O Heinkel He 111 era um avião bombardeiro médio bimotor, utilizado pela Força Aérea Alemã (Luftwaffe) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Os Heinkel He 111 contribuíram significativamente para as campanhas como a Batalha de França, a Batalha de Inglaterra e o Blitz de Londres, mas foram sendo progressivamente substituídos, a partir de 1941, pelo mais moderno e veloz Junkers Ju 88.
Os Projectos Iniciais
O He 111 foi inicialmente concebido como um avião de passageiros civil para a Lufthansa, contudo em 1933, quando os nazis chegaram ao poder na Alemanha a produção voltou-se mais abertamente para as máquinas de guerra. O Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial (1914-18), tinha proibido estritamente a Alemanha de possuir uma força aérea militar, mas o líder alemão Adolf Hitler (1889-1945) avançou e formou várias esquadras secretas de qualquer maneira. Outra forma de contornar a restrição era construir aeronaves civis que pudessem ser facilmente convertidas em bombardeiros; o He 111 inseria-se nesta última categoria.
Concebido por Siegfried e Walter Günter e baseado no modelo anterior, o He 70, o bombardeiro He 111 era fabricado pela Heinkel, uma empresa de aviação fundada e dirigida por Ernst Heinkel (1888-1958). Heinkel tinha uma vasta experiência com aeronaves militares, tendo construído aviões para a Marinha alemã e para o exército Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial. Após muito debate entre o alto comando alemão e Hitler, o comando de bombardeiros da Luftwaffe (Kampfwaffe) foi obrigado a adoptar a posição de que os bombardeiros deveriam ser utilizados principalmente de forma estratégica para apoiar as tropas terrestres. Isto significava que, ao contrário, por exemplo, da Força Aérea Real (Royal Air Force - RAF) britânica, a Luftwaffe não se concentrou em bombardeiros pesados, mas sim na criação de esquadras de bombardeiros médios mais versáteis. O He 111 foi o resultado deste conceito, ou seja, uma aeronave com múltiplas utilizações tácticas, mas incapaz de carregar cargas de bombas muito pesadas que pudessem desferir um golpe significativo em alvos terrestres. A curta autonomia do He 111 também foi um obstáculo, à medida que a frente de guerra crescia e a Alemanha pretendia bombardear a Grã-Bretanha.
O primeiro modelo protótipo do He 111 voou em fevereiro de 1935 nas instalações da Heinkel em Rostock-Marienehe (actualmente Rostock). Os ajustes no projeto incluíram o encurtamento das asas e a melhoria da estabilidade. Nesta fase, as aeronaves eram equipadas com motores BMW. Em 1936, a Lufthansa já operava vários He 111 como aviões de passageiros e de transporte. A aeronave conquistou o título de 'avião de passageiros mais rápido do mundo' quando registou uma velocidade máxima de 402 km/h (250 mph).
Entretanto, construíam-se versões militares, que tinham um nariz ligeiramente mais comprido e equipadas com metralhadoras. No entanto, a versão de bombardeiro não era suficientemente potente para os requisitos, e os motores BMW foram substituídos por motores Daimler-Benz (mais tarde substituídos, por sua vez, pelos Junkers Jumo). Em 1937, e graças a uma grande encomenda ministerial, a Heinkel construiu uma fábrica dedicada aos He 111 em Oranienburg, perto de Berlim. Seguiram-se outros desenvolvimentos, tais como o aumento da capacidade de combustível e a introdução de depósitos auto-vedantes, o reforço da proteção da blindagem, a criação de uma asa mais recta para tornar a produção em fábrica mais eficiente, a deslocação do artilheiro dianteiro ligeiramente para o lado para dar melhor visibilidade ao piloto e a atribuição de maior transparência à zona do cockpit e à secção do nariz — uma característica distintiva do He 111.
Os Heinkel He 111 foram utilizados em combate pela primeira vez pelas forças alemãs que participaram na Guerra Civil Espanhola (1936-39), integrados nas unidades da Legião Condor, e posteriormente pela Luftwaffe ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial. Outras forças aéreas que utilizaram o He 111 incluíram a chinesa, a húngara, a romena, a eslovaca, a espanhola e a turca.
As Especificações
Um Heinkel He 111 media quase 16,5 m (54 pés) de comprimento e tinha uma envergadura de pouco mais de 22,5 m (74 pés). Os He 111 eram equipados com dois motores Junkers Jumo de 12 cilindros, com uma potência de 1350 cv (1007 kW). Os bombardeiros atingiam uma velocidade máxima entre 365 e 420 km/h (225 a 260 mph). O seu tecto de serviço era de 6700 m (21 980 pés), com um alcance de até 1950 km (1200 milhas). A aeronave podia transportar uma carga de bombas de até 2500 kg (5500 lb), embora a carga padrão fosse de 2000 kg (4400 lb). As bombas incendiárias incluíam a Elektronbrandbombe (bomba incendiária de eletrão) de 1 kg (2,2 lb), que era habitualmente lançada em grupos de 36 unidades. As bombas explosivas de dimensões especiais incluíam a 'Hermann' de 1000 kg (2200 lb), baptizada afetuosamente em honra de Hermann Göring (1893-1946), o corpulento chefe da Luftwaffe. Existiam também as bombas 'Satan' (1800 kg / 4000 lb) e 'Max' (2500 kg / 5500 lb). Todas estas bombas tinham uma forma cilíndrica e eram, por isso, conhecidas como Sprengbombe Cylindrisch. As versões maiores afectavam de tal forma a manobrabilidade da aeronave que o seu lançamento exigia tripulações especializadas. As bombas de maiores dimensões obrigavam também a que o He 111 fosse equipado com suportes externos, um extra que podia ser utilizado noutras ocasiões para transportar mísseis adicionais e torpedos.
Uma tripulação típica do He 111 era composta por cinco membros: um piloto, um navegador, um bombardeador (que acumulava funções como artilheiro do nariz), um artilheiro na gôndola ventral e outro na posição dorsal. As defesas do He 111 incluíam uma metralhadora MG 131 de 13 mm (0.51-polegadas), três metralhadoras MG 81Z de 7,92 mm (0.31-polegadas) e um canhão MG FF de 20 mm (0.78-polegadas). Estas armas estavam localizadas nas posições do nariz (o canhão), dorsal e ventral da aeronave. Em alguns modelos, a gôndola ventral podia ter metralhadoras viradas tanto para a frente como para a retaguarda. Alguns modelos possuíam também uma metralhadora fixa na cauda. Este armamento, embora impressionante para a década de 1930 e capaz de disparar um carregador de 75 tiros em apenas 4,5 segundos, revelou-se insuficiente para proteção contra os caças inimigos a partir de 1940. A posição da metralhadora no ventre do avião era particularmente vulnerável, dado que os caças atacavam frequentemente por baixo; esta posição ficou conhecida entre as tripulações de artilheiros como a Sterbebett ('Leito de Morte').
Os Auxílios à Navegação
O bombardeamento era uma operação longe de ser precisa para todos os lados nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. A Luftwaffe utilizava diversos dispositivos tecnológicos para ajudar os navegadores a alcançarem os alvos e os aparelhos de pontaria para lançarem as cargas na posição correcta. Havia radiofaróis espalhados pelo continente europeu de forma a auxiliar a navegação, contudo os britânicos interceptavam-nos emitindo sinais para os distorcer, conhecidos como "Meacons".
Os feixes de navegação Knickebein ('Perna Torta') estiveram em operação a partir de dezembro de 1939. Tratava-se de dois feixes de sinais de rádio emitidos a partir da Europa Continental (França, Países Baixos e Noruega), que os bombardeiros podiam seguir. Um dos feixes emitia sinais de pontos e o outro sinais de traços mais longos. O local onde os dois feixes se cruzavam marcava o ponto onde as bombas deveriam ser lançadas. Graças à inteligência militar, os britânicos tiveram conhecimento do sistema desde a primavera de 1940, e a sua interferência começou em agosto com um dispositivo de nome de código 'Aspirina' (uma vez que o Knickebein era uma verdadeira dor de cabeça para os defensores).
Os Heinkel He 111 e outros bombardeiros podiam ser equipados com o sistema de radar X-Gerät (aparelho-X), que seguia vários feixes emitidos por transmissores na Europa Continental. O X-Gerät era mais preciso do que o Knickebein e permitia às aeronaves, ao seguirem um feixe único que emitia sinais grossos (enquanto os outros emitiam sinais finos), encontrar os seus alvos com tempo nublado ou durante a noite. Nem todos os bombardeiros estavam equipados com o sistema, mas aqueles que o possuíam (identificáveis pelas suas três antenas ao longo da parte dorsal do avião) eram utilizados para marcar o alvo para as restantes aeronaves seguirem. Os alemães chamavam a este sistema de orientação Wotan I, em homenagem ao nome germânico de Odin, o deus de um só olho da mitologia nórdica. Os britânicos descobriram esta tecnologia secreta quando um He 111 foi forçado a aterrar no mar perto de Bridport, na costa sul de Inglaterra, a 6 de novembro de 1940 (a aeronave tinha sido atraída para fora da sua rota por um "Meacon"). Como consequência, um mês depois, os britânicos criaram uma forma de interferir com o sistema de orientação, utilizando um dispositivo com o nome de código 'Bromide', embora este nem sempre fosse bem-sucedido.
O terceiro e melhor sistema de radar da Luftwaffe, utilizado a partir de novembro de 1940, era o Y-Gerät. Neste sistema, enviava-se um feixe único para um bombardeiro, que depois o devolvia. O tempo decorrido indicava a posição exacta da aeronave em qualquer momento. O sistema tinha o nome de código Wotan II. O Y-Gerät também podia ser alvo de interferências através de sinais enviados pelos britânicos, desta vez utilizando um sistema com o nome de código Domino.
Para além do facto dos Aliados terem acabado por perceber a existência destes auxílios tecnológicos e de terem idealizado formas de os interferir, a Luftwaffe foi prejudicada pela própria qualidade das bombas. As bombas incendiárias podiam ajudar a marcar um alvo para os outros bombardeiros, mas estas eram tão leves que, frequentemente, desviavam-se muito da trajectória ao serem lançadas. Isto significava que os bombardeiros que seguiam no ataque continuavam a atingir locais fora do alvo da missão.
As Operações
Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, em setembro de 1939, a Luftwaffe era ainda relativamente pequena e os seus bombardeiros, incluindo o He 111, já pareciam um pouco antiquados. Lento, pouco manobrável, mal armado e com uma capacidade de carga de bombas reduzida, o He 111 era, ainda assim, o melhor que a Luftwaffe possuía; e no início da guerra, a Luftwaffe dispunha de 789 exemplares. A aeronave foi utilizada extensivamente em campanhas de bombardeamento sobre a Polónia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Bélgica e França.
Os He 111 estiveram envolvidos na destruição de Varsóvia em setembro de 1939. Outro ataque infame que envolveu os He 111 foi o bombardeamento de Roterdão, numa altura em que os Países Baixos já negociavam a rendição. O ataque foi cancelado no último minuto, mas o sinal chegou demasiado tarde para deter os bombardeiros. Sessenta He 111 participaram no ataque de 14 de maio de 1940 que, embora visasse alvos militares, destruiu o centro histórico de Roterdão, deixou 78 000 pessoas desalojadas e matou entre 800 a 1000 civis.
Os He 111 foram um dos pilares da campanha da Luftwaffe na Batalha de Inglaterra (no verão e outono de 1940) e no bombardeamento de cidades e alvos industriais, a começar pelo Blitz de Londres (1940-41). A 24 de agosto de 1940, foi um pequeno grupo de He 111 que bombardeou Londres pela primeira vez. Os bombardeiros tinham sido enviados para atingir o terminal petrolífero de Rochester e Thames Haven mas, por erro, atingiram a cidade, dando início a uma retaliação mútua de bombardeamentos de áreas civis que escalou para horrores inimagináveis, como os bombardeamentos de Coventry e de Hamburgo (Operação Gomorra). Como inovação para afastar os balões de barragem — utilizados pelos britânicos como dispositivo de proteção integrado no Sistema Dowding — os bordos de ataque das asas dos He 111 podiam ser equipados com corta-cabos. Isto permitia que os bombardeiros voassem a altitudes mais baixas, aumentando assim a precisão do bombardeamento.
Ao voarem de e para os alvos na Grã-Bretanha, os He 111, apesar das diversas metralhadoras, revelaram-se vulneráveis aos ataques dos caças inimigos, como o Supermarine Spitfire e o Hawker Hurricane. Consequentemente, os He 111 e os outros bombardeiros eram protegidos por uma escolta de caças sempre que possível, como, por exemplo, uma esquadra de Messerschmitt Bf 109. Eventualmente, os He 111 tornaram-se tão vulneráveis aos ataques dos caças que a sua utilização foi, de um modo geral, reduzida a operações nocturnas.
Os He 111 continuaram a ser úteis em teatros de operações com menor intensidade aérea, tais como o Mediterrâneo, o Norte de África e a Frente Oriental. Os principais rivais internos do He 111 como bombardeiro médio de eleição eram o mais antiquado Dornier Do 17, o ligeiramente mais rápido mas vulnerável Dornier Do 215, e o mais pequeno mas veloz Junkers Ju 88, que acabou por o substituir.
A grande força do He 111 continuou a ser a sua versatilidade, o que tornava a aeronave adequada para múltiplos papéis, como o reconhecimento; a função de guia (pathfinder); o reboque de planadores; o transporte de paraquedistas; a colocação de minas no mar; e o lançamento de mantimentos, como aconteceu no cerco de Estalinegrado em 1942-43. Durante a Segunda Guerra Mundial foram construídos no total cerca de 7000 He 111 para a Luftwaffe.
