Mulheres no Império Mongol

Mark Cartwright
por , traduzido por Patricia Diniz
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF

As mulheres no Império Mongol (1206-1368 d.C.) compartilhavam as tarefas diárias e as dificuldades da vida nas estepes com os homens e eram, em grande parte, responsáveis por cuidar dos animais, montar acampamentos, criar os filhos, preparar alimentos e cozinhá-los. Tendo mais direitos do que nas culturas contemporâneas a leste e oeste da Mongólia, as mulheres podiam possuir e herdar propriedades, participar de cerimônias religiosas e atuar como xamãs, e as esposas de chefes tribais podiam expressar suas opiniões em reuniões da tribo. Várias mulheres mongóis, viúvas ou mães de Grandes Cãs, até reinaram como regentes no período anterior à eleição de um novo cã como governante do Império Mongol, muitas vezes durante vários anos.

Wife of Yuan Emperor Yingzong
Esposa do imperador Yuan Yinzong Unknown Artist (Public Domain)

Montando o Acampamento

Como os mongóis eram um povo nômade (nómada), todos - homens, mulheres e crianças pequenas - tinham que saber cavalgar bem e usar arco e flecha para caçar. Da mesma forma, homens e mulheres geralmente eram capazes de fazer as tarefas uns dos outros, pois se um morresse, o parceiro sobrevivente tinha que continuar e cuidar da família e de seus rebanhos. As mulheres eram responsáveis por montar e desmontar os acampamentos, colocar as yurts e os pertences da família nas carroças, que geralmente conduziam, e carregar os pertences nos animais de carga, como cavalos e camelos.

Remover Publicidades
Publicidade
Como administradoras experientes do acampamento, as mulheres eram um elemento importante da logística, essencial para a guerra dos mongóis.

Havia áreas separadas para homens e mulheres dentro da yurt; os homens ocupavam o lado oeste e as mulheres, o lado leste, onde se preparava a comida (o que era fácil de identificar, já que a entrada ficava tradicionalmente voltada para o sul). A disposição das yurts dentro do acampamento (ordu) era importante em acampamentos imperiais e nos de maior porte: a esposa principal tinha a tenda mais a oeste, a esposa mais jovem ficava a leste, e as concubinas, as crianças e os servos um pouco mais atrás.

Como administradoras experientes do acampamento, as mulheres eram um elemento importante da logística, essencial para a guerra dos mongóis, com as suas unidades de cavalaria leve. Elas seguiam atrás das forças principais com os comboios de carroças carregadas de suprimentos e com os cavalos, que avançavam bem mais devagar; muitas vezes, uma única mulher conduzia várias carroças ligadas entre si.

Remover Publicidades
Publicidade
Mongolian Yurt
Yurt mongol Princeton University Art Museum (Public Domain)

Tarefas Diárias

As mulheres mongóis cuidavam dos animais, coletavam alimentos e os preparavam, enquanto os homens caçavam. As mulheres faziam queijo, manteiga e secavam a coalhada de leite, além de também cuidar dos rebanhos enquanto os homens caçavam, o que podia durar várias semanas. As mulheres ordenhavam as ovelhas, cabras e vacas, enquanto apenas os homens ordenhavam éguas e produziam as tão populares bebidas alcoólicas. As mulheres participavam do árduo processo de bater o leite em grandes bolsas de couro usando uma pá de madeira, uma tarefa que levava várias horas e que deu origem à bebida levemente alcoólica kumis, ainda consumida hoje. As mulheres também podiam desfrutar do fruto de seus trabalhos, uma vez que beber em excesso, tanto para homens quanto para mulheres, parecia ser uma norma social, sem qualquer estigma (chegando até a conferir certa honra). Elas tampouco eram excluídas dos raros banquetes quando os nômades se reuniam em um mesmo local, como nas reuniões de chefes tribais para eleger um novo líder ou celebrar aniversários importantes, casamentos e outras ocasiões.

Casamento & Família

Uma esposa recebia uma pequena parte dos bens de seu marido, que ela administrava e depois transmitia ao filho mais novo após a morte do pai.

Tradicionalmente, os casamentos mongóis tinham o objetivo de estreitar os laços entre clãs e fortalecer as alianças. De fato, era costume casar-se com alguém de fora do clã (exogamia), e também havia a prática de raptar mulheres de tribos rivais como meio de fortalecer um clã e enfraquecer o outro. A maioria dos casamentos, no entanto, tinha como objetivo reforçar os laços existentes entre grupos familiares.

Remover Publicidades
Publicidade

Os homens pagavam um preço pela noiva ao seu futuro sogro ou ofereciam trabalho como alternativa. Como muitos homens nômades eram relativamente pobres, era comum simplesmente raptar uma esposa durante uma incursão, independentemente de quaisquer benefícios políticos. Em casamentos arranjados mais elegantes, a futura noiva normalmente levava consigo um dote composto por bens de valor como gado, joias, tecidos, servos e possivelmente escravos. O dote poderia ser “pago” ao longo de vários anos e era geralmente menor em valor do que o preço da noiva pago pelo noivo e sua família. O dote permanecia como propriedade da esposa e, após sua morte, era dividido entre os filhos. Na vida sempre prática dos nômades, às vezes arranjava-se um casamento duplo entre dois grupos familiares, cada um oferecendo um noivo e uma noiva; assim evitava-se o pagamento do preço da noiva por qualquer das partes. As esposas recebiam uma pequena parte dos bens de seu marido, que elas administravam e depois transmitiam ao filho mais novo após a morte do pai.

Tolui & Sorghaghtani
Tolui e Sorghaghtani Unknown Artist (Public Domain)

As mulheres cuidavam das crianças e parecem ter desempenhado um papel ativo nas decisões familiares. Fontes como A História Secreta dos Mongóis (The Secret History of the Mongols), do século XIII, mencionam esposas de governantes proferindo discursos para entusiasmar os guerreiros e promover a lealdade a seus maridos. Uma maneira de promover a lealdade era a hospitalidade - entreter a família do marido, aliados e quaisquer visitantes - e isso era responsabilidade da esposa. Se um marido falecesse antes da esposa, ela poderia ser “adotada” por um parente masculino mais jovem da família dele. De acordo com as leis mongóis, as mulheres podiam se divorciar e possuir seus próprios bens, mas não se sabe ao certo com que frequência isso ocorria na prática. Em casos de adultério, tanto o homem quanto a mulher eram executados.

A sociedade mongol era patrilinear, e a poligamia era comum entre os homens que podiam sustentar várias esposas e concubinas. No entanto, uma esposa era sempre designada como a principal, e eram os seus filhos que herdavam os bens e/ou a posição do pai dentro da tribo. Como o filho mais novo geralmente herdava os bens da família, ele e sua esposa normalmente moravam com seus pais. As esposas principais de chefes tribais, quando ficavam viúvas, muitas vezes ainda representavam seu falecido marido em reuniões tribais, como o kurultai, que decidia os futuros governantes.

Remover Publicidades
Publicidade

Vestuário

As mulheres mongóis produziam feltro compactando da lã de ovelha. Elas também produziam materiais a partir de peles de animais e curtiam o couro. Tecidos e roupas eram alguns dos bens importantes de uma família e muitas vezes eram oferecidos como presentes ou como parte do dote de uma noiva. As roupas masculinas e femininas eram muito parecidas, e ambos os sexos vestiam roupas íntimas de seda ou algodão, calças, botas grossas de feltro ou couro e um chapéu cônico feito de feltro e pele de animal, com abas para as orelhas e uma aba voltada para cima na frente.

A peça de vestuário externo mais característica, ainda amplamente usada hoje, era uma túnica curta chamada deel. Essa peça única, semelhante a um casaco longo, era transpassada e fechada no lado esquerdo do peito (com o lado esquerdo sobre o direito), por meio de um botão ou amarração logo abaixo da axila direita. Alguns deels possuíam bolsos, e as mangas normalmente iam apenas até o cotovelo. O revestimento externo da túnica era de algodão ou seda, e as versões mais pesadas tinham um forro adicional de pele ou feltro, ou ainda um enchimento acolchoado. O forro interno era normalmente virado um pouco para fora, nas mangas e na barra. Para aqueles que podiam se dar ao luxo, a túnica podia ter acabamento de pele exótica na gola e nas bordas. Era usado um cinto largo de couro decorado com detalhes em metal, sendo as versões femininas as mais trabalhadas. No inverno, um casaco pesado de pele ou feltro era usado sobre o deel.

Mongol Clothing of the Imperial Court
Vestuário da corte imperial mongol smartneddy (CC BY-SA)

Os homens e as mulheres da elite destacavam-se por ostentar penas de pavão em seus chapéus. Uma das poucas formas de distinção entre mulheres e homens — e isso apenas entre as mulheres de elite — era o elaborado adorno de cabeça boqta, decorado com pérolas e penas. Ainda hoje é possível ver esses adornos quando, por exemplo, as mulheres cazaques participam de festividades tradicionais. Tanto homens quanto mulheres usavam brincos, mas as mulheres também usavam enfeites de metal, pérolas e penas nos cabelos.

Remover Publicidades
Publicidade

Religião

A religião praticada pelos mongóis incluía elementos do xamanismo, e os xamãs podiam ser homens (bo'e) ou mulheres (iduqan). As túnicas usadas pelos xamãs frequentemente exibiam símbolos, como um tambor e um cavalo estilizado, que representavam o espírito guardião e protetor do povo mongol. Acreditava-se que os xamãs eram capazes de interpretar sinais, como as fissuras nas escápulas de ovelhas, o que lhes permitia prever o futuro. Outra habilidade dos xamãs era a capacidade de alterar o clima, especialmente trazendo chuva para a estepe, frequentemente árida. Os xamãs podiam ajudar com problemas médicos e devolver um espírito perturbado de volta ao seu corpo de origem. As mulheres participavam de outras religiões praticadas dentro do Império Mongol, como o Taoísmo, o Budismo tibetano, e o Islamismo, chegando por vezes a conduzir cerimônias religiosas. As mulheres da elite imperial também podiam ser generosas apoiadoras de certas religiões e de suas instituições.

Mulheres Mongóis Famosas

Alan Goa

Alan Goa (também conhecida como Alan-qo'a) foi a mãe mítica dos povos mongóis que teria ensinado a seus cinco filhos que, para prosperar, eles deveriam sempre permanecer juntos e apoiar uns aos outros. Para reforçar essa ideia, ela lhes deu uma lição sobre união conhecida como 'A Parábola das Flechas'. Alan Goa deu uma flecha a cada filho e pediu que a quebrassem, o que todos fizeram com bastante facilidade. Ela então lhes deu um feixe de cinco flechas e nenhum filho conseguiu quebrá-lo. Infelizmente, os descendentes de Gêngis Khan (reinou de 1206 a 1227) não se lembraram dessa história quando dividiram o Império Mongol em vários canatos independentes.

Hoelun

Hoelun (também conhecida como Hoelun-Eke ou Hoelun-Ujin), mãe de Gêngis Khan, fugiu com o filho para as estepes após seu marido, o chefe tribal Yisugei, ser envenenado por um rival. Gêngis, então chamado Temujin, tinha apenas nove ou doze anos na época e, por isso, não conseguia manter a lealdade dos seguidores de seu pai. Como consequência, ele e sua mãe foram abandonados na estepe asiática, à própria sorte, praticamente condenados à morte. No entanto, a família, agora marginalizada, conseguiu sobreviver como pôde, vivendo do que a terra oferecia. A História Secreta dos Mongóis retrata Hoelun como uma mulher forte, capaz de reunir seus filhos e construir uma nova vida para todos, sendo que seu filho, como se sabe, viria a criar um dos maiores impérios da história.

Remover Publicidades
Publicidade

Toregene

Toregene Khatun (também conhecida como Doregene-Qatun, que reinou de 1241 a 1246), ex-esposa do príncipe merquita Qudu, governou como regente após a morte de seu marido, Ogedei Khan em 1241. Ela manteve o poder até que, em 1246, um grande conselho de líderes mongóis elegesse o sucessor de Ogedei e filho de Toregene, Guyuk Khan. O reinado de Toregene não é visto favoravelmente por fontes contemporâneas; no entanto, essas fontes são chinesas e, portanto, foram escritas, em última análise, por inimigos ou por súditos conquistados pelos mongóis.

Coin of the Mongol Regent Toregene
Moeda da regente mongol Toregene Nyamaa (Public Domain)

Embora lhe sejam atribuídas grande inteligência, perspicácia e notáveis habilidades políticas, críticas específicas recaem sobre sua política de tributação onerosa, que incluía a privatização da arrecadação de impostos, segundo a qual os cobradores podiam ficar com tudo o que excedesse um valor previamente estabelecido para o território sob sua supervisão. As receitas aumentaram, mas à custa da corrupção e da sobrecarga dos agricultores. Outras críticas incluíam sua (suposta) disposição de dar ouvidos em demasia aos conselheiros muçulmanos próximos a ela (especialmente uma escrava persa chamada Fátima), bem como suas manobras para eliminar qualquer obstáculo à ascensão de seu filho como o próximo cã, incluindo o adiamento desnecessário da eleição do novo cã. Toregene também fomentou laços diplomáticos com vários príncipes e distribuiu presentes generosos para aumentar a base de apoio ao filho, o que foi possível graças às suas táticas protelatórias e políticas tributárias. É provável que tenha morrido feliz, em 1246, pouco depois de seu filho Guyuk finalmente tornar-se Grande Cã (reinou de 1246 a 1248).

Sorghaghtani

Sorghaghtani Beki (também conhecida como Sorqoqtani, falecida em 1252) foi uma princesa queraita que ganhou destaque como viúva de Tolui (cerca de 1190 – cerca de 1232) e como irmã de Begtutmish Fujin, viúva de Jochi, filho de Gêngis Khan. Tolui era o filho mais novo de Gêngis Khan e pai de Mongke Khan (reinou de 1251 a 1259) e Kublai Khan (reinou de 1260 a 1294), mas morreu por volta dos 40 anos; seus territórios no norte da China e posição na hierarquia tribal foram mantidos por Sorghaghtani. A princesa pode ter alertado Batu Khan, líder do que viria a ser a Horda de Ouro e o canato ocidental do Império Mongol, sobre os planos de Guyuk Khan, então Grande Cã, para atacar Batu. No entanto, Guyuk morreu antes que tal campanha pudesse começar, mas Batu pode ter demonstrado sua gratidão ao apoiar o filho de Sorghaghtani, Mongke, que foi eleito sucessor de Guyuk.

Remover Publicidades
Publicidade

Oghul Qaimish

Oghul Qaimish (também conhecida como Oqol-Qaimish, que reinou de 1248 a 1251) era esposa de Guyuk Khan e, após sua morte por envenenamento em 1248, assumiu a regência. Infamemente, Oghul recusou, em 1250, uma embaixada do rei Luís IX da França (reinou de 1226 a 1270), dizendo ao seu emissário, o frei André de Longjumeau, que um grande tributo seria exigido caso sua nação quisesse evitar a destruição por um exército mongol. O reinado de Oghul pouco teve de marcante, e ela permaneceu em grande parte nos bastidores da política. A única medida notável de seu reinado foi o aumento dos impostos sobre os camponeses, elevando a tradicional cobrança de um animal a cada cem para a irreal exigência de um a cada dez.

Oghul permaneceria no poder até 1251, quando Mongke Khan foi eleito governante. Oghul acabou sendo feita prisioneira, com as mãos atadas com tiras de couro, e depois levada a julgamento popular por Mongke em dezembro de 1252, enquanto ele eliminava todas as áreas do Estado que considerava leais ao regime anterior, em especial o clã Ogedei. Em seu julgamento, Oghul foi despojada de suas roupas e acusada de se envolver excessivamente com o xamanismo, em detrimento do bem do Estado e, pior ainda, de traição. Considerada culpada, Oghul foi lançada no rio Querulém envolta em um saco de feltro — um destino geralmente reservado às bruxas segundo a justiça mongol, pois acreditava-se que o mal não podia atravessar águas correntes e talvez até fosse purificado por elas.

Remover Publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Patricia Diniz
Tradutora formada em Letras, com foco em cultura, história e estudos literários. Possui interesse em narrativas históricas, análise cultural e pesquisa interdisciplinar em Humanidades.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, abril 18). Mulheres no Império Mongol. (P. Diniz, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1466/mulheres-no-imperio-mongol/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Mulheres no Império Mongol." Traduzido por Patricia Diniz. World History Encyclopedia, abril 18, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1466/mulheres-no-imperio-mongol/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Mulheres no Império Mongol." Traduzido por Patricia Diniz. World History Encyclopedia, 18 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1466/mulheres-no-imperio-mongol/.

Remover Publicidades