A Eleição de 1864 foi uma das mais importantes eleições presidenciais dos Estados Unidos do século XIX. Ocorrendo em plena Guerra Civil Americana (1861-1865), a eleição serviu como um referendo sobre a forma como o presidente em exercício Abraham Lincoln e o seu Partido Republicano tinham conduzido a guerra até então. De facto, a eleição podia ser vista como um referendo sobre a própria guerra. Os Democratas pela Paz e os Copperheads queriam terminar a guerra o mais rapidamente possível, mesmo que isso significasse negociar com a Confederação rebelde, enquanto os republicanos e os Democratas de Guerra não aceitavam nada menos do que a vitória total sobre o Sul. No final, Lincoln derrotou rapidamente o candidato democrata George B. McClellan nas urnas, dando-lhe o mandato de que precisava para terminar o combate e vencer a guerra.
O Contexto
A Eleição de 1864 ocorreu num dos momentos mais cruciais da história dos Estados Unidos. Quatro anos antes, a Eleição Presidencial dos EUA de 1860 tinha dividido a nação em duas — a vitória de Abraham Lincoln e do novo Partido Republicano antiescravatura desencadeou uma vaga de secessão, uma vez que onze estados acabariam por abandonar a União para formar os Estados Confederados da América. Após a Batalha de Fort Sumter, o presidente Lincoln convocou 75.000 voluntários para esmagar a rebelião sulista; o que se seguiu foram quatro anos extenuantes de sangue, à medida que americanos matavam americanos em campos que ostentavam os nomes de Manassas, Fredericksburg e Chancellorsville. Inicialmente, Lincoln conduziu a guerra simplesmente para preservar a União; a questão da escravatura, que tinha causado a divisão regional em primeiro lugar, era um assunto que o presidente estava disposto a adiar para mais tarde, desde que conseguisse salvar o país primeiro.
No entanto, no final de 1862, tornou-se evidente para Lincoln e os seus aliados que as questões da escravatura e da União não eram de todo assuntos separados, mas sim profundamente interligados. Em janeiro de 1863, a Proclamação de Emancipação de Lincoln entrou em vigor, libertando as centenas de milhares de pessoas escravizadas que residiam nos estados rebeldes. Nesse mesmo ano, a União obteve várias vitórias importantes, derrotando o indomável Exército da Virgínia do Norte na Batalha de Gettysburg e cortando a Confederação ao meio no Cerco de Vicksburg. Esta era a situação em que a nação se encontrava ao preparar-se para mais uma eleição presidencial em 1864.
Embora a União estivesse a vencer no campo de batalha, dezenas de milhares de nortistas já tinham morrido e muitos mais tinham ficado mutilados. Apesar da Proclamação de Emancipação, a maioria das pessoas escravizadas continuava em cativeiro. Assim, enquanto Lincoln se preparava para procurar a reeleição, viu-se forçado a enfrentar tanto o desgaste da guerra na nação que liderava como a inimizade da fação radical do seu próprio partido, que considerava que ele não estava a fazer o suficiente pela causa abolicionista. Para Lincoln, a vitória nas eleições de 1864 era da maior importância. Se falhasse, um sucessor poderia negociar uma paz prematura que poderia resultar na reintrodução da escravatura ou na independência da Confederação. Para que os sacrifícios dos últimos quatro anos não tivessem sido em vão, Lincoln acreditava que tinha de vencer.
A Divisão Republicana
Muitos assumiam que o Partido Republicano iria voltar a nomear Lincoln como seu candidato. Afinal de contas, ele era o presidente em exercício, cuja condução da guerra e apoio aos valores do partido estavam a satisfazer a maioria dos políticos e eleitores republicanos. No entanto, havia uma facção dentro do partido que acreditava que Lincoln não tinha ido longe o suficiente na luta para acabar com a escravatura. Estes chamados "Republicanos Radicais" apressavam-se a salientar que a Proclamação de Emancipação de Lincoln apenas tinha acabado com a escravatura nos estados sulistas rebeldes; a "peculiar instituição" ainda era legal naqueles estados escravistas que tinham permanecido leais à União, como Maryland e Kentucky. Noutras instâncias, os Republicanos Radicais sentiam que Lincoln estava a demorar no caminho rumo à abolição e não era tão abertamente entusiasta como eles teriam gostado. Para expressar o seu descontentamento com a falta de radicalismo de Lincoln, estes republicanos dividiram-se brevemente e formaram o seu próprio partido, o Partido da Democracia Radical, e nomearam John C. Frémont como seu candidato.
Frémont era uma figura conhecida dos republicanos e abolicionistas em todo o país. Herói da Guerra Mexicano-Americana (1845-1848), onde granjeara a alcunha de "o Pioneiro do Oeste" (Pathfinder of the West), tinha sido o primeiro candidato presidencial do Partido Republicano nas eleições de 1856. Nos primeiros meses da Guerra Civil, Frémont foi um general da União encarregado do Departamento Ocidental, com a missão de defender o Missouri e todo o Noroeste contra a incursão confederada. O seu comportamento sobranceiro valeu-lhe muitos inimigos no gabinete de Lincoln. De facto, Frémont entrou constantemente em litígio com Frank Blair, membro da poderosa família Blair cujo irmão, Montgomery, era o Diretor-Geral dos Correios de Lincoln. Frémont foi também acusado de abusar do cargo, após chegarem a Washington, D.C. notícias de que se estava a enriquecer defraudando o exército. No entanto, se era odiado e visto com desconfiança pelos republicanos moderados e detentores de cargos políticos, era adorado pela fação radical do partido, uma vez que há muito se opunha firmemente à escravatura.
De resto, Frémont aproveitaria a sua posição para promover os objetivos abolicionistas. A 30 de agosto de 1861, emitiu uma proclamação colocando o Missouri sob lei marcial e libertando qualquer pessoa escravizada pertencente a um simpatizante da Confederação. Esta proclamação, emitida por Frémont sem se dar ao trabalho de notificar a administração de Lincoln, era chocantemente radical — nesta fase inicial, a guerra ainda estava a ser combatida principalmente para preservar a União, não ocupando ainda a questão da escravatura o centro das atenções. Lincoln ficou não só embaraçado por Frémont ter feito uma proclamação de tal envergadura sem a sua aprovação, mas também receoso de que isso pudesse empurrar os estados fronteiristas escravistas, como o Missouri e o Kentucky, para os braços da Confederação. Lamentando que Frémont "nunca devesse ter arrastado o Negro para a guerra", Lincoln ordenou-lhe que revogasse a proclamação (Carwardine, pág. 179). Frémont recusou. Em resposta, Lincoln afastou-o do comando e revogou ele próprio a proclamação. Seria preciso mais de um ano até que Lincoln alcançasse o radicalismo de Frémont ao emitir a Proclamação de Emancipação.
Os Republicanos Radicais nunca perdoaram a Lincoln por ter demitido Frémont, nem a Proclamação de Emancipação acalmou as suas preocupações quanto ao seu afinco. A 31 de maio de 1864, os radicais — sob a fachada do Partido da Democracia Radical — nomearam Frémont, com 51 anos, como seu candidato numa convenção em Cleveland, Ohio. Durante algum tempo, pareceu que Frémont podia constituir uma ameaça real para Lincoln e para o establishment republicano; embora houvesse quase nenhuma hipótese de vir efetivamente a ganhar, ele poderia potencialmente dividir os votos o suficiente para permitir uma vitória democrata. De facto, Frémont era bastante popular e contava com apoio entre os abolicionistas, os imigrantes europeus e os Democratas de Guerra. Frémont deixou claro que o seu diferendo era apenas com o próprio Lincoln, prometendo aos republicanos que se retiraria se outra pessoa que não Lincoln fosse nomeada.
Os Democratas de Guerra e os Copperheads
Apesar da candidatura de Frémont, a maior parte do Partido Republicano estava, na verdade, unida em torno de Lincoln. Em contrapartida, o Partido Democrata estava bastante fragmentado. A principal divisão ocorria entre os Democratas de Guerra, que queriam ver a guerra levada até ao fim, e os Democratas pela Paz, que defendiam um acordo de paz com a Confederação, mesmo que isso significasse aceitar a independência do Sul de alguma forma. Os Democratas pela Paz dividiam-se ainda entre moderados e radicais; enquanto os moderados continuavam a desejar um acordo de paz negociado, os radicais viam a guerra como um completo fracasso e eram a favor de terminá-la imediatamente. Estes Democratas pela Paz radicais eram vistos por quase todos os republicanos como não muito melhores do que simpatizantes da Confederação, que os ridicularizavam trocativamente chamando-lhes "Copperheads", comparando-os a uma espécie de serpente venenosa. Para a Confederação, que estava rapidamente a perder a guerra no campo de batalha, a melhor hipótese de independência era provavelmente a vitória de um Copperhead nas eleições presidenciais.
A 29 de agosto de 1864, os democratas reuniram-se para a sua convenção em Chicago, Illinois. Os ânimos estavam exaltados, pois o facciosismo entre os Democratas de Guerra e os Democratas pela Paz ameaçava dividir o partido. Os líderes democratas sabiam, portanto, que precisavam de encontrar um líder suficientemente popular e carismático para que todo o partido se unisse em seu redor. A escolha recaiu sobre o General George B. McClellan, que tinha liderado o Exército do Potomac nos primeiros anos da guerra e estivera a um triz de capturar Richmond, a capital da Confederação.
Tal como Frémont, McClellan tinha uma contas a ajustar com Lincoln; o presidente republicano considerara McClellan excessivamente cauteloso e afastara-o do comando pouco depois da Batalha de Antietam, em 1862. Embora McClellan fosse um Democrata de Guerra, a chapa foi equilibrada pelo candidato a vice-presidente, o representante anti-guerra George H. Pendleton. Apesar da preferência pessoal de McClellan por continuar a guerra, o Partido Democrata foi contra ele e adotou uma plataforma pró-paz escrita pelo influente Copperhead Clement Vallandigham. Assim, as eleições gerais preparavam-se para decidir o desfecho da própria guerra — saber se o Norte continuaria a lutar dependeria da vitória de Lincoln ou de McClellan.
O Partido da União Nacional
Nos meses que antecederam as eleições de novembro, Lincoln continuou a ser popular dentro do Partido Republicano. Alguns líderes políticos como Benjamin Wade e Salmon P. Chase hesitaram inicialmente em apoiar a reeleição de Lincoln, com o argumento de que a sua vitória era incerta; de facto, Chase chegou mesmo a procurar brevemente a nomeação republicana para si próprio. No entanto, por altura do verão, era evidente que Lincoln contava com o apoio e a aprovação de todo o partido, com exceção das franjas mais radicais, levando os retardatários como Wade e Chase a alinharem-se (Chase seria recompensado pelo seu apoio com a nomeação para o cargo de Juiz-Presidente do Supremo Tribunal dos EUA mais tarde nesse mesmo ano). Contudo, Lincoln tinha consciência de que seria preciso mais do que apenas o apoio republicano para vencer as eleições gerais. Ele e os seus apoiantes optaram por unir forças com os Democratas de Guerra, muitos dos quais rejeitavam veementemente a plataforma de paz do seu próprio partido. Republicanos e Democratas de Guerra formaram, assim, uma coligação conhecida como Partido da União Nacional.
O Partido da União Nacional realizou a sua primeira e única convenção em Baltimore, Maryland, entre 7 e 8 de junho de 1864. A nomeação de Abraham Lincoln para um segundo mandato era uma conclusão previsível; a principal tarefa da convenção era escolher um candidato a vice-presidente adequado. O vice-presidente em exercício, Hannibal Hamlin, não foi escolhido para permanecer na chapa. Hamlin era um aliado dos Republicanos Radicais, e a maioria dos delegados da convenção achou que um democrata deveria ser escolhido para o substituir, de modo a sublinhar a visão de unidade nacional do partido.
O partido acabou por nomear Andrew Johnson, um político popular do Tennessee que recentemente tinha servido como governador militar desse estado. Sendo sulista e Democrata de Guerra, Johnson era considerado um candidato ideal, cuja presença na chapa poderia apaziguar os eleitores que sentiam que Lincoln se estava a tornar demasiado radical. Após nomearem a chapa Lincoln-Johnson, os membros da União Nacional apresentaram a plataforma do seu partido, que incluía prosseguir a guerra até à rendição incondicional da Confederação, bem como uma emenda constitucional que abolisse a escravatura a nível nacional. O Partido da União Nacional expressou também a sua satisfação com a condução da guerra por parte de Lincoln e elogiou o recurso da União a soldados negros.
A Eleição Geral
Durante grande parte do ano, Lincoln permaneceu pessimista quanto às suas hipóteses de vitória. Embora o Exército da União estivesse tecnicamente a ganhar a guerra, o preço estava a tornar-se dolorosamente elevado. O sangrento verão de 1864 estava a custar ao Exército do Potomac da União milhares de baixas todos os dias — a Campanha Terrestre, lançada pelo General Ulysses S. Grant na Virgínia, tinha-se transformado num verdadeiro triturador de carne, com perdas impressionantes relatadas em confrontos apocalípticos na Batalha de Wilderness, na Batalha de Spotsylvania Court House e na Batalha de Cold Harbor. Embora as táticas agressivas de Grant estivessem a dar frutos, a fatura em sangue aumentava constantemente sem fim à vista. Lincoln e os seus aliados temiam, portanto, que os eleitores do Norte pudessem achar que a vitória não valia a pena a ponto de prolongar um conflito tão mortífero. Se os democratas conseguissem instrumentalizar eficazmente o desgaste da guerra na nação, a derrota de Lincoln e do Partido da União Nacional seria quase garantida. O que Lincoln precisava era de um sucesso decisivo no campo de batalha, algo que convencesse os eleitores de que a guerra estava quase a terminar e que a vitória estava mesmo ali ao virar da esquina.
Enquanto isso, teve de lidar com a dissidência nas suas próprias fileiras. Para sua sorte, isto revelar-se-ia bastante fácil. Frémont estava furioso com a notícia de que o Partido Democrata tinha adotado uma "plataforma de paz". Ele acreditava que o Sul precisava de ser vencido e achava que os democratas e os Copperheads estavam a seguir o caminho da cobardia ao quererem terminar a guerra antes de a vitória ser alcançada. Assim, quando os apoiantes de Lincoln abordaram Frémont para lhe pedir que desistisse, ele estava preparado para o fazer, de modo a não dividir o voto republicano pró-guerra. No entanto, tinha uma condição — que o seu inimigo pessoal, o Diretor-Geral dos Correios dos EUA, Montgomery Blair, fosse afastado do cargo. Lincoln anuiu a este compromisso, acreditando que a vitória valia a pena transformar Blair num cordeiro sacrificial. Blair foi demitido a 24 de setembro e Frémont, em contrapartida, retirou-se da corrida.
Nessa altura, no entanto, as hipóteses de vitória de Lincoln tinham melhorado significativamente. Tinham chegado a Washington notícias de que as forças da União sob o comando do General William Tecumseh Sherman tinham capturado Atlanta, na Geórgia, a 2 de setembro. Atlanta não só tinha sido um importante centro de armamento e aprovisionamento sulista, como a sua captura abriu o coração da Confederação à possibilidade de uma invasão da União. Esta foi a grande vitória militar de que Lincoln precisava; dado tempo suficiente, a derrota da Confederação estava praticamente assegurada.
No entanto, mesmo que o fim estivesse agora à vista, o resultado da eleição continuava a suscitar dúvidas. Nas semanas que antecederam a abertura das urnas em novembro, era evidente que o resultado dependeria, em parte, do voto dos soldados; em 1864, até 1 milhão de americanos serviam ativamente no exército federal. Infelizmente para os democratas, a esmagadora maioria dos soldados da União apoiava o Partido Republicano. É certo que McClellan — o antigo queridinho do Exército do Potomac — ainda gozava de muito apoio entre os oficiais da União. No entanto, a base de soldados não só não gostava do seu antigo comandante, como queria genuinamente continuar a lutar. Tinham sacrificado demasiado para aceitar agora uma paz desonrosa, e a maioria dos soldados queria ver a vitória sobre o Sul. "Prefiro ficar aqui fora a vida toda (por muito que isso me custe)", escreveu um soldado, "do que consentir na divisão do nosso país... Todos queremos a paz, mas nenhuma outra que não seja uma paz honrosa" (citado em McPherson, pág. 804). Estes soldados confiavam em Lincoln e concordavam com o seu lema de campanha: "Não se mudam de cavalos a meio da travessia" (citado em battlefields.org).
Antes da eleição, 19 estados tinham aprovado disposições que permitiam aos soldados votar a partir do campo de batalha. No entanto, as legislaturas controladas pelos democratas em três estados — Indiana, Illinois e Nova Jérsia — tinham recentemente bloqueado medidas que permitiriam aos soldados depositar votos por correspondência. Apesar destas medidas, o facto de os cidadãos-soldados escolherem o próximo presidente na maioria dos estados constituiu um momento extraordinário na história da república norte-americana. Como escreve o historiador James M. McPherson,
Eis uma audaciosa experiência em democracia: permitir que combatentes votassem no que equivalia a um referendo sobre se deveriam continuar a combater. Mas, como disse Grant, 'eles são cidadãos americanos, [e] têm tanto direito a [votar] como aqueles cidadãos que permanecem em casa. Aliás, ainda mais, pois sacrificaram mais pelo seu país'" (Idem).
O Resultado
A eleição realizou-se a 8 de novembro de 1864. Uma vez que a maioria dos estados sulistas ainda se encontrava em revolta aberta contra o governo federal, apenas 24 estados participaram — a Luisiana e o Tennessee, estados confederados que tinham sido recentemente reconquistados por soldados federais, enviaram eleitores presidenciais que foram rejeitados pelo Congresso, sob o argumento de que estes estados tinham decidido abandonar a União. Lincoln venceu facilmente a eleição. Conquistou 22 estados, obteve 212 votos eleitorais e 55,02% do voto popular. Recebeu também 75% do voto dos soldados.
McClellan venceu apenas 3 estados, 21 votos eleitorais e 44,96% do voto popular. A reeleição de Lincoln e o sucesso do Partido da União Nacional foram um dos últimos golpes fatais para a Confederação. Pouco mais de um mês após a segunda tomada de posse de Lincoln a 4 de março de 1865, a capital sulista de Richmond tinha caído e os últimos exércitos confederados renderam-se. Embora Lincoln não vivesse para ver o fim da guerra, conseguira guiar a nação através dela.

