Júlio César (100-44 a.C.) é, com frequência, retratado como um gênio imperfeito. Como gênio, dominou sua geração. Imperfeito, ele acabou assassinado pela forma como se comportou. César mudou Roma, destruindo o mecanismo republicano secular de governo, baseado na eleição anual de magistrados. Também alterou o mapa europeu ao trazer a região onde atualmente se encontra a França ao mundo mediterrâneo. Não está claro se o governo romano em declínio do século I a.C. poderia ter realizado tais feitos por conta própria. A conquista da Gália requeria a visão de um homem operando fora dos limites da constituição romana, além da habilidade de uma das maiores mentes militares da história.
As questões fundamentais levantadas pela carreira de César estão conectadas à natureza das instituições democráticas. As instituições democráticas podem funcionar de forma eficaz e consistente no interesse da maioria dos seus cidadãos, proporcionando os benefícios de uma sociedade ordenada de forma igualitária? Ou essas instituições são inerentemente falhas, permitindo que atores assumam o controle político em seu próprio benefício e, portanto, condenadas ao fracasso quando os cidadãos se cansam de não receber os benefícios que esperam? Quando as instituições democráticas falham, os cidadãos vão se voltar inevitavelmente para um homem forte, que promete realizar o que os demais não conseguiram? César é um modelo ou uma figura política única, cuja poderosa inteligência e capacidade de organização o destacavam não apenas dos seus contemporâneos, mas de gerações de possíveis sucessores?
Ser César
Estar na pele de César não era fácil. Exigia paciência e capacidade de ouvir. Mesmo aqueles que não o apreciavam admitiam que César era um homem excepcionalmente brilhante e culto, com a habilidade de conquistar o apoio dos demais pela força de seus argumentos. Estas não são qualidades que muitos aspirantes a ditadores possuem. Embora o próprio César não fosse um democrata, ele realmente se importava com os menos afortunados e com o bem-estar dos indivíduos que o serviam. Nos relatos que escreveu sobre a conquista da Gália e, em seguida, da guerra civil que iniciou ao cruzar o Rio Rubicão, em 49 a.C., ele demonstra com bastante clareza que seu pensamento durante a campanha incluía a avaliação do bem-estar de seus homens, além de inspirar lealdade genuína naqueles mais próximos. Ainda que César estivesse absolutamente convencido de que as instituições democráticas da República Romana eram ineficientes e não conseguiam proporcionar um governo efetivo para o império, a sua compreensão de como resolver a situação mudava conforme as circunstâncias. A capacidade de se adaptar permitiu a César se tornar o colosso mencionado por Cássio.
Conhecemos César melhor do que virtualmente qualquer outra figura histórica antes de Santo Agostinho, com exceção de seu contemporâneo Cícero (106-43 a.C.), através da leitura cuidadosa de suas próprias obras. Podemos aprender muito, em particular, com o que tem a dizer a seu respeito e aos princípios de administração que adotava. Ele tem muito a nos dizer sobre seu papel como general e o papel da política no planejamento estratégico, além da gestão em si e a enorme atenção ao detalhe necessária para o sucesso de um líder. A organização que César construiu na década passada na Gália era mais forte do que o estado que ostensivamente servia. Ele implantou essa mesma organização para transformar o estado.
Uma Democracia Disfuncional
César apresentava-se como um homem devotado a melhorar as condições das pessoas comuns. Definia o bom governo como aquele que servia aos interesses do povo em geral. Ele desprezava os sistemas políticos que mantinham as pessoas comuns escravas do poder e do interesse próprio dos aristocratas. Na sua opinião, o propósito do governo era servir aos interesses da maioria dos cidadãos, o que o tornava um "populista", conforme definições tanto romanas como modernas, mas um populista não precisa ser, e com frequência não é, um democrata. César também desprezava a ineficiência e a democracia romana na qual cresceu estava desmoronando. Os ricos aristocratas que dominavam a cena política viam o aumento de sua riqueza pessoal e da influência de suas famílias como o propósito do governo. O romano médio obtinha poucos benefícios do sistema. Caso se ligasse aos interesses do político certo, poderia ter benefícios pessoais, mas havia pouca liberdade de escolha. Os eleitores (só os homens tinham esse direito) podiam votar num programa que aparentemente iria beneficiá-lo ou à sua família, mas raramente tal proposta seria realizada da forma como havia sido divulgada. Pela conduta do povo romano, podemos avaliar que tinham pouco amor por um sistema de governo propenso a entraves e corrupção.
César ficou em condições de ser eleito para os cargos mais importantes quando adotou uma postura contrária ao sistema vigente. Mas sua visão do que o governo deveria fazer em favor das pessoas comuns e como podia exercer melhor o poder não se encaixava nas instituições da democracia romana. Ele precisava de um meio de romper as obstruções que impediam o progresso. Sua inclinação não era a de discutir, mas sim ordenar. Suas tendências ditatoriais ficaram evidenciadas pela forma como impôs uma agenda legislativa através das assembleias, ignorando o Senado Romano quando este se recusava a votar suas propostas - e não hesitou em fazer o que fosse necessário para alcançar seus objetivos. Como ditador, César cumpriu finalmente as promessas feitas ao povo. Por causa disso, os romanos apoiaram o jovem herdeiro de suas propriedades [Otaviano, futuro Augusto], o que levou ao estabelecimento de um sistema monárquico de governo que duraria séculos.
César não tinha dúvidas de que seu entendimento sobre as necessidades da sociedade romana estava correto e, ainda que se mostrasse disposto a mudar de direção a partir de novas informações, deixava muito claro que somente ele tomaria a decisão final. Certamente, estava consciente de que enraivecia aqueles descendentes de famílias senatoriais que se sentiam como seus iguais. Estas pessoas apoiaram Bruto e Cássio. No final das contas, César acabou assassinado pelos ricos e descontentes. Suas reformas foram preservadas e expandidas porque o povo romano percebeu que, pela primeira vez, tiveram em César um líder que, além de se importar realmente com eles, tinha uma versão do governo melhor do que uma democracia disfuncional.

