A Lenda de Ticonderoga figura entre as mais célebres histórias de fantasmas dos últimos duzentos anos, permanecendo uma das favoritas de folcloristas e, especialmente na altura do Halloween, dos contadores de histórias em eventos sazonais. Qualquer resumo ou debate sobre o enredo arruinaria o conto, que se apresenta abaixo. Contudo, a história envolve o nobre escocês Duncan Campbell, mortalmente ferido na Batalha de Carillon, a 8 de julho de 1758, quando as forças britânicas e os seus regimentos provinciais tentaram — e falharam — tomar o Forte Carillon (presentemente conhecido como Forte Ticonderoga) aos franceses.
Um tratamento conciso, mas abrangente, das diversas variantes do conto é apresentado pelo historiador Dr. Joseph Gagné em 'A' Legend of Ticonderoga: Retracing the Origins of the Duncan Campbell Ghost Story («Uma» Lenda de Ticonderoga: Retraçando as Origens da História do Fantasma de Duncan Campbell) disponível aqui e cuja leitura se recomenda vivamente apenas após se ter experienciado a história propriamente dita.
As Versões e as Variantes Mais Conhecidas
Desconhece-se a origem do conto, contudo, segundo o Dr. Gagné, foi transmitido por via oral até ter sido escrito pelo autor escocês Thomas Dick Lauder, em 1841. As versões mais conhecidas são a de A. P. Hill, de 1880, o célebre poema de Robert Louis Stevenson, de 1887, e o relato de Andrew Lang, incluído na sua obra The Book of Dreams and Ghosts (O Livro dos Sonhos e dos Fantasmas) (1897).
Lang afirma ter ouvido a história de Elspeth Campbell, filha de Lorde Archibald Campbell (não o Archibald Campbell que lutou ao lado do seu pai, Duncan, em Carillon) e de Janey Sevilla Callander, mas não fornece quaisquer pormenores sobre quando ou como a ouviu, nem pistas quanto à sua origem. O próprio Lorde Archibald Campbell escreveu a sua versão do conto em 1885, a qual, segundo Gagné, continha diversos erros críticos que a versão de Elspeth corrige.
Como qualquer grande conto popular, A Lenda de Ticonderoga possui diversas variantes, e os detalhes alteram-se em quase todas as versões. Algumas situam os eventos durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos (1775-1783), mas as mais conhecidas seguem a versão apresentada por Lauder em 1841, fixando o desfecho do conto na Batalha de Carillon, travada durante a Guerra Franco-Indígena de 1754-1763.
Duncan Campbell é reconhecido como uma figura histórica, e a Batalha de Carillon é um acontecimento histórico verídico. Se os restantes eventos do conto ocorreram de facto, cabe a cada leitor decidir por si mesmo.
O Texto
O texto que se segue foi extraído de The Book of Dreams and Ghosts (1897), de Andrew Lang (1844-1912) — folclorista, romancista, poeta e académico escocês, tal como se encontra reproduzido na íntegra no sítio do Project Gutenberg, indicado abaixo na bibliografia e nas ligações externas. Alguns pormenores que se seguem são historicamente imprecisos (incluindo a data da batalha, referida como 10 de julho), mas, tratando-se de um conto popular, é-lhe concedida liberdade artística.
Corria uma noite de verão do ano de 1755 quando [Duncan] Campbell de Inverawe se encontrava na encosta do monte Cruachan. Sobressaltou-se ao ver um homem que corria em sua direção a toda a velocidade; um homem esfarrapado, ensanguentado e, evidentemente, sofrendo agonias de terror. 'Os vingadores de sangue seguem-me o rasto. Oh, salvai-me!', conseguiu arquejar o pobre miserável. Inverawe, compadecido do infeliz, jurou — 'Pela palavra de um Inverawe, que nunca falhou nem a amigo nem a inimigo' — salvá-lo.
Inverawe conduziu então o estranho à caverna secreta na encosta do Cruachan.
Ninguém conhecia a caverna senão o próprio senhor de Inverawe, pois o segredo era guardado com o maior cuidado e fora transmitido de pai para filho durante muitas gerações. A entrada era pequena e ninguém que por ali passasse suspeitaria, nem por um instante, ser mais do que a toca de uma raposa; contudo, no seu interior, havia salas de dimensões razoáveis, uma das quais continha um poço da mais pura água de nascente. Diz-se que Wallace e Bruce se tinham servido desta caverna em tempos idos.
Ali, Inverawe deixou o seu hóspede. O homem estava de tal forma dominado pelo terror que se agarrou à manta de tartã de Inverawe, suplicando-lhe que não o deixasse sozinho. Inverawe sentiu uma profunda repugnância por esta conduta cobarde e, no seu íntimo, quase se arrependia já de ter empenhado a sua palavra para salvar uma criatura tão desprezível.
Ao regressar a casa, Inverawe encontrou um homem num estado de grande agitação à sua espera. Este informou-o do assassinato do seu irmão de criação (de Inverawe) por um tal Macniven. 'Seguimos o rasto do assassino até uma curta distância deste local', disse ele, 'e estou aqui para o avisar, caso ele procure a sua proteção.' Inverawe empalideceu e permaneceu em silêncio, sem saber que resposta dar. O homem, conhecendo o amor que unia os dois irmãos de criação, pensou que este silêncio advinha apenas do luto e deixou a casa para prosseguir a busca por Macniven.
A compaixão que Inverawe sentira pelo homem tremente que deixara na caverna transformou-se em ódio ao pensar no seu amado irmão de criação assassinado; mas, como empenhara a sua palavra para o salvar, salvá-lo teria de o fazer, e fá-lo-ia. Assim sendo, logo que a noite caiu, dirigiu-se à caverna com mantimentos e prometeu regressar com mais no dia seguinte.
Completamente exausto, mal chegou a casa, recolheu-se para descansar, mas não conseguia conciliar o sono. Assim, pegando num livro, começou a ler. Uma sombra projetou-se sobre a página. Ele ergueu o olhar e viu o seu irmão de criação de pé, junto à cabeceira da cama. Mas, oh, quão mudado! O seu cabelo loiro empastado de sangue; o rosto pálido e fustigado, e as suas vestes todas ensanguentadas. Ele proferiu as seguintes palavras: 'Inverawe, não protejas o assassino; sangue deve correr por sangue', e depois desvaneceu-se, sumindo de vista.
Apesar das ordens do espírito, Inverawe permaneceu fiel à sua promessa e regressou no dia seguinte junto de Macniven com novos mantimentos. Nessa noite, o seu irmão de criação apareceu-lhe de novo, proferindo o mesmo aviso: 'Inverawe, Inverawe, não protejas o assassino; sangue deve correr por sangue'.
Ao amanhecer, Inverawe correu para a caverna e disse a Macniven: 'Já não te posso proteger; deves escapar como melhor conseguires'. Inverawe esperava agora não receber mais visitas do espírito vingativo. Em vão, pois à hora habitual o fantasma apareceu e, com ira, disse: 'Avisei-te uma vez, avisei-te duas vezes; agora é tarde demais. Voltaremos a encontrar-nos em TICONDEROGA'.
Inverawe levantou-se antes do amanhecer e dirigiu-se logo à caverna. Macniven tinha partido!
Inverawe não voltou a ver o fantasma, mas a aventura deixou-o um homem sombrio e melancólico. Muitas vezes deambulava pela encosta do monte Cruachan, remoendo a sua visão; as pessoas que passavam por ele, ao verem o olhar ausente nos seus olhos, diziam umas às outras: 'O pobre senhor, está sempre a pensar naquele que partiu'. Apenas os seus amigos mais próximos conheciam a causa da sua melancolia.
Em 1756, estalou a guerra entre ingleses e franceses na América. O 42.º regimento embarcou e desembarcou em Nova Iorque em junho desse ano. Campbell de Inverawe era major no regimento. O tenente-coronel era Francis Grant. De Nova Iorque, o 42.º seguiu para Albany, onde o regimento permaneceu inativo até à primavera de 1757.
Certa noite, quando o 42.º ainda se encontrava aquartelado neste local, Inverawe perguntou ao coronel 'se alguma vez ouvira falar de um lugar chamado Ticonderoga'. O Coronel Grant respondeu que nunca escutara tal nome anteriormente. Inverawe contou então a sua história. A maioria dos oficiais estava presente nessa ocasião; alguns ficaram impressionados, outros inclinaram-se a encarar tudo como uma partida mas, vendo quão profundamente perturbado Inverawe estava com toda a situação, até os mais incrédulos se abstiveram de troças.
Em 1758, uma expedição seria dirigida contra Ticonderoga, no Lago George, um forte erguido pelos franceses. Os Highlanders fariam parte desta expedição. A força estava sob o comando do Major-General Abercromby.
Ticonderoga era chamada pelos franceses de St. Louis [na realidade, 'Forte Carillon'], e Inverawe não a conhecia por outro nome. Um dos oficiais disse ao Coronel Grant que o nome indígena do lugar era Ticonderoga. Grant, lembrando-se da história de Campbell, disse: 'Pelo amor de Deus, não deixem o Campbell saber disto, ou algo de mau acontecerá'.
As tropas embarcaram no Lago George e desembarcaram sem oposição perto da extremidade do lago, no início de julho. Dali, marcharam através de bosques sobre Ticonderoga, tendo travado uma escaramuça bem-sucedida com o inimigo, repelindo-o com perdas consideráveis. Lorde Howe foi morto neste recontro.
A 10 de julho, foi ordenado que o assalto fosse iniciado pelos piquetes. Os Granadeiros deveriam seguir-se, apoiados pelos batalhões e reservas. Os Highlanders e o 55.º regimento formavam a reserva.
Em vão as tropas tentaram abrir caminho através das abatis, expondo-se a um pesado fogo de artilharia e de mosquetes vindo de um inimigo bem protegido. Os Highlanders não puderam mais ser contidos e lançaram-se em frente a partir da reserva, cortando e talhando o caminho entre árvores e outros obstáculos com as suas claymores. O fogo mortal continuava a fustigar a partir do forte.
Como não tinham sido providenciadas escadas para escalar o parapeito, os soldados subiram para os ombros uns dos outros e abriram buracos para os pés na face da estrutura com as suas espadas e baionetas; porém, mal um homem atingia o topo, era derrubado. O Capitão John Campbell e alguns homens conseguiram finalmente forçar a entrada sobre os parapeitos, mas foram imediatamente abatidos.
Após uma luta longa e desesperada, que durou na verdade quase quatro horas, o General Abercromby deu ordem de retirada. As tropas dificilmente puderam ser convencidas a recuar, e foi apenas quando a ordem foi dada pela terceira vez que os Highlanders se retiraram do embate inglório. As perdas sofridas pelo regimento foram as seguintes: oito oficiais, nove sargentos e 297 soldados mortos; dezassete oficiais, dez sargentos e 306 soldados feridos.
Inverawe, após ter lutado com a maior coragem, recebeu finalmente o seu ferimento mortal. O Coronel Grant correu para o lado do homem moribundo, que olhou para ele com reprovação e disse: 'Vós enganastes-me; isto é Ticonderoga, pois eu vi-o'. Inverawe nunca mais falou. O filho de Inverawe, oficial no mesmo regimento, também perdeu a vida em Ticonderoga.
No preciso dia em que estes eventos ocorriam na distante América, duas senhoras, Miss Campbell de Ederein e a sua irmã, caminhavam de Kilmalieu para Inveraray e tinham chegado à então ponte nova sobre o Aray. Uma delas calhou olhar para o céu e chamou a irmã para olhar também. Ambas viram no firmamento o que parecia ser um cerco em curso. Viram os diferentes regimentos com as suas bandeiras e reconheceram muitos dos seus amigos entre os Highlanders. Viram Inverawe e o seu filho cair, bem como outros homens conhecidos.
Quando chegaram a Inveraray, contaram a todos os amigos a visão que tinham acabado de ter. Registaram também os nomes daqueles que tinham visto cair, bem como a hora e a data da ocorrência.
O conceituado médico dinamarquês, Sir William Hart, juntamente com um inglês e um criado, passeava em redor do Castelo de Inveraray. Estes homens viram o mesmo fenómeno e confirmaram os depoimentos feitos pelas duas senhoras. Semanas depois, a gazeta corroborou as suas afirmações no relato que fez da tentativa de tomada de Ticonderoga. Todos os detalhes na visão estavam corretos, até ao número exato de mortos e feridos.
Muito antes de a gazeta ser publicada, já havia luto por toda a região de Argyll.
