A Peste de Cipriano irrompeu na Etiópia por volta da Páscoa de 250 d.C., atingindo Roma no ano seguinte, disseminando-se para a Grécia e, finalmente, para a Síria. A Peste permaneceu durante 20 anos e, no seu auge, matou algo como 5.000 pessoas por dia em Roma. As guerras constantes que confrontavam o Império, com ataques às fronteiras, notadamente pelas tribos invasoras germânicas, atacando a Gália, e os Partos, atacando a Mesopotâmia, contribuíram para a sua rápida disseminação e altíssima mortalidade. Períodos de seca, inundações e fome exauriram as populações, enquanto os negócios do Império entravam em turbulência. São Cipriano (*200 +258), bispo de Cartago, apontou que parecia que o mundo estava encontrando seu fim. São Cipriano (200-258), bispo de Cartago, apontou que parecia que o mundo estava encontrando seu fim.
Nome e Interpretação
A doença recebeu esse nome devido a Cipriano que descreveu, em primeira mão, a doença e que se tornou a base para o que o mundo viria a conhecer a respeito desse mal. Ele escreveu, em detalhes, a respeito da irrupção da doença em sua obra De Mortalitate (A Respeito da Mortalidade). Os que dela sofriam experimentavam crises de diarréia, vômitos contínuos, febre, surdez, cegueira, paralisia das pernas e pés, edema da garganta e olhos vermelhos (hemorragia conjuntival) e manchas na boca. Frequentemente resultando em morte. A fonte da terrível doença foi interpretada pelos pagãos como uma punição dos deuses. Não era essa a interpretação comum de uma cultura pré-Cristã ou Cristianismo Primitivo por todo o mundo Mediterrâneo, que entendia a doença como de origem sobrenatural. Tempos depois, eruditos e historiadores imaginaram explicações alternativas.
Natureza da Doença
A identificação das doenças ocorridas no mundo antigo é sempre difícil devido ao estado da medicina e seus diagnósticos, os quais não possuíam o grau de conhecimento e sofisticação disponíveis na ciência moderna. Com base nos relatos da época que chegaram até nossos dias, a doença parecia ser altamente contagiosa, transmitida por contacto direto e indireto (incluindo através das roupas). Durante séculos, a partir desse episódio, os estudiosos sugeriram um bom número de doenças que assolaram o Império no século III: Peste Bubônica, Tifo, Cólera, Varíola, Sarampo e Antrax. A falta de certos sintomas reveladores eliminou muitas dessas doenças suspeitas, p.ex., Peste Bubônica foi eliminada pois os relatos da época não mencionam inchaços ou bubões no corpo do doente. Uma boa variedade de sintomas conhecidos sugere uma combinação de doenças, incluindo Meningite e Disenteria Bacilar Aguda. Kyle Harper, em seu artigo “Pandemias e Transições para Antiguidade Tardia” (Pandemics and Passages to Late Antiquity,), argumenta que provavelmente o grande culpado foi uma Febre Hemorrágica Viral, possivelmente Ébola.
Um potencial avanço na identificação da doença ocorreu em 2014 quando arqueologistas italianos desenterraram corpos no Complexo Funerário de Harwa em Luxor (anteriormente Tebas). Foram identificadas tentativas para impedir a disseminação da doença pela cobertura dos corpos com cal, bem como pela incineração. Tentativas para se extrair o DNA dos restos mortais demonstraram-se inúteis pois o clima do Egito produz completa destruição do DNA. Sem a evidência genética, nunca se poderá ter uma prova conclusiva da verdadeira doença que assolou Roma e o Império há 1800 anos.
Consequências
A ocorrência da doença na metade dos anos 200 produziu uma grave crise política, militar, econômica e religiosa. Além dos milhares de mortos diariamente em Roma e na vizinhança imediata, a eclosão ceifou as vidas de dois imperadores: Hostiliano em 251 e Cláudio II Gótico em 270. O período entre os dois imperadores testemunhou grande instabilidade política, com os rivais disputando a pretensão de ascensão ao trono. A falta de uma liderança e a redução no número de soldados das fileiras das legiões romanas, contribuíram para o esfacelamento do império devido ao enfraquecimento da capacidade de Roma em se defender dos ataques externos. A disseminação da doença levou as populações rurais a fugirem para as cidades, com consequente abandono dos campos, junto com a morte de fazendeiros que ali haviam permanecido, produziu um colapso na produção agrícola. Algumas áreas ficaram inúteis para o plantio devido ao reaparecimento dos pântanos.
Somente a nascente Igreja Cristã beneficiou-se do caos. A doença matou imperadores e pagãos, sem que eles conseguissem uma explicação para a causa da Peste ou mostrassem alguma sugestão para impedir a propagação da doença ou até mesmo ações para a cura dos doentes e moribundos. Os cristãos exerceram papel ativo no cuidado dos doentes, bem como promovendo funeral digno para os mortos. Os cristãos que vieram a ser acometidos pela doença entendiam isso como uma forma de martírio, ao mesmo tempo oferecendo aos não crentes a possibilidade de conversão e as recompensas da vida após a morte na crença cristã. Enfim, esse episódio não somente fortaleceu, como também auxiliou a expansão do Cristianismo por todos os confins do Império e mundo Mediterrâneo.

