A Menina e o Fantasma

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Menina e o Fantasma é uma lenda da nação Cheyenne sobre uma jovem rapariga raptada por um espírito depois de ter sido rejeitada pela mãe. A história explora muitos temas comuns na literatura Cheyenne, incluindo a importância de seguir instruções, mas também inclui uma lição sobre os perigos de agir precipitadamente sob o efeito da raiva.

Cheyenne Girl
Miúda Cheyenne Edward S. Curtis (Public Domain)

Os Cheyenne, tal como todas as nações nativas americanas, atribuem grande valor à tradição e ao cumprimento fiel dos rituais comunitários, sendo que um aspeto significativo disso consiste simplesmente em seguir as instruções. Nos tempos antigos, acreditava-se que, a certa altura, um indivíduo recebia uma mensagem do mundo espiritual com instruções sobre como realizar um determinado ritual, como se comportar com os outros, como agir na esfera privada e como honrar o divino na vida quotidiana. Estas instruções eram então partilhadas com os outros, transmitidas de geração em geração e tornavam-se tradições comunitárias.

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Por esta razão, muitos contos Cheyenne — se não todos, em maior ou menor grau — sublinham a importância de seguir as instruções. Neste aspeto, não diferem dos Sioux, dos Iroqueses, dos Pawnee ou de qualquer outro povo indígena da América do Norte, pois um conceito comum que partilhavam era o do «passado presente» – a forma como o passado está eternamente presente nas histórias que se contam e nos rituais que se observam –, mas esse passado só pode estar presente se se for fiel à visão original da história e ao espírito do ritual.

Existem muitas versões diferentes dos contos de várias nações nativas americanas. Há variações significativas no conto dos Cheyenne/Arapaho/Sioux intitulado Como a Tartaruga Foi para a Guerra, por exemplo, bem como nas histórias dos Cheyenne conhecidas como contos Wihio ou nos contos Iktomi dos Sioux. Os detalhes destas histórias não importam tanto quanto a mensagem geral, o tema e a moral que, em última análise, constituem o sentido da história. Compreender por que razão se conta a história é um aspeto essencial para seguir as instruções: conta-se a história, tal como aqueles que a contaram antes, porque as pessoas precisam de ouvir o que ela tem para dizer. O contador de histórias nativo americano é apenas o canal através do qual as verdades de um determinado conto são reveladas aos outros.

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O Texto

Ao relatar este conto, o contador de histórias estaria certamente a enfatizar a importância cultural de obedecer às instruções, mas há muitos outros aspetos da história que abordam outras lições importantes. Os Cheyenne, tal como outras nações, acreditam na realidade dos fantasmas, e muitos contos dos nativos americanos tratam dos perigos de interagir com estes espíritos. Entre os muitos perigos que os fantasmas representavam, estava a crença de que raptavam crianças, especialmente meninas, para se alimentarem. Pensava-se que os fantasmas atacavam as crianças, uma vez que estas eram mais vulneráveis do que os adultos. Esta crença está presente em A Menina e o Fantasma, tal como em tantos outros contos, mas, neste caso, serve como um aviso contra agir precipitadamente sob o efeito da raiva.

A história adverte para as consequências de agir com raiva: depois, não importa o quanto se lamente, porque o que foi feito não pode ser desfeito.

A mãe, cansada de ouvir a filha chorar e incapaz de fazer cessar o barulho, empurra-a com raiva para fora da cabana e, sem pensar, grita para que um fantasma a leve. A mãe não o diz a sério, como fica claro mais tarde quando sai a chorar à procura da filha desaparecida, mas o mal já está feito e não pode ser desfeito, pois o fantasma, que estava invisível ali ao lado, levou a mãe à letra e raptou a menina. A história, portanto, adverte para as consequências de agir com raiva: depois, não importa o quanto se sinta arrependido, pois o que foi feito não pode ser desfeito.

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Tal como em muitos contos Cheyenne, o número quatro é enfatizado ao longo de toda a história, uma vez que o «quatro» é um número sagrado associado aos quatro pontos cardeais da bússola. Quando o ancião veste a jovem para que esta regresse finalmente ao seu povo, o contador de histórias diz: «Assim, ela foi vestida como uma Contrária» (pág. 159), uma referência ao papel social conhecido como «Contrária», alguém que se vestia e se comportava propositadamente em oposição aos outros na sua comunidade, muitas vezes com o resultado de despertar neles uma compreensão mais clara do seu próprio comportamento. No seu papel de «Contrária», a personagem principal indica que a história deve ser entendida como um apelo ao público para que examine as suas próprias atitudes e conduta.

A tradução infra é do texto extraído de By Cheyenne Campfires (Junto às Fogueiras dos Cheyenne, 1926), de George Bird Grinnell, reeditado em 1971 pela University of Nebraska Press:

Havia, outrora, um acampamento e, numa das cabanas, uma miúda estava sentada a chorar; estava zangada por alguma razão. A mãe fez tudo o que pôde para que a criança parasse, mas, por fim, a mãe ficou zangada, abriu a porta da cabana, empurrou a criança para fora e disse: «Fantasma, leva esta criança!»

Um fantasma devia estar ali perto da porta, pois, quando a mãe a empurrou para fora, algo a pegou ao colo. Assim que foi empurrada para fora, a criança deixou de chorar. Passado algum tempo, a mulher saiu e, ao não conseguir encontrar a filha, percorreu as cabanas, a chorar e à procura dela. Aquele que levou a criança era um fantasma jovem e, no local de onde o jovem fantasma tinha vindo, havia um fantasma velho. O jovem levou a criança até ao velho e disse: «Aqui está a tua refeição.»

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De manhã, o fantasma velho disse à menina: «Vai buscar um pouco de lenha.» Ela saiu e recolheu alguma lenha seca. Um passarinho voou até perto dela e disse: «Estás a apanhar essa lenha para ti» – querendo dizer que era para a cozinhar. Ela levou a lenha até à cabana e o fantasma velho olhou para ela e disse: «Não é desse tipo que eu quero» e mandou-a buscar mais. Mais uma vez, o passarinho disse-lhe: «Estás a apanhar essa lenha para ti própria.» Ela levou-a até à cabana e, mais uma vez, o velho fantasma encontrou falhas nela e mandou-a buscar outra lenha. Ela foi pela terceira vez e, mais uma vez, o passarinho falou com ela. Foi mandada de volta pela quarta vez. O passarinho voou até perto dela e disse: «Esta é a última vez; quando voltares, vão cozinhar-te.»

A rapariga disse: «É inútil dizeres-me isso; o grande fantasma apanhou-me e não posso fazer nada. Podes ajudar-me?» O pássaro respondeu: «Sim, posso ajudar-te. Bem aqui ao lado há um pico de montanha. Vou levar-te até lá e, quando chegares, tens de dizer à porta na rocha: “Meu avô, vim em busca de proteção; meu pai, vim em busca de proteção; meu irmão, vim em busca de proteção; meu marido, vim em busca de proteção.” Isto tem de ser dito à porta. Vou levar-te até lá. Há uma grande pedra encostada ao pico; essa é a porta.”

O pássaro disse-lhe para colocar uma mão em cada um dos seus ombros e, voando rente ao chão, levou-a até ao pico. Quando chegaram, a rapariga repetiu o que o pássaro lhe tinha dito. O pássaro disse: «Coloca a tua mão na rocha e empurra-a para o lado.» Ela assim fez, entrou e viu um velho sentado ali. Ele disse: «Entra, minha neta. Sei que vieste ter comigo à procura de proteção.»

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Quando o velho fantasma percebeu que a menina tinha desaparecido, saiu e seguiu-a. Sabia que ela tinha ido para o pico. À medida que se aproximava, começou a ulular como uma coruja; e, quando ululava, o chão tremia. Gritou quatro vezes e, em cada uma delas, o chão tremeu. Quando a criança ouviu o fantasma, assustou-se e correu de um lado para o outro dentro da cabana, tentando esconder-se; mas o avô disse-lhe para ficar quieta e não ter medo. Depois de gritar quatro vezes, o fantasma aproximou-se da rocha. Ficou em frente à porta e disse: «Traz-me a minha carne! Se não o fizeres, terei de entrar para a buscar.» Disse isso quatro vezes.

O velho disse: «Entra e leva-a.» O fantasma disse: «Abre a porta, para que eu possa entrar.» Depois de lhe terem pedido quatro vezes, o velho levantou-se e abriu a porta apenas o suficiente para o fantasma enfiar a cabeça e, quando o fantasma enfiou a cabeça, o velho deixou a porta fechar-se de repente e cortou a cabeça do fantasma, de modo que esta caiu no chão, lá dentro. O velho apanhou-a, atirou-a para fora da cabana e disse à rapariga: «Traz um pouco de lenha seca e atira-a por cima da cabeça.»

Depois de ela ter feito uma pilha por cima, o velho ateou-lhe fogo; depois, atirou o corpo do fantasma para o fogo, entregou-lhe um pau e disse: «Agora, se alguma coisa rolar para fora, não a toques com a mão, mas empurra-a de volta para o fogo com este pau.» Depois de ter acendido o fogo, a cabeça e o corpo racharam-se, e pedaços de sílex e contas antigas rolaram para fora. A menina quis apanhá-los, mas o velho disse: «Não, empurra-os para o fogo.» Ficaram a observar o fogo até que o fantasma se queimasse por completo.

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Quando a menina tinha dezassete anos, o velho disse-lhe que já podia regressar à sua aldeia. Vestiu-a como um homem; fez-lhe uma túnica e pintou-a com tinta encarnada indígena; as suas polainas e mocassins também foram pintados de ecarnado. Fez-lhe um arco do trovão e colocou caudas de bisonte nos calcanhares dos seus mocassins. Depois, amarrou a pele de uma coruja-da-pradaria na sua testa. Assim, ela ficou vestida como um «Contrário».

Quando ela estava pronta para partir, o velho deu-lhe um vison vivo e disse-lhe para o colocar dentro do vestido, junto ao peito. Ele disse-lhe:

«Tens de passar por quatro aldeias; não pares em nenhuma delas; vão chamar-te, mas continua e passa adiante. Depois disso, encontrarás uma única cabana. Entra e fica por lá, pois, nessa altura, já estará a pôr-se o sol. Nessa cabana, encontrarás uma velha que possui um grande poder; ela tenta matar todos os que chegam à sua cabana. Quando entrares, ela vai ferver uma chaleira com miolos e farinha para tu comeres. Os miolos serão de alguém que ela tenha matado. Ela vai entregar-te uma tigela com isso, com uma colher de chifre, mas não deves comer. Dá isso ao vison. Depois, ela vai cozinhar-te um pouco de carne de bisonte; come isso.»

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Antes de a rapariga se afastar, o velho disse-lhe que, quando parasse na cabana daquela velha, não devia dormir. Ele disse: «Se dormires, ela tentará matar-te; mas, se adormeceres, mantém o vison bem junto ao teu pescoço e ele guadar-te-á. Depois de ela achar que estás a dormir, vai começar a coçar a perna e esta vai inchar; depois, vai usar a perna como um bastão e vai bater-te na cabeça com ela.»

Quando a rapariga passou pela primeira aldeia que encontrou na sua viagem, as mulheres chamaram-na: «Vem cá, jovem, e pára», mas ela não lhes deu atenção. Quando as mulheres perceberam que ela não lhes prestava atenção, gritaram-lhe: «Andas como uma mulher!» Isto aconteceu em cada uma das quatro aldeias.

Mesmo ao pôr-do-sol, chegou ao topo de uma colina e, lá em baixo no vale, avistou uma cabana solitária. A anciã saiu e disse: «Desce, minha neta», e, pegando-lhe na mão, levou-a para dentro da cabana. A rapariga pendurou o seu arco de trovão num ramo de uma árvore; depois entrou e viu que tudo na cabana parecia muito bonito. A anciã disse: «A minha neta deve estar com fome; vou cozinhar-te um pouco de papa.» Assim, colocou os miolos numa panela ao fogo. Quando ficou cozido, deu-lhe uma tigela cheia e uma colher, mas a rapariga deu-o de comer ao vison. A anciã disse: «A minha neta deve estar com fome», e começou a cozer-lhe um pouco de carne de bisonte, e a rapariga comeu-a.

Passado algum tempo, a velha perguntou à rapariga se ela tinha sono. Ela respondeu: «Sim, gostaria de ir dormir», e deitou-se com o vison bem junto à garganta. A velha disse: «Vou ficar acordada a manter o fogo aceso para que fiques quentinha.» A rapariga fingiu dormir e ressonou, e viu a velha aproximar-se do fogo e começar a coçar a perna. A pata começou a crescer, e a mulher rastejou até onde a rapariga estava deitada e levantou a perna para a atingir com ela, mas, no momento em que a ergueu por cima da cabeça, a rapariga empurrou o vison para fora. Este agarrou a perna da mulher e arrancou-lhe um pedaço de carne. A velha gritou: «Mataste-me», e caiu; depois começou a chorar e disse: «Tens um forte poder espiritual.»

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A rapariga levantou-se de um salto e saiu; ao fazê-lo, apanhou um tocho em chamas e incendiou a cabana. Pegou no seu arco do trovão e partiu na direção do seu acampamento.

Viajou toda aquela noite e, no dia seguinte, chegou à grande aldeia. Lá, subiu à colina com o seu arco do trovão, e toda a aldeia saiu para ver o estranho jovem. Dois jovens aproximaram-se dela e perguntaram: «De onde vieste?» Ela respondeu: «Esta é a minha aldeia; estive ausente durante muito tempo e voltei.»

Assim, levaram-na para o centro do acampamento e chamaram um ancião para anunciar que um jovem que pertencia à aldeia tinha chegado. O ancião espalhou a notícia pela aldeia, e todos se aproximaram para a ver. Ninguém sabia quem ela era. Por fim, perguntaram-lhe quem era a sua família.

Ela baixou a cabeça, pois sentia vergonha ao lembrar-se de que a sua mãe a tinha expulsado da cabana. Disse que era a rapariga que a mãe tinha expulsado da cabana e que tinha sido levada pelo fantasma. Então, todos a reconheceram, e o seu povo levou-a para a cabana deles.

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Perguntas & Respostas

De que trata o conto cheyenne «A Menina e o Fantasma»?

«A Menina e o Fantasma» conta a história de uma menina, expulsa de casa pela mãe, que é raptada por um fantasma e consegue escapar com a ajuda de um espírito ancião, que acaba por a enviar de volta para casa.

Quais são os temas centrais de «A Menina e o Fantasma»?

Os temas centrais de «A Menina e o Fantasma» são a importância de obedecer às instruções, a coragem pessoal e um aviso contra agir precipitadamente sob o efeito da raiva.

Qual é o significado do pássaro na história «A Menina e o Fantasma»?

As aves surgem frequentemente como ajudantes nas histórias dos nativos americanos, e o mesmo se aplica ao conto dos Cheyenne, «A Menina e o Fantasma». Acreditava-se que as aves eram mensageiras do divino, que ajudavam frequentemente as pessoas.

Qual é a data de composição do conto cheyenne «A Menina e o Fantasma»?

Não é possível datar «A Menina e o Fantasma», uma vez que a história foi transmitida oralmente de geração em geração até ter sido registada por escrito no início do século XX.

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Mark, J. J. (2026, setembro 04). A Menina e o Fantasma. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2474/a-menina-e-o-fantasma/

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Mark, Joshua J.. "A Menina e o Fantasma." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2474/a-menina-e-o-fantasma/.

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Mark, Joshua J.. "A Menina e o Fantasma." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 04 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2474/a-menina-e-o-fantasma/.

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