Cuzco

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Sacsayhuaman Terrace Gateway (by Martynas, CC BY-NC-SA)
Acesso ao Terraço do Forte Sacsayhuaman Martynas (CC BY-NC-SA)

Cuzco (também conhecida como Cusco ou Qosqo) foi a capital religiosa e administrativa do Império Inca, que prosperou no antigo Peru entre cerca de 1400 e 1534. Os Incas controlavam um território que se estendia de Quito a Santiago, tornando o seu império o maior de sempre nas Américas e o maior do mundo naquela época. Cuzco, que chegou a ter uma população de até 150 000 habitantes no seu auge, tinha a forma de um puma e era dominada por edifícios e palácios imponentes, sendo o mais rico de todos o complexo sagrado de Coricancha, revestido a ouro e incrustado de esmeraldas, que incluía um templo dedicado ao deus inca do sol, Inti. Cuzco está classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Cuzco na Mitologia

Na mitologia, o grande deus Viracocha criou os incas, nascidos do deus do sol, Inti. Os primeiros oito incas nasceram, assim, em Tiwanaku ou, numa versão alternativa, emergiram da caverna sagrada de Pacaritambo, tendo depois migrado para o vale de Cuzco. Liderados por Manco Capac (ou Manko Qhapaq) e Mama Ocllo, o grupo cumpriu a profecia anterior, segundo a qual deveriam estabelecer-se onde o seu cajado dourado pudesse ser facilmente cravado no solo. Antes de os Incas poderem prosperar, porém, tiveram primeiro de derrotar os seus rivais locais, os Chanca, um feito que alcançaram com a ajuda de gigantes de pedra, os pururaucas. Este acontecimento teve, de facto, uma base na realidade, uma vez que os Incas derrotaram efetivamente os Chanca em 1438 d.C. Assim, foi fundada a capital inca. O nome Cuzco pode derivar de «qosqo», que significa «leito de lago seco», ou de «cozco», um marco de pedra específico da cidade.

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A Geografia, a Disposição e a Arquitetura

A localização geográfica do sítio, num antigo leito de lago glaciar e num ponto central entre rotas naturais que conduzem a diversas regiões circundantes, era vantajosa. A bacia situa-se a uma altitude de 3 450 metros e está rodeada por picos montanhosos. No vale era possível cultivar cereais, e as colinas proporcionavam boas pastagens. Cuzco é também o ponto de encontro de três rios — o Huatanay, o Tullumayo e o Chunchul —, o que a tornava especialmente significativa e auspiciosa na mentalidade inca. Ao estilo típico dos incas, em que a natureza era adaptada mas nunca explorada, os rios foram canalizados e desviados para criar o espaço necessário a uma grande cidade.

Cuzco viveu um grande período de reconstrução em meados do século XV, durante o reinado de Pachacuti, conhecido como «O Que Inverte o Mundo».

A primeira ocupação por populações sedentárias remonta, na verdade, a 500 a.C. ou mesmo antes, e o principal povoado pré-inca era Chanapata. Sobrevivem cerâmicas decoradas deste período, mas não há vestígios de grandes edifícios, obras de arte ou metais. Da mesma forma, não existem vestígios do período de Tiwanaku no próprio sítio de Cuzco. Cuzco começou realmente a tomar forma por volta de 1200 d.C., mas só adquiriu a grandiosidade de uma capital durante o reinado de Inca Roca, no século XIV. A partir daí, cada soberano inca construiu o seu próprio palácio, um grande complexo residencial murado. Além disso, a partir de 1400, os incas lançaram-se em campanhas ambiciosas para conquistar territórios vizinhos, acabando por construir um enorme império com Cuzco como capital administrativa e religiosa.

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A cidade viveu um grande período de reconstrução e expansão em meados do século XV, durante o reinado de Pachacuti Inca Yupanqui, conhecido como «O que Inverteu o Mundo». A zona pantanosa a norte foi drenada e o coração da cidade mudou-se para lá. Foram criadas grandes praças cerimoniais, construída a fortaleza de Sacsayhuaman (ou Saqsawaman), que protegia o norte da cidade, e reconstruído o complexo sagrado de Coricancha para refletir de forma mais adequada a riqueza e o poder do Império Inca. Outras obras de construção ao longo do tempo, que aumentaram a extensão de Cuzco para cerca de 40 hectares, parecem ter sido planeadas de forma menos deliberada, resultando numa área urbana de forma irregular.

Toda a capital foi construída em torno de quatro estradas principais que conduziam aos quatro cantos do império. A cidade também foi projetada na forma de um puma (embora alguns estudiosos o contestem e interpretem a descrição de forma metafórica), com a metrópole imperial de Pumachupan a formar a cauda, a praça principal a representar o corpo e o complexo de templos de Sacsayhuaman a formar a cabeça. A cidade inteira estava também dividida em duas partes distintas, denominadas hanan e hurin; a primeira, a norte, situava-se a uma altitude mais elevada e era mais prestigiada do que a sua contraparte, mais baixa, a sul. Cinco famílias nobres ocupavam cada setor. O centro era dominado pelas praças duplas de Haucaypata («Terraço do Repouso») e Cusipata («Terraço da Sorte»), que, cobertas de areia importada, acolhiam cerimónias religiosas e de Estado. Estas eram presididas pelo rei Inca, sentado no seu trono de pedra esculpida numa plataforma elevada, o usnu, que também possuía um pilar para a observação de corpos celestes. Aqui encontrava-se também uma bacia gigante de pedra revestida a ouro, na qual eram derramadas libações de cerveja chicha. A dominar a praça estava o Sunturwasi, uma torre que constituía a estrutura mais alta de Cuzco.

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Inca 12 Angle Stone
Pedra dos 12 Ângulos Flickr User: Canopic (CC BY-NC-ND)

Incorporando kanchas (pequenos conjuntos de edifícios organizados em torno de um pátio, todos dentro de um recinto com muros altos), vastas praças, parques, campos agrícolas sagrados, santuários, fontes e canais, mas com as ruas estreitas de uma cultura sem veículos com rodas, a cidade estava em grande parte reservada aos sacerdotes, à nobreza e aos administradores, enquanto as comunidades agrícolas e artesanais se espalhavam para além das muralhas de Cuzco, onde também existiam centenas de armazéns qollqa com uma enorme capacidade de armazenamento. A cidade propriamente dita tinha uma população de cerca de 40 000 habitantes, com mais 200 000 na área circundante na época da conquista espanhola.

Cuzco era também um elemento importante na propaganda do domínio inca. Era encorajada a ser venerada pelos súbditos incas como um local sagrado. Esta política implicava também tributos, tanto em objetos de valor real, como ouro e obras de arte, como em pessoas — quer governantes e/ou membros das suas famílias mantidos como reféns, quer artistas e artesãos e artesãs qualificados deslocados à força —, bem como o fornecimento de vítimas para sacrifícios. Além disso, a partir de Cuzco irradiavam-se 41 linhas de visão sagradas (ceques) e estradas bem pavimentadas que dividiam tanto o espaço como o tempo e lembravam que Cuzco era o centro do mundo. Por fim, foram descobertas pequenas maquetes de Cuzco por todo o império, o que deve ter divulgado a notícia da grande dimensão e riqueza da capital.

O Coricancha

O mais esplêndido dos edifícios de Cuzco era o Coricancha (Qorikancha), com os seus templos (wasi) construídos em honra de Inti, da deusa da Lua Mama Kilya (Quilla), do deus criador Viracocha, de Vénus ou Chaska-Qoylor, do deus do trovão Illapa e, por fim, um dedicado a Cuichu, o deus do arco-íris. Cada wasi continha uma estátua de culto de um deus específico, bem como obras de arte preciosas e objetos religiosos a eles associados. O Coricancha, também conhecido como o Recinto Dourado, era, assim, o mais sagrado de todos os locais incas e considerado o próprio centro do mundo.

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Coricancha Circuit Wall
Muralha Perimetral de Coricancha Angela Rutherford (CC BY-NC-ND)

Construídas com base nas refinadas técnicas de alvenaria pelas quais os incas se tornaram, com razão, famosos, as maciças paredes do complexo foram erguidas a partir de grandes blocos de pedra finamente talhados e encaixados uns nos outros sem argamassa. Os edifícios interiores eram de um único piso e tinham telhados de colmo. As portas também estavam revestidas com folhas de ouro, tal como os interiores e exteriores dos vários templos, e dizia-se mesmo que o lado interior da parede perimetral estava cravejado de esmeraldas. O templo de Inti, também conhecido como o Templo do Sol, estava revestido com 700 folhas de ouro batido de 2 kg, simbolizando o suor do deus, e o templo de Mama Kilya estava, de forma semelhante, revestido com prata, simbolizando as lágrimas da lua.

No interior do Templo do Sol, para além de artefactos dourados relacionados com o culto do deus, encontrava-se uma estátua de ouro de Inti incrustada com joias. A estátua representava Inti como um pequeno rapaz sentado chamado Punchao (Sol do Dia ou do Meio-dia). Outra representação importante do deus — uma máscara gigante com raios em ziguezague a irromper da cabeça — estava pendurada na parede de uma câmara especialmente dedicada dentro do templo. O jardim do templo era ainda mais espetacular. Tal como terras — por vezes até regiões inteiras — eram dedicadas ao deus, também este jardim foi construído em honra do grande deus do sol. Tudo nele era feito de ouro e prata. Um grande campo de milho e modelos em tamanho real de pastores, lamas, jaguares, porquinhos-da-índia, macacos, pássaros e até borboletas e insetos foram todos esculpidos em metal precioso. E como se isso não bastasse para agradar a Inti, havia também um grande número de jarros de ouro e prata, todos incrustados com pedras preciosas. Tudo o que resta destas maravilhas são alguns talos de milho dourados, um testemunho convincente, ainda que silencioso, dos tesouros perdidos de Coricancha.

O Coricancha também possuía um espaço dedicado aos restos mumificados de antigos imperadores incas e das suas esposas, conhecidas como mallquis. Estes eram retirados do local de armazenamento durante cerimónias especiais, como as que celebravam os solstícios. Havia também alojamentos para sacerdotes e sacerdotisas, e outras salas do complexo eram utilizadas como tesouros artísticos e religiosos, repletos de artefactos retirados aos povos conquistados. Estes podem muito bem ter sido guardados para garantir a obediência ao domínio inca, tal como os governantes conquistados eram, por vezes, mantidos como reféns em Cuzco durante certos períodos do ano. Outra característica interessante do local era um canal subterrâneo através do qual a água sagrada fluía para as praças circundantes, no exterior do complexo.

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Coricancha, Cuzco
Coricancha, Cusco Canopic (CC BY-NC-ND)

Outras funções importantes do Coricancha incluíam a realização de observações astronómicas, especialmente da Via Láctea (Mayu). As vítimas de sacrifício (capacochas) eram também preparadas para o seu grande momento no pátio do recinto e, em seguida, conduzidas ao longo das linhas dos ceques para serem sacrificadas nas várias províncias em honra de Inti e da sua encarnação viva, o imperador Inca.

Sacsayhuaman

A fortaleza de Sacsayhuaman, construída por Pachacuti, foi provavelmente erguida inicialmente com lama e argila, tendo sido posteriormente substituída por um magnífico trabalho em pedra que empregou enormes blocos finamente talhados, muitos dos quais pesavam mais de 100 toneladas. Projetada por quatro arquitetos (Huallpa Rimachi, Maricanchi, Acahuana e Calla Cunchui) e construída com o trabalho de 20 000 trabalhadores de tributo, a estrutura possui três terraços dispostos em ziguezague, de modo que cada parede tem até 40 segmentos, o que permitia aos defensores apanhar os atacantes num fogo cruzado. Apenas uma pequena porta em cada terraço dava acesso aos edifícios interiores e às torres na encosta atrás. Diz-se que a fortaleza tinha capacidade para 1 000 guerreiros. Após o colapso do império, a maioria das pedras foi reutilizada noutros locais e as ruínas foram cobertas de terra para impedir a sua utilização por forças rebeldes.

A Destruição

Os incas expandiram o seu território a tal ponto que apenas 40 000 incas controlavam um império de 10 milhões de súbditos. O Império Inca foi fundado e mantido pela força, o que tornou os líderes impopulares entre os seus súbditos (especialmente nos territórios do norte), uma situação da qual os conquistadores espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, tirariam pleno partido nas décadas centrais do século XVI. O Império Inca também teve de enfrentar várias rebeliões, incluindo uma guerra no Equador, onde uma segunda capital inca tinha sido estabelecida em Quito. Ainda mais grave foi o facto de os incas terem sido atingidos por uma epidemia de doenças europeias, como a varíola, que se espalhou da América Central ainda mais rapidamente do que os próprios invasores europeus, e cuja onda matou entre 65% e 90% da população. Essa doença matou Wayna Qhapaq em 1528 e dois dos seus filhos, Waskar e Atahualpa, travaram uma devastadora guerra civil pelo controlo do império, precisamente quando os caçadores de tesouros europeus chegaram. Foi esta combinação de fatores — uma tempestade perfeita de rebelião, doença e invasão — que acabou por provocar a queda de Cuzco e do poderoso Império Inca.

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Cuzco foi saqueada, tendo os seus edifícios principais sido queimados e destruídos ou desmontados para reutilização em novos projetos de construção. Assim, o outrora dourado esplendor da Cuzco inca sobrevive agora, infelizmente, apenas nos relatos de testemunhas oculares dos primeiros europeus que se maravilharam com a sua arquitetura e riquezas e nos raros trechos de muralhas incas, especialmente as paredes de suporte cortadas com precisão do mosteiro dominicano.

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Cartwright, M. (2026, outubro 30). Cuzco. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12510/cuzco/

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Cartwright, Mark. "Cuzco." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 30, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12510/cuzco/.

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Cartwright, Mark. "Cuzco." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 30 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12510/cuzco/.

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