Batalha de Edington

Michael McComb
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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A Batalha de Edington (também denominada Ethandun), travada em maio de 878 no sudoeste da Inglaterra, viu Alfredo, o Grande, Rei de Wessex (Ælfrēd; reinou 871-899), obter vitória decisiva sobre o líder viking Guthrum (✝ 890). Duas semanas depois, nos termos do Tratado de Wedmore, Guthrum se rendeu, concordando em se converter ao cristianismo e deixar Wessex.

Alfred the Great Statue, Winchester
Estátua de Alfredo, o Grande, Winchester Odejea (CC BY-NC-SA)

Nos meses que antecederam a batalha, os vikings haviam invadido grande parte da Inglaterra e, com a invasão de Wessex por Guthrum, em janeiro de 878, o último reino anglo-saxão estava à beira do colapso. Depois de ser forçado a se esconder nos pântanos de Somerset, Alfredo finalmente reuniu o seu exército e derrotou os invasores. Seu triunfo obrigou Guthrum a recuar para East Anglia, onde reinou como rei.

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Nos anos que se seguiram, os dois reis trabalharam para estabelecer coexistência mais pacífica entre os colonizadores nórdicos e os anglo-saxões. No entanto, os sucessores de Alfredo eventualmente embarcaram na reconquista dos reinos anglo-saxões perdidos, e Edington seria, com o tempo, marcada como a primeira de muitas grandes vitórias em sua busca para unificar a Inglaterra sob um único governante.

A Chegada dos Vikings

Os ataques vikings na Grã-Bretanha começaram em 788, quando três navios de piratas nórdicos aportaram em Portland, Dorset, onde mataram um administrador local (funcionário real). No entanto, o ataque que realmente horrorizou os anglo-saxões ocorreu cinco anos depois, quando um grupo de vikings atacou, em 8 de junho de 793, o mosteiro de Lindisfarne, perto da fronteira anglo-escocesa, que abrigava as relíquias de São Cuteberto, um dos santos mais venerados da Inglaterra. O famoso erudito Alcuíno (✝ 804) lamentou: "Eis a igreja de São Cuteberto salpicada com o sangue dos sacerdotes de Deus, despojada de todos os seus ornamentos; um lugar mais venerável do que qualquer outro na Grã-Bretanha é entregue como presa a povos pagãos" (Whitelock, 899).

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EM MEADOS DO SÉCULO IX, OS VIKINGS ATACAvam AS RICAS CIDADES DE Cantuária e Londres E DERROTAvam REIS EM BATALHA.

Encorajados pelo sucesso inicial, em meados do século IX, os vikings estavam visando as ricas cidades de Cantuária e Londres e derrotando reis em batalha. Alfredo nasceu neste mundo turbulento e instável, em 849. A Inglaterra como a conhecemos hoje ainda não existia e estava dividida em quatro reinos: Ânglia Oriental, Mércia (as Midlands), Nortúmbria (norte da Inglaterra) e o reino meridional de Wessex, que era governado pelo pai de Alfredo, o rei Etelvulfo (Aethelwulf, reinou 839-858).

Em 865, a ameaça viking aumentou quando Ivar, o Desossado, o governante viking de Dublin (reinou 857-873), reuniu uma coalizão de frotas – conhecida pelos contemporâneos como o 'Grande Exército' – a partir de bases nórdicas na Frância, Frísia, Escandinávia e Hébridas. Apoiados por talvez até 5.000 guerreiros, Ivar e os seus aliados obtiveram sucesso rapidamente, conquistando York, a capital da Nortúmbria, em 866. Três anos depois, em 869, voltaram-se para o sul, em direção à Ânglia Oriental, derrotando seu governante, o rei Edmundo (reinou 855-869). Após a recusa em render-se aos pagãos, Edmundo foi punido com a morte de um mártir – amarrado a uma árvore, foi alvejado por lanças e decapitado.

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The Death of St Edmund
A Morte de Santo Edmundo Abbo of Fleury (Public Domain)

Wessex & os Vikings

Após a conquista da Ânglia Oriental, Ivar foi lutar contra os bretões de Strathclyde (atual sudoeste da Escócia, conhecido como Vale do Rio Clyde), deixando seu irmão Halfdan no comando do restante do exército. No inverno de 870, eles navegaram pelo Tâmisa, chegando a Reading, na fronteira norte de Wessex. No ano seguinte (871), ocorreram nove batalhas árduas entre o Grande Exército e Wessex. Liderados pelo filho do rei Etelvulfo, o rei Etelredo (Aethelred, reinou 865-871), os saxões ocidentais obtiveram vitórias inesperadas em Englefield e Ashdown, em Berkshire, mas sofreram perdas em Basing e Merton, em Hampshire.

A primavera de 871 mudaria o impasse a favor dos vikings; eles foram reforçados por frota liderada por Guthrum, um experiente rei do mar e parente da família real dinamarquesa. Seus seguidores sussurravam que o trono dinamarquês deveria ter sido dele se ele não tivesse sido roubado quando jovem. Guthrum, no entanto, contentou-se com a vida lucrativa de saqueador e agora vislumbrava oportunidades ilimitadas de pilhagem e conquista entre os reinos anglo-saxões em desintegração.

A posição precária de Wessex foi agravada pela morte do rei Etelredo, que provavelmente morreu devido a ferimentos de batalha. Ele foi sucedido por seu irmão mais novo, Alfredo. Com 22 anos, Alfredo era doente e estudioso, mas havia provado ser um guerreiro corajoso em Ashdown. No entanto, incapaz de expulsar os vikings de Wessex, no final do ano, ele decidiu pagar-lhes para que deixassem seu reino. A quantia paga provavelmente foi exorbitante, mas, mesmo assim, daria paz a Wessex – pelo menos por alguns anos.

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Great Viking Army in England, 865-878 CE
O Grande Exército Viking em Inglaterra, 865-878 Hel-hama (CC BY-SA)

Retornando para o norte, o Grande Exército mirou em seguida o reino central da Mércia. O governante da Mércia, o rei Burgred (reinou 852-874), tentou manter os vikings afastados, pagando-lhes em troca de paz, mas quando o Grande Exército atacou, em 874, ele foi forçado a abdicar e fugir pelo Canal da Mancha. Seu sucessor, Ceolwulf II (reinou 874-879), foi obrigado a ceder metade de seu reino, permitindo que os vikings se estabelecessem nas Midlands Orientais e usassem suas cidades como bases militares. Assim, em 874, Wessex se consolidou como o último reino anglo-saxão verdadeiramente independente.

A Emboscada em Chippenham

Guthrum assumiu o controle do Grande Exército em 875, com Halfdan partindo para lutar contra os escoceses. No ano seguinte, ele liderou uma segunda invasão de Wessex, mas em 877, o conflito chegou a um impasse e a paz foi assegurada com juramentos de Alfredo e Guthrum, que se retiraram para Gloucester, no sudoeste da Mércia. Ao final de 877, Alfredo chegou a Chippenham, no norte de Wiltshire, onde passaria o Natal. Acompanhado por seus amigos e familiares, ele pôde deixar de lado brevemente o pesado fardo da realeza e refletir sobre seu reinado.

As festividades de Natal duraram 12 dias, de 25 de dezembro a 6 de janeiro. Na Noite de Reis (Epifânia), o grande salão de Chippenham estava barulhento e jubilante, com banquetes e celebrações. Os veteranos da campanha de 871 ergueram as suas taças em homenagem à morte de Halfdan, morto na Irlanda alguns meses antes, enquanto poetas cantavam sobre a bravura de Alfredo em Ashdown. Mas, de repente, o salão ficou em silêncio. Gritos distantes vindos dos portões da cidade transformaram-se em berros. Guthrum, ignorando seus votos de paz, liderara seu exército para o sul, partindo de Gloucester sob a proteção da noite. Enquanto os defensores da cidade estavam distraídos com as festividades, ele atacou as muralhas de Chippenham, massacrando todos que se opunham a ele. Mas, de alguma forma, em meio ao caos e à violência, Alfredo, sua família e alguns guerreiros domésticos escaparam, fugindo para o oeste na escuridão da noite.

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ALFREDo FUGIU PARA OS PÂNTANOS DE SOMERSET, ONDE FOI PROTEGIDO DOS INVASORES PELO TERRENO TRAIÇOEIRO.

No entanto, nem todos os saxões ocidentais viram isso como um desastre. O responsável por Chippenham, o ealdormano Wulfhere de Wiltshire, aliou-se a Guthrum. Acreditando estar escolhendo o lado vencedor, Wulfhere vislumbrou novas oportunidades ao se associar aos vikings. Ele talvez até aspirasse a usar a coroa saxônica ocidental em nome de Guthrum, legitimando o domínio viking. O que restava da nobreza saxônica ocidental estava agora dispersa e sem líder. Alguns morreram em Chippenham, outros fugiram pelo Canal da Mancha e muitos se refugiaram em suas propriedades, esperando que Guthrum os deixasse em paz.

Entretanto, Guthrum sabia que, para derrotar Wessex, precisava capturar e matar o seu rei. Assim, temendo por sua vida – sem um exército ou tempo para formar um – Alfredo fugiu para os pântanos de Somerset, onde, segundo seu biógrafo contemporâneo, o bispo Asser, viveu "em grande tribulação, uma vida inquieta entre os bosques e pântanos" (Cook, 18). Contudo, ele estava escondido, ou pelo menos protegido dos invasores, pelo terreno pantanoso e traiçoeiro. De fato, na série de TV O Último Reino (The Last Kingdom - 2015/2022), nesse exato momento, Guthrum (interpretado por Thomas W. Gabrielsson) é instado por um de seus comandantes a perseguir Alfredo. Ao que ele responde: "Só um tolo lideraria um exército no pântano."

Mitos e Pântanos

Os primeiros dias de Alfredo nos sombrios pântanos de Somerset, buscando refúgio, caçando e pescando para sobreviver, tornaram-se o cenário de muitos mitos e lendas. O mais famoso é Alfredo e os Bolos, no qual, viajando sozinho e disfarçado de homem comum, Alfredo se abriga na cabana de um criador de porcos. A esposa do homem, preocupada com a limpeza, pede ao hóspede que vigie alguns bolos que ela está assando. Perdido em pensamentos, remoendo seus fracassos, Alfredo perde a noção do tempo e os bolos queimam. Sentindo o cheiro de fumaça do outro lado da sala, a esposa do criador de porcos repreende Alfredo, dizendo-lhe: "Veja bem, homem, hesita em virar os pães que vê que estão queimando. No entanto, fica muito feliz em comê-los quando saem quentes do forno" (Keynes e Lapidge, 198). Em vez de revelar sua verdadeira identidade, Alfredo humildemente se desculpa e ajuda com os bolos.

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Alfred and the Cakes
Alfredo e os Bolos James William Edmund Doyle (Public Domain)

Em outra história, Alfredo e os seus companheiros estão pescando quando um peregrino faminto se aproxima deles, pedindo comida. Apesar das suas parcas rações, Alfredo ordena que os seus servos preparem uma refeição para o peregrino, que misteriosamente desaparece. Naquela noite, São Cuteberto aparece a Alfredo num sonho. Cuteberto revela que ele era o peregrino disfarçado e, como recompensa pela generosidade do rei, ajudaria os saxões ocidentais a derrotar os vikings. Embora essas histórias sejam geralmente consideradas mitos em vez de fatos, elas refletem como Alfredo era lembrado – um governante humilde e generoso que tratava até mesmo os seus súditos mais humildes com respeito.

Mitos à parte, Alfredo passou a maior parte do tempo planejando seu retorno ao poder. Ele não podia fazer isso sozinho, no entanto, e pouco depois de sua fuga para os pântanos, juntou-se a ele o ealdormano Etelnoto (Aethelnoth) de Somerset, que trouxe soldados, suprimentos e informações locais para a causa de Alfredo. Na Páscoa de 878, eles haviam construído uma fortaleza, Athelney, no meio dos pântanos, para servir como base de operações e iniciar a luta pela retomada de Wessex. Sem efetivo suficiente para enfrentar Guthrum diretamente, mas com amplo conhecimento do terreno local, Alfredo travou guerra de guerrilha contra os vikings. Emergindo diariamente dos pântanos, ele e seus bandos de guerra atacavam as propriedades daqueles que haviam se aliado a Guthrum, emboscavam as patrulhas inimigas e interrompiam as linhas de suprimento vikings. A cada ataque, Alfredo proclamava que ainda era rei e estava disposto a lutar pela sua coroa.

Enquanto isso, mais a oeste, um segundo exército viking desembarcou na costa norte de Devon, buscando encurralar Alfredo entre eles, a oeste, e o exército de Guthrum, a leste. Mas o seu plano foi frustrado por Odda, Ealdorman de Devon, que permaneceu leal a Alfredo, e perto de Countisbury, no norte de Devon, ele aniquilou os invasores. Essa vitória e a implacável campanha de guerrilha trouxeram novos recrutas para o lado de Alfredo, e no início de maio, ele saiu dos pântanos, enviando mensageiros para Hampshire, Somerset e Wiltshire, exigindo que todo homem capaz de lutar pegasse em armas. O ponto de encontro era a Pedra de Egberto – um monumento agora perdido em homenagem ao avô de Alfredo, na fronteira entre Somerset e Wiltshire. Muitos atenderam ao chamado às armas e, como relatou Asser, "quando viram o rei restaurado à vida, por assim dizer, após tamanha tribulação, ficaram cheios, como era de se esperar, de uma alegria imensurável" (Cook, 19).

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A Batalha

Com os exércitos de Hampshire, Somerset e Wiltshire – muitos dos quais haviam abandonado seu ealdorman, Wulfhere – Alfredo estava pronto para confrontar Guthrum, que deixou Chippenham e marchou para enfrentar o exército reformado de Wessex. Ambos sabiam que esse confronto não era apenas uma batalha, mas um veredito sobre quem deteria o poder ao sul do Tâmisa.

Não se sabe o tamanho do exército de Alfredo, mas provavelmente era de alguns milhares de homens, e para Guthrum abandonar as muralhas de Chippenham e arriscar uma batalha em campo aberto, ele provavelmente tinha um número semelhante de tropas. As tropas de Alfredo acamparam na Pedra de Egberto antes de marcharem para o leste ao amanhecer, cruzando para Wiltshire, onde acamparam em Iglea – um local não identificado perto de Warminster. Na manhã seguinte, eles continuaram sua marcha e, depois de várias horas, avistaram o exército de Guthrum perto da propriedade real de Edington, no sudoeste de Wiltshire.

Artist's Impression of Alfred the Great
Ilustração de Alfredo, o Grande The Creative Assembly (Copyright)

Fontes contemporâneas oferecem poucos detalhes sobre a batalha em si, mas podemos imaginar Alfredo rezando por favor divino antes da batalha e reunindo suas tropas com palavras de dever e fé, lembrando-as de que esta era uma batalha pela sobrevivência de seu reino. Em O Último Reino, antes deste grande confronto contra os vikings, Alfredo (interpretado por David Dawson) dirige-se às suas tropas com uma mensagem mais brutal: "Faremos a terra vermelha com o sangue deles. Vamos despojá-los do que saquearam. Faremos com que clamem por misericórdia, e não haverá nenhuma. Nenhuma misericórdia!"

Com os rituais pré-batalha completos, ambos os lados reuniram suas fileiras, e Alfredo ordenou que seus homens formassem uma muralha de escudos – uma característica padrão da guerra anglo-saxônica, uma linha de escudos entrelaçados que nenhum inimigo poderia facilmente romper. Vendo isso, o exército de Guthrum avançou. À medida que os dois lados se aproximavam, seus gritos de guerra enchiam o ar, seguidos por uma troca de projéteis, com pedras, dardos e flechas sendo disparados por ambos os exércitos. Então, os dois lados se enfrentaram, com machados golpeando madeira e ferro e o som do aço tilintando enquanto os espadachins se atacavam. Os ataques vikings eram implacáveis, mas os homens de Wessex permaneceram firmes e disciplinados, respondendo a cada investida com estocadas de suas lanças. Asser nos conta que Alfredo liderou suas tropas para a batalha, lutando "ferozmente" e "perseverantemente" (Cook, 19). Com o passar do dia, os ataques vikings diminuíram e cessaram completamente. No final do dia, Guthrum, testemunhando seus homens caindo em massa, ordenou a retirada. Contudo, para os saxões ocidentais, a batalha estava longe de terminar. Eles perseguiram seus inimigos em fuga com entusiasmo implacável, abatendo os retardatários e os feridos pelas costas. O destino do exército derrotado, Chippenham, a 24 km (15 milhas) de Edington, fez com que sua retirada desesperada continuasse noite adentro. Ao chegar à cidade, os sobreviventes vikings se barricaram atrás de suas muralhas, mas Alfredo chegou logo depois, cercando Chippenham e colocando-a sob cerco.

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Guthrum ficou com um exército muito reduzido, suprimentos de comida insuficientes e sem saída. Ele resistiu por duas semanas antes que a fome o levasse a se render. Ele ofereceu promessas de paz a Alfredo e implorou ao rei que o permitisse deixar Wessex. No entanto, Alfredo passou a desconfiar de Guthrum devido às suas traições passadas. Na visão de Alfredo, a falsidade de Guthrum derivava diretamente de sua fé pagã. Assim, como condição para a paz, Alfredo exigiu que Guthrum e seus principais seguidores se convertessem ao cristianismo. Somente como príncipe cristão, raciocinou ele, o líder viking poderia ser confiável para manter a paz e ser parceiro na construção de um futuro mais próspero para ambos os lados. Sem alternativa, Guthrum cedeu às exigências de Alfredo em um acordo conhecido como Tratado de Wedmore.

Memorial to the Battle of Edington
Memorial da Batalha de Edington Trish Steel (CC BY-SA)

Paz e Conversão

Três semanas após a rendição, em meados de junho, Alfredo retornou aos pântanos de Somerset; desta vez, em vez de se esconder de Guthrum, ele trouxe o líder viking consigo. A igreja em Aller, perto de Athelney – talvez onde Alfredo orou durante seu exílio – foi escolhida como o local para o batismo de Guthrum. Ali, Guthrum renunciou aos deuses da mitologia nórdica, Odin, Thor e Frigg, aceitando Jesus Cristo como seu senhor e salvador. Alfredo, seu padrinho de batismo, concedeu-lhe um novo nome cristão, 'Aethelstan'.

Em um único instante, a relação entre os dois líderes se transformou de inimigos mortais em aliados e irmãos em Cristo. Na semana seguinte, eles cavalgaram para o oeste até a propriedade real de Wedmore, em Somerset, embarcando em 12 dias de festividades para marcar a conversão de Guthrum e o fim da guerra. O que Guthrum pensou sobre essas cerimônias e acordos é desconhecido. Contudo, ele cumpriria sua palavra, retirando-se para a Mércia no outono de 878 e, no ano seguinte, para seu próprio reino, a Ânglia Oriental. Manteve boa-fé com Alfredo e, em 886, assinaram um segundo acordo. Conhecido pela posteridade como o Tratado de Alfredo e Guthrum, o acordo regulamentou as relações comerciais e as disputas legais entre seus reinos e dividiu o Reino da Mércia entre os dois líderes. Reconhecia Alfredo como governante das Midlands Ocidentais, onde conquistou a nobreza da Mércia após a morte (ou deposição) de Ceolwulf II em 879. Guthrum, por sua vez, foi reconhecido como governante das Midlands Orientais, que já haviam sido colonizadas por escandinavos.

Britain c. 886
Grã-Bretanha, cerca de 886 Lotroo (Public Domain)

Legado

A vitória de Alfredo aumentou consideravelmente sua autoridade, permitindo-lhe reformar radicalmente o estado da Saxônia Ocidental. Em primeiro lugar, senhores como Wulfhere de Wiltshire, que haviam se aliado aos invasores, foram destituídos de seus cargos e substituídos por aqueles que permaneceram leais a Alfredo. As defesas de Wessex foram aprimoradas com um programa de construção de burhs (cidades fortificadas); o exército foi reformado, ganhando maior mobilidade, e uma pequena frota foi construída para patrulhar a costa sul.

Guthrum viveria mais quatro anos, falecendo em 890. Seu sucessor na Ânglia Oriental, Eohric, não abraçou o cristianismo nem estabeleceu uma relação de cooperação com Alfredo. No entanto, na década de 890, Wessex estava se tornando rapidamente uma fortaleza formidável e futuros ataques dos sucessores de Guthrum e das novas frotas vikings seriam repelidos decisivamente pelos burhs e pelo exército de Alfredo.

Este sistema militar, sob a liderança dos filhos de Alfredo, Etelfleda (ou Æthelflæd) Senhora dos Mércianos (reinou 911-918) e Eduardo, o Velho (reinou 899-924), permitiu que sua dinastia avançasse para o norte, conquistando as terras colonizadas pelos vikings na Ânglia Oriental e nas Midlands Orientais. Em 927, o neto de Alfredo, Etelstano (Aethelstan), havia conquistado a Nortúmbria, estendendo assim o domínio saxão ocidental sobre todos os reinos anteriormente independentes, intitulando-se Rex Anglorum ('Rei dos Ingleses'). Tal expansão de poder encontra suas origens na vitória em Edington. De fato, hoje ergue-se um monumento no campo de batalha, construído em 2000, com a inscrição: "Para comemorar a Batalha de Ethandun [Edington], travada nestas proximidades em maio de 878, quando o Rei Alfredo, o Grande, derrotou o exército viking, dando origem à nação inglesa."

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Sobre o Tradutor

Raimundo Raffaelli-Filho
Médico, professor de Clínica Médica (MD, PHD) e apaixonado por História, particularmente pela Antiga e Medieval, especialmente pelo Império Romano.

Sobre o Autor

Michael McComb
Michael McComb licenciou-se pela Universidade Metropolitana de Manchester e obteve o seu mestrado em História em 2022. Tem escrito para publicações como a 'The Historians Magazine', a 'The Collector', a 'Medieval Living' e a 'Lessons from History'.

Cite Este Artigo

Estilo APA

McComb, M. (2026, março 30). Batalha de Edington. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2691/batalha-de-edington/

Estilo Chicago

McComb, Michael. "Batalha de Edington." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, março 30, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2691/batalha-de-edington/.

Estilo MLA

McComb, Michael. "Batalha de Edington." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 30 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2691/batalha-de-edington/.

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