Antonie van Leeuwenhoek

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
Portrait of Antonie van Leeuwenhoek (by Jan Verkolje , Public Domain)
Retrato de Antonie van Leeuwenhoek Jan Verkolje  (Public Domain)

Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723) foi o mais importante microscopista holandês da Revolução Científica, que fabricou mais de 500 microscópios, muitos com uma capacidade de ampliação muito superior à dos modelos da época. As suas descobertas incluem bactérias, protozoários, glóbulos vermelhos, espermatozoides e o modo como se reproduzem minúsculos insetos e parasitas.

Os Primeiros Anos de Vida

Ao contrário do que era habitual para um dos cientistas mais proeminentes do século XVII, Antonie van Leeuwenhoek não pertencia às classes altas. Nasceu em Delft, nos Países Baixos, a 24 de outubro de 1632, numa família de classe média-baixa que se dedicava à produção de cerveja, e ele não teve a oportunidade de frequentar a universidade ou de aprender latim ou francês, as duas principais línguas de comunicação científica da época. Estas limitações eram graves, especialmente no que diz respeito às finanças, uma vez que a maioria dos cientistas dispunha de meios independentes para financiar as suas investigações, frequentemente dispendiosas. Leeuwenhoek foi obrigado a financiar a sua investigação em microscopia trabalhando tanto como comerciante de tecidos (profissão em que se formou em Amesterdão) como enquanto funcionário municipal de baixo escalão em Delft. Significativamente, talvez para as suas conquistas futuras, utilizava lupas no seu trabalho de inspeção de tecidos.

Remover Publicidades
Publicidade

Os Microscópios de Leeuwenhoek

Na segunda década do século XVII, o microscópio seguiu rapidamente o telescópio como um dos instrumentos mais importantes da Revolução Científica. Um novo mundo em miniatura abriu-se para os cientistas, e os anatomistas, os entomologistas e os botânicos estavam particularmente interessados em utilizar esta nova invenção para aprofundar a sua compreensão do mundo natural. A vida sob o microscópio tornou-se, subitamente, inimaginavelmente mais intrincada e complexa.

O microscópio de esfera de Leeuwenhoek era capaz de uma ampliação altamente impressionante de 270 vezes.

Tudo indica que Leeuwenhoek terá começado a fabricar microscópios no início da década de 1670. É possível que tenha desenvolvido interesse pelo assunto na sequência do enorme sucesso de Micrographia (Micrografia), um livro profusamente ilustrado de Robert Hooke (1635-1703) sobre as maravilhas que podiam ser observadas numa lâmina microscópica. Certamente, as investigações de Leeuwenhoek parecem seguir a ordem do livro de Hooke, o que sugere que possuía um exemplar.

Remover Publicidades
Publicidade

Um microscópio fabricado por Leeuwenhoek é mencionado numa carta de 1673 trocada entre dois cientistas notáveis, Reinier de Graaf e Henry Oldenburg. Leeuwenhoek fabricou mais de 500 microscópios ao longo da sua carreira, polindo as suas próprias lentes de vidro. Inventou um microscópio pequeno e de uma simplicidade admirável que utilizava, em vez da habitual lente de vidro, uma minúscula esfera de vidro fixa entre duas placas de metal. O microscópio de esfera de Leeuwenhoek era capaz de uma ampliação altamente impressionante de 270 vezes. Leeuwenhoek adicionou uma escala de medição ao seu mini-microscópio, o que permitiu uma comparação mais rigorosa de visões e espécimes. Numa época em que a partilha de dados científicos se tornou primordial, concebeu também uma forma de outros microscopistas compararem escalas, utilizando uma medida de base como a espessura de um fio de cabelo humano ou de um grão de areia. Desta forma, os microscopistas de outros locais podiam compreender melhor o trabalho uns dos outros.

Leeuwenhoek Microscope
Microscópio de Leeuwenhoek Science Museum, London (CC BY-NC-SA)

As Descobertas de Leeuwenhoek

Longe de ser um mero técnico, Leeuwenhoek deu bom uso aos seus microscópios e realizou várias descobertas importantes neste campo de investigação ainda novo. As suas «contribuições incluem a descoberta dos glóbulos vermelhos, da circulação do sangue através dos capilares, da existência de protozoários e da natureza das células espermáticas masculinas» (Burns, pág. 166). Descobriu também bactérias, que apelidou de «animálculos», observadas em amostras retiradas de intestinos de animais, por exemplo. Outra descoberta foi a de que insetos minúsculos, invisíveis a olho nu, reproduziam-se exatamente como as formas de vida maiores, e não através de algum tipo de reação espontânea, como então se supunha amplamente.

Remover Publicidades
Publicidade

Leeuwenhoek era singular, uma vez que se interessava por observar praticamente tudo nos seus microscópios, como resume aqui o historiador W. E. Burns:

Pedia aos vizinhos itens para examinar, como aparas de cabelo ou amostras de sangue; obtinha de negócios locais itens como cereais infestados e pedaços de animais abatidos; e ia ao cais para recolher amostras da vasta gama de mercadorias lá disponíveis, tais como peles de baleia. Leeuwenhoek também não se inibia de colocar porções do seu próprio corpo sob a lente, publicando os resultados do exame microscópico de tártaro dos seus dentes em 1683... e detalhando a análise de uma substância encontrada entre os dedos dos pés de Leeuwenhoek após este ter mantido as meias calçadas durante duas semanas.

(Idem)

Num mero exemplo da curiosidade insaciável de Leeuwenhoek e da sua disponibilidade para recorrer às pessoas que o rodeavam, investigou o que causava a doença comum da gota. Conhecia um sofredor com o infeliz sintoma de uma substância semelhante a giz excretada por dois orifícios nas suas articulações, um no calcanhar e o outro num cotovelo. Leeuwenhoek resumiu o que aconteceu a seguir numa carta:

Pedi-lhe que me desse um pouco desse giz, o que ele me concedeu de bom grado... Observei a matéria sólida que, ao nosso olho, se assemelha a giz, e vi, com grande espanto, que a minha opinião estava errada, pois não consistia em nada mais do que pequenas partículas longas e transparentes, muitas delas pontiagudas em ambas as extremidades.

(Jardine, pág. 299)

Microscope of van Leeuwenhoeck
Microscópio de van Leeuwenhoeck Science Museum, London (CC BY-NC-SA)

Sabemos agora que estas partículas que Leeuwenhoek observou são depósitos de urato de sódio causados por um excesso de ácido úrico no sangue.

Remover Publicidades
Publicidade

Noutra carta, Leeuwenhoek descreve da seguinte forma como descobriu os protozoários, o que aconteceu, por acaso, já que o holandês tentava, na verdade, «descobrir a causa da pungência da pimenta na nossa língua» (Idem, pág. 94):

Coloquei cerca de um terço de uma onça de pimenta inteira em água, colocando-a no meu escritório, com o único propósito de que, ao amolecer a pimenta, eu pudesse observar melhor o que me propusera. Tendo esta pimenta repousado três semanas na água, à qual tinha adicionado duas vezes um pouco de água de neve [a água mais pura disponível] (tendo a outra água evaporado), observei-a a 24 de abril de 1676 e discerni, com grande espanto, um número incrível de animais muito pequenos de diversas espécies. (Ibid., pág. 92)

Em 1680, Leeuwenhoek foi convidado a tornar-se membro da sociedade.

A Teoria da Vida de Leeuwenhoek

A descoberta de espermatozoides por Leeuwenhoek, por volta de 1677, levou-o a formular uma teoria sobre o ciclo de reprodução. Os cientistas estavam ainda divididos quanto à forma exata como a nova vida era criada, mais pertinentemente nos seres humanos. Tradicionalmente, o homem era considerado mais importante na reprodução, uma visão defendida pelos homens para reforçar as suas próprias ideias de que deveriam ser mais importantes. Contudo, no século XVII, tornou-se claro que a maior parte da nova vida provinha de um óvulo produzido pela fêmea, de uma forma ou de outra, e, por isso, a teoria prevalecente era o «ovismo», ou seja, as características essenciais da nova forma de vida estavam todas presentes num óvulo que aguardava a fertilização. Leeuwenhoek propôs o oposto, uma vez que acreditava que os espermatozoides, e não o óvulo, continham características como a alma da forma de vida. Ele «desenvolveu uma teoria preformacionista na qual as novas criaturas são elaboradas no sémen do macho (regido pela alma animal do pai) antes da conceção e posteriormente crescem no ventre da mãe com o nutrimento fornecido pelo óvulo» (Henry, pág. 83).

Revolução Científica (cerca de 1500–1700)
A Revolução Científica na Europa Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A teoria de Leeuwenhoek não foi amplamente aceite, e o cientista chegou mesmo a ter problemas por discutir assuntos tão íntimos em público (alguns também se questionavam onde e como tinha obtido os seus espécimes). Ainda assim, a descoberta de espermatozoides e de outras realidades anteriormente desconhecidas por parte de Leeuwenhoek foi um exemplo de como, na Revolução Científica, tais descobertas serviam de chama para testar e purificar teorias explicativas existentes, destruí-las ou forjar outras inteiramente novas.

Remover Publicidades
Publicidade

O Reconhecimento Internacional

Leeuwenhoek tinha consciência de que, para tornar as suas descobertas mais conhecidas e úteis para a comunidade científica, precisava de as captar através de desenhos. Leeuwenhoek contratava desenhadores locais para criar imagens precisas daquilo que observava nos seus microscópios. Enviava quase todos os resultados das suas investigações, incluindo as ilustrações especialmente encomendadas, para a Royal Society (Sociedade Real) em Londres. O historiador L. Jardine explica a abordagem do microscopista:

Não pretendia ter conhecimentos especializados em nada que não fosse o manuseamento dos seus microscópios; apresentava as suas observações como dados brutos, em formato de diário, dia após dia, «para que pudessem ser mais bem creditadas em Inglaterra e noutros locais». «Suplico-lhe a si e aos Senhores sob cujos olhos isto chegue que tenham em mente que as minhas observações e opiniões são apenas o resultado do meu próprio impulso e curiosidade», explicava ele, com uma humildade estudada.

(pág, 90)

Centenas destes documentos foram depois traduzidos dos originais em holandês e publicados na revista não oficial da sociedade, Philosophical Transactions (Transações Filosóficas), entre 1673 e 1723. Muitas das cartas de Leeuwenhoek para a sociedade foram, posteriormente, também publicadas em volumes reunidos. Em 1680, Leeuwenhoek foi convidado a tornar-se membro da sociedade. Leeuwenhoek foi também um colaborador de longa data da revista holandesa De Boekzaal van Europe (A Sala dos Livros da Europa).

Antonie van Leeuwenhoek Memorial
Memorial a Antonie van Leeuwenhoek Swadim (CC BY-SA)

Leeuwenhoek tornou-se tão exímio a preparar e a observar espécimes em lâminas microscópicas que estava muito à frente da maioria dos seus colegas cientistas no que dizia respeito ao que era possível visualizar sob elevada ampliação. De facto, a ampliação e a nitidez eram tão grandes que nenhum outro microscopista conseguia replicar o que ele via, pelo que alguns duvidavam que Leeuwenhoek tivesse visto tais coisas. Existia, certamente, algum mistério envolvido, uma vez que Leeuwenhoek se recusava a revelar a forma como iluminava os seus espécimes, uma necessidade para conseguir ver algo com clareza sob elevada ampliação. Com o tempo, outros cientistas, como Hooke, alcançaram-no e provaram que Leeuwenhoek estava, de facto, a ver coisas nunca antes vistas.

Remover Publicidades
Publicidade

O trabalho do holandês tornou-se tão conhecido que ele pôde oferecer a sua casa em Delft como uma espécie de museu aberto, onde o público podia visitar e ver lâminas preparadas nos muitos microscópios que tinha montado; inclusive, foi visitado por monarcas, como Jaime II de Inglaterra (reinou entre 1685-1688) e Pedro, o Grande, da Rússia (1682-1721), bem como por cientistas eminentes, como Christiaan Huygens (1629-1695), o inventor do relógio de pêndulo.

Antonie van Leeuwenhoek morreu em Delft, a 26 de agosto de 1723, com a provecta idade de 90 anos. Tinha sobrevivido a duas esposas e teve apenas uma filha. Mostrou o caminho para outros cientistas seguirem e criou uma especialização em novos campos de investigação, como a protozoologia e a bacteriologia. O microscópio, sempre difícil de usar mesmo em mãos experientes, caiu em desuso no século XVIII, mas regressou no século seguinte, particularmente no campo da medicina, quando as deficiências técnicas das lentes, da iluminação e da preparação de lâminas foram grandemente melhoradas. Leeuwenhoek fez, pois, muito para assegurar que este instrumento se tornasse uma ferramenta vital na ciência moderna.

Remover Publicidades
Publicidade

Perguntas & Respostas

Porque é que Antonie van Leeuwenhoek era conhecido?

Antonie van Leeuwenhoek é conhecido pelas suas investigações realizadas com um microscópio da sua própria autoria, que lhe permitiu fazer descobertas como a dos protozoários, que nenhum outro cientista conseguia ver.

O que é que Antonie van Leeuwenhoek inventou?

Antonie van Leeuwenhoek inventou o microscópio mais potente conhecido na época, um aparelho que utilizava uma conta de vidro em vez de uma lente plana.

Que células descobriu Leeuwenhoek?

Antonie van Leeuwenhoek descobriu várias formas de vida microscópicas e células, tais como os glóbulos vermelhos.

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, julho 08). Antonie van Leeuwenhoek. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19505/antonie-van-leeuwenhoek/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Antonie van Leeuwenhoek." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 08, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19505/antonie-van-leeuwenhoek/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Antonie van Leeuwenhoek." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19505/antonie-van-leeuwenhoek/.

Remover Publicidades