O termo «estatueta de Vénus» é utilizado para descrever as mais de 200 pequenas estatuetas de figuras femininas voluptuosas que foram encontradas em locais do Paleolítico Superior por toda a Europa e algumas partes da Ásia. «Quando os paleoantropólogos se referem às estatuetas como Vénus, [fazem-no] habitualmente entre aspas» (von Petzinger, pág. 95), uma vez que as estatuetas de Vénus precedem os mitos sobre a deusa Vénus em milhares de anos. O nome deriva, em parte, de teorias que associam estas estatuetas à fertilidade e à sexualidade, dois traços associados à deusa romana.
AS CARACTERÍSTICAS
As chamadas estatuetas de Vénus datam de um período compreendido entre cerca de 40 000 a.C. e 10 000 a.C. São geralmente bastante pequenas, com tamanhos que variam tipicamente entre 2,5 cm e 10,2 cm, embora tenham sido encontrados alguns exemplares com até 24 cm. O material mais comum utilizado para as esculpir é a presa de mamute, mas também se usavam dentes, hastes de cervo, ossos e pedra. Um número muito reduzido de locais produziu estatuetas de argila, que contam entre os primeiros exemplos conhecidos de arte cerâmica. As figuras são habitualmente nus femininos voluptuosos. Algumas das suas características, tais como os seios, ancas, ventres e regiões púbicas, aparecem grandemente exageradas, enquanto outros traços estão ausentes ou atenuados. É bastante comum que as estatuetas não tenham rosto, com braços e pernas mal definidos e uma silhueta afilada no topo e na base. As esculturas carecem frequentemente de mãos e pés definidos. Tendo em conta que os criadores destas esculturas estavam separados por 30 000 anos e centenas de quilómetros, é notável que tantas partilhem os mesmos traços.
AS DESCOBERTAS IMPORTANTES
Embora a maioria das estatuetas de Vénus apresente estas características voluptuosas, algumas descobertas isoladas revelam que existe alguma diversidade em termos de materiais e construção. São também bastante diversificadas no que diz respeito à sua localização. Foram encontradas em sítios arqueológicos por toda a Europa e em locais tão distantes como a Sibéria. A maioria foi encontrada em sítios de povoamento pré-históricos, tanto no interior de cavernas como em locais ao ar livre. Embora seja extremamente raro, algumas estatuetas foram encontradas em locais de sepultamento.
A Vénus mais antiga conhecida, a Vénus de Hohle Fels, foi encontrada numa caverna com o mesmo nome em Schelklingen, na Alemanha, e acredita-se que tenha entre 35 000 e 40 000 anos. Está esculpida em marfim de mamute lanudo. Em vez de uma cabeça, a Vénus de Hohle Fels tem um laço, o que sugere que possa ter sido usada como um pendente. Muitas Vénus apresentam perfurações que sugerem que possam ter sido usadas como joias.
Uma das estatuetas de Vénus mais conhecidas é a Vénus de Willendorf, que deve o seu nome ao local onde foi encontrada, na Áustria. A Vénus de Willendorf tem cerca de 25 000 anos. Foi esculpida em calcário, outro material frequentemente utilizado.
A Vénus de Laussel também foi esculpida em calcário e partilha muitas das características de uma estatueta de Vénus, mantendo-se, no entanto, única em termos de arte pré-histórica. Encontrada em França e com uma idade estimada entre os 18 000 e os 20 000 anos, esta Vénus é um exemplo raro de baixo-relevo pré-histórico. Tal como muitas destas figuras, a Vénus de Laussel esteve outrora coberta de ocre encarnado, um aspeto que sugere uma ligação com a menstruação e a fertilidade. Ainda são visíveis a olho nu vestígios deste ocre. Ela segura um chifre curvo com 13 linhas gravadas, que poderão representar ciclos lunares ou menstruais.
Igualmente únicas são as Vénus de cerâmica de Dolni Vestonice, na República Checa, e de Vela Spila, na Croácia. São os exemplos mais antigos de artefactos de argila cozidos em forno até agora conhecidos. Em Dolni Vestonice, desenvolveu-se uma mistura de argila e osso moído que, frequentemente, produzia um acabamento autovitrificado no forno, fazendo com que muitas das figuras encontradas neste sítio apresentassem uma aparência negra, brilhante e invulgar. A Vénus Negra de Dolni Vestonice é o exemplo mais conhecido de uma estatueta feita com este material. Embora bastante singular em termos de cor e material, a Vénus Negra partilha a aparência curvilínea das suas congéneres encontradas por toda a Eurásia.
AS TEORIAS SOBRE AS SUAS FUNÇÕES
O que intriga muitos estudiosos é a natureza voluptuosa destas estatuetas. Foram produzidas numa época em que a mulher média seria magra e musculosa. Por esta razão, muitos investigadores defendem a teoria de que estas figuras não eram retratos de mulheres reais, mas sim ícones religiosos. O seu tamanho reduzido, que sugere que as figuras podiam ser seguras nas mãos durante rituais, reforça ainda mais esta teoria. Certamente, as suas dimensões diminutas facilitavam aos nossos antepassados nómadas o transporte destes objetos potencialmente sagrados de um lugar para outro.
Uma vez que as características exageradas e enfatizadas na maioria das esculturas (seios grandes, ancas largas, barrigas salientes) estão associadas a mulheres férteis e grávidas, é possível que estas figuras femininas servissem como símbolos de fertilidade. Alguns estudiosos também postularam que estas estatuetas, que muitas vezes parecem grávidas, podem representar uma deusa-mãe ou uma divindade associada à maternidade. As estatuetas que apresentam orifícios que teriam permitido enfiá-las num fio, como a Vénus de Hohle Fels, podem ter sido usadas como amuletos para proteger as mulheres durante a gravidez e o parto. Algumas Vénus foram outrora unguidas com ocre encarnado, enquanto outras foram decoradas com símbolos que podem estar associados aos ciclos lunares; ambos os aspetos sugerem também uma ligação à menstruação e à fertilidade.
Embora a teoria de que as estatuetas de Vénus foram esculpidas como símbolos de fertilidade ou objetos religiosos seja a hipótese mais amplamente aceite, muitas outras teorias foram avançadas para explicar a proliferação destas esculturas: tem-se sugerido que se tratam de bonecas ou retratos; já outros investigadores acreditam que possam representar padrões de beleza ideais ou servir como uma espécie de pornografia paleolítica. Dada a vasta extensão temporal e geográfica ao longo da qual estas estatuetas foram produzidas, é possível que tivessem múltiplos significados e servissem a múltiplos fins. Na realidade, não dispomos de provas suficientes para determinar de forma conclusiva qual destas teorias, se é que alguma, é correta. Tal como a maioria dos objetos culturais da era do Paleolítico Superior, o seu verdadeiro significado poderá nunca vir a ser conhecido.
Em última análise, no que diz respeito à arte paleolítica, as estatuetas de Vénus são raras. Na verdade, imagens de seres humanos de qualquer tipo são bastante incomuns e só surgem muito mais tarde na linha temporal da arte pré-histórica. Os seres humanos começaram a criar arte há cerca de 80 000 anos, mas as imagens de seres humanos só aparecem entre há 30 000 e 40 000 anos. Nos sítios onde foram encontradas várias estatuetas, é raro que as estatuetas do tipo Vénus constituam a maioria. É frequente estar presente um número igual de representações de animais, e muitas das figuras humanas são masculinas ou de género ambíguo. Entre toda a arte criada pelos nossos antepassados pré-históricos, as imagens de animais eram, de longe, as mais comuns, o que sugere que, para os primeiros humanos modernos, a nossa espécie não era a criatura viva mais dominante ou importante da Terra.

