Blaise Pascal (1623–1662) foi um cientista, matemático e filósofo francês cuja obra influenciou tanto a Revolução Científica como o pensamento europeu posterior. Pascal é reconhecido pelos seus feitos práticos na ciência, como a criação de uma máquina de calcular, a demonstração das variações da pressão atmosférica conforme a altitude e a formulação de uma teoria da probabilidade.
É igualmente conhecido pelos seus escritos religiosos e filosóficos mais teóricos, como a obra Pensamentos (tít. original: Pensées), publicada postumamente, que contém o seu famoso conselho de "ganha-ganha" para os crentes indecisos, um argumento conhecido como a "Aposta de Pascal".
Os Primeiros Anos e a Matemática
Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand, no centro de França, a 19 de janeiro de 1623. O pai, Étienne Pascal (1588–1651), era magistrado no tribunal fiscal local e um matemático bastante proficiente. A família mudou-se para Paris em 1631. Blaise foi educado pelo pai e demonstrou um grande talento para a matemática desde criança. Aos 12 anos, deduziu que a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre igual a dois ângulos retos. Com apenas 16 anos, publicou um artigo teórico sobre secções cónicas. O jovem Pascal era orgulhosamente exibido nos salões de Paris como um génio precoce.
Aos 19 anos, Pascal já tinha inventado uma máquina de calcular, destinada a ajudar o pai nos cálculos fiscais. A máquina, composta por uma caixa de latão com seis rodas e marcadores de papel, pesava uns consideráveis 2,5 quilogramas, embora fosse relativamente pequena (cerca de 28 cm ou 11 polegadas de comprimento). O utilizador usava um estilete para rodar as várias rodas até à configuração desejada, e a máquina conseguia realizar tanto somas como subtrações. Pascal registou uma patente para o dispositivo, mas, infelizmente, na falta de tecnologia para a produzir em massa em números suficientes, a ideia não prosperou. Uma réplica da máquina de Pascal encontra-se hoje no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris. A ausência de uma formação universitária não constituiu, para Pascal, qualquer obstáculo.
Outra conquista notável foi o trabalho de Pascal em 1654 com o seu colega matemático francês Pierre de Fermat (1601–1665) — realizado em grande parte através de cartas —, no qual discutiram dois problemas. O primeiro problema consistia em determinar a frequência com que se obtêm dois seis ao lançar dois dados num determinado número de jogadas. O segundo problema discutido foi como repartir as apostas originais caso um jogo de dados tivesse de ser interrompido antes da sua conclusão planeada. O trabalho de Pascal e Fermat resultou naquilo que viria a tornar-se a base da moderna teoria da probabilidade. O historiador E. Cameron explica esta mudança da seguinte forma:
Foi apenas nas décadas de 1650 e 1660 que uma nova conceção de probabilidade se tornou subitamente um tema importante, tendo Pascal e Leibniz entre os seus expoentes mais destacados. A própria palavra 'provável' estava em processo de mudar o seu significado de 'apoiado por autoridades' para 'verosímil tendo em conta todas as evidências'.
(pág. 203)
Pascal tem vários fenómenos matemáticos com o seu nome, mesmo que nem sempre tenha sido o primeiro a descobri-los. O "Teorema de Pascal" descreve as propriedades de um hexágono inscrito numa secção cónica (Burns, pág. 235), o "Triângulo de Pascal" lida com a organização de números inteiros, e o "Princípio de Pascal" é utilizado na hidráulica, revelando que a pressão aplicada sobre uma área de um líquido (desde que confinado) resultará na sua expansão igual em todas as direções.
Pascal, o Cientista
Pascal foi um grande experimentador e estava em total concordância com Francis Bacon (1561–1626), frequentemente considerado o fundador do método científico moderno, ao acreditar na necessidade da experimentação prática para expandir o nosso conhecimento do mundo. Pascal também admirava os antigos pela sua atitude prática perante a ciência, mas estava igualmente empenhado em salientar que, apesar da moda renascentista de venerar a antiguidade, eles não descobriram tudo (pensava particularmente na questão do vácuo) e que a sua própria geração deveria, sem dúvida, esforçar-se por realizar as suas próprias investigações inéditas:
Aqueles a quem chamamos antigos eram, na verdade, novos em todas as coisas e constituíam propriamente a infância da humanidade; e como juntámos ao seu conhecimento a experiência dos séculos que os seguiram, é em nós mesmos que devemos encontrar esta antiguidade que veneramos nos outros.
(Gottlieb, pág. x)
Pascal interessava-se especialmente por vácuos, um fenómeno que alguns pensadores e cientistas naturais ainda acreditavam que não existia nem poderia existir (como pode o "nada" existir?, perguntavam). Também realizou experiências com um barómetro — outra área nova da ciência — de modo a demonstrar que a pressão atmosférica muda com a altitude. Em 1648, Pascal e o seu cunhado, Florin Périer, conduziram experiências montando dispositivos compostos por tubos cheios de mercúrio em diversas posições na encosta de uma montanha, o Puy-de-Dôme, no Maciço Central de França. Os cientistas notaram que o nível do mercúrio no tubo de vidro baixava quanto mais alta fosse a altitude em que as leituras eram feitas. Pascal esperava que o seu barómetro pudesse ser utilizado para medir a altura, mas essa ideia gorou-se quando se percebeu que a pressão atmosférica não é constante.
As experiências de Pascal com tubos finos e líquidos levaram-no a criar a primeira seringa simples. As experiências com o barómetro também conduziram a avanços no campo da hidráulica, um tema sobre o qual Pascal escreveu no Tratado sobre o Equilíbrio dos Líquidos e sobre a Gravidade da Massa do Ar (publicado apenas em 1663; tít. original: Traité de l'équilibre des liqueurs et de la pesanteur de la masse de l'air). Embora Pascal tenha escrito sobre a possibilidade teórica de vácuos na sua obra de 1647, Novas Experiências sobre o Vácuo (tít. original: Expériences nouvelles touchant le vide), o enigma de estabelecer um vácuo controlável foi, por fim, resolvido por Robert Boyle (1627-1691), utilizando uma redoma de vidro e uma bomba de ar.
O historiador S. Blackwell aponta outra conquista de Pascal: "Pascal tinha uma profunda preocupação pelos pobres e fundou o primeiro serviço de autocarros públicos de sempre, cujos lucros doava para a caridade" (pág. 351).
O Retiro em Port-Royal
Perto do final de 1654, Pascal viveu uma espécie de despertar pessoal após ter sobrevivido milagrosamente a um acidente de viagem. A carruagem de Pascal despistou-se e quase caiu de uma ponte; salvou-se apenas porque os arreios que prendiam os cavalos se partiram, caso contrário, teriam arrastado Pascal para uma morte certa. Após este golpe de sorte, do qual Pascal levou duas semanas a recuperar, focou-se nos estudos religiosos, o que o levou a reconverter-se ao Catolicismo. No início de 1655, decidiu retirar-se dos seus estudos científicos mais seculares e práticos para se concentrar na filosofia e na teologia. Pascal mudou-se para uma vida de retiro na Abadia de Port-Royal-des-Champs, não muito longe a sul de Paris. A abadia era gerida pelos jansenistas; de facto, era o próprio coração deste movimento puritano dentro do Catolicismo, que seguia rigorosamente os ensinamentos de Agostinho de Hipona (354-430).
A irmã de Pascal já era freira na abadia de Port-Royal e, ali, ele trabalhou em Do Espírito Geométrico (tít. original: De l'esprit géométrique), escrito por volta de 1658, que apresenta as ideias de Pascal sobre a sua metodologia preferida tanto para a ciência como para a filosofia. Escreveu também aquela que se tornou a sua obra mais famosa, Pensamentos uma coleção inacabada de notas que, tal como Do Espírito Geométrico, só foi publicada após a morte de Pascal (e não na íntegra até 1952). Pensamentos constitui uma defesa das convicções religiosas de Pascal. O autor formula a ideia de que "Deus não é conhecido através do estudo das leis da natureza, mas sim manifesta-se nos próprios milagres que violam essas leis" (Burns, pág. 120). Pascal acreditava ter ele próprio testemunhado uma dessas ruturas das leis da natureza em 1656, quando a sua sobrinha recuperou milagrosamente de uma doença aparentemente fatal. Acima de tudo, para Pascal, é através da imaginação ou intuição do indivíduo, e não através da razão, que uma pessoa pode chegar a conhecer Deus.
Outra obra que compilou durante o seu retiro foram as Cartas Provinciais (tít. original: Lettres provinciales; também conhecidas como Les Provinciales, 1656-7), que atacava os jesuítas, os principais opositores dos jansenistas. Apesar da popularidade das Cartas Provinciais, os jansenistas travaram uma batalha perdida e Port-Royal foi encerrada em 1661. Ambas as obras têm sido elogiadas pelo estilo de escrita conciso e eminentemente legível de Pascal, bastante diferente do que era, então, a norma nos textos de temática religiosa.
A Aposta de Pascal
Embora Pascal fosse, em certos aspetos, um filósofo cético, apoiava-se muito mais na fé do que na razão para as suas crenças religiosas pessoais. Propôs, contudo, uma solução interessante para aqueles que não conseguem decidir se Deus e uma vida após a morte existem. Não era uma ideia totalmente nova, mas Pascal formulou, em termos mais formais, um cenário de "melhor aposta" em relação à fé em Deus. Se alguém não tem a certeza, então é uma aposta melhor acreditar em Deus, porque, se estiver enganado e Deus não existir realmente, não se perde nada. Se alguém não acreditar em Deus e existir uma vida após a morte, arrisca-se a danação eterna. Nas palavras do próprio Pascal:
Se ganhas, ganhas tudo. Se perdes, não perdes nada. Aposta, então, sem hesitação, que Ele existe.
(Law, pág. 114)
As opções são, portanto, essencialmente ganhar muito ou perder muito. Acreditar em Deus é, consequentemente, a escolha racional. Existem, segundo Pascal, benefícios adicionais na fé em Deus além de assegurar a alma na vida após a morte, uma vez que ele acreditava que um crente estaria menos inclinado a entregar-se a "prazeres venenosos" (Blackburn, pág. 352) e a comportar-se melhor para com as outras pessoas.
Pascal reconheceu que acreditar sinceramente numa coisa em detrimento de outra não é apenas uma questão de carregar num interruptor no cérebro, como alguns críticos apontaram. O seu conselho era começar por fazer o que os outros crentes fazem, como ir regularmente a serviços religiosos e ler a Bíblia. Sugere que se deve passar o máximo de tempo possível com outros crentes, pois ele acreditava que a fé era, pelo menos até certo ponto, contagiosa, e que esse ambiente convenceria gradualmente um descrente a acreditar verdadeiramente.
Alguns críticos, nomeadamente W. K. Clifford (1845-1879), salientaram que Pascal parece colocar a verdade numa posição subordinada ao interesse próprio. Segundo a aposta de Pascal, o crente só acredita porque parece ser a melhor coisa a fazer. Além disso, Deus saberia disto, pelo que se arriscaria a ser condenado para sempre de qualquer maneira.
Outra crítica é que a aposta de Pascal tem apenas dois resultados e é apresentada como uma hipótese de 50:50, quando, na realidade, podem existir mais resultados possíveis e a aposta não ser sequer equitativa. Por exemplo, pode existir um Deus, mas Ele pode não ser nada como o Deus cristão, pelo que acreditar nessa versão da divindade suprema pode não ser suficiente para obter uma vida após a morte feliz. Outros podem argumentar que, como não há qualquer prova de um Deus no mundo físico, a aposta não é um claro 50:50 de existir ou não; pelo contrário, as probabilidades de Deus existir são muito mais remotas. Neste caso, e se mantivermos a analogia da aposta, então apostar em Deus poderia ser uma aposta de 1.000 para 1. Esse facto comprometeria seriamente o argumento de Pascal de que não se tem nada a perder ao passar tempo na igreja e a ler a Bíblia. A 1.000:1, uma pessoa poderia reavaliar esse tempo potencialmente perdido como um preço demasiado elevado a pagar por uma probabilidade demasiado pequena de ganhar a aposta.
A Morte e o Legado
Nos seus últimos anos, Pascal foi atormentado por um grave problema de estômago. A insónia resultante desta aflição levou-o a voltar a ponderar problemas de matemática e geometria. Um desses problemas era como determinar a área de um segmento específico da cicloide ("a curva formada por um ponto na circunferência de um círculo à medida que este rola ao longo de uma linha reta", Burns, pág. 78). Pascal, com a mente tão aguda como sempre, encontrou a solução e publicou o problema, desafiando quem quisesse a encontrar a resposta. Alguns dos pensadores mais eminentes da Europa aceitaram o desafio, e alguns responderam com a resposta correta, nomeadamente o cientista holandês Christiaan Huygens (1629-1695) e o arquiteto inglês Christopher Wren (1632-1723).
Pascal morreu em Paris a 19 de agosto de 1662. Tinha apenas 39 anos de idade. A obra Pensamentos tornou-se, desde então, "um clássico reconhecido da literatura devocional" (Blackburn, pág. 351), sendo Pascal o único cientista de relevo da Revolução Científica a "alcançar a grandeza tanto na ciência como na literatura" (Burns, pág. 171). As experiências científicas e o trabalho de Pascal na matemática, como vimos, criaram leis e princípios que ajudaram outros a construir sobre a sua obra para fazer novas descobertas. As reflexões de Pascal sobre a crença religiosa foram também influentes, especialmente em Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Mais recentemente, pelo seu contributo para as primeiras máquinas de computação, Pascal foi homenageado com uma linguagem de programação batizada com o seu nome.
