A Integração da Igreja e do Estado no Império Romano

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Rebecca Denova
por , traduzido por Filipa Oliveira
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No mundo antigo, a "religião" e a sociedade eram entidades interligadas: os vários deuses ditavam alianças, "códigos de leis" e convenções sociais. Esses códigos de leis eram, na maioria das vezes, da responsabilidade do rei, o que o dotava de autoridade para punir quaisquer violações. A justificação para este conceito era a de que os deuses ou Deus dotavam o governante de uma parcela de "divindade", enquanto sociedade unificada e ordem política onde o governo secular protege cada comunidade e fornece orientações morais para o dia a dia. Tratava-se de uma autoridade simbiótica, a crença de que os líderes espirituais e temporais se complementam. A uniformidade cultural e as fronteiras nacionais eram transcendidas sob uma cobertura espiritual comum. Em muitas culturas antigas, o rei exercia simultaneamente as funções de "sumo-sacerdote".

St. Ambrose
Santo Ambrósio Fr Lawrence Lew, O.P. (CC BY-NC-SA)

A tradição cristã sempre afirmou que Jesus de Nazaré ensinou novos conceitos de comportamento, em oposição à cultura dominante do Império Romano. Isto é constantemente articulado através do recurso literário da polêmica, partilhando estereótipos sobre o que estava errado nas relações humanas tanto no Judaísmo como no Império Romano. Os evangelhos alegavam que Jesus introduziu um novo conceito de "comunhão à mesa". Isto relacionava-se com os contactos sociais como uma nova forma de tratar o próximo e os outros. A "mesa de jantar" era também o meio pelo qual se negociavam transações comerciais e de negócios. A tradição cristã defende que Jesus introduziu novas regras contra as normas económicas aplicadas ao comércio e à banca.

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Constantino foi elevado à condição de chefe da Igreja, bem como do Estado.

O Livro do Levítico delineou tanto os rituais de pureza e impuridade como as regras para os judeus. A "impuridade" era interpretada como "contágio". No entanto, estas regras aplicavam-se apenas aos judeus, e não aos gentios. A "impuridade" estava relacionada com rituais e estilos de vida que Deus tinha originalmente proibido. Em tom polémico, os evangelhos alegavam que os fariseus e os saduceus no Templo tinham "regras estritas", negando egoisticamente a "salvação" aos não judeus. Contudo, a "rigidez" diz respeito à aplicação. Dispomos de pouca informação sobre a forma como estas regras eram cumpridas nas sinagogas do Império Romano. Os judeus no Templo não tinham autoridade civil ou religiosa para além de Jerusalém. Os sacrifícios romanos baseavam-se em "contratos" de benefícios recíprocos, do ut des, que se traduz por "dou para que dês" ou "para que eu receba os benefícios". Daí decorre a afirmação cristã de que os judeus e os pagãos se preocupavam apenas com "a letra da Lei", sendo legalistas e carecendo de iluminação espiritual.

No século II, o bispo gnóstico Marcião afirmou que existiam dois "deuses supremos": o Deus de Israel e o Deus dos cristãos. O Deus de Israel era o único responsável pelo "castigo pelos pecados", mas o Deus dos cristãos, através de Jesus, introduziu o "perdão dos pecados". Se já ouviu ou leu que o Deus de Israel era um "deus da ira", ao passo que o Deus do cristianismo era um "deus do amor", esta é a origem.

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Christ Driving the Money-changers from the Temple
Cristo Expulsa os Cambistas do Templo Theodoor Rombouts (Public Domain)

A cultura dominante era descrita pelo termo padrão "paganismo", que englobava as crenças e os conceitos de centenas de cultos étnicos nativos diferentes. A premissa era a de que Jesus, e posteriormente o cristianismo, tinham introduzido valores morais e familiares que estavam ausentes no paganismo. Isto era patentemente falso. As religiões antigas e os cultos nativos ensinavam valores morais e familiares, particularmente nos respetivos papéis de género. Os reis e, mais tarde, os imperadores ditavam o tom para a moralidade e para os valores familiares — o que não deixa de ser irónico, uma vez que a moralidade era imposta de forma violenta.

Os valores morais e familiares encontravam-se nos ensinamentos das escolas de filosofia, que os cristãos também adotaram. Hollywood retém a imagem de imoralidade sexual flagrante e violência nos épicos de "espada e sandália". Alguns epicuristas em Roma entregavam-se a comidas e bebidas exóticas, e à embriaguez que conduzia ao adultério. A palavra grega orgia, o termo utilizado para designar os rituais religiosos, deu origem a "orgias".

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O Bispo Ambrósio de Milão (339–397, também conhecido como Santo Ambrósio) foi um magistrado romano em regiões a norte de Roma. Conhecido como negociador de vários elementos jurídicos, foi surpreendentemente eleito bispo de Milão e converteu-se ao cristianismo. Ambrósio começou a construir a sua própria catedral em Milão. Na altura, o Império Romano ainda se encontrava envolvido nos problemas da "controvérsia ariana", que conduziu ao conceito da "Trindade" em Niceia, no ano 325. Ário, um presbítero da igreja em Alexandria, no Egito, ensinara que "o Filho" era subordinado ao "Pai", tendo sido criado no momento da criação do universo. A Trindade era um conceito de três aspetos ou naturezas de uma única divindade, em ordem descendente de divindade e autoridade.

Constantine's Vision
A Visão de Constantino Bibliothèque Nationale de France (Public Domain)

O imperador Constantino I converteu-se ao cristianismo em 306 e tornou o cristianismo uma religião legal através do "Édito de Milão" em 313. No entanto, os cristãos encontravam-se envolvidos em "cismas", devido ao problema de que, durante a última perseguição romana sob o imperador Diocleciano, alguns bispos tinham evitado a morte sacrificando aos deuses tradicionais. Apelando ao agora imperador cristão, peticionaram a Constantino para que decidisse o que devia ser feito em relação aos cismáticos. Foi nesta altura que Constantino foi elevado a "chefe da Igreja", bem como do Estado.

A excomunhão significava que o imperador não podia participar na Eucaristia nem nos outros sacramentos.

No concílio de Niceia, Constantino criou "o credo", definindo o que todos os cristãos deviam crer e praticar. Qualquer pessoa que se desviasse ou se opusesse ao credo era considerada herege. A heresia significava que não se desejava a prosperidade do império, sendo o equivalente à alta traição, crime que era sempre punido com a pena de morte. Mais cristãos morreram na arena como "hereges" após Constantino do que durante a perseguição romana.

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O imperador Teodósio I (347–395) destacou-se pela sua ortodoxia conservadora. Contudo, a sua mãe tinha permanecido "ariana" na sua visão da divindade na Trindade. Os seguidores arianos tinham exigido que Ambrósio construísse uma catedral para o grupo deles, mas Ambrósio recusou insistentemente. Ele explicou a sua decisão ao imperador várias vezes.

Theodosius I Solidus
Sólido de Teodósio I CNG (GNU FDL)

Duas outras ocorrências importantes tiveram lugar durante o reinado de Teodósio I. Em primeiro lugar, em 388, uma multidão zelosa de monges vigilantes incendiou uma sinagoga na localidade de Calinico, na Síria. Teodósio ordenou que os monges pagassem uma indemnização financeira pelos danos causados aos judeus. Ambrósio criticou-o severamente por causa disso, afirmando que, se levasse a cabo tal ordem, as pessoas "pensariam que ele era judeu". Teodósio acabou por ceder quanto à indemnização, mas ordenou que as ruínas fossem mantidas como sinal do fim do judaísmo.

O segundo acontecimento foi uma corrida de bigas em Tessalónica, em 390. O vencedor dessa corrida era pagão, mas um magistrado romano denunciou-o com base em rumores de imoralidade sexual, resultando na sua condenação e execução. Uma multidão reagiu e esquartejou o magistrado. Teodósio enviou as legiões, o que resultou no massacre de 7 000 cidadãos. Ambrósio ficou profundamente chocado com isto; acusou Teodósio de permitir que a multidão assumisse o controlo e considerou a reação excessiva. Afinal de contas, o condutor era simplesmente um pagão.

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O Bispo Ambrósio deu o passo inédito de excomungar o imperador devido a estas ações. A excomunhão significava que o imperador não podia participar na Eucaristia nem nos outros sacramentos. Sendo ele o chefe da Igreja, isto afetava todos os cristãos.

Num tratado conhecido como Sobre os Deveres dos Ministros ou Sobre o Ofício dos Ministros (tít. original: De officiis ministrorum - 377–391), Ambrósio começou por fazer uma exegese do Génesis. O "estado" foi criado no início do mundo no Éden e é, por conseguinte, divino. Adão e Eva, na sua comunhão e nos papéis subsequentes, estabeleceram o modelo para a função dos líderes humanos na terra. Ambrósio delineou o papel dos imperadores e dos magistrados, os "filhos obedientes da Igreja". No que respeita a questões teológicas (dogma), os imperadores e magistrados não podiam legislar sobre matérias de fé e conduta moral utilizando os seus pontos de vista pessoais. Essa é a tarefa dos bispos na Igreja. Um imperador é simplesmente um cristão elevado, e o seu principal dever consiste em aplicar punições pelo que era considerado divergência, ou heresia, e em castigar os pecadores de acordo com as diretrizes dos bispos. Sendo assim, o imperador está "na Igreja, mas não acima da Igreja". Ao longo dos séculos, mais reuniões conciliares e mais tratados foram acrescentados. Ambrósio e Teodósio acabaram por se reconciliar quando Teodósio cumpriu penitência pública.

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Denova, R. (2026, agosto 12). A Integração da Igreja e do Estado no Império Romano. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2966/a-integracao-da-igreja-e-do-estado-no-imperio-roma/

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Denova, Rebecca. "A Integração da Igreja e do Estado no Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 12, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2966/a-integracao-da-igreja-e-do-estado-no-imperio-roma/.

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Denova, Rebecca. "A Integração da Igreja e do Estado no Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 12 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2966/a-integracao-da-igreja-e-do-estado-no-imperio-roma/.

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