Inanna e Su-kale-tuda (cerca de 1800 a.C.) é um mito mesopotâmico que trata do tema da violação e justiça na antiga Suméria. A obra tem sido interpretada como um mito astral ou um relato figurativo da ascensão dos estados do sul contra Acádia, mas a interpretação mais direta do poema é uma condenação do crime de violação.
A história gira em torno de Inanna, a deusa do amor, do sexo e da guerra, que, após viajar pelos céus, descansa na terra num jardim à sombra duma árvore. Adormece e é violada pelo jardineiro Su-kale-tuda. Quando Inanna acorda e percebe o que lhe aconteceu, começa a procurar o estuprador, mas, com o incentivo do pai, ele escondeu-se entre "o povo de cabeça negra", os sumérios, nas cidades, para fugir à justiça.
Enfurecida pela violação, Inanna envia três pragas sobre a terra para forçar o violador a revelar-se: sangue em vez de água nos poços, ventos tempestuosos e inundações, bloqueio das rodovias usadas no comércio. Finalmente, ela apela ao deus Enki por justiça, que lhe permite transformar-se num arco-íris para procurar pelo mundo Su-kale-tuda, que por esta altura está escondido nas montanhas e a tentar passar o mais despercebido possível.
No entanto, ela encontra-o e decreta que ele deve morrer pelo crime. Ela diz-lhe que seu nome viverá para sempre como o seu violador, onde quer que as canções sejam cantadas. Numa sociedade que valorizava a memória como imortalidade, Su-kale-tuda é amaldiçoado a ser eternamente lembrado como um estuprador e cobarde. Entende-se que o poema foi transmitido oralmente até ser escrito por volta de 1800 a.C. e teria servido como uma história de advertência sobre a retribuição divina pelo crime de violação.
Resumo e Comentário
O poema começa com Inanna como uma jovem mulher nas montanhas, determinada a cumprir uma missão: "detectar a falsidade e a justiça, inspecionar a Terra de perto, identificar o criminoso contra o justo" (linhas 5-6). As linhas 9-10 iniciam o refrão "Agora, o que um disse ao outro? O que mais se acrescentou ao outro em detalhes?", que, de acordo com o estudioso Jeremy Black, "cria um estilo informal que evoca uma história transmitida oralmente" (pág. 197), mas, à medida que a história se desenrola, também parece perguntar ao público o que fariam numa situação destas. O que se poderia dizer a outra pessoa sobre o que se sabia de uma violação ou da localização de um violador?
As linhas 42-90 descrevem Enki, o deus da sabedoria e senhor de Eridu, ensinando a um corvo a arte da jardinagem e obtendo sucesso, pois a ave planta um alho-poró que se transforma na primeira palmeira-datilífera. A habilidade do corvo como jardineiro é então contrastada com os esforços do jovem Su-kale-tuda nas linhas 91-111, que não consegue fazer crescer nem mesmo uma planta no seu jardim e é tão inepto que arranca os vegetais que plantou anteriormente.
Uma repentina tempestade de poeira cega-o temporariamente e, quando limpa os olhos, vê Inanna descendo ao seu jardim para descansar à sombra de um álamo do Eufrates. O texto deixa claro que ele sabe que está vendo uma deusa "que possui plenamente os poderes divinos" (linhas 101-102), mas, em vez de honrá-la, espera até que ela adormeça e então a viola.
Quando amanhece (quando o deus do sol Utu-Shamash nasce), Inanna acorda e percebe que foi violada. O resto do poema trata da perseguição ao violador, das pragas que lança sobre a terra e da eventual captura e condenação.
O Texto
A passagem a seguir foi retirada de The Literature of Ancient Sumer, (A Literatura da Antiga Suméria),traduzido por Jeremy Black et al.. Por motivos de espaço, apenas as linhas 112 (quando Inanna é estuprada) até a conclusão (elogiando Inanna por sua justiça) são apresentadas. Os pontos de suspensão indicam palavras ou linhas ausentes, enquanto os pontos de interrogação sugerem traduções alternativas para uma palavra ou frase.
112-128: Certa vez, depois que minha senhora percorreu os céus, depois que percorreu a terra, depois que Inanna percorreu os céus, depois que percorreu a terra, depois que percorreu Elão e Subartu, depois que percorreu o horizonte entrelaçado do céu, a senhora ficou tão cansada que, quando chegou lá, deitou-se junto às raízes. Su-kale-tuda notou-a ao lado do seu terreno. Inanna ... a tanga (?) dos sete poderes divinos sobre os seus genitais. ... o cinto dos sete poderes divinos sobre os seus genitais ... ... com o pastor Ama-ucumgal-ana ... ... sobre os seus genitais sagrados ... Su-kale-tuda desamarrou a tanga (?) dos sete poderes divinos e a fez deitar no seu lugar de descanso. Ele fez sexo com ela e a beijou ali. Depois de fazer sexo com ela e de a beijar, ele voltou para o seu terrenoa. Quando o dia amanheceu e Utu se levantou, a mulher inspecionou-se cuidadosamente, a sagrada Inanna inspecionou-se cuidadosamente.
129-136: Então ela ponderou no que deveria ser destruído por causa dos seus genitais; Inanna estava a pensar no que deveria ser feito por causa dos seus genitais. Ela encheu os poços da Terra com sangue, então era sangue que os pomares irrigados da Terra produziam, era sangue que o escravo que ia buscar lenha bebia, era sangue que a escrava que saía para buscar água trazia, e era sangue que o povo de cabeça negra bebia. Ninguém sabia quando tal iria acabar. Ela disse: "Vou procurar em todos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em nenhum lugar em nenhuma terra ela conseguiu encontrar o homem que tinha feito sexo com ela.
137-138: Agora, o que um disse ao outro? O que mais um acrescentou ao outro em detalhes?
139-140: O rapaz foi para casa, ter com o seu pai, e falou com ele; Su-kale-tuda foi para casa, para seu pai, e falou com ele:
141-159: "Meu pai, eu deveria regar os canteiros do jardim e construir a instalação para um poço entre as plantas, mas não restou nenhuma planta lá, nem mesmo uma: eu as arranquei pela raiz e as destruí. Então, o que a tempestade trouxe? Ela soprou a poeira das montanhas nos meus olhos. Quando tentei limpar o canto dos olhos com a mão, tirei um pouco, mas não consegui tirar tudo. Levantei os olhos para a terra baixa e vi os deuses elevados da terra onde o sol nasce. Levantei os olhos para as terras altas e vi os deuses exaltados da terra onde o sol se põe. Vi um fantasma solitário. Reconheci um deus solitário pela sua aparência. Vi alguém que possui plenamente os poderes divinos. Eu estava olhando para alguém cujo destino foi decidido pelos deuses. Naquele terreno — eu não o havia abordado cinco ou dez vezes antes? — havia uma única árvore frondosa naquele lugar. A árvore frondosa era um álamo do Eufrates com sombra ampla. Sua sombra não diminuía pela manhã e não mudava nem ao meio-dia nem à noite.
160-167: "Certa vez, depois que minha senhora deu a volta nos céus, depois que deu a volta na Terra, depois que Inanna deu a volta nos céus, depois que deu a volta na Terra, depois que deu a volta ao Elão e Subartu, depois que ela deu a volta no horizonte entrelaçado do céu, a senhora ficou tão cansada que, quando chegou lá, deitou-se junto às raízes. Eu a notei ao lado do meu terreno. Fiz sexo com ela e a beijei ali. Então voltei para o lado do meu terreno."
168-176: "Então a mulher estava pensando no que deveria ser destruído por causa dos seus órgãos genitais; Inanna estava pensando no que deveria ser feito por causa de seus órgãos genitais. Ela encheu os poços da Terra com sangue, então era sangue que os pomares irrigados da Terra produziam, era sangue que o escravo que ia buscar lenha bebia, era sangue que a escrava que saía para buscar água tirava, e era sangue que o povo de cabeça negra bebia. Ninguém sabia quando tal iria acabar. Ela disse: "Vou procurar em todos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em nenhum lugar ela conseguiu encontrar o homem que tinha feito sexo com ela."
177-181: O pai respondeu ao filho ; o pai respondeu a Su-kale-tuda: "Meu filho, deve-se juntar aos moradores da cidade, seus irmãos. Vá imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos! Então ela não o encontrará nas montanhas".
182-184: Ele se juntou aos moradores da cidade, seus irmãos, todos juntos. Ele foi imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos, e a mulher não o encontrou nas montanhas.
185-193: Então a mulher considerou pela segunda vez o que deveria ser destruído por causa de seus órgãos genitais; Inanna considerou o que deveria ser feito por causa de seus órgãos genitais. Ela montou numa nuvem, sentou-se (?) ali e... O vento sul e uma terrível tempestade a precederam. O pilipili (um dos membros do culto na comitiva de Inana) e uma tempestade de poeira a seguiram. Abba-cucu, Inim-kur-dugdug, ... conselheiro ... Sete vezes sete ajudantes (?) ficaram ao lado dela no alto deserto. Ela disse: "Vou procurar portodos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em nenhum lugar ela conseguiu encontrar o homem que tinha feito sexo com ela.
194-195: O rapaz foi para casa, para seu pai, e falou com ele; Su-kale-tuda foi para casa, para seu pai, e falou com ele:
196-205: "Meu pai, a mulher de quem eu lhe falei, ela esta a considerar pela segunda vez o que deveria ser destruído por causa dos seus órgãos genitais; Inanna estava considerando o que deveria ser feito por causa dos seus órgãos genitais. Ela montou numa nuvem, sentou-se (?) ali e ... O vento sul e uma terrível tempestade de enchente a precederam. O pilipili e uma tempestade de poeira a seguiram. Abba-cucu, Inim-kur-dugdug, ... conselheiro ... Sete vezes sete ajudantes (?) ficaram ao lado dela no alto deserto. Ela disse: "Vou procurar por todos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em nenhum lugar ela conseguiu encontrar o homem que fez sexo com ela."
206-210: Seu pai respondeu; seu pai respondeu a Su-kale-tuda: "Meu filho, deve juntar-se aos moradores da cidade, seus irmãos. Vá imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos! Então a mulher não o encontrará entre as montanhas".
211-213: Ele juntou-se aos moradores da cidade, seus irmãos, todos juntos. Ele foi imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos, e a mulher não o encontrou nas montanhas.
214-220: Então a mulher considerou pela terceira vez o que deveria ser destruído por causa dos seus órgãos genitais; Inanna considerou o que deveria ser feito por causa dos seus órgãos genitais. Ela pegou um único ... em sua mão. Ela bloqueou as rodovias da Terra com ele. Por causa dela, o povo de cabeça negra ... Ela disse: "Vou procurar por todos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em lugar nenhum ela conseguiu encontrar o homem que tinha feito sexo com ela.
221-222: O rapaz foi para casa, para seu pai, e falou com ele; Su-kale-tuda foi para casa, para seu pai, e falou com ele:
223-230: "Meu pai, a mulher de quem eu lhe falei, mulher estava considerando pela terceira vez o que deveria ser destruído por causa dos seus órgãos genitais; Inanna estava considerando o que deveria ser feito por causa dos seus órgãos genitais. Ela pegou um único ... em sua mão. Ela bloqueou as rodovias da Terra com ele. Por causa dela, o povo de cabeça negra ... Ela disse: "Vou procurar por todos os lugares pelo homem que fez sexo comigo". Mas em nenhum lugar ela conseguiu encontrar o homem que tinha feito sexo com ela."
231-235: Seu pai respondeu; seu pai respondeu a Su-kale-tuda: "Meu filho, deve juntar-se aos moradores da cidade, seus irmãos. Vá imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos! Então mulher não o encontrará entre as montanhas".
236-238: Ele se juntou aos moradores da cidade, seus irmãos, todos juntos. Ele foi imediatamente para o povo de cabeça negra, seus irmãos, e a mulher não o encontrou nas montanhas.
239-244: Quando o dia amanheceu e Utu se levantou, as mulheres a inspecionaram de perto, a sagrada Inanna a inspecionou de perto. "Ah, quem vai me compensar? Ah, quem vai pagar (?) pelo que aconteceu comigo? Não deveria ser uma preocupação do meu próprio pai, Enki?"
245-249: A sagrada Inanna dirigiu seus passos para o abzu de Eridu e, por causa disso, prostrou-se no chão diante dele e estendeu as mãos para ele: "Pai Enki, eu devo ser compensada! Além disso, alguém deve pagar (?) pelo que aconteceu comigo! Só voltarei ao meu santuário E-ana satisfeita depois que me entregar aquele homem do abzu."
250: Enki disse: "Tudo bem!" para ela. Ele disse: "Que assim seja!" para ela.
251-255: Com isso, a sagrada Inanna saiu do abzu de Eridu. Ela estendeu-se como um arco-íris pelo céu e chegou até a terra. Ela deixou o vento sul passar, deixou o vento norte passar. Por medo, Su-kale-tuda tentou tornar-se o mais pequeno possível, mas a mulher o encontrou entre as montanhas.
256-261: A sagrada Inanna então falou a Su-kale-tuda: "Como...? ... cão...! ... burro...! ... porco...!"
262-281: Su-kale-tuda respondeu à santa Inanna: "Minha senhora (?), eu deveria regar os canteiros do jardim e construir a instalação para um poço entre as plantas, mas não restava nenhuma planta lá, nem mesmo uma: eu as arranquei pela raiz e as destruí. Então, o que a tempestade trouxe? Ela soprou a poeira das montanhas nos meus olhos. Quando tentei limpar o canto dos meus olhos com a mão, tirei um pouco, mas não consegui tirar tudo. Levantei os olhos para a terra baixa e vi os deuses exaltados da terra onde o sol nasce. Levantei os olhos para as terras altas e vi os deuses exaltados da terra onde o sol se põe. Vi um fantasma solitário. Reconheci um deus solitário pela sua aparência. Vi alguém que possui plenamente os poderes divinos. Eu estava olhando para alguém cujo destino foi decidido pelos deuses. Naquele terreno — eu não o havia abordado três ou seiscentas vezes antes? — havia uma única árvore frondosa naquele lugar. A árvore frondosa era um álamo do Eufrates com sombra ampla. Sua sombra não diminuía pela manhã e não mudava nem ao meio-dia nem à noite.
282-289: "Certa vez, depois que minha senhora deu a volta nos céus, depois que ela deu a volta na Terra, depois que Inanna deu a volta nos céus, depois que ela deu a volta na Terra, depois que ela deu a volta a Elão e Subartu, depois que ela deu a volta no horizonte entrelaçado do céu, a senhora ficou tão cansada que, quando chegou lá, deitou-se junto às raízes. Eu a notei ao lado do meu terreno. Fiz sexo com ela e a beijei ali. Então voltei para o lado do meu terreno."
290-295: Quando ele falou assim com ela, ... bateu ... ... acrescentou (?) ... ... mudou (?) ele ... Ela (?) determinou o destino dele ..., a sagrada Inanna falou com Su-kale-tuda:
296-306: "Então! Morrerá! O que isso tem a ver comigo? Seu nome, no entanto, não será esquecido. Seu nome existirá em canções e tornará as canções doces. Um jovem cantor as interpretará de forma muito agradável no palácio do rei. Um pastor as cantará docemente enquanto bate a manteiga. Um jovem pastor levará o teu nome para onde pasta as ovelhas. O palácio do deserto será a sua casa."
307-310: Su-kale-tuda... Porque... o destino estava determinado, louvado seja... Inanna!
Conclusão
De acordo com alguns estudiosos (notadamente Konrad Volk), o poema é uma releitura mítica da queda do Império Acádio de Sargão, o Grande (representado por Inanna), para os estados do sul da Babilónia e os Gutis (imaginados como Su-kale-tuda). O estudioso Jeffrey L. Cooley, entre outros, vê a história como um mito astral que explica por que o planeta Vénus (associado a Inanna) se move pelo céu como o faz e, às vezes, parece desaparecer. A estudiosa Gwendolyn Leick afirma que não se pode atribuir acções humanas — como a violação — a figuras divinas literalmente, pois os mitos devem ser entendidos figurativamente e, portanto, a "violação" de Inanna deve ter algum outro significado além do óbvio.
Independentemente do mérito que estas interpretações possam ou não ter, a leitura mais simples e, portanto, mais provável do poema é uma condenação do ato de estupro. Su-kale-tuda é apresentado desde a sua primeira aparição como um perdedor lamentável que não consegue nem cuidar de um jardim tão bem quanto um corvo e viola as leis da hospitalidade ao violar uma jovem que procurava descanso no jardim, sob a única árvore com a qual parece não ter nada a ver. O pai, em vez de forçá-lo a enfrentar o que fez e aceitar a punição, encoraja-o a se esconder, trazendo as três punições sobre a terra.
Como o poema deixa claro, porém, não há esperança de se esconder da justiça divina por um crime tão grave como a violação. Su-kale-tuda é capturado por Inanna e condenado à morte, mas condenado a viver eternamente na memória dos outros como um violador que, sem nenhuma razão aparente além da luxúria e, talvez, do seu próprio sentimento de impotência e inaptidão, violou uma deusa. Sempre que este poema fosse recitado, os homens que o ouviam receberiam uma poderosa advertência contra fazer o mesmo com qualquer jovem mulher que poderiam facilmente ter protegido.
