Manyoshu

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Otomo no Yakamochi (by 柑橘類, Public Domain)
Otomo no Yakamochi 柑橘類 (Public Domain)

O Manyoshu (万葉集 ; transliterado: Man'yōshū - Coleção de Dez Mil Folhas) é uma antologia de antigos poemas japoneses compilada por volta do ano de 759, durante o Período Nara, mas que inclui muitas obras anteriores. Pensa-se que Otomo no Yakamochi terá sido a pessoa mais provável a reunir a coleção — ele próprio um poeta prolífico que incluiu quase 500 das suas próprias obras no Manyoshu. O Manyoshu é considerado um clássico literário e o ponto alto da poesia japonesa.

Otomo no Yakamochi

Muitos estudiosos consideram que o Manyoshu foi compilado pelo poeta Otomo no Yakamochi (cerca de 718–785). Ele certamente incluiu bastantes das suas próprias obras — cerca de 479, ou seja, 10% da coleção. Yakamochi nasceu numa família aristocrática e o pai também era poeta. Quando tinha 30 anos, Yakamochi foi nomeado governador da província de Etchu (atual Prefeitura de Toyama), que então era menor e remota. Esta colocação talvez explique a inclinação do poeta para temas de separação e solidão, amor não correspondido e descrições da natureza.

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Numa noite em que as brumas da primavera

Se arrastam sobre o vasto mar,

E triste é a voz do grou,

Penso no meu lar distante.

Otomo no Yakamochi (Henshall, pág. 316)

Felizmente para Yakamochi, a sua comissão de serviço não foi permanente e, quando regressou à capital em Nara, foi-lhe atribuído um cargo no Ministério dos Assuntos Militares. Isto não deteve o seu amor pela poesia, pois era conhecido por recolher poemas junto dos guardas por toda a cidade. Após 750, os poemas cessam, e Yakamochi faleceu em 785.

A antologia Manyoshu é constituída por 4496 poemas organizados em 20 livros.

A antologia Manyoshu contém poemas que foram todos escritos no japonês daquela época, isto é, utilizando carateres chineses foneticamente. A obra é constituída por 4496 poemas organizados em 20 livros, sendo a esmagadora maioria no estilo tanka (também conhecido como waka), ou seja, cada poema tem precisamente 31 sílabas divididas em cinco versos (5+7+5+7+7). Em contraste, 262 poemas estão escritos no estilo mais longo nagauta, que pode ter até 200 versos. Há também 62 poemas sedoka (poemas de seis versos com 38 sílabas) e quatro poemas escritos em chinês. Os poemas dividem-se em três grandes categorias temáticas: zoka (diversos), somon (trocas mútuas ou poemas de amor) e banka (elegias). Os poemas cobrem um período de quatro séculos e é provável que fossem destinados a ser cantados.

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Tal como as contribuições de Yakamochi, muitos dos poemas abordam a tristeza e a melancolia. Outros nomes famosos presentes na coleção incluem Kakinomoto Hitomaro (prolifero entre 685 e 705) e Yamanoue Okura (660–cerca de 733). O primeiro era apenas um funcionário de baixo escalão na corte, mas era considerado o melhor poeta do período, havendo mais de 80 poemas seus na antologia. Yamanoue Okura, outro funcionário do governo, mas desta vez com experiência na China (pode ter chegado ao Japão como refugiado do estado coreano de Baekje), está representado com 70 poemas. Foi tutor do príncipe herdeiro (o futuro Imperador Shomu) e a sua obra destaca-se pela vertente social, com especial ênfase na pobreza. Outros autores que contribuíram para o Manyoshu incluem poetas menos conhecidos, diplomatas, princesas, imperadores, soldados e camponeses, sendo muitas das obras anónimas.

Poemas Exemplares

Incontáveis são as montanhas

em Yamato,

mas perfeita é

a celestial colina de Kagu:

Quando a escalo

e examino o meu reino,

Sobre a vasta planície

as espirais de fumo sobem e sobem,

sobre o vasto mar

as gaivotas voam;

é uma terra bela,

Akitsushima,

a Terra de Yamato.

Imperador Jomei (Keene, pág. 96)

Quando, libertadas dos laços do inverno,

A primavera surge,

As aves que estavam caladas

Saem e cantavam,

As flores que estavam prisioneiras

Saem e florescem;

Mas as colinas estão tão densas de árvores

Que não conseguimos procurar as flores,

E as flores estão tão entrelaçadas com ervas daninhas

Que não as conseguimos tomar nas mãos.

Mas quando na encosta outonal

Vemos a folhagem,

Apreciamos as folhas amarelas,

Tomando-as nas mãos,

Suspiramos pelas verdes,

Deixando-as nos ramos;

E esse é o meu único desgosto —

Para mim, as colinas de outono!

Princesa Nukata (Keene, pág. 101)

O nosso grande Soberano, uma deusa,

Da sua sagrada vontade

Ergueu um imponente palácio

Na margem de Yoshino,

Cercado pelas suas corredeiras;

E, subindo, examina a terra.

As montanhas sobrepostas,

Erguendo-se como muralhas verdes,

Oferecem as flores com a primavera,

Como tributos divinos ao Trono.

O deus do rio Yu, para abastecer a mesa real,

Promove a pesca com corvo-marinho

Nas suas zonas pouco profundas superiores,

E submerge as redes de pesca

No curso inferior.

Assim, as montanhas e o rio

Serve o nosso Soberano, unidos na vontade;

É verdadeiramente o reinado de uma divindade.

Kakinomoto Hitomaro (Keene, 103–4)

Ali te encontrei, coitado de ti! —

Estendido na praia,

Nesta cama agreste de pedras,

Entre as vozes atarefadas das ondas.

Se ao menos eu soubesse onde ficava a tua casa,

Iria dizê-lo;

Se a tua mulher soubesse,

Viria cuidar de ti.

Ela, desconhecendo o caminho até aqui,

Tem de esperar, tem de esperar sempre,

Esperando inquieta pelo teu regresso —

A tua querida mulher — ai de mim!

Kakinomoto Hitomaro (Keene, pág. 111)

Haverá alguma vez

Alguém mais que descanse

A cabeça nos meus braços

Tal como outrora a minha amada mulher

Ali fez a sua almofada?

Otomo no Tabito (Keene, 133)

Guardar um silêncio taciturno

No papel de homem sábio

Ainda não é tão bom

Como beber o seu próprio sakê

E chorar lágrimas de embriaguez.

Otomo no Tabito (Keene, 137)

…E no caldeirão

Uma aranha tece a sua teia.

Sem um único grão para cozinhar,

Gememos como o "tordo-das-noites".

Depois, "para cortar", como diz o ditado,

"As pontas do que já é demasiado curto",

Chega o chefe da aldeia,

Com a vara na mão, ao nosso poiso,

A rosnar pelas suas taxas.

Terá de ser assim sem esperança —

O rumo deste mundo?

Yamanoue Okura (Keene, pág. 145)

Se amar fosse morrer,

Eu teria morrido —

E morrido de novo

Mil vezes.

Otomo no Yakamochi (Keene, pág. 151)

O Legado

Os poemas do Manyoshu inspiraram muitos poetas posteriores, que copiaram os estilos, as imagens e até as frases dos grandes mestres. Alguns poetas posteriores escreveram também extensões de obras anteriores ou as suas próprias "respostas". Mesmo a estrutura do livro tem influenciado — pois, embora não seja claro o motivo pelo qual o Manyoshu foi dividido em 20 livros, este foi um modelo seguido por quase todas as antologias japonesas subsequentes. O Manyoshu tem sido incessantemente estudado desde a sua publicação, não só no que respeita ao significado dos poemas, mas também para a criação de estudos especializados sobre os pormenores biográficos, as práticas religiosas e até as plantas mencionadas ao longo desta importantíssima antologia japonesa.

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Cartwright, M. (2026, julho 29). Manyoshu. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15870/manyoshu/

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Cartwright, Mark. "Manyoshu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 29, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15870/manyoshu/.

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Cartwright, Mark. "Manyoshu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 29 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15870/manyoshu/.

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