Christiane Desroches-Noblecourt – Forte Como as Pedras que Foi Capaz de Mover

Irene Fanizza
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O seu nome ecoa pelos corredores, nas salas de aula e nos livros. Christiane Desroches-Noblecourt foi uma grande egiptóloga francesa e, na opinião deste autor, uma mulher suficientemente forte e determinada para ter sido a primeira mulher a dirigir uma escavação em 1938 e, posteriormente, em 1960, a empreitada arqueológica possivelmente mais épica de todos os tempos.

Atuando como mediadora durante a Guerra Fria, Christiane conseguiu reunir 50 países com um propósito comum; foi capaz de encontrar financiamento e congregar a melhor equipa para fazer face ao incrível e monumental salvamento de Abu Simbel, uma operação que custaria mais de 40 milhões de dólares na época.

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A sul do Egito, na fronteira com o Sudão, a área de Abu Simbel contém dezenas de sítios arqueológicos. Em 1960, com a construção da barragem de Assuão e o seu reservatório artificial, estes locais corriam o risco de ser submersos e perdidos para sempre.

A barragem, construída para controlar as cheias do Nilo, é uma extensão da bacia anterior, que não era suficientemente grande para as necessidades do país. A nova Grande Barragem criaria um reservatório (o Lago Nasser) vasto o suficiente para fornecer eletricidade a metade do país. Este novo lago, no entanto, alarmou os arqueólogos, que compreenderam imediatamente o perigo que o tão necessário reservatório criaria para os sítios arqueológicos, cujo futuro seria, na melhor das hipóteses, a obliteração total.

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A Christiane foi incumbida pela UNESCO de realizar um censo de todos os sítios em risco de inundação.

Tudo isto não aconteceu porque, felizmente, a voz de Christiane foi ouvida. Quando as dúvidas foram levantadas sobre os perigos, Christiane foi incumbida pela UNESCO de realizar um censo de todos os sítios em risco de inundação, mas ela não se ficou por aí: o número de sítios em perigo era demasiado elevado e a importância de alguns deles levou-a a embarcar numa cruzada, uma corrida contra o relógio e contra todos os outros obstáculos para salvar esses locais.

Ela encontrou financiadores e arquitetos, e abriu caminho para reuniões com os arqueólogos, mas, sobretudo, promoveu a "ideia" de salvar os sítios arqueológicos em perigo. A bacia estava pronta e o projeto da barragem em pleno andamento. No jornalismo, escrevemos frequentemente sobre um "grande projeto", "transferência", "resgate", "deslocalização" ou "relocalização", mas, na minha opinião, nenhuma destas palavras descreve adequadamente a dimensão do esforço que foi necessário para salvar os templos, que tinham dezenas de metros de altura, estavam esculpidos na rocha, eram frágeis e preciosos como o mais fino cristal. Contudo, entre 1964 e 1968, os templos foram completamente cortados em grandes blocos (pesando entre 20 a 30 toneladas), desmontados, remontados e elevados para um novo local, 65 metros mais acima e 300 metros afastados da margem do rio, com o trabalho de mais de dois mil operários, liderados por um grupo de pedreiros italianos, especialistas em mármore de Carrara, num esforço tecnológico sem precedentes. Enfrentaram um dos maiores desafios na história da engenharia arqueológica.

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Abu Simbel - Work in Progess
Abu Simbel – Trabalho em Curso Per-Olow Andersen (CC BY-SA)

E não pense que a decisão de dissecar as estátuas foi fácil de tomar. Foi uma decisão angustiante, profundamente discutida e debatida, e houve provavelmente muitos arqueólogos que choraram por causa dela. Poder-se-ia dizer hoje que poderiam tê-lo feito de outra forma, mas, para mim, isso não faz diferença; o que importava era: missão cumprida. Do ponto de vista da engenharia, o modo de transporte foi resolvido, a nova instalação foi definida com as cúpulas de cimento que dariam forma às colinas sobre as quais os templos seriam apoiados, mas o ponto a considerar agora é o dos arqueólogos que, para além de verificarem se nada era arruinado por um trabalho um pouco desajeitado, comprometeram-se a restaurar o equilíbrio entre a localização original dos templos e a nova instalação.

A este respeito, os arqueólogos tomaram a decisão de ser coerentes com o que tinham de fazer e escolheram não considerar o transporte como um simples resgate fortuito para salvar apenas a riqueza material dos sítios arqueológicos que estavam em perigo, mas assumiram também o compromisso de "transportar" o culto do templo, de o mover honrando a razão fundamental pela qual o templo se encontrava naquela posição exata, em primeiro lugar.

Falo do fenómeno celestial, que prevê as datas exatas e as horas precisas em que os raios de sol se inclinam para dentro do templo para iluminar a grande sala e as efígies de pedra do faraó, douradas pelos raios divinos do Sol vivo.

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Construído durante o reinado de Ramsés II (1265 a.C.), o grande templo é o maior da área e o maior a ter sido movido, sendo dedicado aos deuses Amon, Rá-Horakhty, Ptah e ao próprio Ramsés. Construí-lo levou vinte anos de trabalho árduo, e não apenas no que diz respeito à arquitetura.

Os arquitetos do Antigo Egito alinharam o templo de modo a que, a 21 de outubro e a 21 de fevereiro (61 dias antes e 61 dias depois do solstício de inverno), os raios de sol entrassem no santuário para iluminar as esculturas na parede, com exceção da estátua de Ptah, o deus associado ao submundo, que permanece na sombra.

A partir de estudos realizados, ainda muito teóricos, as datas deveriam corresponder ao aniversário do rei e ao dia da sua coroação, mas não existem provas que sustentem isso, exceto o facto de que, se o sol tem permissão para entrar nessas duas datas específicas, é por um propósito significativo.

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A luz entra e ilumina as estátuas; os raios são direcionados principalmente para a estátua de Ramsés. O poder do sol recarrega-o e revitaliza-o; ao seu lado, Amon-Rá e Rá-Horakhty são também parcialmente iluminados e Ptah, o deus das trevas, permanece ao lado deles, perfeitamente na sombra.

O esforço, ao mover o templo, para conseguir replicar totalmente o evento, levou, contudo, a uma margem de erro de um dia (para a frente) em relação às datas originais, criando controvérsia e um posfácio de arrependimento nesta saga, de resto, tão perfeitamente bem-sucedida. Mas, tendo em conta todo o empenho demonstrado pelas pessoas que contribuíram para o resgate, não deve ser objeto de controvérsia, mas apenas de alívio e gratidão, uma vez que o destino decretou que os templos, embora ainda não fossem um património mundial, viessem a tornar-se um deles após a conclusão da obra na sua nova localização.

Ramesses II, Abu Simbel
Ramsés II, Abu Simbel Steve F-E-Cameron (CC BY)

Quase se poderia desejar que, em algum lugar, Ramsés II e a sua esposa, a Rainha Nefertari, acenassem com a cabeça em aprovação ponderada: ele pelo salvamento do templo, ela pela força e iniciativa de um membro do seu sexo.

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Há quem tenha nascido há alguns séculos e que gostaria de ter vivido no tempo dos grandes imperadores romanos, ou no século XVII. Eu gostaria de ter nascido no tempo de Christiane Desroches-Noblecourt, uma egiptóloga e arqueóloga que faleceu em julho deste ano (2012) e que é agora homenageada por arqueólogos, estudiosos e pelos grandes centros de estudos arqueológicos como mentora de uma das maiores e mais impressionantes obras arqueológicas alguma vez empreendidas; a primeira mulher na história a liderar uma escavação, curadora do Louvre. Christiane, que juntamente com o Ministro do Património Cultural egípcio partilhou com o mundo aquilo que conseguiram salvar, deixando para os museus do mundo as imagens de Abu Simbel e dos seus templos, contando a história do que fizeram como um dever e não apenas como parte de um trabalho.

Ela levou o povo de França a lançar um apelo ao mundo relutante e indiferente, um pedido de ajuda lançado conjuntamente com o então Ministro dos Assuntos Culturais francês, André Malraux: "O poder que criou os monumentos colossais ameaçados hoje... fala-nos com uma voz tão exaltada como a dos arquitetos de Chartres, como a de Rembrandt... O vosso apelo é histórico, não porque propõe salvar os templos da Núbia, mas porque, através dele, a primeira civilização global reclama publicamente a arte do mundo como o seu património indivisível... Existe apenas uma ação sobre a qual a indiferença das estrelas e o murmúrio eterno dos rios não têm influência — é o ato pelo qual o homem arrebata algo à morte."

Ela, que perante o General Charles de Gaulle, não se deixou impressionar quando ele, inicialmente, não compreendeu o que Christiane tinha posto em marcha e disse: "Mais enfin, Madame, comment avez-vous osé dire que la France sauverait le temple, sans avoir été habilitée par mon gouvernement?" (Mas afinal, Madame, como se atreveu a dizer que a França salvaria o templo, sem ter sido habilitada pelo meu governo?), e respondeu: "Et comment, Général, avez-vous osé envoyer un appel à la radio, alors que vous n'aviez pas été habilité par Pétain?" (E como, General, se atreveu a enviar um apelo pela rádio, quando não tinha sido habilitado por Pétain?).

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Eu gostaria de ter nascido no tempo de Christiane Desroches-Noblecourt e ter respondido ao seu pedido de ajuda.

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Fanizza, I. (2026, julho 18). Christiane Desroches-Noblecourt – Forte Como as Pedras que Foi Capaz de Mover. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-437/christiane-desroches-noblecourt---forte-como-as-pe/

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Fanizza, Irene. "Christiane Desroches-Noblecourt – Forte Como as Pedras que Foi Capaz de Mover." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 18, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-437/christiane-desroches-noblecourt---forte-como-as-pe/.

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Fanizza, Irene. "Christiane Desroches-Noblecourt – Forte Como as Pedras que Foi Capaz de Mover." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 18 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-437/christiane-desroches-noblecourt---forte-como-as-pe/.

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