Boran e Azarmiduxt: Rainhas do Império Sassânida

Keenan Baca-Winters
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations 4
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF

Boran (reinou em 630, 631–632) e Azarmiduxt (reinou em 630–631) foram as únicas rainhas do Império Sassânida que governaram com o poder de monarcas absolutas. Filhas do Shahanshah (rei de reis) Cosroes II (reinou 590–628), Boran e Azarmiduxt tentaram manter o império unido enquanto este enfrentava uma guerra civil entre dois grupos da nobreza, os Pahlav e os Parsig, e a invasão islâmica.

Boran
Boran Amitchell125 (CC BY-SA)

As Consequências da Guerra Bizantino-Sassânida

Após os persas terem sofrido uma derrota tremenda na Guerra Bizantino-Sassânida ente os anos de 602 a 628, a nobreza proclamou o filho de Cosroes II, Sheroe, como rei de reis, que adotou o nome real de Cavades II (reinou em 628). Cosroes II foi então executado pela nobreza por ter iniciado a guerra e causado tamanha discórdia no Império Sassânida. Para assegurar a sua pretensão ao trono, Cavades II executou todos os seus irmãos e meio-irmãos, poupando apenas as suas irmãs, Boran e Azarmiduxt. Devido às execuções do pai e dos irmãos varões, Boran e Azarmiduxt apresentaram-se perante Cavades II. Censuraram-no por ter agido desonrosamente ao tomar a coroa através do assassínio do pai e dos irmãos, em vez de a ter conquistado por direito. As irmãs amaldiçoaram também Cavades II para que tivesse um reinado miserável. Diz-se que, após ouvir Boran e Azarmiduxt, Cavades II chorou amargamente e arrancou a coroa da cabeça, tomado pela vergonha. Passados poucos meses, Cavades II morreu devido à peste e o seu filho, Artaxerxes III (reinou 628–630), tornou-se o rei de reis.

Remover Publicidades
Publicidade
Ao tornar-se a primeira rainha do Império Sassânida, Boran prometeu aos seus súbditos que governaria com retidão e um sentido de justiça.

Artaxerxes III tinha apenas sete anos de idade e Farrukhān (conhecido como Sarbaraz, reinou em 630), um dos generais de Cosroes II na Guerra Bizantino-Sassânida, ficou enfurecido por um rapaz se ter tornado rei de reis em vez dele. Com o apoio do imperador bizantino Heráclio (reinou 610–641), Sarbaraz rebelou-se, mandou matar Artaxerxes III e tomou o poder para si. Sarbaraz não era membro da dinastia sassânida e as elites do império odiavam-no, pois não tinha qualquer pretensão ao trono. Os Pahlav, um grupo influente da nobreza no Império Sassânida, mataram Sarbaraz e arrastaram o seu corpo pelas ruas para o desonrar. Os Pahlav eram o mesmo grupo que governou a Pérsia durante o Império Parta (247 a.C. a 224 d.C.). Instalaram então Boran no trono, por ser a única herdeira direta de Cosroes II ainda viva que poderia assumir o poder legitimamente.

O Reinado de Boran

Ao tornar-se a primeira rainha do Império Sassânida, Boran prometeu aos seus súbditos que governaria com retidão e um sentido de justiça. Comprometeu-se também a ajudar os pobres e a aliviar o sofrimento das pessoas. Diz-se que governou com bondade e que os seus súbditos foram felizes durante o seu reinado. As suas ações sugerem que ela sabia como o povo comum do Império Sassânida sofria após muitos anos de guerra e liderança instável. Boran procurou também restabelecer a legitimidade da dinastia sassânida. Emitiu moedas que copiavam o estilo do seu pai e declarou ter restaurado o Império Sassânida à "estirpe dos deuses" e "aumentado a sua glória". Para a ajudar a governar, Boran nomeou um membro influente da fação Pahlav, chamado Farruque Hormisda, como seu primeiro-ministro.

Remover Publicidades
Publicidade

As promessas de Boran ao seu povo incluíam também a formalização de um acordo de paz com o Império Bizantino, para terminar formalmente a Guerra Bizantino-Sassânida de 602–628. Boran escreveu uma carta ao imperador Heráclio detalhando o seu desejo de paz com o Império Bizantino. Enviou então Ixo Iabe II, o católico da Igreja do Oriente, para se encontrar com Heráclio em Alepo e entregar a carta. A Igreja do Oriente era um grupo distinto de cristãos que existia no Império Sassânida há séculos e que possuía uma interpretação das naturezas humana e divina de Jesus Cristo diferente da praticada no Império Bizantino e noutros locais.

Map of the Sassanid Empire c. 620 CE
Mapa do Império Sassânida, por volta de 620 d.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A missão de paz de Boran junto de Heráclio foi um sucesso. O imperador ficou surpreendido pelo facto de uma mulher governar o Império Sassânida e ficou encantado com a carta de Boran. Heráclio informou Ixo Iabe II que, se Boran alguma vez precisasse de apoio militar para manter o trono, bastaria pedir-lhe ajuda. A intenção de Heráclio era garantir a capacidade e o privilégio de intervir nos assuntos persas. Contudo, o tempo de Boran no poder estava prestes a terminar, pois ela não conseguia fazer com que as elites do Império Sassânida obedecessem às suas ordens. Por outras palavras, Boran perdeu a capacidade de comandar a elite, uma vez que esta deixou de reconhecer a sua legitimidade como rainha.

Remover Publicidades
Publicidade

Sapor, filho de Sarbaraz (reinou em 630), primo de Boran, forçou a sua saída do poder, mas não conseguiu mantê-lo por muito tempo. Em seguida, os Parsig, um grupo da nobreza que era um feroz rival dos Pahlav, instalaram a irmã de Boran, Azarmiduxt, no trono. Mais uma vez, o Império Sassânida passou por uma mudança abrupta de liderança num curto espaço de tempo.

O Reinado de Azarmiduxt

Azarmiduxt chegou a reeditar moedas usando a imagem do seu pai em vez de criar a sua própria, como forma de o homenagear.

Quando Azarmiduxt se tornou rainha em 630, recusou a ajuda de um primeiro-ministro para governar o Império Sassânida. Informou também os seus súbditos de que, doravante, o modo de conduta seria o do seu pai, Cosroes II, a quem chamou "o vitorioso", e que, se alguém se rebelasse contra ela, derramaria o seu sangue. Azarmiduxt pretendia projetar força, prometendo lidar severamente com qualquer rebelde, devido à instabilidade que marcou os últimos anos do Império Sassânida. Pretendia também honrar o seu pai, chamando-lhe "o vitorioso" para reabilitar a sua reputação após este ter iniciado a Guerra Bizantino-Sassânida de 602–628. Esta guerra terminou de forma desastrosa para o Império Sassânida, dado que este perdeu prestígio e poder, para não mencionar os milhares de civis e soldados mortos no conflito. Azarmiduxt queria ainda elevar o ânimo dos seus súbditos após terem sofrido uma derrota total. Da sua parte, Azarmiduxt chegou mesmo a reeditar moedas usando a imagem do pai em vez de criar a sua própria, como forma de o homenagear.

Gold Dinar of Khosrow II
Dinar de Ouro de Cosroes II Classical Numismatic Group, Inc. (CC BY-SA)

A promessa de Azarmiduxt de lidar severamente com as ameaças não foi vã. Farruque Hormisda, que servira como primeiro-ministro de Boran, enviou a Azarmiduxt uma carta pedindo-a em casamento. Azarmiduxt, contudo, pressentiu que Farruque Hormisda a queria desposar para se tornar rei de reis e dar o poder aos Pahlav, em detrimento dos membros da dinastia sassânida. Azarmiduxt respondeu, dizendo que não o podia desposar, mas que se encontrassem no palácio, em segredo. O seu plano era uma armadilha para Farruque Hormisda. O comandante da guarda esperou nas sombras por Farruque Hormisda e assassinou-o assim que este chegou ao palácio. O corpo de Farruque Hormisda foi deixado à porta do palácio como aviso para qualquer outro que pensasse que podia enganar Azarmiduxt. O seu plano, no entanto, virou-se contra ela.

Remover Publicidades
Publicidade

Rustam, filho de Farruque Hormisda, liderou um exército em rebelião contra Azarmiduxt após receber a notícia da morte do pai. Após localizar Azarmiduxt, Rustam vazou-lhe os olhos e assassinou-a em vingança pela execução do seu progenitor. Os Pahlav estavam agora de volta ao controlo e, para aumentar a sua influência no poder, restauraram Boran como rainha em 631.

O Segundo Reinado de Boran

Novamente no trono, Boran teve de se salvar a si própria, uma vez que todos os membros da sua família imediata, e mais recentemente a sua irmã, tinham sido executados. Boran nomeou Rustam como seu primeiro-ministro, tal como fizera ao seu pai durante o seu primeiro reinado. Nesta altura, os exércitos islâmicos de Maomé começaram a sua invasão do Império Sassânida.

As Conquistas Muçulmanas Entre os Séculos VII e IX
Mapa das Conquistas Islâmicas nos Séculos VII-IX Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A guerra civil entre os Pahlav e os Parsig impediu os persas de se defenderem contra esta ameaça. Boran negociou um cessar-fogo entre os Pahlav e os Parsig para que pudessem, em vez disso, trabalhar em conjunto para combater a invasão. Isto permitiu aos sassânidas atrasar a conquista islâmica por um curto período de tempo. Contudo, um general Parsig chamado Perozes estrangulou Boran em 632. A execução de Boran simboliza o quão destrutiva e desestabilizadora a guerra civil entre os Pahlav e os Parsig se tornara para o Império Sassânida: mais um governante tinha sido executado num curto espaço de tempo.

Remover Publicidades
Publicidade

Conclusão

Após a morte de Boran, Iazdegerdes III (reinou 632–651) tornou-se rei de reis com oito anos de idade. Nesta altura, os sassânidas estavam demasiado enfraquecidos e exaustos após a instabilidade causada pela guerra civil e pela rápida sucessão de governantes que nunca foram autorizados a controlar firmemente o governo persa. Devido ao estado do Império Sassânida, a invasão islâmica culminou na queda do império em 652.

Yazdegerd III
Iazdegerdes III Thje Trustees of the British Museum (CC BY-NC-SA)

Embora Boran e Azarmiduxt sejam figuras significativas por serem as únicas duas mulheres a ter governado o Império Sassânida, os seus reinados sugerem algo mais extraordinário sobre cada uma delas. Ambas tentaram governar à sua própria maneira. Boran procurou governar os seus súbditos com justiça e retidão, concentrando-se na paz com os bizantinos. Azarmiduxt, por sua vez, teve um estilo de liderança mais agressivo. Apesar de Boran e Azarmiduxt terem tido abordagens contrastantes, ambas tentaram manter o Império Sassânida unido, estabilizá-lo e até restaurá-lo num período em que diferentes fações se encontravam envolvidas numa guerra civil pelo poder absoluto. Infelizmente, tanto Boran como Azarmiduxt pagaram os seus esforços com as suas próprias vidas.

Remover Publicidades
Publicidade

Bibliografia

A World History Encyclopedia é uma Associada da Amazon e recebe uma contribuição na venda de livros elegíveis

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Baca-Winters, K. (2026, julho 26). Boran e Azarmiduxt: Rainhas do Império Sassânida. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2655/boran-e-azarmiduxt-rainhas-do-imperio-sassanida/

Estilo Chicago

Baca-Winters, Keenan. "Boran e Azarmiduxt: Rainhas do Império Sassânida." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2655/boran-e-azarmiduxt-rainhas-do-imperio-sassanida/.

Estilo MLA

Baca-Winters, Keenan. "Boran e Azarmiduxt: Rainhas do Império Sassânida." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2655/boran-e-azarmiduxt-rainhas-do-imperio-sassanida/.

Remover Publicidades