Tempo do Sonho (Dreamtime)

Liana Miate
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Rainbow Serpent Art (by Sailko, CC BY-SA)
A Arte da Serpente Arco-Íris Sailko (CC BY-SA)

Tempo do Sonho (Dreamtime - The Dreaming) é o termo utilizado para descrever a mitologia e a espiritualidade dos indígenas australianos. É uma filosofia, uma visão do mundo, uma cosmologia e um modo de vida que explica como o mundo foi criado. Embora as pessoas associem frequentemente os sonhos ao Tempo do Sonho, este abrange muito mais do que isso.

O Tempo do Sonho é uma consciência expansiva que lida com tudo, desde o significado da vida até a todos os aspetos intermédios. Os indígenas australianos estabelecem uma distinção entre os sonhos comuns e os sonhos mais espirituais associados ao Tempo do Sonho.

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Os mitos do Tempo do Sonho têm sido transmitidos oralmente ao longo de milhares de anos e são comunicados através de canções, da narração de histórias, da dança e da arte. Estes mitos conferiam sabedoria e propósito a cada indivíduo. O Tempo do Sonho não ocorreu no passado, mas está sempre presente numa linha temporal paralela que continua a nutrir a terra. O tempo e o lugar são infinitos no Tempo do Sonho. Os indígenas australianos acreditam que as suas vidas já foram predestinadas pelos seres espirituais do Tempo do Sonho e que é seu dever viver de acordo com esses preceitos.

Os Aborígenes Australianos e a Terra

Os aborígenes australianos são compostos por vários grupos indígenas que chegaram pela primeira vez à Austrália vindos da Ásia há cerca de 65 000 anos. Habitaram o território continental da Austrália e as suas inúmeras ilhas. Cada grupo possuía a sua própria língua, tradições e cultura únicas, incluindo diferentes deuses e histórias da criação. Locais na Austrália moderna estão ligados a grupos indígenas australianos específicos; por exemplo, Sydney é o lar da nação Eora, enquanto Melbourne é a terra do povo Wurundjeri.

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Os indígenas australianos acreditam que o espaço foi formado durante o Tempo do Sonho.

O conhecimento não está disponível de forma livre na cultura indígena australiana, baseando-se na idade, no género e na pertença a um clã. Algumas línguas são faladas apenas por mulheres, e vice-versa. Existem diretrizes rigorosas para tudo, incluindo cerimónias religiosas, direitos sobre a terra e relações sociais.

Os indígenas australianos veem-se como guardiões da terra e não como seus proprietários. A terra é parte integrante do Tempo do Sonho, com cada aspeto da paisagem australiana a carregar sinais dos seres ancestrais e de magia. As nuvens cinzentas, as águas esmeralda dos lagos e rios, e a vermelhidão do pó e das rochas, tudo carrega qualidades elementares. As águas correntes do riacho recordam-nos a Serpente Arco-Íris, que criou os cursos de água com o seu corpo escavador. As mamoas de pedra simbolizam o espírito do Pai de Todos, Baiame (Biame), que desceu do céu com a sua lei sagrada, enquanto as fogueiras evocam o fogo original acendido pelas mãos da Mãe Sol, e um deslizamento de terras pode narrar uma batalha violenta.

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Embora toda a terra seja sagrada para os indígenas australianos, algumas partes são mais especiais ou poderosas do que outras. Estas incluem Uluru (Ayers Rock), Kata Tjuta (Olgas) e as águas de Kununurra. Estes são alguns dos locais onde a energia dos espíritos ancestrais está mais concentrada devido à sua associação com as histórias do Tempo do Sonho.

Uluru
Uluru Angelo Giordano (Public Domain)

O poder da terra pode ser visto nas histórias outrora contadas sobre as Rochas de Nimbin, em Nova Gales do Sul. Supostamente, uma elevada percentagem de mulheres que viviam nas proximidades das Rochas de Nimbin sofria abortos espontâneos. Abordaram um ancião aborígene, que as informou de que as Rochas de Nimbin eram tradicionalmente um local masculino e que as mulheres não deveriam visitá-lo. Estas mulheres afastaram-se da proximidade das rochas e conseguiram ter gravidezes bem-sucedidas.

O Espaço

Os indígenas australianos também acreditam que o espaço foi formado durante o Tempo do Sonho. O eclipse é descrito como o Sol a acasalar com o seu consorte. A Via Láctea foi criada quando o espírito da serpente derrubou uma árvore e enviou pirilampos cintilantes para a escuridão da noite. A constelação do Cruzeiro do Sul formou-se quando uma possum trepou a uma árvore, ficou presa e tornou-se uma marca celestial, enquanto a constelação de Sagitário se assemelha a lanças erguidas para o céu por espíritos coléricos. Os indígenas australianos utilizam o céu noturno e as constelações como guia para localizações físicas e fronteiras tribais.

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The Milky Way Over Uluru
A Via Láctea sobre o Uluru Eddie Yip (CC BY-SA)

Os Animais

Os contos sobre animais constituem a maioria das histórias do Tempo do Sonho, sendo a história mais famosa a da Serpente Arco-Íris, que é vista como uma divindade criadora. No Tempo do Sonho, os animais são simultaneamente criaturas e seres humanos. Possuem as mesmas características que os animais (pelo e caudas), mas também realizam ações humanas, como falar e utilizar lanças para caçar. Alguns contos explicam a razão de certos animais terem determinadas características humanas, enquanto outros relatam como os animais que hoje conhecemos evoluíram a partir de formas humanas.

Algumas das histórias mais conhecidas do Tempo do Sonho sobre animais incluem:

  • A Serpente Arco-Íris
  • Boora, o Pelicano
  • Como o Canguru Ganhou a sua Cauda
  • A Ave da Chuva
  • Como o Coala Perdeu a sua Cauda
  • Weedah, o Pássaro-Troça
  • Como a Tartaruga Ganhou a sua Carapaça
  • Como Surgiu o Ornitorrinco
  • Tiddalick, a Rã Gananciosa
  • Como as Aves Ganharam as suas Cores
  • As Mulheres-Lagarto
  • A Rã Gigante
  • O Dingo Branco
  • Como os Cisnes se Tornaram Negros
  • Cuidado com o Bunyip!
The Rainbow Serpent
A Serpente Arco-Íris Mark O'Neil (Digital Tribes) (CC BY)

Os Trilhos do Canto

Os Trilhos do Canto (Songlines), também conhecidos como "Caminhos do Sonho", são linhas de energia que se encontram por toda a Austrália e são considerados um "sistema de conhecimento". Foi uma ideia popularizada na década de 1980 pelo escritor de viagens inglês Bruce Chatwin (1940-1989), que passou algum tempo na Austrália a aprender mais sobre as crenças e tradições dos indígenas australianos. Os Trilhos do Canto são as rotas que os seres do Tempo do Sonho percorreram sobre a terra e o céu, podendo ser visualizados como caminhos de conhecimento. Estes seres deram nome a tudo o que encontraram e deixaram marcas pelo caminho. Alguns destes seres ancestrais regressaram aos céus, enquanto outros se transformaram em pedra, onde ainda hoje podem ser vistos.

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A vasta paisagem australiana e as inúmeras nações indígenas australianas contribuem, todas elas, para as ricas e diversificadas histórias do Tempo do Sonho.

Os trilhos do canto estão associados a animais (na sua maioria nativos), a elementos naturais (água) e a eventos modernos (desastres naturais). Se alguém cantar a canção do herói na sequência correta e seguir as pegadas dos seres supremos, poderá percorrer longas distâncias sem se perder. As canções descrevem a paisagem geográfica e podem até guiar um indivíduo até ao local onde encontrar alimento na natureza. Por conseguinte, não são apenas ferramentas de navegação, mas também guias de sobrevivência. Os povos indígenas aprendem estes mapas através de canções e histórias. No entanto, diferentes fatores (idade e género) determinam se alguém pode aceder à totalidade de um trilho do sonho ou apenas a partes dele.

Os trilhos do canto cobrem o vasto continente australiano; alguns são mais longos do que outros e fluem em direções específicas. Poderia ser considerado sacrílego se alguém caminhasse no sentido errado ao longo de um trilho do canto. Certos trilhos podem ser cantados em diferentes línguas, uma vez que atravessam o território de várias nações. Contudo, o ritmo da canção ajuda os viajantes a manterem-se no caminho certo.

O Território

O local onde uma nação indígena australiana vive tem impacto nas suas histórias do Tempo do Sonho. Por exemplo, as tribos indígenas australianas que vivem junto ao mar ou ao oceano possuem histórias que apresentam criaturas como golfinhos, tartarugas e crocodilos de água salgada, enquanto as histórias das gentes que vivem no deserto ou no mato (bush) apresentam dingos, cangurus e emas. O dugongo é sagrado para as comunidades das Ilhas do Estreito de Torres, no norte da Austrália, pelo que as suas histórias destacam as viagens do dugongo de ilha em ilha.

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A vasta paisagem australiana e as inúmeras nações indígenas australianas contribuem, todas elas, para as ricas e diversificadas histórias do Tempo do Sonho.

O Comunicar com a Terra

Os indígenas australianos acreditam que se deve cantar para a terra (Yorro Yorro) para mantê-la viva, e que esta deve também ser escutada atentamente (Dadirri) e observada. Cantar para a terra (Yorro Yorro) é fundamental para manter a vida selvagem viva e renovar a natureza, uma vez que preserva a harmonia. As canções entoadas referem-se aos feitos heroicos e às viagens dos seres ancestrais. Algumas são curtas, enquanto outras são tão longas que podem demorar dias a serem cantadas. Os anciãos podem sonhar com uma nova parte de uma canção que será, então, adicionada ao trilho do canto. A conjugação destas canções com danças sagradas exerce uma força poderosa e positiva sobre a terra.

Aboriginal Rock Art
Arte Rupestre Aborígene Graeme Churchard (CC BY)

Escutar a terra (Dadirri) é também outra forma de permanecer ligado ao território. Os povos indígenas acreditam que a terra fala connosco. Diferentes nações indígenas australianas têm as suas próprias formas de escutar a terra, tais como a meditação e a respiração profunda. Os indígenas australianos são ensinados a olhar para a terra com o seu terceiro olho e a procurar sinais do mundo espiritual. Por exemplo, a queda súbita de uma árvore com aspeto perfeitamente saudável pode ser um sinal espiritual.

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As Figuras Chave do Tempo do Sonho

Tal como em todas as outras mitologias e religiões mundiais, algumas figuras chave (Grandes Espíritos) são mais conhecidas e tidas em maior consideração do que outras. Note-se que os nomes dos Grandes Espíritos, das divindades e os seus poderes podem diferir de nação para nação e de tribo para tribo.

  • Baiame (Byamee): o espírito criador que criou a terra e a humanidade. É a encarnação do cuidado e da bondade. Como sinal do seu amor, elevou uma das suas esposas, Birrahgnooloo, para viver ao seu lado no céu e descreveu-a como a Mãe-de-Todos.
  • Yhi (Yarai): a deusa do sol que forneceu luz e calor ao mundo de Baiame. Yhi é a contraparte feminina de Baiame.
  • Punjel: outro espírito pai, que é subordinado a Baiame.
  • Bahloo: o deus da lua.
  • Marmoo: o espírito do mal.
  • Bunjil: uma divindade criadora sagrada para o povo Kulin do centro de Vitória.
  • Binbeal: um espírito associado ao arco-íris, filho de Bunjil.
  • A Serpente Arco-Íris: sem dúvida um dos espíritos ancestrais mais conhecidos do Tempo do Sonho. A Serpente Arco-Íris é o espírito da água, das cheias e da chuva. Muitas tribos aborígenes acreditam que a terra secará e a vida deixará de existir sem a Serpente Arco-Íris.
Wonnarua Painting of Baiame
Pintura Wonnarua de Baiame Faithy05 (CC BY-SA)

O Tempo do Sonho na Atualidade

O sistema de crenças dos indígenas australianos da atualidade é influenciado pelas suas crenças tradicionais, pelas religiões introduzidas pelos europeus, pelo passado colonial sombrio da Austrália e pelos acontecimentos atuais. No entanto, estes povos continuam a manter laços fortes com a terra e com a sua herança.

A dança, as histórias, as pinturas tradicionais de pontos (Papunya Tula) e os trilhos do canto continuam a transmitir sabedoria e lições inestimáveis sobre a terra e o Tempo do Sonho. Os conteúdos dos meios de comunicação modernos, como filmes, programas de televisão e livros, também desempenham um papel na educação dos australianos e do mundo sobre a importância histórica e espiritual do Tempo do Sonho.

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Nota da autora: A autora reconhece os Proprietários Tradicionais da terra onde escreve. Gostaria também de prestar a sua homenagem aos Anciãos do passado, do presente e aos que estão a surgir.

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Perguntas & Respostas

O que é o Tempo do Sonho (Dreamtime)?

Tempo do Sonho (Dreamtime) é o termo utilizado para descrever a mitologia e a espiritualidade dos indígenas australianos. Trata-se de uma filosofia, uma visão do mundo, uma cosmologia e um modo de vida que explica como o mundo foi criado.

Quais são algumas das histórias famosas do Tempo do Sonho?

Algumas das histórias mais famosas do Tempo do Sonho incluem «A Serpente Arco-Íris», «Como o Canguru Ganhou a sua Bolsa», «Tiddalick, o Sapo» e «As Sete Irmãs».

Como é ensinado o Tempo do Sonho?

As histórias do Tempo do Sonho são ensinadas e transmitidas através de contos, canções, dança e arte.

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Miate, L. (2026, maio 21). Tempo do Sonho (Dreamtime). (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23941/tempo-do-sonho-dreamtime/

Estilo Chicago

Miate, Liana. "Tempo do Sonho (Dreamtime)." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 21, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23941/tempo-do-sonho-dreamtime/.

Estilo MLA

Miate, Liana. "Tempo do Sonho (Dreamtime)." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 21 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23941/tempo-do-sonho-dreamtime/.

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