Matabelelanda (Reino de)

O Império dos Matabeles na África Austral
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Ndebele Kraal (by William Cornwallis Harris, Public Domain)
Cercado dos Matabeles William Cornwallis Harris (Public Domain)

Matabelelanda (1838-1897), também designada como o Império dos Matabeles ou Mthwakazi pelos próprios Ndebele, foi um Estado africano que abrangia parte do que são hoje o sul do Zimbabué e o norte da África do Sul. Este território, que incluía outros povos africanos, com especial destaque para os Xona, era ambicionado pelos colonos e pela Companhia Britânica da África do Sul; em consequência, deflagraram dois conflitos, a Primeira e a Segunda Guerra dos Matabeles, entre 1893 e 1897. Matabelelanda, derrotada, dividida e desintegrada acabaria por ser absorvida pela colónia britânica da Rodésia do Sul (o actual Zimbabué).

As Origens: Mzilikazi

O povo Matabele, hoje mais comummente conhecido como Ndebele, era uma tribo africana que ocupava uma área do que é actualmente o sul do Zimbabué e o norte da África do Sul no século XIX. Os Ndebele eram um povo de língua Nguni (um idioma de origem banto) que se separou do tronco principal do Reino Zulu por volta de 1822 para fundar o seu próprio Estado mais a norte, assimilando outros grupos populacionais durante a sua migração, nomeadamente povos de língua Sotho. O líder dos Matabeles era o Régulo Mzilikazi (cerca de 1790-1868).

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Mzilikazi, tendo partido do Reino Zulu com apenas cerca de 200 guerreiros, logrou forjar para si um reino com mais de 77 700 quilómetros quadrados, o qual defendia com o seu exército de até 5 000 combatentes. A primeira capital dos Matabeles situava-se em Mosega (próximo da actual Zeerust, no extremo norte da África do Sul). Quando milhares de Bóeres (colonos de origem europeia na África Austral que falavam africânder) migraram para norte na Grande Jornada de 1835-36, Mzilikazi viu-se compelido a deslocar o seu reino para a margem oposta do rio Limpopo. Esta região não se encontrava deserta, e os Matabeles tiveram de derrotar diversas tribos para reclamar o território, nomeadamente os Xona ocidentais (também conhecidos como Calanga), pastores pacíficos que povoavam os vestígios decadentes do outrora orgulhoso Reino de Butua. Em Bulavaio estabeleceu-se a nova capital dos Matabeles, onde, numa planície salpicada de mimosas, se situava o recinto real: um grande óvalo composto por um anel duplo de cabanas gigantescas de lama e colmo. Ao longo do final da década de 1830, foram efectuadas sucessivas incursões contra os povos vizinhos, tais como os Tswana a oeste, os Pedi a leste e os Sotho a sul. Estas razias envolviam o saque e incêndio de aldeias, a captura de mulheres e crianças, e a condução do gado para Matabelelanda.

o principal indicador da riqueza dos Matabeles era o gado e a sua transmissão era processada por via patrilinear.

A Sociedade Matabele

A geografia local da antiga Matabelelanda é composta, na sua maioria, por savana arbórea, embora inclua áreas florestais e montanhosas. O abastecimento hídrico é assegurado pelos afluentes dos rios Zambeze e Limpopo. Os Matabeles viviam em pequenas aldeias onde as necessidades quotidianas eram supridas através da exploração pecuária e do cultivo de produtos como o milho, o milho-painço, o feijão e a batata-doce. Prevalecia uma divisão geral do trabalho na qual os homens caçavam e velavam pelo gado, ao passo que as mulheres eram responsáveis pelas culturas agrícolas. As mulheres matabeles eram igualmente exímias na arte decorativa de missangas. O gado constituía o principal indicador de riqueza e a sua transmissão era processada por via patrilinear. O matrimónio entre os Matabeles era formalizado mediante a prestação de um dote, o lobola, que consistia num determinado número de cabeças de gado. A cultura dos Matabeles era de natureza poligâmica.

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Ndebele Women & Children
Mulheres e Crianças Matabeles Unknown Photographer (Public Domain)

O Régulo Mzilikazi, à semelhança dos reis zulus, instituiu um Estado fortemente centralizado e militarizado, onde os homens, organizados em regimentos por grupos etários, serviam como guerreiros em tempos de conflito. Durante o serviço militar, os combatentes matabeles habitavam em aldeias segregadas do resto da comunidade. Prevalecia uma hierarquia adicional para além da baseada na idade: os falantes de língua Nguni consideravam-se a casta dominante, ao passo que os falantes de Sotho, que se haviam juntado aos matabeles originais durante a sua jornada para norte, ocupavam o segundo escalão do reino. A terceira e mais baixa classe era composta pelo povo Xona. Caso um homem Nguni contraísse matrimónio com uma mulher Sotho, a progenitura era considerada pertencente à linhagem Nguni.

Matabelelanda repeliu com sucesso os ataques dos colonos bóeres, tendo sido acordado um tratado de paz em 1852 entre os Matabeles e o Estado bóer do Transval. Matabelelanda continuou a sua expansão mercê da natureza altamente disciplinada do seu exército e do emprego de armamento extremamente eficaz, como a zagaia curta, características herdadas dos Zulus. Zeloso da sua autoridade e temendo que esta fosse posta em causa, Mzilikazi permitiu a entrada dos missionários europeus no reino, "mas manteve-os isolados e não autorizou que os seus súbditos fossem baptizados" (Curtin, pág. 295).

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Mzilikazi foi sucedido pelo seu herdeiro designado, Lobengula, em 1868, embora tal só tenha ocorrido após uma guerra civil contra os seguidores de um pretendente rival, Nkulumane (que pereceu no conflito). As fronteiras do Reino de Matabelelanda eram fluidas, dependendo frequentemente da realização de incursões regulares sobre as regiões vizinhas para que estas fossem reclamadas como território matabele. Em 1879, um exército dos Matabeles derrotou o povo Rozwi. O régulo Rozwi, Chivi Marorodze, foi capturado, conduzido a Bulavaio e esfolado vivo. Os Rozwi foram, subsequentemente, compelidos ao pagamento de um tributo regular aos Matabeles.

Map of the Scramble for Africa after the Berlin Conference
Mapa da Partilha da África Após a Conferência de Berlim Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Não obstante o seu sucesso, os Matabeles estavam prestes a enfrentar um novo desafio à sua hegemonia regional. A descoberta de ouro em Matabelelanda, em 1867, fez com que os colonos europeus voltassem a manifestar um vivo interesse pela zona da África Austral. Rumorejava-se, inclusive, que Matabelelanda poderia albergar as lendárias minas de ouro do Rei Salomão — rumores alimentados pelos exploradores que anotavam nos seus diários a existência inequívoca de antigas explorações mineiras nesta região. Contudo, muito mais perigosa do que os garimpeiros individuais, foi a chegada de uma nova e poderosa companhia comercial europeia, que dispunha de um vasto exército e era liderada por um imperialista absolutamente implacável: Cecil Rhodes (1853-1902).

Lobengula estava disposto a ceder determinados direitos de exploração mineira, na medida em que tal evitaria que o seu povo fosse arrastado para a guerra.

A Expansão Britânica na África Austral

Os britânicos, já firmemente estabelecidos na Colónia do Cabo e no Natal, derrotaram o Reino Zulu em 1879. Seguidamente, adquiriram tanto o Protetorado da Basutolândia (o atual Lesoto), em 1884, como o Protetorado da Bechuanalândia (o atual Botsuana), em 1885. Ato contínuo, os britânicos, e muito em particular Cecil Rhodes, voltaram as suas atenções mais para norte. Rhodes, à data um proeminente ministro (e que em breve se tornaria primeiro-ministro) no governo da Colónia do Cabo, era um visionário que pretendia que a Grã-Bretanha dominasse esta vertente do continente africano e estabelecesse uma linha contínua de colónias do Cairo ao Cabo. Almejava igualmente o ouro e o sucesso pessoal; em suma, ambicionava ser reconhecido como uma das grandes figuras do Império Britânico. Outras considerações que motivaram o desejo de Rhodes de conquistar o Reino de Matabelelanda incluíam o desenvolvimento de um novo e luxuriante território, onde os colonos britânicos se pudessem estabelecer e prosperar, bem como a criação de um novo mercado para os bens manufacturados britânicos. Quanto maior fosse a presença britânica na África Austral, melhor para Rhodes, visto que tal alteraria o equilíbrio da população europeia a favor da Grã-Bretanha e reduziria a influência de rivais como os Bóeres (já firmemente estabelecidos no Transval e no Estado Livre de Orange) e os colonos alemães (que, à data, se fixavam na África Oriental Alemã e no Sudoeste Africano Alemão). Por fim, a conquista de Matabelelanda constituiria um trampolim para penetrar mais profundamente na África Central e limitar qualquer expansão do Congo Belga, uma ameaça potencial para a África Oriental Britânica.

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Rhodes negociou com o Régulo Lobengula a obtenção de direitos de comércio, agricultura, mineração e colonização na Mashonalândia, um território sob a sua jurisdição onde habitavam os Xona. Outros grupos haviam já procurado e obtido tais direitos — nomeadamente aventureiros portugueses, alemães e bóeres —, mas Rhodes insistia agora em que os britânicos detivessem o acesso exclusivo, e que quaisquer tratados futuros que Lobengula entendesse outorgar a outras nacionalidades deveriam ser previamente aprovados pela Grã-Bretanha. Os negociadores de Rhodes viram-se obrigados a sujeitar-se à etiqueta da corte dos Matabeles:

Visitantes de todas as nacionalidades tinham de se arrastar de gatas na presença real e, em seguida, agachar-se no pó, sem qualquer possibilidade de se sentarem numa cadeira ou de se abrigarem do sol, durante os intermináveis palavreados com o Rei.

(Pakenham, 383).

Chief Lobengula
O Régulo Lobengula Peakcock/Maund (Public Domain)

Lobengula estava disposto a ceder determinados direitos de exploração mineira, na medida em que tal evitaria que o seu povo fosse arrastado para a guerra e sofresse o mesmo destino do agora desmembrado Reino Zulu. Porventura, seria também preferível permitir a entrada de uma só potência europeia no seu reino do que várias em simultâneo. Lobengula era uma figura imponente, com mais de 1,80 m de altura, e um negociador astuto. O rei logrou obter para si uma pensão pessoal bastante generosa de 100 libras mensais pelo acordo (o equivalente a 15 000 dólares actuais), 1 000 espingardas Martini-Henry (armas de qualidade, embora já superadas por alternativas superiores no exército britânico), 100 000 cartuchos de munições e uma canhoneira (ainda que esta última nunca tenha chegado a ser entregue).

O acordo anglo-matabele de 1888 ficou conhecido como a Concessão Rudd, assim designada em honra do enviado de Rhodes a Matabelelanda, Charles Dunnell Rudd. O tratado continha algumas cláusulas bastante ambíguas relativas ao direito dos britânicos de defenderem militarmente quaisquer minas ou outros empreendimentos comerciais que estabelecessem no reino. Estas constituíam um presságio sinistro do que estava para vir, mas, por aquele momento, as relações permaneciam cordiais. Além disso, os britânicos timham sido bastante dúbios nas suas negociações com Lobengula: os acordos verbais com que o régulo consentira não coincidiam com os termos que os britânicos verteram para o contrato escrito. Lobengula insistira em que não houvesse mais de dez garimpeiros brancos em simultâneo no reino, que a exploração mineira decorresse longe das aldeias e que estes fossem considerados súbditos do rei matabele. Contudo, nenhuma destas exigências foi respeitada pelos britânicos.

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Rhodes, seguindo a prática imperial padrão, criou então uma nova companhia comercial, a British South Africa Company (BSAC). Em 1890, a companhia obteve uma carta régia após Rhodes ter convencido o governo britânico de que a expansão imperial seria lucrativa para os investidores e garantiria a primazia britânica nesta zona de África. As companhias majestáticas permitiam aos governos europeus colonizar a baixo custo, dado que os investidores privados da empresa asseguravam os encargos e assumiam todos os riscos. Outra consideração prendia-se com o facto de os governos poderem distanciar-se de quaisquer relatos comprometedores de conquistas brutais. Caso o empreendimento fosse um sucesso, o governo poderia sempre, no futuro, assumir o controlo da companhia majestática e estabelecer uma colónia propriamente dita.

Cecil Rhodes Colossus Cartoon
A Caricatura de Cecil Rhodes como o Colosso Edward Linley Sambourne (Public Domain)

Nos meses finais de 1890, cerca de 350 colonos — tanto negros como brancos — chegaram para reclamar os seus direitos na Mashonalândia. Os recém-chegados faziam-se acompanhar por 500 agentes da polícia da BSAC, armados com espingardas, metralhadoras e artilharia. Tornara-se evidente que os novos ocupantes vinham para ficar. De resto, os colonos hastearam a bandeira britânica e declararam prontamente que a Mashonalândia pertencia agora à Rainha Vitória. Lobengula lamentava já o seu acordo com os britânicos, que poderiam, muito em breve, decidir que pretendiam o resto de Matabelelanda. Com efeito, Lobengula mandou executar o principal negociador (e a sua família) responsável pela Concessão Rudd e repudiou oficialmente o tratado. O régulo enviara uma delegação a Londres para se reunir com a Rainha Vitória e defender a causa dos Matabeles — argumentando que haviam sido ludibriados nos seus ajustes com Rudd, Rhodes e a BSAC —, mas esta missão não logrou obter resultados significativos.

Entretanto, os britânicos encontravam-se igualmente decepcionados, uma vez que não conseguiam encontrar ouro, embora tivessem descoberto jazidas consideráveis de carvão, crómio e amianto. Lobengula julgou poder reafirmar a sua autoridade ordenando aos seus guerreiros que atacassem aldeias Xona na proximidade dos colonatos britânicos; contudo, a estratégia revelou-se contraproducente quando alguns Xona recuaram para Bulavaio, onde os perseguidores matabeles entraram em confronto com a polícia montada da BSAC. Ocorreu também um ataque dos Matabeles ao colonato de Fort Victoria, na Mashonalândia, apesar das ordens expressas de Lobengula para que nenhuma propriedade dos brancos fosse tocada. Os britânicos dispunham agora do pretexto necessário para declarar guerra a Matabelelanda.

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As Guerras Anglo-Matabeles

A Primeira Guerra Matabele (outubro de 1893 a janeiro de 1894) resultou numa previsível vitória britânica por dois motivos fundamentais: os guerreiros matabeles, embora totalizassem cerca de 20 000 efetivos, mantiveram a sua estratégia tradicional de uma carga frontal massiva sobre o inimigo; por outro lado, os britânicos encontravam-se munidos com o armamento mais moderno da época, incluindo as metralhadoras Maxim, capazes de disparar 600 tiros por minuto. A experiência absolutamente inédita perante tal arsenal subjugou por completo os guerreiros matabeles, cuja coragem não logrou prevalecer sobre as balas, conforme explica o historiador L. James:

As Maxim aterrorizaram os Matabeles, que as viam como uma espécie de magia portentosa; um nativo, nascido na altura e ainda vivo na década de 1970, explicou o seu nome invulgar, Zigga-Zigga, como sendo inspirado no som produzido pelas metralhadoras e, por conseguinte, dotado — na crença de seus pais — de algum poder sobrenatural.

(pág. 261)

Ndebele Attack on a Laager, 1893
Ataque dos Matabeles a um Curral de Carros, 1893 Richard Caton Woodville Jr. (Public Domain)

Bulavaio foi incendiada e Lobengula fugiu para norte. O rei de Matabelelanda morreria mais tarde, possivelmente vitimado pela varíola ou por ingestão de veneno. No seu derradeiro discurso ao seu povo, Lobengula deixara-lhes um aviso:

Dissestes que sou eu quem vos mata: pois bem, aqui chegam agora os vossos senhores… Tereis de puxar e empurrar carroças; sob o meu domínio, porém, jamais fizestes tal coisa.

(Pakenham, pág. 487)

Lobengula foi sucedido pelo seu filho Nyamanda. O Estado matabele ainda subsistia, porém a BSAC passou a confiscar gado arbitrariamente e a distribuir vastas extensões de terra aos colonos brancos. "No espaço de doze meses, 10 000 milhas quadradas de solo vermelho e fértil — virtualmente todo o Planalto do Alto Velde num raio de oitenta milhas de Bulavaio — tinham sido demarcadas como propriedades europeias» (Pakenham, pág. 496). Uma versão europeia de Bulavaio foi erguida na proximidade do antigo kraal (cercado) real, não passando de uma povoação com alguns edifícios de tijolo burro. Os Matabeles e os Xona foram fustigados por impostos sobre as suas cabanas, mais confiscos de terras e pela arbitrariedade do sistema judiciário colonial (cujo principal instrumento de punição era o cruel chicote de pele de rinoceronte, o sjambok). Além disso, foram compelidos a trabalhar como operários, vendo a sua cultura e tradições ancestrais serem subjugadas pelas dos invasores.

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A Segunda Guerra Matabele (março de 1896 a outubro de 1897) é também conhecida como a Rebelião Matabele-Xona, o que constitui, porventura, uma descrição mais rigorosa deste acontecimento. Embora o Estado matabele tivesse já sido desmantelado e tivesse sido formada uma força policial de etnia matabele, os britânicos permaneciam incapazes de impedir que os colonos europeus na região fossem atacados por grupos rebeldes. À medida que a propagação da peste bovina dizimava o gado remanescente e a seca e uma praga de gafanhotos assolavam as suas colheitas, os Matabeles e os Xona decidiram que não poderiam tolerar por mais tempo os impostos e as políticas de trabalho forçado das autoridades coloniais. Em 1896, estes rebeldes uniram-se em torno de um místico, um indivíduo que afirmava ser o médium de Mlimo, um poderoso espírito local. O momento da insurreição foi ditado pela deslocação da maior parte da força policial colonial para lidar com a agitação bóer mais a sul. A Rebelião Matabele-Xona ficou localmente conhecida como a Chimurenga ou «luta». Os rebeldes obtiveram sucessos através do recurso a tácticas de guerrilha, vitimando um em cada dez europeus no que outrora fora a Matabelelanda.

Map of Africa after the Treaty of Versailles, c.1920
A África Após o Tratado de Versalhes, cerca de 1920 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O governo britânico, instigado por uma cobertura mediática crescentemente racista, viu-se na obrigação de esmagar a rebelião através de uma campanha de retaliação absolutamente implacável. Os soldados imperiais envolvidos na campanha relataram que as aldeias matabeles foram incendiadas, as colheitas destruídas, mulheres e crianças alvejadas e pessoas executadas sem julgamento. As notícias sobre a brutalidade da campanha suscitaram um debate no Parlamento Britânico, mas manteve-se inalterada a abordagem geral em África. Os últimos focos de resistência só foram eliminados em outubro de 1897. Oito mil africanos pereceram nesta segunda guerra. Pouco depois, foi formado um conselho legislativo representativo dos colonos, mas a Grã-Bretanha só estabeleceu o controlo administrativo total sobre a antiga Matabelelanda em 1901.

Uma consequência curiosa das Guerras Matabeles foi a criação da Associação de Escuteiros (Boy Scout Association), um fenómeno que se expandiu à escala mundial. A fim de combater as tácticas de guerrilha dos Xona e dos Matabeles, os britânicos recrutaram batedores e caçadores de caça grossa para utilizarem técnicas de vida ao ar livre (bushcraft) na perseguição do inimigo. Um desses oficiais foi o Major Robert Baden-Powell (1857-1941), que fundou, em 1908, uma organização para rapazes britânicos onde estes poderiam aprender técnicas de sobrevivência e vida na natureza, obtendo distintivos de honra ao longo do percurso. O uniforme escutista reflectia as suas origens na experiência de Baden-Powell nas Guerras Matabeles: camisa e calções caqui, lenço de pescoço e chapéu de abas largas. O movimento escutista estabeleceu-se nos Estados Unidos em 1910 e, posteriormente, disseminou-se por mais de 150 países, incluindo o Zimbabué.

A História Posterior

Após as guerras, os britânicos criaram duas províncias: a Matabelelanda e a Mashonalândia. Em 1923, estas províncias passaram a integrar a colónia britânica da Rodésia do Sul, um Estado formado a partir dos antigos territórios da British South Africa Company. Os africanos negros sofreram um preconceito acentuado sob o regime de domínio branco, nomeadamente pela obrigatoriedade, a partir de 1930, de residirem em 7,5 milhões de acres de terras reservadas, enquanto a minoria rodesiana branca cultivava 49 milhões de acres de terras de qualidade muito superior. A Rodésia do Sul, atual Zimbabué, obteve finalmente a independência reconhecida em 1980, após uma longa batalha na qual as rebeliões de quase um século antes foram recordadas como fonte de inspiração.

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Atualmente, o povo Matabele continua a habitar as imediações daquela que é hoje a cidade zimbabuana de Bulavaio, na região administrativa designada por Matabelelanda. Estas populações são frequentemente denominadas Matabeles do Zimbabué, de modo a distingui-las do outro grupo principal, os Matabeles do Transval, residentes nas províncias de Limpopo e Mpumalanga, na moderna África do Sul.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

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Estilo APA

Cartwright, M. (2026, abril 08). Matabelelanda (Reino de): O Império dos Matabeles na África Austral. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26094/matabelelanda-reino-de/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Matabelelanda (Reino de): O Império dos Matabeles na África Austral." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 08, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26094/matabelelanda-reino-de/.

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Cartwright, Mark. "Matabelelanda (Reino de): O Império dos Matabeles na África Austral." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26094/matabelelanda-reino-de/.

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