O capitão Charles Vane foi um pirata inglês que operou nas Caraíbas e ao largo da costa leste da América do Norte entre 1716 e 1720. O pirata, que famosamente recusou um perdão e, em vez disso, disparou os seus canhões contra o navio do governador Woodes Rogers nas Bahamas, acabou por ser capturado, considerado culpado de pirataria e enforcado na Jamaica, em março de 1721.
Charles Vane foi um pirata relativamente bem-sucedido, capturando navios mercantes e saqueando as suas cargas desde Hispaniola até Nova Iorque. Estes ataques destacavam-se pelo tratamento cruel dispensado aos marinheiros capturados. Menos bem-sucedido foi o seu controlo sobre a própria tripulação. O segundo em comando de Vane partiu uma vez com um navio capturado e, em seguida, a sua tripulação amotinou-se e substituiu-o por «Calico Jack» Rackham. Vane naufragou mais tarde numa ilha deserta e, quando finalmente foi resgatado, foi entregue às autoridades, que estavam empenhadas em fazer dele um exemplo, sendo ele um dos homens mais procurados das Caraíbas.
O Início da Carreira
Charles Vane dedicou-se pela primeira vez à pirataria em 1716, quando se juntou à tripulação do pirata inglês Henry Jennings, que na altura tinha a sua base na Jamaica e em New Providence (atual Nassau), nas Bahamas. Jennings e Vane também se especializaram na recuperação de prata de galeões espanhóis naufragados no Golfo da Flórida, para grande irritação da Coroa espanhola, que tinha enviado as suas próprias equipas de salvamento para esse fim.
Em maio de 1718, um membro da tripulação de um navio capturado conseguiu escapar para testemunhar contra Vane perante o Governador Bennett das Bermudas. O marinheiro, de nome Nathaniel Catling, encontrava-se a bordo da balandra bermudense Diamond quando o bando de piratas de Vane o atacou nas Bahamas. Catling relatou que ele e todos os seus companheiros foram espancados, e o navio pilhado e posteriormente incendiado. Catling foi enforcado pelos piratas e golpeado com um sabre, mas, miraculosamente, sobreviveu à provação.
Em menos de uma semana, o relato de Catling foi repetido com detalhes ainda mais terríveis por outro marinheiro que tinha escapado das garras de Vane e da sua tripulação. Edward North, capitão de outra balandra das Bermudas, desta vez o «William and Martha», testemunhou perante o governador Bennett que também ele tinha sido atacado, espancado e roubado. North também relatou que um dos seus tripulantes tinha sofrido a ignomínia de ser amarrado ao gurupés do navio e, em seguida, torturado com fósforos acesos para revelar a localização dos objetos de valor do navio.
A Fuga de New Providence
Em agosto de 1718, Vane realizou o seu primeiro ataque pirata independente e capturou um navio mercante francês. Entretanto, o novo governador das Bahamas, Woodes Rogers († 1732), acabava de chegar a New Providence, com a tarefa de erradicar o notório covil de piratas. Ao contrário de Henry Jennings, Vane não tinha qualquer intenção de aceitar o perdão que Rogers oferecia a todos os piratas, pois tal significava abdicar do saque que acabara de adquirir. Vane estava bastante satisfeito em continuar a praticar a pirataria e, por isso, fugiu de New Providence no veloz balandra «Ranger», enviando audaciosamente o navio francês que tinha capturado como navio incendiário contra a embarcação do governador e disparando um tiro de canhão ao passar, para garantir o efeito. A aventura de Vane chegou mesmo a ser notícia em Londres, tendo sido destaque na imprensa em dezembro.
Em dois dias, Vane capturou uma balandra maior e, algumas semanas depois, voltou a atacar, desta vez um bergantim negreiro capturado ao largo das Carolinas. O bergantim foi rebatizado de Ranger e contava com 12 canhões e uma tripulação de cerca de 80 a 90 homens; a balandra foi entregue ao segundo no comando, Yeats. Na sua onda de crimes, Vane hasteava ousadamente duas bandeiras: a bandeira inglesa e uma bandeira pirata preta, mas esta lealdade dividida refletiu-se na própria tripulação de Vane, pois Yeats decidiu rapidamente partir por conta própria, afastando-se de Vane durante a noite. Vane partiu em perseguição, alcançou Yeats e disparou uma salva lateral contra a sua corveta, mas depois deixou-o ir, apesar de ter uma balandra mais rápido. O destino final de Yeats não está registado em nenhum documento histórico.
A Costa Leste da América
As autoridades perseguiram Vane, mas a sua tripulação e a balandra eram demasiado rápidos. Como observou um oficial da marinha: «as nossas escunas desistiram da perseguição, ao constatarem que ele navegava a um ritmo de dois pés por cada um deles» (Konstam, The Pirate Ship (A Embarcação Pirata), pág. 7). Em setembro de 1718, outra força, desta vez enviada pelo governador Spotswood da Virgínia, estava em perseguição acirrada a Vane, que embora não tneha conseguiu captura-lo, ajudou na busca por outro pirata notório, Stede Bonnet, que foi capturado e enforcado pouco tempo depois.
O capitão Vane visitou Edward Teach, mais conhecido como Barba Negra, em outubro de 1718, passando algum tempo na sua base pirata na Ilha de Ocracoke, na Carolina do Norte. Diz-se que as duas tripulações piratas desfrutaram de uma festa de uma semana naquela que foi a maior reunião de piratas de sempre a ocorrer em águas norte-americanas. Vane navegou então para norte até Nova Iorque, saqueando navios pelo caminho, incluindo dois ao largo de Long Island. O pirata regressou então às Caraíbas, onde atacou navios que navegavam pelas Bahamas. Vane já tinha constituído uma frota pirata considerável e acumulado um grande espólio, mas o seu regresso às Caraíbas viria em breve a correr mal.
O Motim, o Naufrágio e a Captura
Vane era conhecido como um capitão pirata cruel, que aplicava castigos como a "quilha" — o keelhauling —, que consistia em atar uma pessoa com uma corda, atirá-la borda fora e arrastá-la, quer sob o navio, de um bordo ao outro, quer ao longo de todo o comprimento da embarcação. Mais grave para o seu estatuto de capitão, Vane enfrentou acusações de não repartir o despojo de forma justa. Poderá não ter havido assim tanta honra entre ladrões, mas um ponto em que os piratas eram intransigentes quanto às regras era a distribuição do saque
Sob uma acusação de cobardia, motivada pela relutância do seu líder em atacar uma fragata francesa bem armada na Passagem do Vento (entre Cuba e a Hispaniola), Vane foi destituído do comando em novembro de 1718 pela sua própria tripulação. Os amotinados elevaram então John Rackham à liderança. Mais conhecido como "Calico Jack", Rackham tinha sido o quartel-mestre e segundo-comandante de Vane, capitaneando o navio inglês capturado Kingston. É possível que a disputa não se devesse à cobardia, mas sim ao facto de Rackham não querer partilhar o carregamento de bebidas alcoólicas do Kingston. Agora independente, Rackham integrou na sua tripulação as célebres mulheres piratas Anne Bonny e Mary Read, mas não foi mais bem-sucedido do que o seu predecessor; os três acabaram por ser capturados pelas autoridades jamaicanas em 1720.
Entretanto, Vane tinha sido enviado num pequeno brigue com um punhado de homens para o navegar, mas a situação deteriorou-se quando um furacão desfez o navio na Baía das Honduras, deixando Vane e um outro sobrevivente na ilha de Baracho. A dupla conseguiu manter-se viva graças a alguns pescadores de tartarugas que passavam pelo local. Felizmente para Vane, um navio parou na ilha, habitualmente deserta, e avistou os piratas náufragos. Infelizmente, o capitão desse navio era Holford, o comandante de uma embarcação que Vane tinha tentado capturar anteriormente e, quando identificou Vane, simplesmente seguiu viagem. Vane acabou por ser resgatado por outro navio, mas voltou a encontrar Holford, e desta vez não houve sorte à terceira. Holford acorrentou Vane e entregou-o às autoridades em Port Royal, na Jamaica. Ali, Vane foi julgado por pirataria num tribunal do Vice-Almirantado e considerado culpado em março de 1720. Após um ano na prisão, Vane foi finalmente enforcado em março de 1721. Tal como aconteceu com o Capitão Kidd quase 20 anos antes, o cadáver de Vane foi pendurado para apodrecer lentamente numa jaula no ilhéu de Gun Cay, servindo como um aviso severo e público aos outros sobre os perigos da pirataria.
Na célebre galeria de piratas da obra A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pyrates (Uma História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Piratas Mais Notórios), compilada na década de 1720 pelo Capitão Charles Johnson ou, possivelmente, por Daniel Defoe, Vane tem o seu próprio capítulo. O autor descreve Vane como tendo demonstrado cobardia na sua execução e, embora sofrendo dores atrozes, ter-se mantido totalmente impenitente quanto à sua vida de pirataria.
