Balthasar Hubmaier (cerca de 1480–1528) foi um teólogo católico que se converteu à seita protestante anabatista em 1525. A sua obra Von Ketzern und ihren Verbrennern (1524 - Sobre os Hereges e Aqueles que os Queimam) foi um apelo à tolerância religiosa, escrito antes da sua conversão a uma seita perseguida tanto por católicos como por protestantes, que rejeitaram o texto como herético.
Embora Hubmaier tenha escrito a obra como católico, ela foi adotada pelos anabatistas para denunciar a prática, tanto dos tribunais católicos como dos protestantes, de acusar os heterodoxos de heresia e condená-los à morte. A Igreja já executava "hereges" há séculos naquela época e, assim que as seitas protestantes se estabeleceram, mantiveram essa prática. Embora católicos e protestantes parecessem não concordar em mais nada, encontraram um terreno comum na perseguição do "outro", e o seu inimigo comum após 1525 tornou-se a seita anabatista, que rejeitava os princípios de ambos e, exceto por alguns líderes radicais, defendia o pacifismo.
Uma vez que Hubmaier se tornou anabatista, o seu trabalho – tal como o de todos os anabatistas – foi condenado como herético, apesar de ele citar regularmente a Bíblia ao longo do texto para apoiar as suas alegações. O seu argumento central é simplesmente que a prática de queimar pessoas vivas como hereges não é bíblica, pois contradiz as palavras e o exemplo de Jesus Cristo e, portanto, é, na verdade, maligna e obra de Satanás. O texto de Hubmaier foi amplamente divulgado após a publicação, pois ele tinha sido um pregador católico popular, mas, após a sua conversão, caiu em desgraça, exceto entre os anabatistas. Hubmaier e a sua esposa, Elizabeth (nascida Hügline), seriam eventualmente executados por heresia em 1528, mas as suas obras foram preservadas pelos anabatistas, que continuam a prosperar sob vários nomes nos dias de hoje.
O Início da Vida e a Reforma
Sabe-se pouco sobre o início da vida de Hubmaier, exceto que nasceu na Baviera em 1480, frequentou a Escola Latina em Augsburgo e era estudante na Universidade de Friburgo em 1503. Em 1512, recebeu o seu doutoramento pela Universidade de Ingolstadt e aceitou o cargo de vice-reitor em 1515. A sua erudição e talento como pregador atraíram a atenção da congregação em Ratisbona (Regensburg), e ele mudou-se para lá como pároco em 1516.
Em 1519, em resposta à crescente tensão entre os cristãos e os judeus de Ratisbona, Hubmaier organizou o pogrom que expulsou a comunidade judaica da cidade, destruiu o seu cemitério e sinagoga, e confiscou os seus bens. Túmulos e lápides do cemitério, juntamente com as ruínas da sinagoga, foram despedaçados e utilizados como material de construção para uma capela erguida no antigo local da sinagoga. Não parece que este pogrom tenha tido qualquer relação com a posterior conversão de Hubmaier, mas é possível que a violência exercida contra a comunidade judaica o tenha inclinado para o pacifismo do movimento anabatista.
Nesta época, as obras de Martinho Lutero (1483–1546) já circulavam e Ulrico Zuínglio (1484–1531) pregava a reforma em Zurique. As 95 Teses de Lutero iniciaram o que viria a ser a Reforma Protestante em 1517, mas Hubmaier não parece ter respondido a este desafio à autoridade da Igreja até 1522, quando conheceu o académico humanista e teólogo Erasmo de Roterdão (1466–1536) em Basileia. Erasmo defendia reformas na Igreja antes mesmo de Lutero iniciar a sua cruzada, mas nunca se separou dela. Algo nesse encontro, muito provavelmente a filosofia humanista de Erasmo e a sua lealdade à Igreja, encorajou Hubmaier a procurar Zuínglio em Zurique para um debate em 1523; foi aí que conheceu os jovens que viriam a estabelecer o movimento anabatista.
Os Anabatistas e a Conversão de Hubmaier
Conrad Grebel (cerca de 1498–1526) e Felix Manz (cerca de 1498–1527) tinham sido seguidores de Zuínglio, até romperem com ele após a Segunda Disputa de 1523 (durante a qual Zuínglio defendeu as suas crenças), quando sentiram que ele tinha comprometido questões importantes para agradar ao conselho da cidade. Mais tarde, juntou-se-lhes George Blaurock (cerca de 1491–1529), um antigo sacerdote que também se sentia desiludido com os aparentes compromissos de Zuínglio. Estes três formaram os "Irmãos Suíços" (Schweizer Brüder), que compreendiam a Bíblia como a palavra literal de Deus e opunham-se à prática da Igreja Católica e das seitas protestantes emergentes, lideradas por Lutero e Zuínglio, de defender apenas o que se ajustava à sua interpretação do Cristianismo nas Escrituras e ignorar o que não lhes convinha.
Entre as suas questões centrais estavam o batismo infantil, a Missa Católica, os dízimos e o serviço militar por parte dos cristãos. Afirmavam que nenhuma destas práticas era apoiada pela Bíblia, assim como não o era a prática de queimar pessoas vivas pelas suas crenças religiosas. Tinham especial divergência quanto ao batismo infantil porque, para eles, a Bíblia era clara ao indicar que apenas um adulto tinha o poder de escolher ser batizado, sendo a tradição do batismo infantil uma invenção da Igreja que não alcançava nada. Segundo eles, os cristãos não se comportavam de acordo com o modelo de Cristo ou dos seus discípulos, e a versão reformada do Cristianismo não era melhor do que a antiga fé que tinha sido rejeitada.
Em janeiro de 1525, Blaurock, Grebel, Manz, Wilhelm Reublin (1484 –1559) e outros batizaram-se uns aos outros na sua nova fé e, segundo a obra Von der Herkunft der Täufer (Origem dos Anabatistas), de Blaurock, Hubmaier juntou-se a eles posteriormente, tendo sido batizado por Reublin. Por esta altura, já tinha casado com Elizabeth (1524), abraçado a visão reformada do Cristianismo e abandonado essa mesma visão em prol do Anabatismo. Não é de estranhar que o pacifismo dos anabatistas o tenha atraído, uma vez que a sua obra Sobre os Hereges e Aqueles que os Queimam lê-se como um tratado anabatista sobre a não-violência. Os anabatistas adotaram rapidamente o pacifismo como um princípio central da sua fé, em conformidade com o mandamento bíblico "Não matarás", e à medida que o movimento se desenvolveu, isto tornar-se-ia uma característica definidora da sua fé.
Não é claro se houve um único evento que inspirou a conversão de Hubmaier ao movimento anabatista, mas parece ter sido encorajada pela sua disputa de 1523 com Zuínglio, durante a qual ele – tal como Grebel e os outros – reconheceu que a visão reformada de Zuínglio, que ele alegava basear-se inteiramente nas escrituras, apoiava princípios não bíblicos, incluindo o batismo infantil e o uso de violência tanto na conversão como na supressão da heresia. O académico Brad S. Gregory observa como os anabatistas rejeitaram os sistemas de crenças cristãs existentes porque, como viam as coisas, nem católicos nem protestantes aderiam ao modelo de Cristo e do Cristianismo primitivo:
Os verdadeiros cristãos sempre foram perseguidos, não perseguidores [como escreve o autor anabatista Hans de Ries] "não há indicação mais segura da falsa Igreja que luta contra Cristo do que o assassínio de hereges, ou melhor, de alegados hereges, porque por mais terrível que seja a heresia, esta é a mais terrível de todas."
(pág. 319)
A obra de Hubmaier, Sobre os Hereges e Aqueles que os Queimam, antecede a obra de de Ries, Martelaers Spiegel (Espelho dos Mártires) (1631-1632), em mais de 100 anos e, durante todo esse tempo, teve tão pouco efeito em impedir execuções religiosas como quando foi publicada em 1524. Não há provas de que a obra de Hubmaier tenha tido qualquer efeito na perseguição católica aos protestantes, nos ataques protestantes aos católicos, ou em protestantes a matar outros protestantes devido a disputas doutrinárias em qualquer altura. Ainda assim, é possível que ele tivesse a esperança de que as pessoas prestassem mais atenção à sua mensagem e poupassem a ele e aos seus companheiros "Irmãos Suíços". Contudo, a sua insistência e prática do batismo de adultos, o pacifismo e a recusa em pagar dízimos levaram à sua condenação tanto por católicos como por protestantes, que os rotularam depreciativamente de anabatistas (rebatizadores) e começaram a persegui-los em Zurique, com o incentivo de Zuínglio, a partir de 1526.
O texto Sobre os Hereges e Aqueles que os Queimam consiste em 36 pontos concisos com citações bíblicas como suporte. Tal como em todas as obras de Hubmaier, termina com o seu lema pessoal, "A Verdade é Imortal", e ele parece ter considerado o seu argumento como amplamente evidente por si só. Ao expor os seus pontos de forma tão sucinta quanto possível, e fornecendo apoio bíblico para eles, parece ter acreditado que seriam bem recebidos e facilmente implementados. Isso não se verificou, especialmente para os anabatistas, incluindo Hubmaier e a sua esposa.
Hubmaier atribui ao mau exemplo dado pelo clero católico o incentivo àquilo que, posteriormente, condenavam como "heresia", e concentra-se na parábola de Cristo sobre o trigo e o joio para defender a tolerância e a contenção. Hubmaier argumenta que só Deus pode julgar alguém e que cabe a Deus, não ao homem, punir justamente pelo pecado. Em vez de executar aqueles com ideias diferentes, diz ele, deve-se tentar convencê-los do seu erro ou simplesmente deixá-los em paz.
A passagem que se segue foi extraída de A Reformation Reader: Primary Texts with Introductions, editada por Denis R. Janz, págs. 202-203, originalmente reimpressa conforme a tradução do inglês de Balthasar Hubmaier: The Leader of the Anabaptists por Henry C. Vedder, AMS Press, 1971:
- Hereges são aqueles que se opõem perversamente às Sagradas Escrituras; o primeiro deles foi o diabo quando disse a Eva: "Certamente não morrereis" (Génesis 3:4), juntamente com os seus seguidores.
- Também são hereges aqueles que cobrem as Escrituras com um véu e as interpretam de outra forma que não a que o Espírito Santo exige; como aqueles que proclamam em toda a parte uma concubina como um benefício, pastoreando e governando a igreja em Roma, e forçando-nos a acreditar nessa conversa.
- Aqueles que são assim devem ser vencidos com conhecimento sagrado, não com ira, mas com suavidade, ainda que as Sagradas Escrituras contenham ira.
- Mas esta ira das Escrituras é verdadeiramente um fogo espiritual e um zelo de amor, que não arde sem a Palavra de Deus.
- Se não quiserem ser ensinados por provas fortes ou razões evangélicas, então que sejam, e deixai-os enfurecer-se e enlouquecer (Tito 3:2, 3), para que os que são imundos se tornem ainda mais imundos (Apocalipse 22:11).
- A lei que condena os hereges ao fogo edifica tanto Sião em sangue como Jerusalém em perversidade.
- Portanto, serão arrebatados em suspiros, pois os juízos de Deus (a quem compete julgar) ou os convertem ou os endurecem, para que o cego guie o cego e tanto o seduzido como o sedutor vão de mal a pior.
- Esta é a vontade de Cristo, que disse: "Deixai crescer ambos até à ceifa, para que, ao colherdes o joio, não arranqueis também o trigo com ele" (Mateus 13:29). "Porque é necessário que haja também heresias entre vós, para que os aprovados se tornem manifestos entre vós" (I Coríntios 11:19).
- Embora experimentem isso, não são afastados até que Cristo diga aos ceifeiros: "Colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar" (Mateus 13:30).
- Esta palavra não nos ensina a ociosidade, mas a luta; pois devemos contender incessantemente, não com os homens, mas com a sua doutrina ímpia.
- Os bispos vigilantes são a causa das heresias. "Dormindo os homens, veio o inimigo" (Mateus 13:25).
- Novamente: "Bem-aventurado o homem que vigia à porta da câmara do noivo" (Provérbios 8:34) e não dorme nem "se assenta na roda dos escarnecedores" (Salmos 1:1).
- Daqui segue-se que os Inquisidores são os maiores hereges de todos, uma vez que, contra a doutrina e o exemplo de Cristo, condenam os hereges ao fogo e, antes do tempo da colheita, arrancam o trigo com o joio.
- Pois Cristo não veio para assassinar, destruir e queimar, mas para que aqueles que vivem possam viver mais abundantemente (João 10:10).
- Devemos orar e esperar pelo arrependimento, enquanto o homem viver nesta miséria.
- Um turco ou um herege não é convencido pelo nosso ato, quer com a espada quer com o fogo, mas apenas com paciência e oração; e assim devemos aguardar com paciência o juízo de Deus.
- Se fizermos de outra forma, Deus tratará a nossa espada como restolho e o fogo ardente como zombaria (Jó 41:29).
- Tão impura e afastada da doutrina evangélica está toda a ordem dos frades pregadores, da qual, até agora, têm vindo unicamente os inquisidores.
- Se estes soubessem de que espírito devem ser, não perverteriam tão descaradamente a Palavra de Deus, nem gritariam tantas vezes: "Ao fogo, ao fogo!" (Lucas 9:54-56).
- Não é desculpa (como eles tagarelam) dizerem que entregam os ímpios ao poder secular, pois aquele que assim entrega, peca mais profundamente (João 19:11).
- Pois cada cristão tem uma espada contra os ímpios, que é a Palavra de Deus (Efésios 6:17), mas não uma espada contra os malignos.
- O poder secular coloca, justa e corretamente, à morte os criminosos que ferem os corpos dos indefesos (Romanos 13:3, 4). Mas aquele que é de Deus não pode ferir ninguém, a menos que primeiro abandone o evangelho.
- Cristo demonstrou-nos isto claramente, dizendo: "Não temais os que matam o corpo" (Mateus 10:28).
- O poder secular julga os criminosos, mas não os ímpios, que não podem ferir nem o corpo nem a alma, sendo antes um benefício; portanto, Deus pode, na Sua sabedoria, extrair o bem do mal.
- A fé, que flui da fonte do evangelho, vive apenas em contendas, e quanto mais rudes estas se tornam, tanto maior se torna a fé.
- O facto de nem todos terem sido ensinados na verdade do evangelho deve-se aos bispos, não menos do que ao povo comum – estes porque não se preocuparam em procurar um pastor melhor, aqueles porque não desempenharam o seu cargo adequadamente.
- Se o cego guiar o cego, segundo o justo juízo de Deus, ambos cairão juntos na cova (Mateus 15:14).
- Portanto, queimar hereges é, na aparência, professar Cristo (Tito 1:10, 11), mas, na realidade, negá-Lo e ser mais monstruoso do que Jeoiaquim, o Rei de Judá (Jeremias 36:23).
- Se é blasfémia destruir um herege, quanto mais o será reduzir a cinzas um arauto fiel da Palavra de Deus, sem condenação, não levado a tribunal pela verdade.
- O maior engano dos povos é um zelo por Deus que é gasto sem base bíblica: a salvação da alma, a honra da igreja, o amor pela verdade, a boa intenção, o uso do costume, os decretos episcopais, o ensino da razão que advém da luz natural. Pois são setas mortais quando não são guiadas e dirigidas pelas Escrituras.
- Não devemos presumir, levados pelo engano do nosso próprio propósito, fazer melhor ou de forma mais segura do que aquilo que Deus falou pela Sua própria boca.
- Aqueles que confiam na sua boa intenção e pensam fazer melhor são como Uzá e Pedro. Este último foi chamado Satanás por Cristo (Mateus 16:23), mas o primeiro teve um fim miserável (I Crónicas 13:10).
- Elnatã, Delaías e Gemarias agiram sabiamente ao resistir a Jeoiaquim, Rei de Judá, quando este lançou o livro de Jeová ao fogo (Jeremias 36:25).
- Mas, no facto de que, depois de um livro ter sido queimado, Baruque, por direção expressa de Jeremias, escreveu outro muito melhor (Jeremias 36:27-32), vemos o justo castigo de Deus sobre a queima injusta. Pois assim será que sobre aqueles que temem a geada, cai uma neve fria (Jó 6:16).
- Mas não consideramos que tenha sido anticristão queimar os seus numerosos livros de encantamentos, como mostra o facto nos Atos dos Apóstolos (Atos 19:19). É uma pequena coisa queimar papel inocente, mas apontar um erro e refutá-lo pelas Escrituras, isso é arte.
- Agora é claro para todos, até para os cegos, que uma lei para queimar hereges é uma invenção do diabo. A Verdade é Imortal.
Conclusão
Infelizmente, a afirmação de Hubmaier não era clara para todos. Em dezembro de 1525, Zuínglio mandou prender Hubmaier como herege por pregar contra o batismo infantil e defender a visão anabatista do Cristianismo. Hubmaier foi torturado até se retratar e foi libertado, retractando-se posteriormente da sua retratação e mudando-se com a sua esposa para a Morávia em 1526.
A perseguição de Zuínglio aos anabatistas continuou em Zurique ao longo desse ano e entrou pelo seguinte com a execução de Felix Manz em janeiro de 1527; no mesmo dia, George Blaurock foi açoitado e exilado. Mais três anabatistas foram afogados em Zurique antes de os restantes se mudarem para outros lugares, e pensa-se que Conrad Grebel, que tinha deixado a cidade em 1525, tenha morrido de peste apenas porque não existe qualquer registo da sua execução.
Hubmaier estabeleceu-se em Nikolsburg, na Morávia (atual Mikulov, na República Checa), onde fundou uma comunidade anabatista e converteu várias pessoas antes de ser preso, juntamente com Elizabeth, e acusado de heresia. Foi novamente torturado, mas não se retratou, sendo queimado na fogueira a 10 de março de 1528. Três dias mais tarde, Elizabeth Hubmaier foi amarrada, atada a uma pedra e afogada pelas mesmas autoridades cristãs que tinham executado o seu marido e que, claramente, nunca tinham levado a peito a mensagem da sua obra.
