A celebração do Juneteenth (June - junho e nineteenth - décimo nono)— originalmente conhecido como "Dia da Liberdade" — começou a 1 de janeiro de 1866 no Texas e, desde então, vários mitos cresceram em torno do evento que comemora: a emissão da Ordem Geral N.º 3 em Galveston, Texas, que aplicou a Proclamação de Emancipação. Muitos destes mitos são repetidos regularmente hoje em dia, especialmente durante os eventos do Juneteenth.
Os mitos não retiram importância à celebração, mas obscurecem o acontecimento histórico que esta comemora e parecem ter evoluído, como acontece com todas as lendas, através da repetição sem a verificação de factos. Algumas destas distorções parecem já ter sido aceites como verdade por volta de 1900, embora seja difícil localizar o momento e o local de origem, e têm sido repetidas desde então. Em junho de 2021, quando o Juneteenth foi proclamado feriado federal nos Estados Unidos, os políticos repetiram habitualmente vários destes mitos, nomeadamente os números 1, 2, 8 e 9 abaixo.
O propósito deste artigo é esclarecer o acontecimento histórico de 19 de junho de 1865, quando o General Granger, do Exército da União, emitiu a Ordem Geral N.º 3 em Galveston, Texas, anunciando que "todos os escravos são livres", em conformidade com a Proclamação de Emancipação (Emancipation Proclamation), que tinha sido emitida a 1 de janeiro de 1863; que apenas abordava a instituição da escravatura nos Estados Confederados, que estavam, na altura, em guerra com o governo federal. A proclamação foi emitida para impedir que a Inglaterra entrasse na guerra ao lado do Sul, uma vez que a Inglaterra, que tinha proibido a escravatura, não poderia apoiar legalmente a Confederação pró-escravatura depois de o Presidente Lincoln ter proclamado a causa da União como uma cruzada para abolir a instituição.
A Proclamação de Emancipação não libertou um único escravo quando foi emitida e não abordou a instituição nos estados fronteiriços. A proclamação só foi efetiva depois das tropas da União terem tomado territórios Confederados ou, à medida que avançavam, libertado os escravos que conseguiram chegar às suas linhas. Após o fim da Guerra Civil Americana em abril de 1865, só então a Proclamação de Emancipação pôde ser totalmente aplicada nos antigos Estados Confederados e, a 19 de junho de 1865, o General Gordon Granger chegou a Galveston, Texas, para anunciar esta política através da Ordem Geral N.º 3.
Grande parte da informação seguinte é retirada de Juneteenth 101: Popular Myths and Forgotten Facts (Juneteenth 101: Mitos Populares e Factos Esquecidos) de D. J. Norman-Cox, suplementada e verificada pelos outros livros da bibliografia. Como Norman-Cox nota no prefácio do seu livro: "O Juneteenth 101 é um levantamento dos mitos mais flagrantes do Juneteenth. Castigar aqueles que difundem erros não é o seu propósito" (pág. 9). O mesmo é verdade quanto ao propósito deste artigo, que pretende chamar a atenção para o mesmo problema que Norman-Cox clarifica:
A investigação académica sobre os eventos de emancipação no Texas, coletivamente chamados Juneteenth, é abundante, mas os celebrantes que não são estudiosos de história (ou seja, a maioria dos foliões do Juneteenth) permanecem imersos em mitos sobre a emancipação. Infelizmente, graças principalmente à internet, a cada ano o volume de informações imprecisas cresce exponencialmente, aumentando a validade do folclore falso enquanto obscurece a realidade.
(Idem)
Separar o que aconteceu realmente a 19 de junho de 1865 e posteriormente dos mitos que rodeiam o evento não só clarifica a história do Juneteenth, como também encoraja o leitor a questionar como é que os mitos foram criados e que propósito passaram a servir; uma questão deixada em aberto para cada leitor individual investigar.
Mito 1: A Ordem Geral N.º 3 Acabou com a Escravatura nos Estados Unidos
A Ordem Geral N.º 3 acabou com a escravatura nos Estados Unidos quando foi emitida a 19 de junho de 1865. A escravatura foi abolida pela 13.ª Emenda à Constituição a 6 de dezembro de 1865. A Ordem Geral N.º 3 refere explicitamente o povo do Texas, não os Estados Unidos, e serviu apenas para anunciar a aplicação da Proclamação de Emancipação. O texto diz:
Informa-se o povo do Texas de que, de acordo com uma proclamação do Executivo dos Estados Unidos, todos os escravos são livres. Isto implica uma igualdade absoluta de direitos pessoais e direitos de propriedade entre antigos senhores e escravos, e a ligação que até aqui existia entre eles torna-se a de empregador e trabalhador contratado. Os libertos são aconselhados a permanecerem tranquilamente nas suas casas atuais e a trabalharem por um salário. Informa-se que não lhes será permitido reunir-se em postos militares e que não serão sustentados na ociosidade, nem ali nem em qualquer outro lugar.
Por ordem de G. Granger, Major-General Comandante/F.W. Emory, Major e Ajud.-General Assistente.
(Cotham, pág. 199)
Não só a Ordem Geral N.º 3 não pôs fim à escravatura nos Estados Unidos, como nem sequer terminou efetivamente com a escravatura no Texas a 19 de junho de 1865 porque, na falta de um sistema moderno de comunicação de massas, foi necessário tempo para fazer chegar a notícia através de folhetos, telégrafo e jornais. A distribuição da ordem começou a 20 de junho de 1865; apenas o povo de Galveston recebeu a ordem no dia 19.
Mito 2: Demorou Mais de Dois Anos para os Escravizados no Texas Saberem que eram Livres / Os Texanos não Sabiam que a Guerra tinha acabado até 19 de junho de 1865
Tal como o Mito 1, este mito é frequentemente repetido ao alegar que os escravizados mantidos no Texas não tinham qualquer conhecimento da Proclamação de Emancipação até 19 de junho de 1865 e, ainda, que os proprietários de escravizados texanos eram igualmente ignorantes quanto à proclamação, ou que a Guerra Civil tinha terminado, e que estavam legalmente obrigados a libertar os seus escravizados. A Proclamação de Emancipação preliminar foi emitida a 22 de setembro de 1862 e foi publicada na íntegra no jornal de Houston, Texas, The Tri-Weekly Telegraph, a 17 de outubro de 1862. A proclamação foi regularmente referida nos jornais do Texas desde essa data até dezembro de 1864. A maioria dos escravizados era analfabeta, uma vez que era contra a lei ensinar um escravizado a ler, mas certamente podiam ouvir, e ouviam, os seus senhores a discutir a proclamação. No entanto, não havia nada que pudessem fazer para reclamar a sua liberdade, uma vez que o Texas fazia parte da Confederação e não se sentia obrigado a cumprir uma proclamação executiva de um governo com o qual estavam em guerra. Por conseguinte, os escravizados e os senhores no Texas tinham pleno conhecimento da proclamação desde 1862, e os texanos sabiam que a Guerra Civil tinha terminado em finais de maio ou inícios de junho de 1865.
Mito 3: Um mMensageiro que Transportava a Notícia da Proclamação de Emancipação foi Morto a Caminho do Texas
Este mito tem sido repetido em vídeos e comentários para explicar o Mito 2. Alegadamente, um estafeta da União solitário estava a caminho do Texas com a notícia da Proclamação de Emancipação, em 1862 ou 1863, quando foi alcançado e assassinado por simpatizantes da Confederação, e seria esta a razão pela qual os escravizados e senhores texanos não tiveram conhecimento da proclamação até 19 de junho de 1865. Este mito não faz qualquer sentido a nenhum nível. Não haveria qualquer razão para um soldado da União ser enviado para território inimigo para entregar uma proclamação, muito menos uma proclamação que já tinha sido comunicada via telégrafo e publicada em jornais desde 1862.
Mito 4: O Texas foi o Último Estado a Manter a Escravatura
O Texas não foi o último estado a manter a escravatura; foi o último estado escravista da Confederação a libertar os seus escravizados, mas os estados fronteiriços de Delaware e Kentucky continuaram com a instituição até esta ser abolida em todo o país pela 13.ª Emenda, em dezembro de 1865. Havia também certas paróquias da Louisiana que seguiam essa mesma política. Mesmo após a ratificação da 13.ª Emenda à Constituição, muitos ex-escravizados continuaram a trabalhar e a viver em condições apenas ligeiramente melhores do que aquelas que tinham conhecido anteriormente, e isto incluía escravizados nos estados fronteiriços, não apenas aqueles que tinham feito parte da Confederação.
Mito 5: O Presidente Lincoln Emitiu a Ordem Geral N.º 3
O Presidente Abraham Lincoln foi assassinado a 15 de abril de 1865, dois meses antes da Ordem Geral N.º 3 ter sido emitida em Galveston, no Texas. Ele não teve qualquer envolvimento com a ordem, sob qualquer capacidade. A mesma foi emitida pelo Major-General Francis J. Herron na Louisiana a 3 de junho de 1865, copiada pelo General Philip Sheridan e entregue ao General Gordon Granger, que atribuiu a sua emissão ao seu subordinado, o Major F.W. Emory (também grafado como Emery), que tratou da sua afixação, distribuição e aplicação. Este mito parece ter-se desenvolvido ao confundir Lincoln e a sua Proclamação de Emancipação com a Ordem Geral N.º 3, que pôs em prática essa diretiva.
Mito 6: A Ordem Geral N.º 3 foi Lida a Partir da Ashton Villa
Um mito popular é o de que a Ordem Geral N.º 3 foi lida por Granger a partir da varanda (ou do alpendre, ou do jardim da frente) da Ashton Villa, a casa do Coronel Confederado James Moreau Brown, que anteriormente servira de quartel-general da Confederação em Galveston. Não existe qualquer prova de que a Ordem Geral N.º 3 tenha sido lida publicamente por oficiais da União a uma audiência; contudo, como aponta Norman-Cox, é altamente improvável que tivesse sido lida a partir da varanda da casa de um oficial Confederado de destaque. O Edifício Osterman era o quartel-general do Distrito do Texas do Exército da União em Galveston, e foi a partir deste local que a Ordem Geral N.º 3 foi emitida (assinalado hoje por um marco histórico estatal do Texas), mas não há registo de que tenha sido lida publicamente a partir daí. O Major Emory ficou encarregue de garantir a distribuição da ordem, o que foi feito através de folhetos, jornais e telégrafo. Esperava-se que os senhores lessem a ordem aos seus escravizados e anunciassem a sua liberdade — embora nem todos os senhores tenham cumprido até serem finalmente forçados a tal.
Mito 7: Houve Celebrações em Todo o Texas a 19 de junho de 1865
A Ordem Geral N.º 3 foi apenas anunciada em Galveston, no Texas, a 19 de junho de 1865 e, temendo a agitação pública, o General Granger proibiu reuniões públicas nesse mesmo dia. Quaisquer celebrações que tenham ocorrido teriam tido de ser eventos pequenos, de curta duração e apenas em Galveston. A notícia da Ordem Geral N.º 3 não foi enviada a partir de Galveston antes de 20 de junho, e muitos jornais em todo o Texas só publicaram a ordem uma semana depois, pelo que nenhum dos ex-escravizados que alegadamente estariam a celebrar em todo o estado saberia sequer que tinha algo para celebrar.
Mito 8: O Juneteenth é a Celebração da Emancipação mais Antiga nos Estados Unidos
Este mito afirma que o Juneteenth é a celebração contínua da emancipação mais antiga nos Estados Unidos, e esta alegação é falsa por duas razões. Primeiro, porque a Watch Night — uma vigília realizada por abolicionistas e enclaves esporádicos de escravizados a 31 de dezembro de 1862, em antecipação da emissão da Proclamação de Emancipação a 1 de janeiro de 1863 — é anterior. A Watch Night continua a realizar-se no presente como parte das celebrações da véspera de Ano Novo nas igrejas afro-americanas. Em segundo lugar, devido a políticas racistas e à pressão social das leis de Jim Crow, o Juneteenth não foi celebrado — ou parece ter sido pouco observado — na primeira parte do século XX. Ao que tudo indica, o Juneteenth parece ter sido celebrado continuamente apenas desde 1938, quando o Texas declarou oficialmente o dia 20 de junho como Dia da Emancipação.
Mito 9: Todos foram Sempre Bem-vindos nas Celebrações do Juneteenth
O feriado agora conhecido como Juneteenth chamava-se originalmente "Dia da Liberdade" (Freedom Day) e, embora mulheres e crianças tenham participado nas primeiras celebrações, acabaram por ser excluídas à medida que o evento se tornou focado principalmente nos direitos de voto. Uma vez que os escravizados nunca tinham tido a oportunidade de votar, o Dia da Liberdade serviu como seminário de instrução sobre política e votação. Dado que as mulheres não podiam votar até 1920, a sua participação foi desencorajada. As mulheres e as crianças só se tornaram participantes regulares nas celebrações do Juneteenth após 1920, embora existam provas da presença de ambos em eventos, em pequeno número, antes dessa data.
Mito 10: O Juneteenth foi Celebrado pela Primeira vez a 19 de Junho de 1866
O dia 19 de junho é hoje reconhecido como Juneteenth, e os discursos comemorativos reivindicam por vezes que o evento tem sido reconhecido nessa data desde o primeiro aniversário da emissão da Ordem Geral N.º 3 — a 19 de junho de 1866. Na realidade, o primeiro Dia da Liberdade foi celebrado a 1 de janeiro de 1866 para comemorar o terceiro aniversário da Proclamação de Emancipação. Um outro Dia da Liberdade foi então celebrado a 19 de junho de 1866, mas não foi o primeiro.
Conclusão
Existem muitos mais mitos em torno do Juneteenth para além destes dez, e os leitores são encorajados a consultar o excelente trabalho de Norman-Cox sobre o assunto para um tratamento aprofundado e cativante dos mesmos. Muitos dos pontos acima, e outros, podem parecer trivialidades inofensivas, mas, na verdade, distorcem a história do evento que o Juneteenth comemora, mesmo que não tenha sido essa a intenção. Norman-Cox escreve:
Não foram encontradas provas que sugiram que os mitos populares do Juneteenth tenham sido gerados intencionalmente. Muitas imprecisões... parecem ter origem em explicações mal formuladas e na falha dos defensores do Juneteenth em verificar os factos.
(pág. 9)
Ainda assim, o Juneteenth é um feriado demasiado importante para permitir tais mal-entendidos, mesmo que alguns pareçam triviais, uma vez que o evento celebra a liberdade pessoal e coletiva e comemora uma proclamação oficial de "uma igualdade absoluta de direitos pessoais e direitos de propriedade" entre pessoas que tinham sido escravizadas e aqueles que as tinham mantido em cativeiro. Embora os mitos que cresceram em torno do evento não diminuam a sua importância, a verdade sobre o Juneteenth é muito mais interessante e não precisa de embelezamentos.
