Entrevista: República de Dithmarschen

James Blake Wiener
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Localizada na atual província alemã de Schleswig-Holstein, a República de Dithmarschen (1227-1559) foi uma república formada por plebeus que desenvolveram instituições quase democráticas, incluindo a sua própria constituição escrita. Ferozmente independentes e amantes da liberdade, estes camponeses defenderam com sucesso a sua independência política contra as forças de Holstein e da União de Kalmar no final da Idade Média.

House in Burg, Dithmarschen
Casa em Burg, Dithmarschen Z thomas (CC BY-SA)

James Blake Wiener conversa com o Dr. William L. Urban, medievalista e autor de Dithmarschen: A Medieval Peasant Republic (Dithmarschen: Uma República Camponesa Medieval), para saber mais sobre os Dithmarschers nesta entrevista.

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JBW: Dr . William L. Urban, muito obrigado por conversar comigo. Como o seu principal interesse de pesquisa é o dos Cavaleiros Teutônicos e as Cruzadas do Norte, estou curioso para saber como se interessou pela história dos Dithmarschers. O que o levou a Dithmarschen?

WLU: Na verdade, a génese deste livro remonta à Universidade de Hamburgo, em 1964-1965, quando conheci a professora aposentada Maria Krüger. De origem dithmarschiana, ela recebia-nos frequentemente, a mim e à minha mulher, para tomar chá, acompanhado de biscoitos e de histórias sobre a sua terra natal. Por sugestão sua, li mais tarde alguns romances locais na biblioteca da Universidade do Kansas. Posteriormente, passei a consultar obras de historiadores conceituados, onde descobri que as descrições dos romancistas sobre Dithmarschen e o seu povo não eram exageradas.

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Os agricultores mais prósperos converteram-se numa quase-aristocracia que passou a dominar os 48 regentes do governo central.

Tive a felicidade de poder viajar pelos países a norte do Elba. Após ter atravessado a Alemanha de bicicleta em três ocasiões, residi em Hamburgo e na cidade vizinha de Ahrensburg durante quase um ano. Tal, conferiu-me a confiança necessária para redigir um esboço preliminar deste manuscrito, antes de transitar para a revisão e conclusão da minha dissertação, publicada em 1975 sob o título The Baltic Crusade (A Cruzada Báltica). Nesse mesmo ano, recebi uma bolsa de investigação Fulbright-Hayes para estudos complementares no Instituto Johann Gottfried Herder e na Universidade Philipps, em Marburg/Lahn. Tive a oportunidade de visitar Dithmarschen por duas vezes nesse verão e, novamente, em 1976. Entre 1976 e 1977, a Universidade de Chicago concedeu-me uma bolsa de investigação a tempo parcial na sua biblioteca principal, a Biblioteca Regenstein, o que me permitiu continuar a desenvolver o manuscrito em articulação com o Prof. Karl Morrison,

No outono de 1982, o Monmouth College disponibilizou-me uma assistente, Janet Fox, que processou o manuscrito em computador para fins de edição. No verão e outono de 1983, regressei a Marburg/Lahn com o apoio de uma bolsa do Serviço Alemão de Intercâmbio Académico (DAAD) e de uma licença sabática do Monmouth College. Nessa altura, o Professor Walther Lammers teve a gentileza de ler o manuscrito e de o discutir comigo na sua residência. Muito agradeço o seu apoio e amizade. Em janeiro de 1988, com o auxílio da minha mulher e de uma nova estudante, Kris Wang, iniciei um processo de edição que se prolongou por dois anos. Praticamente nenhuma frase permaneceu inalterada. Por fim, após ter recebido formação de Daryl Carr e Marta Tucker sobre a utilização do PageMaker, preparei o manuscrito para publicação durante o meu semestre sabático na primavera. Em junho de 1990, eu e a minha mulher viajamos de carro por Dithmarschen para visitar os locais que ainda não conhecia. No outono de 1990, o Monmouth College concedeu um novo apoio financeiro para cobrir os custos de preparação da obra, e Erik Midelfort (com quem debatera o projeto Dithmarschen em diversas ocasiões) acedeu ao meu pedido de uma leitura final, contribuindo com vários comentários pertinentes sobre o texto.

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JBW: É verdade que houve uma notável ausência de feudalismo e servidão na vizinha Frísia durante a Idade Média. As tradições políticas em Dithmarschen eram semelhantes ao que muitos historiadores chamariam de "liberdades frísias"? Se sim, quão "livres" eram os Dithmarschers?

WLU: Apesar das inúmeras semelhanças, os habitantes de Dithmarschen possuíam um sistema de clãs mais solidamente desenvolvido. O espírito comunitário viabilizou não só a construção de diques e canais, mas também a criação de um sistema jurídico capaz de dirimir crimes, litígios de terras e questões hereditárias. Além disso, facilitou a organização de uma força de combate composta por homens aptos a enfrentar, com sucesso, tanto a cavalaria feudal como as milícias vizinhas.

16-century Map of Dithmarshen
Mapa de Dithmarschen do Século XVI Abraham Ortelius (Public Domain)

Esta estrutura evoluiu com o tempo, de tal forma que as comunidades locais (Kirchspiele) ganharam uma importância crescente; subsequentemente, os agricultores mais prósperos ascenderam a uma quase-aristocracia, que passou a dominar o conselho dos 48 regentes do governo central.

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JBW: Muitas das características de Dithmarschen — a presença de clãs familiares, a existência de uma milícia e uma população ferozmente independente — assemelham-se, a meu ver, a outras repúblicas camponesas medievais, como a Antiga Confederação Suíça ou a Comunidade Islandesa. Serão estas comparações válidas ou, inclusive, pertinentes?

"Tanto os habitantes de Dithmarschen como a Liga Hanseática não conseguiram reconhecer as vantagens de uma aliança contra os seus inimigos comuns, tal como os suíços tinham feito.

WLU: No meu livro, procurei analisar as razões pelas quais a maioria das repúblicas camponesas fracassou. Os suíços sobreviveram porque tiveram a geografia e a pobreza a seu favor. Ou seja: os cantões montanhosos eram difíceis de atacar e raramente compensavam o esforço da conquista; simultaneamente, os restantes membros da Confederação Suíça souberam negociar os complexos desafios políticos e militares, criando uma força militar bem treinada e grande o suficiente para derrotar as potências regionais. Posteriormente, ao fornecerem mercenários aos vizinhos mais poderosos, converteram-nos em aliados.

O que faltava a Dithmarschen era número, e tanto os dithmarschers quanto a Liga Hanseática não conseguiram enxergar as vantagens de se aliarem contra os seus inimigos comuns, como os suíços fizeram.

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JBW: As relações entre Dithmarschen e as cidades hanseáticas medievais, como Lübeck, eram estreitas. Tal acontecia para que pudessem proteger os seus interesses comerciais comuns, mantendo ao mesmo tempo um certo grau de independência política?

WLU: Sim, mas os seus interesses comuns eram limitados. Havia pescadores de Dithmarschen, assim como havia em Lübeck, Hamburgo e Bremen, mas não havia uma rede internacional de parceiros comerciais para vender as suas capturas. Havia também muitas tensões, especialmente as tradições de Dithmarschen que beiravam a pirataria (e às vezes a ultrapassavam)! Os habitantes de Dithmarschen defendiam os seus cidadãos mesmo quando erravam, o que nem sempre era o caso com a Hansa.

JBW: João I da Dinamarca (reinou 1481-1513) e o seu irmão, o duque Frederico de Holstein, tentaram subjugar os camponeses de Dithmarschen na década de 1490. Na Batalha de Hemmingstedt, em 1500, os dinamarqueses e os holsteiners foram derrotados pelos camponeses de Dithmarschen. O que garantiu a vitória deles sobre uma força militar aparentemente mais poderosa e melhor organizada?

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WLU: Primeiro, os invasores não tinham dinheiro para pagar aos seus mercenários e aliados por uma guerra longa, desta forma necessitavam de uma vitória rápida.

Em segundo lugar, a pura sorte. O Rei enviou o seu exército para norte, de Meldorf em direção a Heide, seguindo por uma estrada estreita sobre um dique, na esperança de que o bom tempo persistisse. Em vez disso, os invasores enfrentaram frontalmente uma tempestade de inverno que lhes obscureceu a visão, até que, subitamente, embateram nas fortificações erguidas à pressa pelos habitantes de Dithmarschen. Quando tentaram apontar a artilharia contra o reduto, o vento, a neve e a chuva apagaram os rastilhos e arruinaram a pólvora.

Battle of Hemmingstedt
Batalha de Hemmingstedt Max Friedrich Koch (Public Domain)

Por fim, as habilidades de combate dos Dithmarschers eram mais adequadas para este campo de batalha — abriram os diques, atravessaram a pé, descalços e seminuos, a água gelada para chegar ao inimigo e, em seguida, perseguiram implacavelmente o inimigo em pânico.

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JBW: O que aconteceu aos Dithmarschers após a Reforma Protestante? Além disso, como acabaram por perder as suas preciosas liberdades?

WLU: Os Dithmarschers eram muito piedosos, mas como sempre suspeitaram dos clérigos, limitaram a sua autoridade. Como há muito tempo administravam os seus assuntos religiosos locais e usavam as igrejas para escolas e assembleias políticas, consideram a mudança para o protestantismo algo natural, o que é bastante significativo.

JBW: Existem características únicas da República medieval de Dithmarschen que merecem uma análise e um estudo mais aprofundados? Se sim, quais são elas?

WLU: Primeiro, não devemos pensar em todas as sociedades europeias como um reflexo inferior da Inglaterra e da França, mas sim como possuidoras de características que ainda hoje são importantes. Segundo, essas características podem ser boas ou más, ou ambas ao mesmo tempo. As pessoas são complicadas. Terceiro, nem todos podem ser movidos pelo que veem nos outros.

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Os habitantes de Dithmarschen admiram os britânicos; os americanos tendem a ver nos habitantes de Dithmarschen o que eles já foram, e todos podem lembrar que a liberdade não é gratuita, mas deve ser conquistada e defendida com sangue patriótico.

JBW: Finalmente, se há uma coisa que devemos lembrar sobre a República de Dithmarschen, qual seria, na sua opinião?

WLU: Alguém inscreveu um lema no órgão em Hemme, na Alemanha: "Dithmarsia libera fuit" (Dithmarschen foi livre). A implicação era que poderia ser novamente, e hoje tornou-se assim novamente.

JBW: Dr . William Urban, muito obrigado por nos dedicar o seu tempo e conhecimento!

O Professor William L. Urban formou-se na Universidade de Baylor, na Universidade do Texas, em Austin, e na Universidade de Hamburgo. Obteve o seu doutoramento em 1967 pela Universidade do Texas e leccionou em diversas instituições de prestígio, nomeadamente na Universidade do Kansas, no Monmouth College (Illinois), no Knox College, no Fort Hays Kansas State College, no Instituto Estoniano de Humanidades e na Eastern Michigan University Cultural History Tour in Europe. Exerceu o cargo de diretor do programa 'Artes de Florença' e, posteriormente, dos programas jugoslavo e checo das Associated Colleges of the Midwest. Foi distinguido com uma bolsa sénior Fulbright para investigação no Herder Institut em Marburg/Lahn, na Alemanha, para além de várias bolsas do DAAD e do NEH para estudos de verão, tendo ainda participado no Workshop de História Militar da Academia Militar dos Estados Unidos (West Point). É membro correspondente da Comissão Histórica para a Investigação da Prússia Oriental e Ocidental (Historische Kommission für ost- und westpreußische Landesforschung) e da Comissão Histórica Báltica. A sua vasta obra publicada inclui títulos como The Baltic Crusade, The Prussian Crusade, The Livonian Crusade, The Samogitian Crusade e Tannenberg and After. Investigou profundamente a relação entre a Lituânia, a Polónia e a Ordem Teutónica em obras como In Search of Immortality e The Teutonic Knights: a military history. Especialista em mercenários, publicou Medieval Mercenaries, Bayonets for Hire, Matchlocks to Flintlock e Small Wars. Em colaboração com Jerry Smith, traduziu fontes fundamentais como a 'Crónica Rimada da Livónia' e as 'Crónicas de Balthasar Russow e Johannes Renner'.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

James Blake Wiener
James Blake Wiener tem um interesse particular em intercâmbios interculturais e em história mundial. Ele é cofundador da World History Encyclopedia e anteriormente foi seu Diretor de Comunicações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Wiener, J. B. (2026, fevereiro 27). Entrevista: República de Dithmarschen. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2579/entrevista-republica-de-dithmarschen/

Estilo Chicago

Wiener, James Blake. "Entrevista: República de Dithmarschen." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, fevereiro 27, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2579/entrevista-republica-de-dithmarschen/.

Estilo MLA

Wiener, James Blake. "Entrevista: República de Dithmarschen." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2579/entrevista-republica-de-dithmarschen/.

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