Thoth é o deus egípcio da escrita, da mágia, da sabedoria e da lua. Foi um dos deuses mais importantes do Egito Antigo, sendo descrito ora como autocriado, ora como nascido da semente de Hórus, a partir da testa de Set. Como filho dessas duas divindades, que representavam respectivamente a ordem e o caos, era também o deus do equilíbrio.
Nesse sentido, esteve intimamente associado tanto ao princípio de ma'at (equilíbrio divino) e à deusa Ma'at, que personificava esse princípio e que às vezes era considerada sua esposa. Outra de suas consortes era a deusa Nehemetawy ("Aquela que Abraça os Necessitados"), uma deusa protetora. Em sua forma como A'an, Thoth presidia o julgamento dos mortos ao lado de Osíris, no Salão da Verdade, e as almas que temiam não atravessar esse julgamento com segurança eram encorajadas a invocá-lo em busca de ajuda. A consorte mais frequentemente associada a Thoth era Seshat, deusa da escrita, guardiã dos livros e deusa padroeira das bibliotecas e dos bibliotecários, vista alternadamente como sua esposa ou filha.
O culto a Thoth teve início no Baixo Egito, provavelmente no Período Pré-Dinástico (cerca de 6.000-3.150 a.C.), e continuou até o Período Ptolemaico (323-30 a.C.), a última era dinástica da história egípcia, o que faz da sua veneração uma das mais longas entre os deuses do Egito ou mesmo entre as divindades de qualquer civilização. Seu nome era frequentemente adotado por reis do Egito, como em Tutmés, "Nascido de Thoth", além de escribas e sarcedotes. Ele é mais comumente representado como um homem com cabeça de íbis ou como um babuíno sentado, com ou sem um disco lunar acima da cabeça. Era o deus padroeiro dos escribas, e dizia-se que eles derramavam uma gota de tinta em sua homenagem antes de inicar o trabalho diário.
Nome e Origem
O nome egípcio de Thoth era Djehuty (também escrito como dhwty), com o significado de "Aquele que é como o Íbis". O Íbis era uma ave sagrada do Egito Antigo, além de um animal de estimação popular, associado à sabedoria. Outras formas de seu nome incluem Jehuti, Tahuti, Tehuti, Zehuti, Techu e Tetu, e Senhor de Khemenu, cidade que mais tarde seria conhecida como Hermópolis e que era seu principal centro de culto. Hermópolis recebeu esse nome devido à associação feita pelos gregos entre Thoth e o deus Hermes e, para eles, Thoth passou a ser Hermes Trismegisto (Thoth, o Três Vezes Grande, frequentemente traduzido como “Três Vezes Grande, o Grande”). Ele também era conhecido como “Senhor de Ma’at”, “Senhor das Palavras Divinas”, “Escriba de Ma’at na Companhia dos Deuses” e como um juiz justo e incorruptível.
De acordo com uma das narrativas, Thoth nasceu "dos lábios de Rá", no início da criação e era chamado de "o deus sem mãe". Em outra história, Thoth é autocriado no começo do tempo e, na forma de um íbis, põe um ovo cósmico que contém toda a criação. Ele esteve sempre intimamente ligado a Rá, e ao conceito de ordem e justiça divinas. Em uma terceira narrativa, O Conflito entre Hórus e Set, um manuscrito egípcio datado de aproximadamente 1190–1077 a.C., quando Hórus e Set lutam pelo direito de governar, Thoth teria sido criado a partir do sêmen de Hórus, que foi acidentalmente engolido por Set durante a disputa.
Thoth teria então nascido da testa de Set e, em algumas versões do mito, passou a mediar o conflito entre os deuses. Em outras versões, a disputa entre Hórus e Set é resolvida por Neith e, em outras ainda, por Ísis. Em todas elas, Thoth aparece como o escriba que registra os acontecimentos do confronto e oferece conselhos aos deuses. Ele cura tanto Hórus quanto Set em diferentes momentos da batalha, garantindo que ambos estejam em condições iguais e que nenhum obtenha vantagem sobre o outro, de modo que a disputa seja justa. Da mesma forma, Thoth presidia a justiça na terra entre os seres humanos. A egiptóloga Geraldine Pinch escreve:
Thoth estabeleceu um exemplo divino como juiz justo e oficial incorruptível. Ele conduziu Ma’at, a deusa da justiça, até seu pai, Rá. Thoth era responsável por formular e aplicar as leis de ma’at. Nesse papel, podia agir tanto como um pacificador benevolente quanto como um executor implacável. (210)
Como a Thoth era atribuída a criação de diversos ramos do conhecimento, como o direito, a magia, a filosofia, a religião, a ciência e a escrita, acreditava-se que ele fosse um juiz infalível, capaz de proferir decisões absolutamente justas. Os gregos admiravam-no tanto que lhe atribuíram a origem de todo o conhecimento existente na terra e nos céus. A sua importância entre os deuses, especialmente para Rá, era tamanha que foi ele o escolhido para resgatar a filha de Rá das terras distantes para onde ela por vezes fugia.
Thoth e a Deusa Distante
O motivo da Deusa Distante aparece em diversos mitos egípcios, mas sempre com o mesmo significado, independentemente de qual seja a deusa específica ou de para onde ela tenha ido: a filha de Rá entra em desacordo com ele por algum motivo e o abandona, retirando-se para uma terra distante, e alguém precisa ser enviado para trazê-la de volta; quando retorna, ela traz algum tipo de transformação para o povo. A narrativa da Deusa Distante também envolve sempre o Olho de Rá, o olho que tudo vê, do qual Rá precisava diariamente; por isso, era imperativo que a deusa fosse trazida de volta rapidamente e que o olho fosse recuperado, mas ela era poderosa demais para ser forçada, e a tarefa exigia sutileza. Geraldine Pinch escreve:
Rá escolheu Thoth para trazer essa Deusa Distante de volta de um deserto remoto. Disfarçado de babuíno ou macaco, Thoth cumpriu sua missão por meio da humildade, da astúcia e da perseverança. Segundo um relato, ele precisou pedir à deusa que voltasse para casa 1.077 vezes. (210)
Como recompensa pelos seus serviços, Thoth recebeu a deusa Nehemtawy como consorte, que, segundo Pinch, era “uma versão apaziguada da Deusa Distante” (210).
Thoth também foi fundamental no nascimento dos cinco deuses originais do Egito. Quando Nut engravidou de Geb no início do mundo, Rá (também conhecido como Atum) ficou tão furioso que decretou que ela não daria à luz em nenhum dia do ano. Thoth apostou com Iah, o deus da lua, o equivalente a cinco dias de luz lunar. Ele venceu a aposta e dividiu a luz da lua de Iah em cinco dias de luz solar que não faziam parte do ano, conforme decretado por Rá. Assim, Nut pôde dar à luz cada um de seus filhos (Osíris, Ísis, Set, Néftis e Hórus) em cada um desses dias.
Embora Rá tivesse ficado irado com a filha, Nut, ele acabou cedendo e honrou Thoth pelo seu papel em contornar um decreto de Rá. Thoth recebeu um assento de honra na barca celeste que atravessava os céus durante o dia e, à noite, ajudava a afastar a serpente Apófis, que buscava destruir o deus sol. Sua participação na derrota de Apófis o ligou ao ciclo do dia e da noite e, assim, de forma íntima, à vida dos seres humanos.
Thoth e a Palavra Escrita
Thoth criou a palavra escrita que as pessoas usavam para registrar sua história e acompanhar a vida quotidiana. Segundo algumas narrativas, Thoth inventou a escrita e a entregou à humanidade, enquanto em outras Thoth foi o criador e sua consorte Seshat concedeu as palavras ao povo. Em outras variações ainda, Thoth é o criador, mas Osíris ou Ísis são os que transmitem as palavras à humanidade. Em todos os casos, Thoth é o criador da linguagem escrita e das artes literárias, tanto para os seres humanos quanto para os deuses. Geraldine Pinch escreve:
Thoth, o “excelente em entendimento”, observava e registrava tudo o que acontecia e tudo relatava a Rá todas as manhãs. Como guardião dos registros dos deuses, ele era associado à bibliotecária Seshat. Thoth e Seshat conheciam o futuro assim como o passado. Eles inscreviam o destino de uma pessoa nos tijolos sobre os quais sua mãe dava à luz e a duração do reinado de um rei nas folhas da árvore Ished. (210)
Thoth ficou, portanto, ligado ao conceito de destino, embora essa responsabilidade fosse compartilhada, em diferentes versões dos mitos e em diferentes épocas, com as Sete Hathors ou outras divindades. Como guardião dos registros dos deuses, Thoth também mantinha a contagem dos dias dos seres humanos. Ele aparece em diversas imagens registrando os dias e numerando os anos, o que permitia aos escribas egípcios documentar a história do país.
Os escribas, naturalmente, tomavam Thoth como seu patrono e iniciavam cada dia prestando-lhe homenagem. Uma estátua da Dinastia XVIII mostra Thoth como um babuíno, com o disco lunar sobre a cabeça, sentado acima de um escriba em atividade, diante da sua mesa de escrita. Esperava-se que o trabalho desses escribas fosse aprovado por Thoth, que então concedia permissão a Seshat para acolhê-los na sua biblioteca imortal e protegê-los nas bibliotecas terrenas.
O conceito de que a escrita tornava o autor imortal era amplamente respeitado no Egito, pois a obra de um escriba continuava existindo após sua morte por meio das palavras escritas nos livros, além de ser conhecida pelos deuses, já que Seshat também preservava essas palavras em seus livros celestiais. Os escribas tinham todos os motivos para acreditar que seriam calorosamente recebidos após a morte no Salão da Verdade e seguiriam para o paraíso no Campo dos Juncos.
Thoth na Vida Após a Morte
Thoth aparece com frequência ao lado de Osíris e Anúbis no Salão da Verdade como o escriba que manteve os registros da vida da alma do falecido e que anota o resultado da pesagem do coração contra a pena da verdade. O estudioso Richard H. Wilkinson comenta:
Nas vinhetas do Livro dos Mortos, [Thoth] permanece diante da balança que pesa o coração do falecido e registra o veredito. Esse papel conferiu a Thoth uma reputação de verdade e integridade, refletida na afirmação comum de que uma pessoa havia conduzido sua vida de maneira “reta e verdadeira como Thoth”. (216)
Sua morada na vida após a morte, conhecida como a Mansão de Thoth, oferecia um local seguro para que as almas descansassem e recebessem feitiços mágicos destinados a ajudá-las contra os demónios que tentariam impedir a sua chegada ao paraíso. Sua magia também era fundamental para a revitalização da alma, que trazia os mortos de volta à vida no submundo. A associação da escrita com a magia deu origem à crença de que Thoth teria escrito tratados mágicos baseados em tudo o que sabia sobre os céus, a terra e a vida após a morte, e que esses livros teriam sido ocultados para serem encontrados pelos iniciados de gerações posteriores. Pinch escreve:
Todos os feitiços funerários podiam ser considerados obras de Thoth. Desenvolveu-se uma tradição segundo a qual Thoth teria escrito quarenta e dois livros contendo todo o conhecimento necessário à humanidade. Parte desse saber era oculto e deveria ser revelado apenas a iniciados que não fariam mau uso do poder que ele concedia. Os gregos identificaram Thoth com seu deus mensageiro, Hermes. O conjunto de escritos conhecido como Hermética afirmava preservar os ensinamentos de Hermes Trismegisto (Thoth, o Três Vezes Grande). Hermes Trismegisto acabou sendo reinterpretado como um grande pensador que teria vivido milhares de anos no passado. (211)
Essa afirmação sobre Thoth e os quarenta e dois livros foi feita pela primeira vez pelo padre da Igreja Clemente de Alexandria (cerca de 150–215), que registrou na sua obra Stromata que eles teriam sido escritos pelo deus Hermes. Hermes, o deus, passou posteriormente a ser entendido como Hermes, o sábio, e foi em grande parte dessa forma que o Livro de Thoth chegou à compreensão moderna. Representações ficcionais do Livro de Thoth, atribuído ora ao deus egípcio, ora ao deus grego, ora ao sábio grego, apareceram em livros e filmes ao longo do último século. O fascínio contínuo por Thoth e por seu vasto conhecimento é um testemunho de sua popularidade duradoura.
O Culto a Thoth e Seu Legado
O principal centro de culto de Thoth ficava em Hermópolis, mas ele era amplamente venerado por todo o Egito. Assim como ocorria com outros deuses, seus templos e santuários serviam como pontos centrais da comunidade e como locais de aconselhamento, orientação espiritual e auxílio geral na obtenção de alimentos ou cuidados médicos. Os sacerdotes de Thoth eram escribas altamente instruídos, e o seu culto estava intimamente associado à classe governante. No entanto, não eram apenas a monarquia ou a elite educada que admiravam Thoth, como observa Wilkinson:
A presença de Thoth nos nomes de vários monarcas do Império Novo demonstra a importante aceitação e o patrocínio real do culto desse deus, mas referências anteriores a oferendas feitas em túmulos privados durante o festival de Thoth também mostram a importância desse deus para indivíduos não pertencentes à realeza, e seu culto parece sempre ter tido uma base ampla entre os egípcios antigos... Amuletos do deus na forma de um íbis ou de um homem com cabeça de íbis, às vezes segurando o olho divino wedjat, são encontrados, embora aqueles que o representam como um babuíno fossem mais comuns. Esses amuletos eram usados em vida, muitos deles presumivelmente por escribas. A sabedoria e os poderes mágicos atribuídos a Thoth faziam com que ele fosse naturalmente invocado em muitos feitiços utilizados na magia e na religião populares. (216–217)
Seu centro de culto em Hermópolis era extremamente popular. Íbis e babuínos mumificados eram vendidos aos peregrinos que vinham para o festival como oferendas votivas aos deuses. Escavações na necrópole próxima de Tuna el-Gebel revelaram milhares desses animais mumificados. Wilkinson escreve: “Outro grande local de sepultamento de íbis e babuínos ficava em Saqqara, e essas catacumbas ilustram bem a contínua e ampla popularidade de Thoth na religião dos períodos posteriores” (217). A veneração duradoura de Thoth também é reconhecida pelo número de amuletos dedicados a ele que foram encontrados em diferentes períodos ao longo da história do Egito.
Ainda hoje, Thoth é reconhecido como uma entidade espiritual importante. Além daqueles que o reverenciam em comunidades da Nova Era, Wicca ou Neo-Pagãs, ele é uma das divindades egípcias mais conhecidas na cultura popular. A Universidade do Cairo apresenta Thoth no seu trono como logotipo, e as estátuas do deus continuam sendo algumas das mais populares e reconhecíveis no mundo moderno, depois das imagens do rei Tutankhamon, da rainha Nefertiti e da deusa Bastet.
