Império Aquemênida

Jan van der Crabben
por Peter Davidson, traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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Mapa do Império Persa Aqueménida, cerca de 500 a.C. (by Simeon Netchev, CC BY-NC-ND)
Mapa do Império Persa Aqueménidas, cerca de 500 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A leste da Cordilheira de Zagros, um planalto elevado estende-se em direção à Índia. Enquanto o Egito se insurgia contra os Hicsos, uma onda de tribos pastoris do norte do Mar Cáspio descia para esta área e atravessava para a Índia. Quando os assírios construíram seu novo império, uma segunda onda já havia coberto toda a extensão entre os Zagros e o Hindu Kush. Algumas tribos se estabeleceram, outras mantiveram seu estilo de vida seminômade (semi-nómada). Esses eram os povos iranianos.

Tribos Nômades

Como todos os povos nômades que não possuíam polícia nem tribunais, um código de honra era fundamental para as tribos iranianas, e suas crenças religiosas diferiam das dos povos agricultores. Enquanto os agricultores do Egito e da Mesopotâmia haviam convertido os deuses da natureza em guardiões da cidade, os iranianos começaram a purificá-los em alguns princípios universais. Zoroastro, que viveu por volta de 1000 a.C., impulsionou esse processo. Para ele, o único deus era o criador, Ahura Mazda, portador de asha (luz, ordem, verdade); a lei ou lógica que estruturava o mundo. Mesmo aqueles que não praticavam o zoroastrismo cresceram moldados por uma cultura que valorizava ideias éticas simples, como dizer a verdade.

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O MULTICULTURALISMO DE CIRO TORNOU A PAZ IMPERIAL DURADOURA E DEFINIU A FORMA COMO OS IMPÉRIOS POSTERIORES PROCURARAM ALCANÇAR UM GOVERNO ESTÁVEL.

Em algumas áreas, uma determinada tribo conseguia reunir sob sua liderança um conjunto de outras tribos. Os Medos eram um desses casos. Eles construíram a capital em Ecbátana ('local de encontro') ao leste da Cordilheira de Zagros, de onde expandiram seu poder. Em 612 a.C., Ciaxares, rei dos Medos, atacou Nínive com os caldeus e depois avançou para o noroeste. Em 585 a.C., os Medos lutavam contra os Lídios no rio Hális quando um eclipse solar assustou ambos os lados, levando-os a fazer as pazes. Pouco depois, Ciaxares morreu, deixando uma espécie de império para seu filho Astíages (585–550 a.C.).

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Uma das regiões cujas tribos pagavam tributo aos Medos era a Pérsia, que ficava a sudeste de Ecbátana, além de Elão. Havia cerca de 10 ou 15 tribos na Pérsia, uma das quais era a dos Pasárgadas. O líder de Pasárgada sempre pertencia ao clã Aquemênida (Aqueménida) e, em 559 a.C., novo líder foi escolhido: Ciro II ('o Grande').

Ciro II

Dizem que Ciro era neto de Astíages por parte de mãe, mas isso não o impediu de querer se libertar do jugo Medo. Em 552 a.C., ele havia formado uma federação de tribos persas e iniciado uma série de levantes. Quando o inevitável confronto com seu avô chegou, em 550 a.C., os Medos se amotinaram e se uniram a Ciro para marchar sobre Ecbátana.

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Ciro assumiu o título de 'Xá da Pérsia' (Rei da Pérsia) e construiu a capital no local de sua vitória, que chamou de Pasárgada, em homenagem à sua tribo. Conquistar os Medos, no entanto, deixou Ciro com um império vago e extenso, composto por inúmeros povos diferentes. Ele enfrentou diversidade cultural, suspeitas e hostilidade declarada. A Lídia e a Babilônia (Babilónia) Caldeia tinham acordos com os Medos; nenhuma das duas se sentia confortável com a tomada de poder persa.

Tomb of Cyrus
Tumba de Ciro Sebastià Giralt (CC BY-SA)

A Lídia foi conquistada pois Ciro não jogou conforme as regras. Após batalha inconclusiva perto do rio Hális, no outono, o rei Creso (cerca de 560 – cerca de 546 a.C.) retornou a Sardes, esperando retomar a luta na primavera, como era costume. Mas Ciro o seguiu até sua cidade e capturou a própria Sardes, capital da Lídia, e a mais rica das cidades jônicas. Um século antes, a Lídia havia cunhado as primeiras moedas, tornando a Jônia (Jónia) centro comercial. Agora, tudo isso era de Ciro.

Quanto ao próprio Creso, parece que Ciro poupou a sua vida, novamente contrariando todos os precedentes. Ciro desenvolveu reputação de poupar governantes conquistados para que pudesse pedir seus conselhos sobre a melhor maneira de governar suas terras. É difícil saber o quanto dessa reputação era justificada, mas antes de Ciro ninguém a teria desejado de qualquer maneira; teria sido sinal de fraqueza.

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Império de Muitas Nações

Ciro, por outro lado, via a cooperação como força, particularmente quando se tratava de garantir o prêmio principal: Babilônia. Em vez de tentar tomar a maior cidade do mundo à força, Ciro conduziu campanha de propaganda para explorar a impopularidade de seu rei, Nabonido. A mensagem era que as tradições da Babilônia estariam mais seguras com Ciro. Os portões foram abertos e ramos de palmeira foram colocados diante dele quando entrou na cidade.

Uma vez na Babilônia, Ciro realizou as cerimônias religiosas que Nabonido havia negligenciado e devolveu os ícones confiscados aos seus templos em todo o país. Esses atos permitiram que Ciro reivindicasse o governo legítimo da Babilônia; um governo sancionado pelos deuses babilônicos. Ele então explicou qual seria o lugar disso em seu império; o seu seria um império baseado, na verdade, em uma espécie de contrato entre ele e os vários povos sob seus cuidados. Eles pagariam seus tributos, e ele garantiria que todos fossem livres para adorar seus próprios deuses e viver de acordo com seus costumes.

Empire of Cyrus the Great
Império de Ciro, o Grande SG (CC BY-SA)

Os judeus exilados foram autorizados a voltar para casa e receberam dinheiro para a construção de um novo templo em Jerusalém. Isso rendeu a Ciro menção elogiosa no Antigo Testamento, além de lhe proporcionar um útil estado-tampão contra o Egito. O multiculturalismo de Ciro tornou a paz imperial duradoura ser uma possibilidade real, finalmente, e definiu a maneira como impérios posteriores buscaram alcançar um governo estável. Para Ciro, era óbvio que essa era a única maneira de manter suas conquistas, mas sua visão só poderia ter sido concebida por alguém de fora das civilizações dos vales fluviais, com seus intensos laços com os deuses locais.

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Rei dos Reis

O filho e sucessor de Ciro, Cambises II (529–522 a.C.), anexou o Egito ao Império Persa, mas uma revolta eclodiu na região, liderada, ao que parece, por um sacerdote Medo que se fazia passar por irmão de Cambises, a quem este havia assassinado secretamente. Cambises voltou às pressas, mas morreu no caminho, deixando um de seus generais, parente distante, para assumir o trono. Seu nome era Dário. Dário I ('o Grande') matou o pretendente ao trono, mas levantes começaram a eclodir por toda parte, e ele se viu obrigado a restabelecer as conquistas de Ciro. Apoiado pelo exército e pelos clãs nobres da Pérsia, enriquecidos pelo domínio imperial, Dário reconquistou o Império e o expandiu até o Vale do Indo, prêmio que valia várias vezes mais em tributos do que a Babilônia.

Dário adotou dos assírios grande parte dessa estrutura, simplesmente aplicando-a em escala maior, mas seu uso de tributos era algo novo. Anteriormente, o tributo era essencialmente dinheiro de proteção pago para evitar problemas, mas Dário o tratou como imposto. Ele o usou para construir uma armada e embarcou em programas massivos de gastos públicos, injetando dinheiro em obras de irrigação, exploração mineral, estradas e canal entre o Nilo e o Mar Vermelho.

Ranks of Immortals
Fileira dos Imortais dynamosquito (CC BY-SA)

Ele também estabeleceu moeda comum, o que tornou o trabalho longe de casa muito mais fácil. Dário então reuniu equipes de artesãos de todo o Império para construir, sob a direção de arquitetos persas, a capital imperial em Persépolis. Ali, ele poderia guardar seu ouro e sua prata em cofre gigante (que logo se tornou pequeno demais) e exibir a abrangência multiétnica de seu império. Persépolis tornou-se vitrine para os estilos artísticos de praticamente todas as culturas dentro do império, emoldurados por design persa. Era a visualização da ideia de império de Ciro.

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Mas Dário nunca reconheceu Ciro. Ele parece ter tido ressentimento por não pertencer ao ramo de Ciro do clã Aquemênida. À medida que superava as conquistas de Ciro, ele começou a se portar de maneira cada vez mais exaltada, abandonando o título de Xá pelo mais grandioso Xá-Xá ('Rei dos Reis'). Assim como Persépolis, no entanto, isso decorreu diretamente da visão de Ciro. Ciro havia desempenhado o papel de rei da Babilônia quando entrou na cidade, mas seu conceito de império exigia um governante que estivesse acima de todos os reis ligados aos interesses de qualquer comunidade. Exigia um rei dos reis.

Humilhação e Decadência

O reinado posterior de Dário foi marcado por problemas no Mediterrâneo. Em 499 a.C., houve revolta grega na Jônia. Depois de finalmente reprimi-la, a frota de Dário navegou para punir Atenas por apoiar os rebeldes, apenas para encontrar uma derrota inesperada. Se a máquina administrativa persa não parecesse perigosamente fraca, os gregos teriam que aprender uma lição. Mas quando Dário aumentou os impostos para financiar campanha de rearme, provocou agitação em áreas mais importantes, como o Egito.

Coube ao filho de Dário, Xerxes I (486–465 a.C.), restaurar a ordem no Egito e lidar com a questão grega. Xerxes se portava com ainda mais altivez do que Dário e, com dois grandes construtores de impérios para sucedê-lo, tinha ainda mais a provar. Mas lhe faltava a sensibilidade cultural deles. Quando os aumentos de impostos provocaram tumultos na Babilônia em 482 a.C., Xerxes saqueou a cidade, destruiu o templo e derreteu a estátua de ouro maciço de Marduk, três vezes maior que um homem. Com ela, foi-se a grandeza da Babilônia.

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O ouro de Marduk permitiu que Xerxes começasse a reunir suas forças para esmagar os gregos, em 480 a.C.. Forçado à batalha muito cedo, no entanto, ele sofreu humilhação pior do que seu pai. Depois disso, Xerxes parece ter se retirado em grande parte para o luxo de sua corte e harém. Quando Ciro entrou na Babilônia, ele havia imitado o comportamento de um rei mesopotâmico para consumo público, mas agora a vida privada dos governantes persas assumia a forma mesopotâmica. Enclausurados em opulento isolamento, os últimos aquemênidas encenaram pantomima cada vez mais extravagante de intrigas de harém e assassinatos no palácio.

Achaemenid Silver Drinking Bowl
Taça Aquemênida de Prata Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O império que Ciro e Dário construíram foi forte o suficiente para resistir a essa decadência por 200 anos, mas gradualmente cobrou seu preço. Os sátrapas criaram seus próprios redutos de poder. A inflação começou a afetar o império à medida que os impostos continuavam a subir. Mesmo o multiculturalismo do império, inicialmente sua grande força, tinha suas desvantagens; o enorme exército era mistura confusa de tropas, todas treinadas e equipadas de acordo com suas próprias tradições, todas falando línguas diferentes.

Em 401 a.C., Ciro, o Jovem, sátrapa da Lídia, Frígia e Capadócia, orquestrou golpe contra seu irmão Artaxerxes II (404–358 a.C.) com a ajuda de 10.000 mercenários gregos que retornaram para casa quando o golpe fracassou. As informações que trouxeram abriram caminho para a chegada triunfal de Alexandre, o Grande, em 334 a.C.

A Pérsia havia sido o primeiro império de verdade, um império com estrutura organizacional desenvolvida a partir de ideia realista de como governar diferentes povos subjugados. O Império Aquemênida definiu o papel de imperador e estabeleceu modelo para futuros impérios, do romano ao britânico. Quando Alexandre, o Grande, assumiu o lugar do decadente Império Persa e projetou seu próprio império, ele tinha o exemplo de Ciro em mente.

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Perguntas & Respostas

Pelo que o Império Aquemênida era conhecido?

O Império Aquemênida é famoso por ter efetivamente criado império de muitas nações e culturas, concedendo a cada cultura conquistada um grau razoável de autonomia e autogoverno na forma de províncias semi-independentes chamadas satrapias. O império também é famoso por combater as cidades-estado gregas nas Guerras Greco-Persas e por ter sido finalmente conquistado por Alexandre, o Grande.

Quem derrotou o Império Aquemênida?

Alexandre, o Grande, derrotou o Império Aquemênida, em 330 a.C., após uma série de vitórias decisivas dos macedônios nas batalhas de Issos (333 a.C.) e Gaugamela (331 a.C.). Alexandre foi brevemente Rei dos Reis até sua morte em 323 a.C., quando foi sucedido por Seleuco I Nicátor, fundador do Império Selêucida da Pérsia.

Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Raimundo Raffaelli-Filho
Médico, professor de Clínica Médica (MD, PHD) e apaixonado por História, particularmente pela Antiga e Medieval, especialmente pelo Império Romano.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Davidson, P. (2026, janeiro 19). Império Aquemênida. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-322/imperio-aquemenida/

Estilo Chicago

Davidson, Peter. "Império Aquemênida." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, janeiro 19, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-322/imperio-aquemenida/.

Estilo MLA

Davidson, Peter. "Império Aquemênida." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 19 jan 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-322/imperio-aquemenida/.

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