Cao Cao

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Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Cao Cao, Battle of Red Cliffs (by Shizhao, CC BY-SA)
Cao Cao, Batalha de Penhascos Vermelhos Shizhao (CC BY-SA)

Cao Cao (cerca de 155-220) foi um ditador militar na China antiga durante o final da dinastia Han. Mais do que um mero senhor da guerra, Cao Cao apoiou um imperador fantoche e governou uma vasta área do norte da China. As suas tentativas de unificar a China acabaram por falhar, mas fundou o grande estado de Wei e introduziu várias alterações administrativas, incluindo um novo sistema de hierarquia social e reformas agrárias. O objetivo implacável de Cao Cao de recapturar a glória perdida do império Han, a sua manipulação da corte imperial e a associação a intrigas políticas desagradáveis resultaram numa reputação ambígua que se tem agravado desde a sua representação como o vilão da popular epopeia do século XIV, 三国演义 (transliterado: Sānguó YǎnyìO Romance dos Três Reinos).

A Juventude e a Família

Os primeiros anos de vida e os detalhes biográficos de Cao Cao são vagos e controversos, sendo difícil separar os factos da lenda. Cao Cao nasceu por volta de 155, filho de Lady Ding e de Cao Song, que por sua vez era filho adotivo de Cao Teng, um influente e poderoso eunuco na corte Han. A associação com os eunucos, que manipulavam os cordelinhos da política imperial nos bastidores, foi, sem dúvida, uma das razões para a ascensão meteórica de Cao Cao. É provável que o próprio Cao Cao também tenha sido adotado, possivelmente vindo da família Xiabou, um grupo aristocrático do distrito de Pei, na atual Boxian. Cao Cao teve muitos filhos, sendo os mais famosos os seus descendentes Cao Pi e Cao Zhi.

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Cao Cao ficou célebre por ter sufocado a rebelião dos Turbantes Amarelos na segunda metade do século II.

A Rebelião dos Turbantes Amarelos

O primeiro cargo de destaque de Cao Cao foi o de comandante e chefe de polícia em Luoyang, a capital, durante a década de 170. Desde cedo, construiu uma reputação de cumpridor rigoroso da lei, não hesitando em desafiar os ricos e poderosos. Ganhou maior notoriedade quando sufocou a famosa rebelião dos Turbantes Amarelos na segunda metade do século II.

A revolta recebeu este nome porque os intervenientes usavam um turbante cuja cor representava a terra, um elemento que esperavam que apagasse o fogo, o elemento escolhido pelos Han. Sendo um movimento religioso, o culto dos Turbantes Amarelos provinha provavelmente do Tibete e estava intimamente associado ao taoísmo. A sua popularidade foi impulsionada pela promoção de ajuda aos pobres e pela crítica à discriminação contra as mulheres e as classes mais baixas, que grassava na sociedade chinesa. O culto acabou por transformar-se numa grande rebelião militar, o que não deixa de ser irónico, tendo em conta que o seu líder, Zhang Jue, pregava o objetivo de uma Grande Paz.

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China Warlords, 2nd-3rd century CE.
Senhores da Guerra da China, séculos II-III SY (CC BY-SA)

Fortes no leste da China, os rebeldes coordenaram, ainda assim, uma série de revoltas por todo o país em 184, atacando os escritórios dos governos locais. O país inteiro ficou dividido em bolsas controladas por rebeldes, senhores da guerra ou governadores regionais que se mantinham leais ao Estado. A confusão, a guerra constante e as privações sofridas pelo povo chinês foram resumidas num poema atribuído a Cao Cao, que, tal como muitos líderes da época, tinha uma forte inclinação literária:

A minha armadura foi usada tanto tempo que nela se criam piolhos, Myriads de linhagens pereceram. Ossos brancos expostos nos campos, Por mil li nem sequer um galo se ouve. Apenas um em cada cem sobrevive, Pensar nisto rasga-me as entranhas.

(Lewis, pág. 28)

A rebelião foi brutalmente esmagada por um exército enviado por Cao Cao, e Zhang Jue foi morto ou executado. O movimento ainda continuou a arrastar-se sob uma nova liderança na província oriental de Sichuan, mas acabou por ser definitivamente aniquilado em 215, novamente por uma força enviada por Cao Cao.

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Uma consequência infeliz da rebelião foi o facto de vários senhores da guerra locais terem recebido apoio para levantar os seus próprios exércitos e combater os Turbantes Amarelos nas respetivas regiões. Uma vez eliminados os rebeldes, estes exércitos entraram frequentemente em confronto uns com os outros, seguindo-se um período prolongado de guerra civil durante o qual Luoyang foi saqueada em 189.

Após vários contratempos, Cao Cao acabou por se afirmar como o poderoso governador da província de Yan por volta de 196, estabelecendo o seu quartel-general em Xu, em Yingchuan (na província de Henan). Cao Cao tornar-se-ia, com o tempo, o mais poderoso dos senhores da guerra chineses, em particular após a sua vitória sobre o rival Yuan Shao na Batalha de Guandu, em 199–200. Na qualidade de homem mais forte na corte, acumulou uma série de títulos impressionantes: Marquês, Diretor de Retentores e, posteriormente, Ministro de Obras Públicas. Por volta de 205, conseguiu assumir as rédeas do governo, mantendo o imperador no cargo meramente como um gesto simbólico de respeito pela tradição passada. Escolhendo Ye como sua capital, Cao Cao apropriou-se de muitos dos antigos privilégios do imperador e adotou os títulos de chengxiang (Chanceler Imperial) em 208 e de Duque de Wei em 213. Em 216, deu um passo em frente ao declarar-se Rei de Wei, nome pelo qual o seu Estado passara a ser conhecido. No ano anterior, o antigo senhor da guerra fizera de uma das suas filhas imperatriz, coroando assim o seu controlo absoluto sobre o poder.

As Reformas de Cao Cao

Apesar de ter conquistado o vale do Rio Amarelo e os Wuhuan no nordeste (207) e de passar a controlar grande parte do norte da China, Cao Cao debateu-se com dificuldades para dominar a totalidade dos antigos territórios Han, visto que ainda permaneciam vastas áreas sob a alçada de senhores da guerra rivais. As suas tentativas de unificar uma região mais ampla da China sofreram um revés estrondoso sob a forma de uma derrota retumbante na Batalha das Falésias Vermelhas, no vale do rio Yangtzé, em 208. A doença e o desconhecimento tanto da geografia local como das técnicas de combate meridionais poderão ter-se conjugado para frustrar as ambições imperiais de Cao Cao. O vitorioso desse dia foi o jovem senhor da guerra Sun Quan, que mais tarde viria a tornar-se imperador do Estado rival de Wu.

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Cao Cao, Idealised Portrait
Retrato Idealizado de Cao Cao Wang Qi (Public Domain)

Para consolidar os territórios que efetivamente controlava, Cao Cao encetou uma série de reformas administrativas concebidas para reforçar a centralização do governo chinês e garantir que os tentáculos do Estado alcançassem tudo sem oposição. Uma das características destas reformas foi a contenção do gasto estatal excessivo. Por essa razão, foram aprovadas leis que proibiam, por exemplo, o uso de dispendiosas mortalhas funerárias de jade.

Outras medidas incluíram a introdução de um sistema de classificação de funcionários da corte em nove níveis (jiupin zhongzheng), um modelo que perdurou ao longo de várias dinastias posteriores. No entanto, isto não significa que tenha havido alterações significativas no processo de recrutamento, uma vez que Cao Cao continuou a tradição de selecionar ministros e funcionários com base nas suas relações pessoais, no seu estatuto na comunidade local e na sua origem, em detrimento do puro mérito. Concebido para tirar partido dos contactos e conhecimentos locais dos oficiais, o sistema acabou por favorecer apenas aqueles que dispunham das conexões certas, capazes de saltar vários degraus na escada de promoção de nove patamares.

O Cao Cao realojou camponeses que tinham ficado sem casa em terras abandonadas recuperadas pelo Estado.

Uma outra política de Cao Cao foi concebida para quebrar as lealdades regionais tradicionais e encher os cofres do Estado. Esta consistia em permitir o realojamento de camponeses que tinham ficado sem abrigo em terras abandonadas, recuperadas pelo Estado após a devastação da região pela guerra. Os camponeses e os rebeldes derrotados, igualmente realojados, tornaram-se inquilinos pagantes e, por conseguinte, uma fonte útil de rendimento para o Estado, sem a intermediação de um cobrador de impostos local.

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A Morte e o Legado

Cao Cao faleceu em 220, mas o seu segundo filho, Cao Pi, iria suplantar o pai. Forçando o último imperador Han a abdicar, fundou seguidamente a dinastia Wei (221–265). Adotando o título de Imperador Wen, tornou-se também um poeta e crítico literário talentoso e pioneiro. Entrementes, a Cao Cao foi atribuído o título póstumo de Imperador Wu de Wei, embora o seu objetivo de alcançar uma China unificada só viesse a concretizar-se três séculos mais tarde. A vida de Cao Cao foi registada numa autobiografia, a 让县自明本志令 (transliterado: Ràng Xiàn Zìmíng Běnzhì Lìng - Decreto para Renunciar aos Feudos e Esclarecer as Minhas Intenções ou Apologia), escrito entre 210 e 211, constituindo uma das primeiras autobiografias da China antiga.

A vida de Cao Cao é também o tema de um célebre romance da dinastia Ming (1368–1644), o 三国演义 (transliterado: Sānguó YǎnyìO Romance dos Três Reinos), no qual assume o papel do vilão deliciosamente maquiavélico da história. As óperas também o retratam como um vilão, com os atores que interpretam o ditador a usarem habitualmente uma máscara branca e ameaçadora com sobrancelhas sinistras. Mais recentemente, o líder militar tornou-se tema de várias séries de televisão e jogos de computador populares. Igualmente demonstrativa da reputação dúbia do ditador, a sua expressão perdura na expressão chinesa "Fala de Cao Cao e ele aparece", que equivale grosso modo a "Falar do corno, logo aparece" ou "Falando no rei de Roma, logo a porta assoma" em português.

Tomb of Cao Cao
Túmulo de Cao Cao Rolf Mueller (CC BY-SA)

O interesse por Cao Cao foi ainda mais despertado em 2008, quando arqueólogos chineses afirmaram ter descoberto o seu túmulo. Escavado perto de Xigaoxue, na província de Henan, o túmulo é composto por duas câmaras principais ligadas por uma porta em arco e cobre 750 metros quadrados (8.000 pés quadrados). Infelizmente, o túmulo já tinha sido saqueado e a sua ligação a Cao Cao tem sido difícil de determinar com certeza. A ligação provisória baseia-se em três pedras com a inscrição "Wu de Wei", uma descoberta a alguma distância do próprio túmulo, outra que poderá ter sido retirada do túmulo, e uma terceira encontrada por arqueólogos no interior do próprio túmulo, descrevendo várias armas de bronze como pertencentes a Wu de Wei. No entanto, a ausência de provas corroborantes, juntamente com casos anteriores de o Estado chinês fazer declarações precipitadas semelhantes sobre figuras históricas importantes, levou arqueólogos e historiadores fora da China (e alguns académicos no seu interior) a contestar a afirmação de que se trata do túmulo do ditador. O túmulo parece pertencer ao local e período corretos, e uma pessoa importante foi certamente sepultada lá. O tempo e um estudo mais aprofundado poderão vir a dizer se o túmulo de Xigaoxue é de facto o local de repouso final de Cao Cao, uma das figuras mais enigmáticas da China antiga.

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Cartwright, M. (2026, agosto 20). Cao Cao. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16217/cao-cao/

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Cartwright, Mark. "Cao Cao." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 20, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16217/cao-cao/.

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Cartwright, Mark. "Cao Cao." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 20 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16217/cao-cao/.

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