Boran (reinou em 630, 631–632) e Azarmiduxt (reinou em 630–631) foram as únicas rainhas do Império Sassânida que governaram com o poder de monarcas absolutas. Filhas do Shahanshah (rei de reis) Cosroes II (reinou 590–628), Boran e Azarmiduxt tentaram manter o império unido enquanto este enfrentava uma guerra civil entre dois grupos da nobreza, os Pahlav e os Parsig, e a invasão islâmica.
As Consequências da Guerra Bizantino-Sassânida
Após os persas terem sofrido uma derrota tremenda na Guerra Bizantino-Sassânida ente os anos de 602 a 628, a nobreza proclamou o filho de Cosroes II, Sheroe, como rei de reis, que adotou o nome real de Cavades II (reinou em 628). Cosroes II foi então executado pela nobreza por ter iniciado a guerra e causado tamanha discórdia no Império Sassânida. Para assegurar a sua pretensão ao trono, Cavades II executou todos os seus irmãos e meio-irmãos, poupando apenas as suas irmãs, Boran e Azarmiduxt. Devido às execuções do pai e dos irmãos varões, Boran e Azarmiduxt apresentaram-se perante Cavades II. Censuraram-no por ter agido desonrosamente ao tomar a coroa através do assassínio do pai e dos irmãos, em vez de a ter conquistado por direito. As irmãs amaldiçoaram também Cavades II para que tivesse um reinado miserável. Diz-se que, após ouvir Boran e Azarmiduxt, Cavades II chorou amargamente e arrancou a coroa da cabeça, tomado pela vergonha. Passados poucos meses, Cavades II morreu devido à peste e o seu filho, Artaxerxes III (reinou 628–630), tornou-se o rei de reis.
Artaxerxes III tinha apenas sete anos de idade e Farrukhān (conhecido como Sarbaraz, reinou em 630), um dos generais de Cosroes II na Guerra Bizantino-Sassânida, ficou enfurecido por um rapaz se ter tornado rei de reis em vez dele. Com o apoio do imperador bizantino Heráclio (reinou 610–641), Sarbaraz rebelou-se, mandou matar Artaxerxes III e tomou o poder para si. Sarbaraz não era membro da dinastia sassânida e as elites do império odiavam-no, pois não tinha qualquer pretensão ao trono. Os Pahlav, um grupo influente da nobreza no Império Sassânida, mataram Sarbaraz e arrastaram o seu corpo pelas ruas para o desonrar. Os Pahlav eram o mesmo grupo que governou a Pérsia durante o Império Parta (247 a.C. a 224 d.C.). Instalaram então Boran no trono, por ser a única herdeira direta de Cosroes II ainda viva que poderia assumir o poder legitimamente.
O Reinado de Boran
Ao tornar-se a primeira rainha do Império Sassânida, Boran prometeu aos seus súbditos que governaria com retidão e um sentido de justiça. Comprometeu-se também a ajudar os pobres e a aliviar o sofrimento das pessoas. Diz-se que governou com bondade e que os seus súbditos foram felizes durante o seu reinado. As suas ações sugerem que ela sabia como o povo comum do Império Sassânida sofria após muitos anos de guerra e liderança instável. Boran procurou também restabelecer a legitimidade da dinastia sassânida. Emitiu moedas que copiavam o estilo do seu pai e declarou ter restaurado o Império Sassânida à "estirpe dos deuses" e "aumentado a sua glória". Para a ajudar a governar, Boran nomeou um membro influente da fação Pahlav, chamado Farruque Hormisda, como seu primeiro-ministro.
As promessas de Boran ao seu povo incluíam também a formalização de um acordo de paz com o Império Bizantino, para terminar formalmente a Guerra Bizantino-Sassânida de 602–628. Boran escreveu uma carta ao imperador Heráclio detalhando o seu desejo de paz com o Império Bizantino. Enviou então Ixo Iabe II, o católico da Igreja do Oriente, para se encontrar com Heráclio em Alepo e entregar a carta. A Igreja do Oriente era um grupo distinto de cristãos que existia no Império Sassânida há séculos e que possuía uma interpretação das naturezas humana e divina de Jesus Cristo diferente da praticada no Império Bizantino e noutros locais.
A missão de paz de Boran junto de Heráclio foi um sucesso. O imperador ficou surpreendido pelo facto de uma mulher governar o Império Sassânida e ficou encantado com a carta de Boran. Heráclio informou Ixo Iabe II que, se Boran alguma vez precisasse de apoio militar para manter o trono, bastaria pedir-lhe ajuda. A intenção de Heráclio era garantir a capacidade e o privilégio de intervir nos assuntos persas. Contudo, o tempo de Boran no poder estava prestes a terminar, pois ela não conseguia fazer com que as elites do Império Sassânida obedecessem às suas ordens. Por outras palavras, Boran perdeu a capacidade de comandar a elite, uma vez que esta deixou de reconhecer a sua legitimidade como rainha.
Sapor, filho de Sarbaraz (reinou em 630), primo de Boran, forçou a sua saída do poder, mas não conseguiu mantê-lo por muito tempo. Em seguida, os Parsig, um grupo da nobreza que era um feroz rival dos Pahlav, instalaram a irmã de Boran, Azarmiduxt, no trono. Mais uma vez, o Império Sassânida passou por uma mudança abrupta de liderança num curto espaço de tempo.
O Reinado de Azarmiduxt
Quando Azarmiduxt se tornou rainha em 630, recusou a ajuda de um primeiro-ministro para governar o Império Sassânida. Informou também os seus súbditos de que, doravante, o modo de conduta seria o do seu pai, Cosroes II, a quem chamou "o vitorioso", e que, se alguém se rebelasse contra ela, derramaria o seu sangue. Azarmiduxt pretendia projetar força, prometendo lidar severamente com qualquer rebelde, devido à instabilidade que marcou os últimos anos do Império Sassânida. Pretendia também honrar o seu pai, chamando-lhe "o vitorioso" para reabilitar a sua reputação após este ter iniciado a Guerra Bizantino-Sassânida de 602–628. Esta guerra terminou de forma desastrosa para o Império Sassânida, dado que este perdeu prestígio e poder, para não mencionar os milhares de civis e soldados mortos no conflito. Azarmiduxt queria ainda elevar o ânimo dos seus súbditos após terem sofrido uma derrota total. Da sua parte, Azarmiduxt chegou mesmo a reeditar moedas usando a imagem do pai em vez de criar a sua própria, como forma de o homenagear.
A promessa de Azarmiduxt de lidar severamente com as ameaças não foi vã. Farruque Hormisda, que servira como primeiro-ministro de Boran, enviou a Azarmiduxt uma carta pedindo-a em casamento. Azarmiduxt, contudo, pressentiu que Farruque Hormisda a queria desposar para se tornar rei de reis e dar o poder aos Pahlav, em detrimento dos membros da dinastia sassânida. Azarmiduxt respondeu, dizendo que não o podia desposar, mas que se encontrassem no palácio, em segredo. O seu plano era uma armadilha para Farruque Hormisda. O comandante da guarda esperou nas sombras por Farruque Hormisda e assassinou-o assim que este chegou ao palácio. O corpo de Farruque Hormisda foi deixado à porta do palácio como aviso para qualquer outro que pensasse que podia enganar Azarmiduxt. O seu plano, no entanto, virou-se contra ela.
Rustam, filho de Farruque Hormisda, liderou um exército em rebelião contra Azarmiduxt após receber a notícia da morte do pai. Após localizar Azarmiduxt, Rustam vazou-lhe os olhos e assassinou-a em vingança pela execução do seu progenitor. Os Pahlav estavam agora de volta ao controlo e, para aumentar a sua influência no poder, restauraram Boran como rainha em 631.
O Segundo Reinado de Boran
Novamente no trono, Boran teve de se salvar a si própria, uma vez que todos os membros da sua família imediata, e mais recentemente a sua irmã, tinham sido executados. Boran nomeou Rustam como seu primeiro-ministro, tal como fizera ao seu pai durante o seu primeiro reinado. Nesta altura, os exércitos islâmicos de Maomé começaram a sua invasão do Império Sassânida.
A guerra civil entre os Pahlav e os Parsig impediu os persas de se defenderem contra esta ameaça. Boran negociou um cessar-fogo entre os Pahlav e os Parsig para que pudessem, em vez disso, trabalhar em conjunto para combater a invasão. Isto permitiu aos sassânidas atrasar a conquista islâmica por um curto período de tempo. Contudo, um general Parsig chamado Perozes estrangulou Boran em 632. A execução de Boran simboliza o quão destrutiva e desestabilizadora a guerra civil entre os Pahlav e os Parsig se tornara para o Império Sassânida: mais um governante tinha sido executado num curto espaço de tempo.
Conclusão
Após a morte de Boran, Iazdegerdes III (reinou 632–651) tornou-se rei de reis com oito anos de idade. Nesta altura, os sassânidas estavam demasiado enfraquecidos e exaustos após a instabilidade causada pela guerra civil e pela rápida sucessão de governantes que nunca foram autorizados a controlar firmemente o governo persa. Devido ao estado do Império Sassânida, a invasão islâmica culminou na queda do império em 652.
Embora Boran e Azarmiduxt sejam figuras significativas por serem as únicas duas mulheres a ter governado o Império Sassânida, os seus reinados sugerem algo mais extraordinário sobre cada uma delas. Ambas tentaram governar à sua própria maneira. Boran procurou governar os seus súbditos com justiça e retidão, concentrando-se na paz com os bizantinos. Azarmiduxt, por sua vez, teve um estilo de liderança mais agressivo. Apesar de Boran e Azarmiduxt terem tido abordagens contrastantes, ambas tentaram manter o Império Sassânida unido, estabilizá-lo e até restaurá-lo num período em que diferentes fações se encontravam envolvidas numa guerra civil pelo poder absoluto. Infelizmente, tanto Boran como Azarmiduxt pagaram os seus esforços com as suas próprias vidas.

