Afirma-se que o maior inimigo de Roma era a própria Roma — algo muito verdadeiro durante o período denominado por Crise do Século III (também designada por Crise Imperial, 235-284). Ao longo deste quase meio século, o trono foi ocupado por mais de vinte imperadores em sucessão vertiginosa; um dado que se torna ainda mais desconcertante quando contrastado com os vinte e seis monarcas que governaram nos dois séculos e meio anteriores (27 a.C. a 235 d.C.). Estes governantes — epitetados de 'imperadores de quartel' por deverem a sua ascensão ao exército e dele serem oriundos — eram, regra geral, movidos pela ambição pessoal, preterindo os interesses do Estado em favor das suas próprias aspirações.
Embora alguns deles se tenham mostrado dignos de governar, não conseguiram escapar do clima da época, que recompensava os resultados diretos e discerníveis por parte da liderança, mesmo que os resultados nem sempre fossem do interesse do povo. A crise do século III começou quando o imperador romano Alexandre Severo (222-235) decidiu pagar às tribos germânicas pela paz, em vez de enfrentá-las em batalha, e as suas tropas, considerando tal atitude desonrosa, mataram-no. Tal acção contra um imperador em exercício teria sido considerada impensável no passado, mas tornou-se tão comum durante este período que elevar um homem à posição de imperador era quase uma sentença de morte.
Após a morte de Alexandre Severo, instituiu-se um novo paradigma de governação que viria a definir todo o período: a de imperadores cuja sobrevivência política dependia estritamente da benevolência das forças armadas em geral e, muito particularmente, do favor dos seus próprios comandos. Os imperadores deixaram de poder governar de acordo com a sua visão da melhor versão de Roma; a sua ação política passou a estar condicionada pela necessidade de assegurar a popularidade junto das legiões.
Neste mesmo período, ao mesmo tempo que Roma se via privada de uma liderança vigorosa e era fustigada por epidemias, pela inflação e por graves convulsões internas, as ameaças externas irromperam sob a forma das denominadas 'tribos bárbaras' e de outras potências que ambicionavam, ora o derrube de Roma, ora a mera secessão face ao caos e à anarquia que haviam passado a caracterizar o Império. Os principais inimigos de Roma durante este período foram:
- Rei Cniva dos Godos (e mais tarde Rei Canabaudes, considerado por alguns estudiosos como o mesmo homem, cerca de 251-270?)
- Rei Sapor I (240-270) dos persas sassânidas, bem como seu filho, Hormisda I (270 a cerca de 273)
- Póstumo do Império das Gálias (260-269) e aqueles que governaram depois dele (Mário, Victorino, Domiciano e Tétrico I), mais notavelmente Tétrico I (271-274)
- Zenóbia do Império de Palmira (267-272) e seu general egípcio Zabdas (cerca de 267 a cerca de 273)
Todos estes governantes desempenharam um papel fulcral na crise que assolou Roma durante o século III. Cniva tornou-se o primeiro monarca bárbaro a abater um imperador em exercício no campo de batalha; Sapor I foi o primeiro a capturar um soberano romano; Póstumo, um governador romano, entendeu que a sua governação seria mais eficaz ao fundar o seu próprio império, estratégia que seria replicada pela rainha Zenóbia de Palmira.
Entre 235 e a ascensão de Aureliano em 270, eram poucos os líderes romanos com envergadura para enfrentar tais ameaças. Consumidos por guerras fratricidas e acossados por desafios prementes, a maioria dos imperadores do século III falhou perante o Estado e as populações que lhes cabia proteger. Muitos dos problemas então enfrentados não eram inéditos; o que era novidade, era a manifesta incapacidade imperial em solucionar qualquer um deles. A vasta extensão territorial do Império, que tornara obsoleto o vetusto modelo de governação centralizada num único monarca, aliada à incapacidade de conceber um sistema mais eficaz e pragmático, mergulhou Roma num estado de debilidade. Neste cenário, qualquer figura que prometesse resultados imediatos era elevada ao poder, à custa da vida e do legado do seu predecessor.
Dada as sucessivas falhas imperiais — a par dos graves problemas na burocracia e no aparelho governativo romano — adversários como Cniva e Sapor I, bem como antigos aliados como Póstumo e Zenóbia, lograram obter vantagens consideráveis. No caso destes dois últimos, a conjuntura permitiu-lhes mesmo a audácia de fundarem os seus próprios impérios.
Cniva
Cniva (também conhecido como Kniva) foi o monarca dos godos que infligiu uma derrota memorável ao imperador Décio na Batalha de Abrito, no ano de 251. O historiador Michael Grant salienta que “em Cniva, os godos possuíam um líder de uma envergadura sem precedentes, cuja estratégia em larga escala gerou as ameaças mais graves que o Império alguma vez enfrentara” (pág. 31). É possível que Cniva tenha aprendido as suas táticas servindo nas fileiras do exército romano ou que tenha sido, simplesmente, um observador perspicaz do seu adversário. Pouco se conhece a seu respeito além da campanha de 251, durante a qual sitiou a cidade romana de Nicópolis e conquistou Filipópolis, resultando no massacre de mais de 100.000 cidadãos romanos e na escravização dos sobreviventes.
O imperador Décio foi inicialmente repelido do campo de batalha por Cniva; contudo, quando logrou reagrupar-se para um novo embate, o monarca godo detinha já todas as vantagens estratégicas. Cniva, profundo conhecedor do terreno, posicionou as suas tropas de forma eficaz, atraindo as legiões de Décio para os terrenos pantanosos; onde as formações romanas perderam toda a sua eficácia tática, permitindo que Cniva aniquilasse o grosso das forças imperiais, incluindo o próprio imperador e o seu filho. Após nada restou aos romanos senão permitir que Cniva prosseguisse o seu caminho, levando consigo um rasto de prisioneiros e todos os tesouros de Filipópolis.
Após o desfecho da Batalha de Abrito, Cniva desaparece dos registos históricos, embora seja frequentemente associado ao posterior monarca godo Canabaudes (ou Canabas, por volta do ano de 270), morto em combate, juntamente com cinco mil das suas tropas, num confronto com o imperador Aureliano (270-275) por volta de 270. Não é de todo inverosímil que o mesmo líder tenha comandado os godos tanto em 251 como em 270. Recorde-se que a Batalha de Naissus (268 ou 269 ) opôs o imperador Cláudio II a uma formidável força gótica liderada por um rei anónimo, figura que poderá muito bem ter sido Cniva.
Caso Cniva e Canabaudes fossem, de facto, a mesma figura, a sua acuidade estratégica e perícia bélica não terão sido transmitidas à geração vindoura. A identificação de Cniva com Canabaudes ganha plausibilidade pelo facto de, segundo os relatos, o monarca godo ter sucumbido juntamente com cinco mil dos seus homens; com eles os segredos do sucesso militar. Após os triunfos de Cniva, escasseiam os registos de godos que tenham tentando expugnar cidades romanas, fosse por cerco ou por qualquer outro método. O líder godo subsequente, Fritigerno (cerca de 380), preferiu as táticas de guerrilha, evitando deliberadamente confrontos a núcleos urbanos.
Sapor I e Hormisda I
No Oriente, todavia, emergia outro soberano que não tinha tais limitações: Sapor I, filho de Artaxes I (224-242), o fundador da Dinastia Sassânida. Artaxes elevou Sapor à dignidade de corregente, instruindo-o meticulosamente na arte da guerra persa. Embora Sapor I se tenha revelado um administrador proficiente e um governante de exceção, cujo reinado colhe elogios na generalidade das fontes, com a natural exclusão das crónicas romanas, este via-se, primordialmente, como um rei-guerreiro, empenhando-se em personificar esse ideal.
Sapor I deu continuidade à política expansionista do pai face a Roma, logrando expugnar diversas praças-fortes e cidades romanas na Mesopotâmia logo nos primórdios do seu reinado. No campo de batalha, confrontou o imperador Gordiano III, que contava apenas dezassete anos e dependia estritamente do aconselhamento e do génio estratégico do seu sogro e prefeito do pretório, Caio Timesiteu. Inicialmente, Sapor I foi repelido pelas legiões romanas; todavia, a morte prematura de Timesiteu, vítima de peste, inverteu o rumo dos acontecimentos. Destituído de experiência militar e de acuidade para contrariar os estratagemas de Sapor, Gordiano III viu-se incapaz de corresponder às expectativas das suas tropas. Em consequência, o jovem imperador foi assassinado pelos seus próprios soldados, sendo sucedido por Filipe, o Árabe.
Filipe apressou-se a celebrar a paz com Sapor I, pagando-lhe 500.000 denários como parte integrante do tratado. Sob os termos do acordo, Filipe cedeu o disputado território da Arménia a Sapor I, que designou o seu filho, Hormisda I (que combatera ao seu lado contra os romanos), para o governar. Hormisda I revelou-se um vice-rei exímio, mantendo as políticas de liberdade religiosa preconizadas pelo seu pai e estabelecendo um reinado de paz e prosperidade. Administrador proficiente, bem como guerreiro corajoso e dotado, Hormisda I granjeou um respeito generalizado pelas suas iniciativas durante o breve período em que governou a Arménia. Contudo, pouco tempo depois, Filipe repudiou o tratado e reclamou a região; esta acção quebrou, com certeza, a paz estabelecida, mergulhando novamente o território no caos da guerra.
Sapor I devastou a Mesopotâmia e conquistou a província romana da Síria, tomando a cidade de Antioquia. Hormisda I acompanhou o pai na campanha e ocupou importantes cargos de comando e administração. O imperador Valeriano marchou contra Sapor I e Hormisda I e expulsou-os da cidade, mas durante a perseguição, a peste atingiu o exército romano, e tiveram que se retirar de volta para Antioquia.
Sapor I e Hormisda I sitiaram a cidade, e Valeriano não teve outra hipótese a a não ser negociar os termos da rendição. Ele e os seus oficiais superiores saíram para se encontrar com os líderes persas para discutir a rendição da cidade, mas foram feitos prisioneiros, e a cidade caiu nas mãos das forças sassânidas. Segundo a lenda, Sapor I usou Valeriano como escabelo para montar o seu cavalo e, quando o imperador morreu, mandou encher o seu corpo com palha e expô-lo.
Até então, os instintos, a habilidade e a simples sorte de Sapor I tinham-no perto de alcançar a sua ambição de conquistar todas as províncias romanas orientais, mas, neste momento, cometeu um grave erro. Odenato, governador romano da cidade síria de Palmira, escreveu a Sapor I uma oferta de aliança, que Sapor I rejeitou nos termos mais claros possíveis. No caos que caracterizou o século III em Roma, Odenato provavelmente esperava alguma aparência de ordem para a região natal, e Sapor I parecia uma escolha melhor do que qualquer um dos imperadores romanos. Sapor I rejeitou a oferta, afirmando que Odenato estava longe de ser seu igual e deveria, antes, ambicionar tornar-se seu vassalo. Odenato, insultado e enfurecido, mobilizou uma força militar e expulsou Sapor I do território romano.
A vitória de Sapor I sobre Valeriano foi uma das últimas. Odenato derrotou os persas sassânidas em todos os confrontos. A este respeito, o estudioso Philip Matyszak observa como Sapor I "descobriu que um exército romano bem liderado ainda era a melhor força de combate do mundo" (pág. 239). Após as campanhas de Odenato, Sapor I perdeu tudo o que tinha ganho e recuou para as suas próprias fronteiras. O resto do seu reinado concentrou-se principalmente em questões internas, mantendo uma paz cautelosa com Roma. Aquando do seu falecimento, sucedeu-lhe Hormisda I, que deu continuidade às suas políticas, o que resultou numa espécie de 'guerra fria' entre os Sassânidas e Roma. Hormisda I absteve-se de gestos de hostilidade aberta face ao Império Romano, mas, inversamente, não emitiu qualquer sinal que augurasse o estabelecimento de relações cordiais entre as duas potências.
Odenato, tendo repelido a ameaça persa, foi recompensado pelo imperador Galieno com maior poder e autoridade como governador de todas as províncias orientais de Roma. Foi morto durante uma caçada em 267/268, e a sua mulher, a rainha Zenóbia, assumiu como regente em nome do seu filho Vaballato. Contudo, ficaria claro que Zenóbia tinha planos mais ambiciosos do que simplesmente ocupar o lugar de outra pessoa.
Zenóbia e Póstumo
Zenóbia herdou o território de Odenato, bem como o seu exército e o brilhante general egípcio Zabdas. Embora cuidadosa para não antagonizar o imperador romano Galieno, ou mostrar-se oficialmente de qualquer outra forma que não fosse como uma regente romana aceitável, expandiu o território e entrou em negociações sem o consentimento de Roma. Em todos os aspetos, exceção feita ao título oficial, ela governou como imperatriz absoluta sobre as províncias orientais que, outrora, haviam integrado o Império Romano.
Uma das ações mais impressionantes foi contra o Egito romano. O Egito era o celeiro de Roma, fornecendo cereais ao império, e estava entre as províncias mais valiosas. Zenóbia enviou Zabdas ao Egito para reprimir uma revolta — que ela provavelmente instigou para ter um motivo justo — e então anexou o país. Oficialmente, ela poderia alegar que tal era do interesse de Roma e que estava apenas a manter a paz, mas agiu sem consultar o imperador, e a anexação do Egito certamente elevou a sua reputação às custas de Roma.
Zenóbia procedeu à cunhagem de moeda própria, arrogando-se, a si e ao seu filho, títulos imperiais estritamente reservados ao soberano de Roma e à sua linhagem, ao mesmo tempo que encetava negociações diplomáticas com os Persas Sassânidas. Todas estas iniciativas consolidaram a sua posição como monarca de um reino soberano; todavia, caso Roma apresentasse contestação, Zenóbia possuía a subtileza necessária para justificar cada um destes actos como tendo sido praticado em prol dos interesses do Império.
Ao mesmo tempo em que Zenóbia consolidava o seu poder no leste, outro ex-amigo de Roma e governador provincial em exercício fazia o mesmo no oeste. Póstumo era o governador romano da Germânia Superior e Inferior sob o governo conjunto de Galieno e Valeriano. Póstumo já tinha defendido as províncias do oeste das incursões bárbaras e sentia que precisava de mais poder e autoridade para desempenhar as suas funções com mais eficiência. Valeriano lutava no leste, e Galieno estava ocupado com as suas próprias campanhas no oeste e no norte. Frustrado pela incapacidade de fazer o que considerava que deveria, Póstumo marchou sobre a cidade romana de Colónia, para onde o filho e herdeiro de Galieno tinha sido enviado para sua própria segurança, e matou-o, bem como ao seu guarda-costas.
Póstumo declarou-se imperador do seu próprio reino — o Império das Gálias— que compreendia a Germânia, a Gália, a Hispânia e a Britânia. Criou seu próprio senado, mobilizou tropas e iniciou suas próprias negociações, mas insistiu, o tempo todo, que estava agindo em nome do interesse de Roma. Após a captura de Valeriano por Sapor I, Póstumo tornou-se mais audaz; Galieno, por seu turno, interrompeu as suas campanhas para lançar uma ofensiva contra o Império das Gálias, acabando, porém, por ser repelido. Pouco tempo depois, Galieno foi assassinado pelas suas próprias tropas. Sucederam-lhe Cláudio II (o Gótico) e, posteriormente, o seu irmão Quintilo, antes de Aureliano ascender ao poder e assumir o comando do Império
A Restauração de Aureliano e Tétrico I
Aureliano era um soldado, não um político, e não tinha tempo nem paciência para investigar sobre as razões do porquê das acções de Zenóbia ou Póstumo. Assim que derrotou os godos (matando Canabaudes/Cniva), bem como os vândalos, jugunti, alamanni e outros, marchou sobre o Império de Palmira. Na Batalha de Immae (Imas), no ano de 272, mandou a cavalaria entrar em combate e depois fingir uma retirada em debandada, e quando a cavalaria de Palmira os perseguiu, conduziu-os a uma armadilha na qual as suas forças deram meia-volta e atacaram as forças adversárias, matando a maioria delas e dispersando o restante.
Immae foi uma vitória impressionante para Aureliano, mas Zenóbia e Zabdas escaparam e reorganizaram as tropas contra ele. Na Batalha de Emesa, usando a mesma tática que usou em Immae, Aureliano derrotou as forças de Zenóbia, e Zabdas provavelmente foi morto (não é mencionado em nenhum relatório posterior). Zenóbia, depois de tentar escapar novamente, foi capturada e levada para Roma. Aureliano mostrou misericórdia para com Palmira e muitos dos líderes do Império de Palmira, mas quando a cidade se sublevou pela segunda vez, o imperador regressou de imediato, desta feita para a aniquilar, ordenando o massacre dos habitantes.
Após ter pacificado Palmira, Aureliano marchou para ocidente em direção ao Império das Gálias. Póstumo fora já assassinado pelas suas próprias hostes em 269, ao tentar impedi-las de saquear a cidade romana de Mogoncíaco (atual Mainz), que se sublevara contra a sua autoridade. A dignidade imperial passou por diversos sucessores, Mário, Victorino e Domiciano, antes de Tétrico I ser nomeado, por influência da mãe de Victorino.
Póstumo tinha sido um administrador e comandante competente, mas Mário, Victorino e Domiciano eram muito mais fracos e menos eficazes. Mário era ferreiro e possivelmente um soldado de infantaria que foi escolhido pelas tropas em Mogoncíaco, provavelmente porque liderou a oposição à ordem de Póstumo de poupar a cidade. Ele ficou no poder por pouco tempo antes de ser assassinado. Victorino, um tribuno pretoriano, tornou-se então imperador e, embora fosse um líder militar competente, não conseguia controlar o seu desejo por mulheres; foi assassinado após tentar seduzir a mulher de um de seus comandantes. O usurpador Domiciano tomou o poder, mas foi derrubado por Tétrico I, que é considerado o único verdadeiro sucessor de Póstumo devido ao seu caráter pessoal e as suas fortes habilidades militares e administrativas.
Na sequência do assassinato de Póstumo, a Hispânia desligou-se do Império das Gálias e proclamou a sua lealdade a Roma. Simultaneamente, várias tribos germânicas sublevaram-se contra o domínio gálico a partir de Tréveris. Victorino procurou conter estas revoltas com um sucesso relativo, mas não conseguiu restaurar a estabilidade na região. Foi esta a situação instável que Tétrico I herdou ao ascender a imperador. Com o intuito de partilhar o fardo das responsabilidades administrativas e militares, nomeou o seu filho (igualmente chamado Tétrico) como corregente, empenhando-se de imediato na restauração do império. Logrou reprimir as insurreições e estabilizar a Germânia e a Gália; todavia, quaisquer outras iniciativas foram subitamente interrompidas pela notícia de que Aureliano, após ter derrotado Zenóbia, marchava já em direção ao Império das Gálias.
Ao tomar conhecimento de que Aureliano marchava contra si, Tétrico I terá, alegadamente, enviado uma missiva ao imperador, implorando pela sua vida e pela do seu filho, e oferecendo a rendição. Esta tese tem suscitado um intenso debate historiográfico: diversos estudiosos sustentam que tal alegação não passará de uma manobra de propaganda de Aureliano, destinada a descredibilizar Tétrico I ao acusá-lo de trair as suas próprias tropas em proveito próprio. Atendendo a que Tétrico I se revelara um líder competente e gozava de popularidade junto das suas legiões, afigura-se improvável que tivesse negociado um acordo de capitulação antes do embate, mantendo ainda o seu exército operacional no terreno
Independentemente de Tétrico I ter, ou não, celebrado tal pacto com Aureliano, a verdade é que as legiões romanas aniquilaram as forças do Império das Gálias na Batalha de Châlons, em 274, resultando na captura de Tétrico e do seu filho. Ambos foram poupados, tal como outros altos funcionários da administração gálica, clemência que alimentou os rumores de que o imperador teria traído as suas tropas. A Tétrico I foi atribuído um cargo administrativo numa província itálica (o mesmo sucedendo ao seu filho) e, à semelhança de Zenóbia, usufruiu de uma existência provida de conforto até ao fim dos seus dias. Aureliano unificou o Império, mas não sobreviveria tempo suficiente para colher os frutos das suas extraordinárias conquistas.
Aureliano subjugou os godos, bem como diversas outras tribos invasoras, manteve os persas sob contenção, reincorporou os impérios das Gálias e de Palmira ao domínio romano e saneou os abusos da casa da moeda em Roma, estabilizando o sistema monetário. O seu reinado apresentava todos os indícios de uma trajetória ascendente de reforma e restauração, mas foi abruptamente interrompido por aqueles em quem o soberano erroneamente depositara a sua confiança. Em sintonia com o espírito da época, nem mesmo um vulto como Aureliano conseguiu triunfar sobre Roma, e acabou por ser assassinado pelos seus comandantes, que acreditavam que o imperador planeava a sua execução.
O Maior Inimigo de Roma
Não obstante a multiplicidade de adversários que enfrentou ao longo do século III, a maior ameaça à sobrevivência de Roma residia em si mesma. Como observado, os problemas que fustigavam o Império nesta era não eram inéditos — invasões e convulsões internas tinham ocorrido em décadas e até séculos anteriores — a novidade residia, sim, na manifesta incapacidade de Roma em lhes dar resposta. A falta de políticas estruturantes e a impaciência crónica definiram o século III romano, período em que os medos, em detrimento da esperança, ditaram as decisões tomadas.
Este clima atraiu ameaças externas, designadamente dos godos e dos persas sassânidas, entre outros, e encorajou figuras como Zenóbia e Póstumo a fundarem os seus próprios impérios. Anteriormente, tais crises teriam sido debeladas com celeridade e determinação; contudo, no século III, a resposta romana foi ineficiente ou inexistente, situação que perdurou até à ascensão de Aureliano.
Foi desta forma que Roma se tornou no seu maior adversário durante este período. No século III, a corrupção do aparelho estatal, o declínio do paradigma moral e social outrora alicerçado na religião pagã e a pressão migratória nas fronteiras imperiais conduziram a uma governação pautada por soluções imediatistas e populistas. Embora os inimigos externos representassem uma ameaça tangível, as suas vitórias eram, em última análise, meras manifestações da decadência interna daquilo que outrora fora o Império Romano.

