No século XVI, as cidades e territórios alemães acolheram milhares de refugiados que fugiam da perseguição religiosa desencadeada pela Reforma Protestante. Em Strange Brethren: Refugees, Religious Bonds, and Reformation in Frankfurt, 1554-1608 (Irmãos Estranhos: Refugiados, Laços Religiosos e Reforma em Francoforte, 1554-1608), o professor Maximilian Miguel Scholz explora um dos principais destinos destes exilados: Francoforte do Meno (Frankfurt am Main), e destaca de que forma estes inspiraram novos laços, animosidades e instituições de cariz religioso. Nesta entrevista, James Blake Wiener conversa com o autor sobre a sua obra e o clima social único que permeava a cidade de Hesse.
JBW: Professor Scholz, muito obrigado por conversar comigo em nome da World History Encyclopedia (WHE). Quando muitos pensam nos refugiados protestantes no início da Era Moderna, geralmente pensam sobre a situação dos huguenotes ou dos anabatistas. Muitos deles encontraram refúgio em cidades como Londres, Amsterdão, Genebra e Hamburgo. O que foi que primeiro o atraiu à história de Francoforte do Meno no século XVI? Além disso, o que diferenciava Francoforte do Meno das outras cidades protestantes dentro do Sacro Império Romano?
MS: Francoforte acolheu milhares de refugiados no século XVI. E continua a fazê-lo hoje em dia! Mas a cidade é frequentemente ignorada porque os documentos relativos à sua experiência de acolhimento de refugiados no século XVI foram destruídos pelos exércitos americano e britânico em 1944. Eu queria lançar uma nova luz sobre a centralidade de Francoforte na história dos refugiados protestantes. Francoforte ficava no centro da Alemanha, o que ainda acontece hoje. Era também a capital simbólica da Alemanha, onde eram eleitos e coroados os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico. (Após a Segunda Guerra Mundial, houve inclusivamente pressões para tornar Francoforte, uma vez mais, a capital da Alemanha.) Francoforte constituía o principal nó de transportes da Alemanha naquela época, tal como sucede hoje. Se pretendermos compreender o impacto dos refugiados na sociedade alemã, Francoforte é o ponto de partida ideal. Além da sua proeminência, a cidade distinguia-se de outras cidades alemãs pelo facto de a sua Reforma ter seguido a orientação de Martin Bucer, em vez da de Martinho Lutero (embora, naturalmente, os habitantes de Francoforte também nutrissem grande admiração por Lutero). Bucer defendia reformas que se situavam numa posição intermédia entre os campos que viriam a ser o calvinista e o luterano.
JBW: Os repetidos bombardeios das forças aéreas britânicas e americanas destruíram muitas das igrejas e arquivos de Francoforte em 1944. Se não me engano, Francoforte era, igualmente, o maior centro urbano com edifícios em enxaimel da Alemanha, pelo que se perdeu muito num curto espaço de tempo. Pode comentar os enormes obstáculos que enfrentou, bem como os seus colegas académicos, na investigação da história moderna de Francoforte do Meno?
MS: Sim, o arquivo de Francoforte sofreu danos gravíssimos. O seu diretor, movido pela fantasia nazi de que a Alemanha seria imune a ataques, negligenciou a proteção dos tesouros documentais, omitindo a sua transferência para abrigos subterrâneos. Consequentemente, os bombardeamentos de 1944 aniquilaram cerca de 70% do acervo, incluindo a Acta Ecclesiastica, que documentava a génese do protestantismo na cidade. Os historiadores dedicados às transformações religiosas do século XVI veem-se, por isso, compelidos a recorrer a fontes não cívicas (como os registos das comunidades reformadas neerlandesas e francesas, que não se encontravam no arquivo municipal) ou a reproduções de originais preservadas em apêndices de obras historiográficas anteriores à Segunda Guerra Mundial. A minha obra fundamentou-se em documentos de um processo judicial imperial de 1720: os reformados (calvinistas) de origem neerlandesa e francesa moveram uma ação contra a cidade de Francoforte no Supremo Tribunal Imperial e, nesse âmbito, ambas as partes coligiram e imprimiram documentos da Reforma que consideravam cruciais para os seus respectivos casos.
JBW: Francoforte do Meno recebeu refugiados protestantes de língua francesa, holandesa e inglesa ao longo das décadas de 1550, 1560 e 1570. Muitos dos primeiros refugiados eram os chamados "exilados marianos". Quem foram estes primeiros exilados, o que os levou a Francoforte do Meno e por quanto tempo permaneceram em Hesse?
MS: Estes exilados foram os primeiros protestantes (embora não se autodenominassem assim) e fugiam dos governantes católicos. O ponto de discórdia era a missa católica. Os refugiados abordados na minha obra recusavam-se a assistir à missa católica, por rejeitarem a ideia de que um sacerdote pudesse realizar, num altar, um ritual que invocasse a presença real do corpo de Cristo. Tais fiéis consideravam essa prática um acto de idolatria, defendendo que a missa deveria ser substituída por uma eucaristia simplificada, centrada na leitura da Bíblia e na memorialização da Última Ceia. Perante a perseguição violenta movida pelas autoridades católicas contra quem não participava na missa, estes primeiros protestantes viram-se perante um dilema: o martírio na sua terra natal ou o exílio no estrangeiro. Milhares fugiram para Francoforte que, enquanto cidade independente (à época não integrada no território de Hesse), gozava de autonomia suficiente para gerir os seus próprios assuntos religiosos. No caso dos protestantes ingleses que fugiram da rainha católica Maria I de Inglaterra (os exilados marianos), estes regressaram após a morte da monarca e a sua sucessão pela protestante Isabel I. Consequentemente, a sua permanência em Francoforte limitou-se a cinco anos. Já outros refugiados, oriundos dos Países Baixos, estabeleceram-se definitivamente na cidade, onde os seus descendentes residem até aos dias de hoje.
JBW: Professor Scholz, como é que as elites luteranas e os cidadãos comuns de Francoforte do Meno reagiram inicialmente à presença dos refugiados calvinistas? O que mudou nas décadas seguintes?
MS: No início, receberam-nos bem. Consideravam os recém-chegados irmãos, que sofriam sob o domínio cruel de católicos tirânicos como Carlos V e Maria Tudor. Contudo, a convivência com estes recém-chegados revelou-se difícil, até porque muitos eram mais abastados do que os próprios cidadãos de Francoforte. Ao testemunharem os serviços religiosos dos refugiados, os habitantes locais aperceberam-se de que estes praticavam o Cristianismo de forma distinta. A população de Francoforte ficou escandalizada pelo facto de os refugiados tocarem no pão da Eucaristia com as próprias mãos; e mais revoltada se sentiu com a presença de crianças barulhentas no interior das igrejas durante o culto. Os pastores de Francoforte foram os primeiros a insurgir-se contra os recém-chegados, exigindo que estes se conformassem às práticas rituais da cidade ou que a abandonassem. Estes clérigos acabaram por incitar o ódio popular contra os refugiados.
JBW: Creio que alguns leitores, menos familiarizados com a história da Reforma Protestante, poderão surpreender-se ao tomar conhecimento do elevado grau de conflito confessional e de rivalidade entre calvinistas e luteranos. Poderia explicar-nos de que modo as autoridades de Francoforte do Meno acabaram por restringir o culto e a liberdade dos calvinistas?
MS: Os refugiados e os habitantes nativos de Francoforte dividiram-se em dois campos religiosos que hoje designamos como calvinista (embora eles se autodenominassem «reformados») e luterano (que se intitulavam «evangélicos»), e esta clivagem atingiu, por vezes, contornos violentos. Para os americanos, que vivem num país que consagrou a separação entre a Igreja e o Estado, poderá ser difícil conceber como discrepâncias subtis no culto ou no dogma resultaram em processos judiciais, expulsões ou consequências ainda mais graves. Quando os governantes de Francoforte concluíram que os refugiados eram «calvinistas», proibiram-nos de requerer a cidadania e ordenaram o encerramento das suas igrejas. Motins periódicos contra a comunidade de exilados provocaram vítimas mortais e culminaram no incêndio de uma pequena capela que os reformados tinham erguido fora das muralhas da cidade.
JBW: Como caracterizaria o impacto religioso e cívico dos refugiados calvinistas em Francoforte do Meno? Ainda podemos hoje detectar o seu legado na cidade?
MS: Eles enriqueceram Francoforte sobremaneira, introduzindo mercadorias e indústrias oriundas dos Países Baixos. À época, os Países Baixos constituíam a região industrialmente mais avançada da Europa, e os protestantes que fugiram de centros como Antuérpia transportaram consigo o seu conhecimento industrial para as cidades alemãs como Francoforte. Quando esta cidade começou a perseguir os recém-chegados, estes estabeleceram-se em pequenas localidades nos arredores, que se tornaram (e permanecem até hoje) importantes centros industriais, como Hanau e Offenbach.
JBW: Que lições podemos tirar das experiências dos refugiados calvinistas em Francoforte do Meno que talvez possam ser aplicadas à nossa própria era?
MS: Acolher, reinstalar e integrar refugiados numa cidade pode ser uma tarefa árdua, passível de suscitar problemas que persistem durante gerações. Contudo, é possível. As organizações culturais internas de uma comunidade de refugiados (como o consistório calvinista de Francoforte do século XVI) podem desempenhar um papel crucial, facilitando o apoio financeiro aos exilados, a gestão dos seus interesses e a respetiva integração na cidade anfitriã. É imperativo encarar a realidade de que a aceitação mútua entre os refugiados (e os seus descendentes) e as sociedades de acolhimento pode levar gerações a consolidar-se.
JBW: Professor Scholz, muito obrigado pelo seu tempo e consideração! Desejo-lhe muitas aventuras felizes na escrita e na pesquisa.
MS: Muito obrigado pelas suas perguntas.
Resumo biográfico:
O professor Maximilian Miguel Scholz é especialista em história social e religiosa da Europa Moderna, lecionando na Universidade Estadual da Flórida (Florida State University). A sua obra de estreia, Strange Brethren: Refugees, Religious Bonds, and Reformation in Frankfurt, 1554-1608 (University of Virginia Press, 2022), debruça-se sobre o destino e o impacto dos exilados da Reforma, elegendo Francoforte do Meno, um dos epicentros do acolhimento de refugiados europeus, como objeto de análise. O seu segundo livro, com o título provisório The Great Refugee Realignment: How Forced Migrants Transformed Government in Northern Europe, 1550-1750 (O Grande Realinhamento dos Refugiados: Como os Migrantes Forçados Transformaram a Governação no Norte da Europa, 1550-1750), fundamenta-se em tratados sobre refugiados recolhidos em diversos arquivos europeus. A obra visa esclarecer as formas como estes migrantes transformaram os governos, ao impulsionar o crescimento de burocracias centralizadas e ao introduzir novos conceitos de filiação política, bem como sistemas inovadores para a gestão da diversidade religiosa, étnica e do estatuto migratório.

