Nornas

Figuras Femininas do Destino
Jordy Samuels
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Norns (by Ludwig Burger, Public Domain)
Nornas Ludwig Burger (Public Domain)

As nornas eram entidades femininas sobrenaturais responsáveis pelo destino de todos os seres vivos na Escandinávia da Era Viking. Associadas a Yggdrasil, a árvore do mundo e elemento central dos nove reinos da cosmologia nórdica, as nornas não são agentes ativas nas histórias de Odin, Thor e Loki. Em vez disso, elas permanecem no fundo sombrio da imaginação da Era Viking como manifestações implacáveis do que foi, do que é e do que inevitavelmente está por vir.

O Destino na Imaginação Viking

Na mentalidade nórdica, o futuro era pre-determinado e imutável. Embora os escandinavos da Era Viking acreditassem no livre arbítrio, entendiam as escolhas individuais como passos dados em direção a um resultado pré-existente e inevitável. O destino de qualquer indivíduo não estava nas mãos das nornas. Na verdade, a expressão nórdica antiga norna domr («decisão das nornas») era sinónimo de infortúnio, um tema comum na literatura nórdica antiga.

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Numa cosmologia repleta de criaturas diferentes, as nornas detinham poder sobre todos, mas não são descritas como deuses.

Mesmo os próprios deuses estavam presos a destinos pre-determinados, mas ainda assim fizeram várias tentativas, em última análise fúteis, para subvertê-los ou evitá-los. Frigg tenta salvar o filho Baldr da morte pre-destinada, garantindo promessas de todas as coisas do mundo de não lhe fazer mal, apenas para ser frustrada pela única coisa no cosmos que ignorou. Os Æsir (Asses/Ases) tentam prender Fenrir — o lobo monstruoso destinado a matar Odin durante a batalha de Ragnarök —, mas a sua fuga acaba por se tornar um prenúncio do fim. Até mesmo Thor tenta subverter o destino pescando a grande serpente Midgard Jörmungandr bem antes do seu duelo fatal, para mencionar apenas alguns exemplos de deuses que tentaram evitar o que está por vir. Em todos os casos, porém, as nornas parecem permanecer à margem das histórias, sem demonstrar qualquer afeto ou opinião, governando o destino.

Odin fighting Fenrir
Odin lutando contra Fenrir Emil Doepler (Public Domain)

Seres Femininos

Numa cosmologia repleta de criaturas diferentes — elfos, anões, jötnar, Æsir, Vanir, humanos, trolls e muito mais — as nornas detinham poder sobre todos, mas não são descritas como deuses. Em algumas fontes, são mulheres humanas, gigantes ou aparecem em grupos como descendentes dos Æsir, dos elfos ou dos anões, caso há em que eram chamadas de «filhas de Dvalin» (Byock 2005, pág. 26). Independentemente das suas origens, as nornas são sempre descritas como entidades femininas poderosas, alinhando-as em tema, se não em função, a outros seres femininos poderosos da mitologia nórdica, incluindo as valquírias e as dísir. Na sua manifestação como árbitras da fortuna, a Prose Edda, (Edda em Prosa) compilada no século XIII por Snorri Sturluson, descreve muitas nornas que vêm a cada pessoa no momento do nascimento para decidir quanto tempo viverá, mas também menciona que as nornas boas, nascidas de linhagens nobres, moldam vidas boas, enquanto as nornas más moldam os destinos dos miseráveis e infelizes na vida.

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Em conjunto, os nomes destas figuras femininas estão relacionados ao passado, presente e futuro, respectivamente.

Os estudiosos acreditam que esta multiplicidade de nornas pode refletir crenças mais precisas às ideologias nórdicas pré-cristãs do que à trindade, que pode ter sido influenciada pela comparação ou exposição a precedentes clássicos. Embora seja difícil traçar a história destas figuras femininas do destino, as nornas são mais conhecidas como um grupo de três, cujos nomes estão relacionados ao verbo verða, "ser", do nórdico antigo.

Urd, Verdandi e Skuld

A Prosa Edda de Snorri identifica Urd (ON: Urðr) como a primeira das nornas. O seu nome pode ser traduzido como «destino», «sorte» ou «tornou-se» (urðum em nórdico antigo) e provavelmente deriva de Urdar brunnr («Poço de Urd»), o nome de uma das nascentes perto das raízes de Yggdrasil. A Edda Poética identifica Urdar brunnr como o lar das nornas e localiza-o perto do centro do cosmos. Curiosamente, esta centralidade pode ter inspirado Eilífr Goðrúnarson, um poeta do final do século X na corte de Jarl Hákon, a identificá-la como o lar de Cristo, indicando ainda mais um fascínio duradouro por este local, mesmo no meio à conversão ao cristianismo da Escandinávia .

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Além de sua associação com o poço, não se fala muito sobre a própria Urd. De acordo com as Eddas, ela divide o seu papel e responsabilidades com Verdandi ("tornar-se") e Skuld, cujo nome vem do nórdico antigo skulu, que significa "tornar-se ou pretender", mas também pode ser traduzido como algo como "obrigação" ou "deve ser". Em conjunto, os nomes destas figuras femininas estão relacionados com o passado, o presente e o futuro, respetivamente, embora Neil Price adverta os leitores para não assumirem o cliché de donzela, mulher e anciã comumente associado a trios de deusas. Ao lado da árvore, estas três nornas são descritas a espalhar argila húmida da beira da água no tronco de Yggdrasil, num esforço para manter a árvore saudável, o que pode ter sido imaginado como uma batalha difícil, considerando que muitos dos habitantes do ecossistema de Yggdrasil roíam constantemente os seus ramos e raízes.

Yggdrasil
Yggdrasil Friedrich Wilhelm Heine (Public Domain)

Nos Contos dos Mortais

Nos poemas heróicos da literatura nórdica antiga sobre a vida de homens e mulheres humanos, as nornas são mencionadas com frequência, mas de passagem, normalmente quando os personagens lamentam momentos maus do seu passado ou coisas infelizes que estão por vir. Em Reginsmál ("A Canção de Regin") na Edda Poética, um anão chamado Andvari diz a Loki que, "nos tempos antigos, uma norna cruel moldou o nosso destino, de modo que tive de vagar pelas águas" (Orchard 2011, pág. 155). Em Fáfnismál («Canção de Fáfnir»), Sigurd pede a um dragão moribundo que lhe conte sobre a natureza das «nornas, que vêm em auxílio dos necessitados e ajudam as mães a dar à luz» (Idem, pág. 162). Em Guðrúnarkviða in forna («A antiga canção de Guðrun»), o marido da protagonista descreve as nornas a acordá-los num clima de presságio sombrio e menciona uma profecia do seu assassinato às mãos da sua mulher.

O início do poema Helgakviða Hundingsbana in fyrri ( «A canção anterior de Helgi, o matador de Hunding») prepara o cenário para a vida de Helgi, indicando que as nornas visitaram Helgi no dia do seu nascimento, prometendo-lhe uma vida de fama e glória. Logo após o nascimento de Helgi, o poema diz:

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Era noite na propriedade, as nornas vieram, aquelas que moldariam o destino daquele nobre; elas disseram que ele se tornaria o mais famoso dos senhores da guerra e seria considerado o melhor dos príncipes. Elas trançaram fortemente os fios do destino, abalaram a fortaleza em Brálund; elas arrumaram os fios dourados e os fixaram no meio, sob o salão da Lua.

(Ibid., pág. 117)

Estes fios do destino também são mencionados em Reginsmál, onde são uma indicação do poder de Sigurd como nobre e são descritos como «espalhados por todas as terras» (Ibid., pág. 157). O papel das nornas na literatura heróica como agentes ativas do destino é muito mais explícito do que nas histórias dos deuses: os humanos da Era Viking parecem ter sido muito mais conscientes ou, pelo menos, mais francos sobre a inevitabilidade de resistir ao destino do que os seus deuses.

Escultores e Tecelões

Embora as nornas sejam, sem dúvida, moldadoras do destino, as fontes divergem ao descrever como ou se existe um processo físico associado à formação das vidas e destinos de todas as criaturas nas suas mãos. A Edda Poética descreve as nornas esculpindo madeira na sua casa sob a árvore do mundo:

De lá vêm donzelas, sabendo muito, três do lago que fica sob a árvore... elas esculpiram em tabuinhas de madeira... leis que estabeleceram, vidas que escolheram para os filhos da humanidade, os destinos dos homens.

(Orchard 2011, pág. 8)

Podemos imaginar que as nornas provavelmente esculpiam runas nas suas tabuinhas de madeira. As runas eram um alfabeto anterior à Era Viking e eram o principal sistema de escrita usado na Escandinávia pré-cristã. Existiam muitas iterações de alfabetos rúnicos, mas os mais conhecidos são o Futhark Antigo e o Futhark Recente, assim chamados devido às suas idades relativas e porque as primeiras letras dos seus alfabetos rúnicos correspondem às letras F, U, TH, A, R e K. Isto é semelhante à convenção introduzida pelo «alfa» e «beta» gregos, que deram origem à palavra «alfabeto», e ao alfabeto romano, também conhecido como «ABC». As runas individuais eram compostas principalmente por linhas retas, o que facilitava a sua gravação em materiais duros como madeira, chifre, osso, metal e pedra.

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Ring with Runic Inscription
Anel com Inscrição Rúnica The Trustees of the British Museum (CC BY-NC-SA)

Os arqueólogos encontraram uma abundância de inscrições rúnicas em objetos grandes e pequenos, demonstrando que as runas eram usadas para identificar ou rotular objetos, comemorar conquistas ou a vida dos falecidos, escrever mensagens e tentar magia. Na verdade, as próprias runas muitas vezes tinham nomes e eram consideradas poderosas: Odin sacrificou-se a si mesmo e ficou pendurado em Yggdrasil por nove noites apenas para adquiri-las. Enquanto Odin teve de lutar para ter o seu poder, Sleipnir, o cavalo de oito patas de Odin e filho de Loki com uma égua, tinha-as gravadas nos dentes, e as próprias nornas tinham runas gravadas em cada unha, simbolizando a natureza protegida dos seus poderes.

O poder das runas e a sua relação com presságios e profecias é atestado em Atlamál in Grœlenzku («A Canção Groenlandesa de Atli»), quando é mencionada uma mulher que «sabia ler as runas, soletrava palavras à luz da fogueira» (Idem, pág. 217). Este poema reconhece que «poucas pessoas dominam as runas» (Ibid.), mas implica definitivamente que este poderoso alfabeto não se limitava ao uso pelos deuses e nornas, embora se diga que as runas em Atlamál estão de alguma forma estragadas e difíceis de ler, resultando em confusão e descrença sobre os destinos que descreviam.

Algumas representações das nornas aludem à sua manipulação dos fios do destino, o que pode ser a origem da ideia do seu papel como tecelãs do destino. Considerando que as fontes existentes não mencionam explicitamente que tecem, faz sentido que esta tenha sido uma interpretação provavelmente influenciada pelo contacto posterior com histórias das Parcas da mitologia grega, baseadas no seu papel de afetar os fios que moldavam a vida dos homens, conforme descrito em Helgakviða Hundingsbana in fyrri (O Primeiro Canto de Helgi, Matador de Hundingr). No seu livro Children of Ash and Elm: A History of the Vikings, (Filhos do Freixo e do Olmo: Uma História dos Vikings), Neil Price destaca a pungência desta metáfora no que diz respeito à tecelagem num tear. No caso de um tear vertical, a urdidura de um tecido incluirá um padrão determinado antecipadamente pelo enfiamento das liças. Embora este padrão seja inerente ao tecido desde o início do processo de tecelagem, não é discernível até que o tecido esteja quase completo. Na imaginação da Era Viking, isto teria representado uma metáfora adequada para a inevitabilidade do destino: a tecelã pode tomar decisões no processo de confecção, mas nada do que ela fizer mudará o padrão do produto.

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Codex Regius of the Poetic Edda
Códice Regius da Edda Poética Unknown (Public Domain)

Além do Destino e do Fatalismo

Quer estivessem a esculpir madeira ou a tecer fios, as nornas e o destino que elas personificavam estavam no centro da mentalidade fatalista dos vikings. Neste contexto, podemos compreender como a profecia e o conhecimento eram tão poderosos e trágicos nas histórias e crenças da Era Viking. Naquela época, tal como hoje, os humanos estavam numa luta constante para compreender por que as coisas aconteciam da maneira que aconteciam, para dar sentido ao presente e para antecipar o que o dia seguinte traria. O facto de a imaginação da Era Viking incluir os seus deuses nesta luta reafirma as suas convicções sobre o destino e a sorte.

Isso, por sua vez, oferece um contexto para a profecia viking: o poema Völuspá, da Edda Poética, apresenta uma vidente, com um tom desconcertante em suas palavras, que recita visões do passado e do futuro de todo o cosmos. A vidente neste poema, tal como o trio de nornas, estende a ideia do destino sobre a história e a profecia, fluindo de vislumbres de uma para a outra e fazendo com que o futuro pareça quase como o passado na sua certeza onírica. Mas as nornas nunca se expressam da mesma maneira que a vidente fala neste poema. Em vez disso, recolhemos o que sabemos sobre elas a partir de outros que falam sobre o seu impacto sobre os vivos. No final de Hamdismál in forma («A antiga canção de Hamdir») na Edda Poética, o narrador resume a finalidade das nornas como árbitras do destino: «Grande glória conquistámos, embora morramos agora ou amanhã; nenhum homem sobrevive a um único crepúsculo além do decreto das nornas» (Ibid., pág. 238).

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Jordy Samuels
Jordy é uma bibliotecária, entusiasta de história e uma pessoa persistentemente curiosa. Adora mitos e o estudo de sistemas de crenças, ler 'graphic novels', cozinhar, olhar para o céu em dias parcialmente nublados e aprender com outras pessoas curiosas, especialmente crianças.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Samuels, J. (2025, novembro 05). Nornas: Figuras Femininas do Destino. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25273/nornas/

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Samuels, Jordy. "Nornas: Figuras Femininas do Destino." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 05, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25273/nornas/.

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Samuels, Jordy. "Nornas: Figuras Femininas do Destino." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 05 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25273/nornas/.

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