George H. Thomas (1816-1870) foi um general da União na Guerra Civil Americana que ganhou destaque a nível nacional pela primeira vez após a sua vitória na Batalha de Mill Springs (19 de janeiro de 1862), no Kentucky, a primeira vitória da União no Teatro de Operações Ocidental da guerra. Após Mill Springs, a série de vitórias de Thomas continuou ao longo de todo o conflito, tendo desempenhado um papel fundamental em muitas das batalhas mais decisivas do Teatro de Operações Ocidental.
Apesar disso, o seu nome não é tão conhecido como os de Ulysses S. Grant ou William Tecumseh Sherman, em parte porque, depois de ter combatido na Primeira Batalha de Bull Run (Primeira Manassas), foi transferido para oeste, e o Teatro de Operações Ocidental da Guerra Civil nunca recebeu o mesmo nível de atenção que o Teatro de Operações Oriental, mesmo enquanto a guerra decorria.
Ademais, também foi ignorado porque, ao contrário de outros generais da Guerra Civil, nunca se promoveu publicamente, recusou frequentemente promoções militares, nunca escreveu um livro de memórias do pós-guerra e fez com que a sua mulher queimasse todos os seus documentos pessoais e correspondência após a sua morte. Acresce que era um virginiano que optou por permanecer leal à União, o que levou a sua família a renegá-lo e a queimar toda a sua correspondência.
Thomas era conhecido pela sua modéstia, pelo cuidado que demonstrava pelos seus homens, pelo seu comportamento calmo durante as batalhas e pelo seu planeamento deliberado e cuidadoso dos combates — este último aspeto valeu-lhe a reputação de ser um general «lento» —, uma característica que enfurecia especialmente Grant.
Ainda assim, conquistou até mesmo o respeito relutante de Grant como a «Rocha de Chickamauga» depois de ter salvado o exército da União de uma derrota total na Batalha de Chickamauga, em 1863, e, desde a sua morte, tem sido homenageado através de nomes de locais e monumentos em sua honra — nomeadamente o Thomas Circle, em Washington, D.C. – e é regularmente elogiado pelos estudiosos da Guerra Civil como um dos melhores generais da guerra, tanto do Norte como do Sul, classificado a par de Grant e Sherman.
A Infância e West Point
Quando os documentos e a correspondência de Thomas foram queimados, muitos pormenores da sua vida esfumaram-se, pelo que os historiadores têm muito menos material com que trabalhar do que no caso de outros generais da Guerra Civil, cujas vidas estão muito melhor documentadas. Ainda assim, existem provas suficientes para reconstruir a sua vida, tal como demonstrado pelas suas biografias e pelo romance histórico de Jack M. Zackin denominado This Army Does Not Retreat: The Memoirs of General George H. Thomas (Este exército não recua: As memórias do General George H. Thomas).
George Henry Thomas nasceu em Newsom’s Depot, no condado de Southampton, Virgínia, a 31 de julho de 1816, filho de John Thomas e Elizabeth Rochelle Thomas; tinha três irmãs e dois irmãos. A família pertencia à classe alta e era proprietária de uma grande plantação trabalhada por 15 escravos, em 1829.
A 20 de abril de 1829, quando Thomas tinha doze anos, o seu pai faleceu num acidente agrícola e a família sofreu graves dificuldades financeiras. Entre 21 e 23 de agosto de 1831, eclodiu a Rebelião de Nat Turner (também conhecida como a Insurreição de Southampton) e a família Thomas teve de fugir de casa, abrindo caminho através da floresta até à sede do condado, em Jerusalem.
Acredita-se que este acontecimento tenha afetado profundamente o jovem Thomas, uma vez que desfez o mito do «escravo satisfeito» e reformulou as suas opiniões sobre a escravatura. Thomas tinha sido criado com a crença comum no Sul de que os africanos que tinham sido raptados e vendidos como escravos beneficiavam do sistema. A rebelião de Turner demonstrou claramente que essa afirmação era insustentável.
Thomas recebeu a educação habitual dos rapazes da classe alta da Virgínia da sua época e, posteriormente, estudou Direito enquanto trabalhava no escritório do tio. O trabalho não lhe interessava e, em 1836, a família contactou o congressista John Y. Mason, que conseguiu a admissão de Thomas na Academia Militar de West Point.
Thomas foi colega de quarto de William Tecumseh Sherman e Stewart Van Vliet, levou os estudos a sério e formou-se em 12.º lugar na sua turma de 42 cadetes, em 1840. Recebeu o posto de segundo-tenente na Companhia D, 3.ª Artilharia dos EUA, e foi destacado para Fort Lauderdale, na Flórida, para servir na Segunda Guerra Seminole.
A região não era propícia ao uso de artilharia, pelo que Thomas serviu como soldado de infantaria. Em 1845, foi destacado para o Texas, numa altura em que as tensões que viriam a conduzir à Guerra Mexicano-Americana estavam a aumentar.
A Guerra Mexicano-Americana e a Vida Antes da Guerra Civil
Thomas, agora primeiro-tenente, comandou uma unidade de artilharia sob o comando do general Zachary Taylor, tendo participado em batalhas como as de Resaca de la Palma, Monterrey e Buena Vista. Thomas recebeu elogios entusiásticos dos seus superiores pela sua calma, ponderação e precisão em combate. Durante a guerra, tornou-se amigo íntimo de Braxton Bragg, que mais tarde viria a ser um dos generais adversários na Guerra Civil.
Em 1851, Thomas regressou a West Point como instrutor de cavalaria e artilharia, devendo a sua nomeação, em parte, à recomendação de Bragg. Entre os seus alunos encontrava-se outro futuro general confederado, J.E.B. Stuart, e Thomas tornou-se amigo do superintendente da academia, Robert E. Lee.
A 17 de novembro de 1852, Thomas casou-se com Frances Lucretia Kellogg, de Troy, Nova Iorque. A cerimónia de casamento realizou-se em Troy e a festa foi organizada pela família da noiva. O jovem casal permaneceu em West Point, vivendo nos alojamentos dos oficiais casados com Robert E. Lee e a sua família, até 1854, quando ele foi promovido a capitão e transferido para a Califórnia.
Na Califórnia, comandou um regimento de cavalaria e, durante uma escaramuça com invasores comanches em 1860, foi ferido por uma flecha que lhe atravessou o queixo e ficou cravada no peito. Thomas retirou a flecha, mandou o cirurgião tratar da ferida e continuou a liderar os seus homens. Este foi o único ferimento de combate que Thomas viria a sofrer ao longo da sua carreira militar.
Thomas sofreu uma lesão muito mais grave em novembro de 1860. Tinha tirado uma licença e viajava de comboio para visitar a família na Virgínia. Na estação de Lynchburg, Thomas saiu do comboio para esticar as pernas, escorregou e caiu por um talude abaixo, torcendo a coluna. Este incidente deixou-o com dores crónicas nas costas que o atormentaram pelo resto da vida, obrigando-o a mover-se lentamente, e «viria mais tarde a tornar-se uma metáfora através da qual rivais hostis criticariam os seus planos de batalha» (Bobrick, pág. 56).
Após as eleições presidenciais dos EUA de 1860, quando Abraham Lincoln foi eleito, a Carolina do Sul separou-se da União em dezembro — e outros estados do Sul seguiram-lhe o exemplo pouco depois. Entre a secessão da Carolina do Sul e as consequências da Batalha de Fort Sumter (12-13 de abril de 1861), os oficiais nascidos no Sul renunciaram às suas funções, optando por se aliar aos seus estados contra o governo federal.
Como natural da Virgínia, esperava-se que Thomas, por ambas as partes, seguisse o exemplo. Embora tenha achado a decisão difícil, optou por permanecer leal à União. A sua família denunciou-o como traidor e renegou-o. Diz-se que as suas irmãs viraram a sua fotografia de cara para a parede e consideraram-no morto. Antigos admiradores, incluindo J.E.B. Stuart, queriam-no morto, na esperança de que fosse feito prisioneiro após uma batalha e pudesse ser enforcado por traição contra o seu estado natal.
Também não foi recebido de forma particularmente calorosa pelo estado-maior do exército da União. Como sulista, a sua lealdade à causa deles era suspeita e teria de provar o seu valor — o que fez, desde o seu primeiro comando de batalha até ao último.
A Guerra Civil Americana
Depois de Albert Sidney Johnston e Robert E. Lee terem renunciado aos seus cargos de coronel e tenente-coronel, respetivamente, Thomas foi promovido para os substituir. Serviu sob o comando do major-general Robert Patterson no Vale de Shenandoah, na Primeira Batalha de Bull Run (Primeira Manassas), a 21 de julho de 1861, foi promovido a general-de-brigada dos voluntários nesse mês de agosto e foi enviado para o oeste para servir sob o comando do major-general Robert Anderson, herói de Fort Sumter, no Kentucky.
A Thomas foi atribuída a tarefa de treinar os homens no Campo Dick Robinson e, ao chegar, encontrou o local em desordem e os novos recrutas desorganizados. Emitiu imediatamente ordens para corrigir a situação, instituindo uma disciplina e um treino de alta qualidade que transformariam esses recrutas na força de combate profissional que viria a constituir o Exército do Cumberland.
A Batalha de Mill Springs
Em janeiro de 1862, o major-general confederado George B. Crittenden guardava o ponto de acesso vital entre o Kentucky, neutro, e o Leste do Tennessee, pró-União — o Cumberland Gap —, e Thomas recebeu ordens para romper as suas linhas e expulsá-lo daquela posição.
O general-de-brigada confederado Felix Zollicoffer, sob o comando de Crittenden, tinha avançado anteriormente do Cumberland Gap até Somerset, no Kentucky, para atacar Thomas. Crittenden tinha ordenado a Zollicoffer que acampasse a sul do rio Cumberland, em Mill Springs, mas Zollicoffer optou por acampar a norte do rio, acreditando que essa posição era mais fácil de defender.
Zollicoffer também acreditava, erradamente, que Thomas comandava uma pequena força que poderia ser facilmente derrotada, sem saber que Thomas tinha chegado com duas brigadas e também tinha recebido reforços do general-de-brigada Albin F. Schoepf. Crittenden tinha a mesma impressão e ordenou a Zollicoffer que avançasse para Logan’s Crossroads e atacasse Thomas.
Thomas, com a sua deliberação clara e planeamento cuidadoso, derrotou os confederados, expulsando-os do campo de batalha numa derrota esmagadora. Como Zollicoffer tinha acampado a norte do rio Cumberland, o exército em fuga — que agora precisava de atravessar rapidamente o rio para o lado sul — abandonou provisões, cavalos e armamento. Zollicoffer foi morto na batalha (o primeiro general confederado a morrer na guerra) e a vitória de Thomas desencadeou celebrações no Norte e tornou-o famoso. O estudioso Stuart W. Sanders escreve:
Para os federais, a batalha reforçou a reputação de [um homem] cuja lealdade tinha sido posta em causa. O comandante da União nascido na Virgínia, George H. Thomas, alcançou grande fama. A ampla cobertura jornalística do combate — que se revelou a primeira vitória significativa da União — impulsionou Thomas…
(pág. 124)
Do Cerco de Corinth a Chattanooga
Thomas foi transferido para o comando do major-general Don Carlos Buell e, depois de o desempenho de Grant na Batalha de Shiloh (7 de abril de 1862) ter sido fortemente criticado, o major-general Henry W. Halleck substituiu Grant por Thomas, que voltou a provar o seu valor no Cerco de Corinth (29 de abril – 30 de maio de 1862) contra o general confederado P.G.T. Beauregard.
Thomas serviu sob o comando de Buell na Batalha de Perryville (8 de outubro de 1862), que travou a invasão do Kentucky por Braxton Bragg, mas foi depois preterido na promoção quando Buell foi substituído pelo Major-General William Rosecrans. Embora este comando devesse ter sido atribuído a Thomas, este aceitou a decisão e serviu sob o comando de Rosecrans, um estratega competente, mas inferior a Thomas como comandante de campo.
Na Batalha de Stones River (31 de dezembro de 1862 a 2 de janeiro de 1863), também conhecida como a Segunda Batalha de Murfreesboro, após o primeiro dia de combates, que se caracterizou por pesadas perdas da União, Rosecrans convocou um conselho de guerra no qual muitos dos seus oficiais defenderam veementemente a retirada.
Rosecrans não concordou e foi apoiado por Thomas, que proferiu a sua agora famosa frase: «Este exército não recua.» Thomas e o brigadeiro-general Philip Sheridan mantiveram então o centro durante o resto da batalha, limparam as suas frentes e Braxton Bragg foi novamente derrotado. O estudioso Benson Bobrick comenta:
Posteriormente, os homens disseram de Thomas: «Lutar sob o seu comando era como ter um muro de pedra à nossa frente ou uma bateria a proteger-nos.» O próprio facto da sua presença, a dar ordens com calma e serenidade sob o fogo mais intenso, deu firmeza aos seus homens perante a tempestade.
(pág. 153)
Bragg voltou a defrontar as forças de Rosecrans na Batalha de Chickamauga (18-20 de setembro de 1863), o combate pelo qual Thomas se tornou mais famoso antes de Nashville. Na manhã de 20 de setembro, Rosecrans recebeu informações erradas de que havia uma brecha na sua linha e, por isso, deslocou uma das suas unidades para a colmatar. Ao fazê-lo, criou uma brecha que foi imediatamente explorada pelo tenente-general confederado James Longstreet.
O ataque de Longstreet rompeu as linhas da União e afastou pelo menos um terço do exército do campo de batalha, incluindo Rosecrans. Thomas assumiu o comando do que restava do exército ainda no campo de batalha e manteve a sua posição no centro, em Horseshoe Ridge (igualmente conhecido como Snodgrass Hill).
Reforçado por outras unidades, Thomas continuou a resistir até ao anoitecer, altura em que orquestrou uma retirada ordenada do campo de batalha. Chickamauga foi uma vitória confederada, mas Thomas tinha salvado o exército de Rosecrans de uma derrota total, o que lhe valeu a alcunha de «Rocha de Chickamauga».
Durante a Campanha de Chattanooga (21 de setembro a 25 de novembro de 1863), Grant substituiu Rosecrans por Thomas (a 19 de outubro) e, na Batalha de Missionary Ridge (25 de novembro de 1863, também conhecida como a Batalha de Chattanooga), os homens de Thomas lançaram-se numa famosa investida morro acima — sem ordens — aparentemente porque sabiam que era isso que ele esperaria deles — expulsando as forças confederadas daquilo que tinha sido considerado uma posição inexpugnável.
A Campanha de Franklin-Nashville e o Fim da Guerra
Thomas voltou a destacar-se durante a Campanha de Franklin-Nashville (18 de setembro – 27 de dezembro de 1864), o último grande confronto no Teatro Ocidental da Guerra Civil. Thomas protegeu a retaguarda da União durante a «Marcha para o Mar» de Sherman (15 de novembro – 21 de dezembro de 1864) e destruiu o Exército Confederado do Tennessee, comandado pelo Tenente-General John Bell Hood, na Batalha de Nashville (15-16 de dezembro de 1864), o que lhe valeu outra alcunha: «O Martelo de Nashville».
A Batalha de Nashville ilustra a preparação e execução cuidadosas de Thomas numa batalha. Ulysses S. Grant ordenou impacientemente e repetidamente que Thomas atacasse Hood — mas Thomas recusou-se a avançar até que a sua cavalaria estivesse totalmente equipada e o tempo tivesse melhorado.
Grant tinha chegado ao ponto de substituir Thomas e, posteriormente, de assumir ele próprio o comando das operações, quando Thomas lançou o seu avanço bem-sucedido. Após a vitória de Thomas, Hood renunciou ao seu cargo e o seu Exército do Tennessee deixou de existir como força de combate coesa.
Entre a Marcha de Sherman para o Mar e as ações de Thomas na Campanha de Franklin-Nashville, o Sul ficou derrotado. Grant lançou então a Campanha de Appomattox (29 de março – 9 de abril de 1865), que conduziu à rendição de Lee em Appomattox Court House, a 9 de abril de 1865, e ao fim da Guerra Civil Americana.
Conclusão
Após a guerra, Thomas comandou o Departamento de Cumberland, responsável por vários territórios do Sul. Implementou políticas para proteger os antigos escravos (conhecidos como «homens livres») e destacou as suas tropas para proteger os negros dos abusos e da perseguição por parte do Ku Klux Klan.
Em 1869, solicitou a transferência para a Califórnia. A 28 de março de 1870, enquanto escrevia uma resposta a um artigo do seu rival John Schofield, que criticava a forma como tinha conduzido a Batalha de Nashville, Thomas sofreu um AVC grave e faleceu. A sua esposa atribuiu a culpa pela morte do marido ao artigo de Schofield e à má gestão de Grant em relação a ele (Bobrick, pág. 332). A família de Thomas recusou-se a comparecer ao funeral.
George H. Thomas esteve no comando total de apenas duas batalhas — Mill Springs e Nashville —, mas a sua presença em todos os outros combates revelou-se decisiva. Bobrick cita a avaliação do famoso historiador da Guerra Civil, Bruce Catton:
Bruce Catton disse sobre Thomas: «O que um general podia fazer, Thomas fez; não existia, nem jamais existiu, soldado mais de confiança num momento de crise no continente norte-americano.»
(pág. 336)
Os estudiosos e historiadores da Guerra Civil, incluindo Bobrick, concordam geralmente que Thomas tem sido subvalorizado e ignorado, e as razões para tal foram apresentadas acima. Uma razão mais reveladora, no entanto, é que parece ter sido isso mesmo que o próprio Thomas teria desejado.
Ele pediu à sua esposa que queimasse as suas cartas para que, após a sua morte, ninguém tivesse acesso à história da sua vida. Recusou-se a escrever um livro de memórias, recusou-se a envolver-se com os críticos — com exceção da sua resposta acalorada ao artigo de Schofield no dia da sua morte — e, quando foi preterido nas promoções, recusou-se a contestar a decisão.
Em tudo isto, rejeitou o tipo de drama que muitos outros generais da Guerra Civil encorajaram, durante e após a guerra. Thomas optou por servir os interesses da União em detrimento do seu estado natal, compreendeu isso como uma responsabilidade que devia ao seu país, uma tarefa que precisava de ser cumprida, e, de forma discreta e sem pretensões, dedicou-se a desempenhar essa tarefa com grande competência.
