recorriam à mesma fonte e realizavam feitiços e rituais para invocar os seus deuses em prol da saúde e do bem-estar, com a mesma confiança com que as pessoas nos dias de hoje se submetem a qualquer tratamento prescrito pela medicina moderna.
