Castelo de Hara

Matthew Allison
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Remains of the Dry Moat at Hara Castle (by Matthew Allison, CC BY-SA)
Restos do Fosso Seco no Castelo de Hara Matthew Allison (CC BY-SA)

O Castelo de Hara foi originalmente construído em 1496 como uma fortificação subsidiária do vizinho Castelo de Hinoe, tendo sido alvo de melhoramentos entre 1599 e 1604. Mais tarde, após ser desmantelado e abandonado pelo então daimyo (senhor feudal) Matsukura Shigemasa (1574-1630), foi brevemente ocupado pelos rebeldes que participaram na Revolta de Shimabara (1637-1638). Atualmente, resta apenas um conjunto de ruínas, acessível de autocarro a partir da cidade de Shimabara.

O Castelo de Hara e o Clã Arima

Arima Takazumi, o então daimyo do domínio de Hinoe (localizado a leste de Nagasaki, na ilha de Kyushu, no sul do Japão, e mais tarde referido como o domínio de Shimabara), construiu o Castelo de Hara como uma fortificação de apoio ao Castelo de Hinoe (estavam separados por cerca de 5 quilómetros - 3 milhas), situado na encosta costeira sobranceira ao Mar de Ariake, era considerado um reduto altamente defensável.

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As melhorias efetuadas por Arima Harunobu incluíram muros de pedra, fossos secos e atualizações nos portões e nas yagura (torres de vigia).

O castelo foi posteriormente requalificado por Arima Harunobu (1567-1612), o daimyo da época e descendente de Arima Takazumi, entre cerca de 1599 e 1604, sendo designado como o castelo principal da região. A estrutura compreendia o pátio principal, o segundo pátio e o terceiro pátio (honmaru, ninomaru e sannomaru, respetivamente), bem como pátios exteriores (como o designado Amakusamaru). O pátio principal incluía também um tenshu (torre de menagem). As melhorias efetuadas por Arima Harunobu incluíram muros de pedra, fossos secos e atualizações nos portões e nas yagura (torres de vigia).

Embora inicialmente um opositor do cristianismo no Japão, Harunobu acabou por se converter, tendo sido batizado por Alessandro Valignano (1539-1606), um proeminente padre jesuíta na história do Japão. É de notar que muitas destas melhorias permitiram mais tarde aos rebeldes cristãos da Revolta de Shimabara resistir ao cerco do xogunato (ditadura militar) durante tanto tempo. Além disso, estes rebeldes e Harunobu partilharam o mesmo destino, uma vez que as suas mortes foram ordenadas pelo xogunato.

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O filho de Harunobu, Arima Naozumi (1586-1641), desempenhou um papel significativo na morte do seu pai e herdou as suas terras. Por ordem do então xogum Tokugawa Ieyasu (1543-1616), renunciou à sua fé cristã e começou a perseguir os seguidores da religião no seu domínio. Frustrado com as constantes revoltas cristãs, acabou por ser voluntariamente transferido de Shimabara, sendo substituído por Matsukura Shigemasa (1574-1630).

Stone Ramparts of the Inner Ward at Hara Castle
Muralhas de Pedra do Pátio Interior no Castelo de Hara Matthew Allison (CC BY-SA)

O Clã Matsukura e a Revolta de Shimabara

Em 1618, Shigemasa decidiu iniciar a construção do Castelo de Shimabara, um edifício grandioso que foi demolido em meados da década de 1870 e, posteriormente, reconstruído na década de 1960 como um museu que pode ser visitado atualmente. À época da sua construção, estava em vigor o Ikkoku-ichijō, ou "Um Castelo por Província". Promulgado em 1615, este decreto visava impedir que os daimyos detivessem múltiplos centros de poder militar, salvaguardando assim a região contra potenciais revoltas futuras; esta medida foi uma consequência direta do cerco ao Castelo de Osaka, ocorrido no mesmo ano.

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O Castelo de Hara tornou-se uma sombra do que fora outrora, abandonado e aparentemente insignificante até ao ano de 1638.

Como tal, Shigemasa ordenou que os castelos de Hara e de Hinoe fossem abandonados e desmantelados, utilizando os seus recursos na criação do Castelo de Shimabara. Do Castelo de Hara restaram apenas as fundações, o fosso seco e os muros de pedra, os elementos da fortificação demasiado difíceis de remover, bem como uma série de edifícios que foram caindo, gradualmente, num estado de degradação. O Castelo de Hara tornou-se uma sombra do que fora outrora, abandonado e aparentemente insignificante até ao ano de 1638.

Shigemasa faleceu nas Termas de Obama em 1630, sendo sucedido pelo filho, Matsukura Katsuie (1598-1638), que deu continuidade e, em certos aspetos, intensificou as políticas opressivas do pai. A perseguição persistente aos cristãos, a pesada carga fiscal para financiar a construção do Castelo de Shimabara e as dificuldades acrescidas de uma fome recente conduziram a crescentes atos de desobediência por parte dos camponeses do domínio contra os administradores locais. Estas tensões acabaram por culminar numa rebelião em larga escala no final de 1637, conhecida como a Revolta de Shimabara.

Supostamente liderados por uma figura messiânica de 16 anos chamada Amakusa Shiro (1621-1638, cujo nome de batismo era Jerónimo), os dissidentes alcançaram alguns sucessos iniciais, mas acabaram por ser forçados a retirar-se por mar para o abandonado Castelo de Hara, no início de 1638. Lá, desmantelaram as suas embarcações e reaproveitaram os materiais para construir defesas improvisadas, reforçando as fortificações em ruínas do castelo. Cerca de 30.000 a 40.000 rebeldes refugiaram-se no Castelo de Hara, em edifícios improvisados e acampamentos. Atrás das muralhas do castelo, aguardavam, cientes de que uma força do xogunato, composta por aproximadamente 100.000 homens, avançava gradualmente na sua direção.

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Statue of Amakusa Shiro at Hara Castle
Estátua de Amakusa Shiro no Castelo de Hara Matthew Allison (CC BY-SA)

O Cerco ao Castelo de Hara

Itakura Shigemasa (1588-1638) foi nomeado líder das forças do xogunato, as quais superavam os rebeldes em número numa proporção de quase 3 para 1. Embora o facto de estarem de costas para o mar eliminasse, quase certamente, qualquer possibilidade de um ataque pela retaguarda, essa mesma posição tornava o castelo mais fácil de cercar e dificultava imenso qualquer fuga. Embora alguns historiadores argumentem que os rebeldes tinham plena consciência do seu destino e decidiram propositadamente travar uma última batalha ao fortificarem-se no Castelo de Hara, é muito mais provável que acreditassem que receberiam ajuda dos rebeldes da cadeia de ilhas Amakusa e das áreas circundantes. Foram feitas tentativas de escavar túneis sob as muralhas do castelo, foram montadas torres de artilharia para disparar sobre os sitiados e até um navio holandês, o De Ryp, foi enviado para prestar assistência de artilharia às forças do xogunato a partir do Mar de Ariake. Em grande parte ineficazes, realizaram-se várias tentativas para romper as muralhas do castelo, durante uma das quais Itakura Shigemasa foi morto.

Como é habitual na guerra de cerco, a superioridade numérica nem sempre é o fator decisivo quando se enfrenta terreno difícil, fortificações e defensores determinados; por isso, os sitiantes estabeleceram-se e tentaram levar os rebeldes à inanição. Antes mesmo de o cerco começar, as reservas de alimentos dos rebeldes estavam sob pressão, em grande parte devido à fome recente. Recolhendo o que podiam da costa próxima e dos campos circundantes, também trouxeram consigo grandes provisões de mochi (bolos de arroz), que eram misturados com diversos outros alimentos para criar uma sopa substancial chamada guzōni, que ainda hoje é consumida na região.

Map of the Siege of Hara Castle, c. 1600
Mapa do cerco ao Castelo de Hara, cerca de 160 Unknown Artist (Public Domain)

Eventualmente, um ataque do xogunato rompeu as defesas do castelo, e os rebeldes, famintos, foram subjugados e massacrados aos milhares. Muitos dos rebeldes foram sepultados onde morreram, se não pelas forças do xogunato, então gradualmente pela passagem do tempo. Quando a poeira finalmente assentou, o Castelo de Hara voltou a ser uma ruína e, em grande medida, assim permaneceu até aos dias de hoje.

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Matsukura Katsuie, que não parece ter estado presente no seu domínio no momento em que a revolta eclodiu, foi posteriormente privado do seu poder e estatuto uma vez que a rebelião foi suprimida, pois acreditava-se que a sua extrema beligerância para com os cristãos do seu domínio, a tributação excessiva e a má governação em geral tinham conduzido diretamente à revolta. Foi realizada uma investigação e ele foi executado por decapitação, o único caso de um daimyo a ter tal fim durante o período Edo (1603-1868). Kōriki Tadafusa (1584-1656) assumiu o cargo e rapidamente começou a reconstruir a antiga prosperidade da área através da concessão de benefícios fiscais, da oferta de perdões aos antigos rebeldes e da promoção do povoamento na região.

Terá o Ikkoku-ichijō sido ineficaz?

Poder-se-ia argumentar que o édito Ikkoku-ichijō ("Um Castelo por Província") não foi bem-sucedido neste caso — afinal, a ideia subjacente à lei era que nenhum daimyo deveria ser capaz de projetar poder, potencialmente em oposição ao xogunato, a partir de mais do que um castelo regional; assim, tais atos de insurreição não só seriam desencorajados como, devido ao desmantelamento de fortificações suplementares, revelar-se-iam altamente difíceis ou talvez quase impossíveis, mesmo quando acompanhados por homens armados. Contudo, muito longe de um senhor e do seu séquito, camponeses resistiram contra o poderio do xogunato durante um longo período de tempo num castelo desse tipo e, após o cerco ter terminado, os homens do xogunato derrubaram e enterraram meticulosamente as muralhas de pedra do castelo, não apenas como um sinal claro de que a rebelião tinha sido suprimida, mas também para que a fortificação nunca mais pudesse ser utilizada dessa forma.

Stone Statues Overlook the Ariake Sea at Hara Castle
Estátuas de Pedra com Vista para o Mar de Ariake no Castelo de Hara Matthew Allison (CC BY-SA)

Dito isto, uma rebelião desta magnitude era totalmente imprevisível e, dada a dimensão das dezenas de milhares de rebeldes envolvidos, tal força teria constituído um desafio formidável mesmo sem a segurança do Castelo de Hara. É, portanto, difícil argumentar que o castelo foi insuficientemente desmantelado na sua origem ou que o édito falhou neste caso, dado que o seu objetivo principal era entravar o poder de um daimyo e não destruir inteiramente todas as fortificações defensáveis suplementares. Pelo contrário, as limitações do édito foram expostas: embora pudesse reduzir a probabilidade de um daimyo se rebelar contra o xogunato, não eliminou a possibilidade de um reduto, mesmo um abandonado, ser utilizado contra o xogunato em tempos de crise extrema.

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Kakure Kirishitan

Embora o xogunato já tivesse iniciado o sakoku ("país fechado"), uma política de isolamento do resto do mundo, os acontecimentos no Castelo de Hara revelaram ainda mais as ameaças potenciais de religiões e governos estrangeiros, sendo utilizados, em parte, para justificar a expulsão dos portugueses das costas do Japão e a intensificação da perseguição aos cristãos. Muitos dos cristãos remanescentes foram forçados à clandestinidade e ficaram conhecidos como Kakure Kirishitan (Cristãos Ocultos). Os sermões eram realizados em segredo e os símbolos religiosos eram frequentemente disfarçados de objetos domésticos comuns. Com o tempo, a fé evoluiu significativamente da sua forma original, em grande parte devido às limitações de transmitir o conhecimento principalmente através da tradição oral.

Além disso, a tendência de muitas comunidades Kakure Kirishitan para se isolarem significava que as crenças e práticas podiam variar consideravelmente de uma aldeia para outra. Quando as liberdades religiosas foram estabelecidas em 1873, o Japão e o mundo ficaram surpreendidos ao descobrir que a religião tinha sobrevivido, com cerca de 30.000 Kakure Kirishitans a emergirem da clandestinidade. Embora alguns japoneses continuem a praticar as tradições ancestrais dos Kakure Kirishitans nos dias de hoje, o seu número continua a diminuir.

Ariake Sea and Yushima at Hara Castle
Mar de Ariake e Yushima vistos do Castelo de Hara Matthew Allison (CC BY-SA)

O Castelo de Hara nos Dias de Hoje

Os visitantes do Castelo de Hara podem encontrar vários painéis informativos espalhados pelo local, tanto em japonês como em inglês, existindo ainda uma experiência de realidade virtual (RV) que mostra o aspeto que o castelo teria aquando da sua construção original. A partir do pátio principal e ao longo da linha costeira, é possível avistar Yushima ao longe: foi nesta ilha que os líderes rebeldes se reuniram em segredo para planear a insurreição. O próximo Museu do Património Cristão de Arima narra a Revolta de Shimabara e o cerco ao Castelo de Hara através de relevos belamente esculpidos, curtos vídeos documentais, dioramas com pequenas figuras e artefactos da época. Existe também uma recriação de um local de sepultamento descoberto por arqueólogos no Castelo de Hara, que exibe os ossos de rebeldes mortos durante o massacre, com marcas de golpes de espada. Durante as escavações, foram igualmente descobertos muitos crucifixos.

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Bibliografia

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Allison, M. (2026, julho 12). Castelo de Hara. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26014/castelo-de-hara/

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Allison, Matthew. "Castelo de Hara." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 12, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26014/castelo-de-hara/.

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Allison, Matthew. "Castelo de Hara." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 12 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26014/castelo-de-hara/.

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