De acordo com a tradição judaica, o Templo original de Jerusalém foi ordenado por Yahweh (YHWH/Javé)/Deus, conforme descrito em II Samuel 7:12(-13), onde Yahweh ordena a Natan que diga a David:
«Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu, que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. 13Ele Me construirá um templo, e firmarei para sempre o seu régio trono. (Costa, A. (†) et al.. Bíblia Sagrada. 11.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1984, pág. 374).
Assim como o texto pós-exílico, I Crónicas 28:2-7, onde David declara:
«... Eu tinha intenção de construir uma casa para a arca da aliança do Senhor e para escabelo dos pés do nosso Deus, e fizera os preparativos para esta construção. ³Mas Deus disse-me: Não edificarás uma casa ao meu nome, porque és muito guerreiro e derramas sangue. (...) 6É Salomão, teu filho, disse-me Ele, quem construirá a Minha cas e os Meus átrios, porque Eu escolhi-o por filho e serei para ele um pai. 7Firmarei para sempre o seu reino, se ele continuar a cumprir os Meus mandamentos e as minhas ordens, como hoje. (Idem, pág. 492-3)
Contexto Socioeconómico
A construção do Primeiro Templo marcou uma transição de um estilo de vida nómada ou migrante para um estilo de vida sedentário e estabelecido. A comunidade israelita, ou judaica, já não era móvel e, por tal, já não era uma prioridade a portabilidade do Tabernáculo. Não só a comunidade se estabeleceu, como também foi emergiu uma monarquia, representando uma transição significativa no modo de vida político e socioeconómico. Curiosamente, foi construído nas proximidades do Templo um palácio, simbolizando arquitetonicamente para os israelitas que Yahweh estava a agir através do rei. De certa forma, o Templo tornou-se a «capela privada» do rei, apresentando-se como uma forma elitista de culto, um conceito que foi reforçado pelo poder da classe sacerdotal em desenvolvimento.
Localização
A localização do Templo não foi escolhida por acaso, mas foi erguido num local de grande significado dentro da tradição bíblica: o Monte Moriá, onde Abraão recebeu a ordem de levar o seu filho, Isaque, como sacrifício ao Deus. Comprovada a sua devoção, Deus salvou Isaque e criou uma aliança com Abraão (Gênesis 22). De uma forma bastante poética, a construção do Templo neste local parece fazer todo o sentido. O judaísmo do Primeiro e Segundo Templos era uma religião de sacrifício, e era no Templo que tais práticas eram realizadas. O facto do Templo ter sido construído no mesmo local onde os judeus acreditavam que Abraão quase sacrificou o próprio filho não foi certamente uma coincidência, e na verdade esta era precisamente a mensagem que os judeus procuravam transmitir. Em vez disso, o edifício provavelmente foi construído antes de Gênesis 22 ser registrado, tornando o texto uma tentativa de legitimar o local e, portanto, a construção do Templo. Em suma, o edifício e o texto devem ser entendidos como representando duas partes de um sistema complexo de santificação e legitimação pela comunidade, a fim de racionalizar a transição de uma forma migratória e móvel de culto para uma de suposta permanência.
Terminologia
Embora o Templo seja referido aqui como uma única instituição, é importante notar que o Templo de Jerusalém foi reconstruído pelo menos três vezes na antiguidade. O primeiro foi erguido sob Salomão, conforme descrito em detalhes em I Reis 5-6, aproximadamente durante o século X a.C.. O segundo foi construído pelos exilados que regressaram em aproximadamente 515 a.C., enquanto o terceiro, e mais elaborado, foi desenvolvido sob Herodes por volta de 19-9 a.C., embora tenha permanecido em reformas até à sua destruição em 70 d.C. Geralmente, nos estudos académicos o Templo estabelecido pelos exilados e o Templo de Herodes são agregados e referidos simplesmente como o "Segundo Templo" ou o "período do Segundo Templo". Embora as características físicas descritas se refiram às evidências do Segundo Templo, o termo "Templo" aqui representará todos os três, pois é o todo da instituição que se trata aqui, e não as diferenças arquitetónicas entre os três.
Adoração e Sacrifício
À medida que o Templo se tornou o centro de culto, com o sacrifício desempenhando um papel importante, até mesmo crucial, no judaísmo antigo, leis e obrigações foram estabelecidas para acomodar os requisitos de sacrifício impostos à comunidade judaica, tanto na Palestina antiga quanto na diáspora. Os livros do Êxodo e do Deuteronómio atestam as três peregrinações obrigatórias: Pessach, Shavuot e Sucot.
16Três vezes por ano, todos os varões, se apresentarão diante do Senhor, teu Deus, no santuário, que Ele tiver escolhido; na festa dos Âzimos, na festa das Senanas e na festa dos Tabernáculos. Não aparecerão com as mãos vazias diante do Senhor. 17Cada um dará segundo as suas posses, segundo as bênçãos que o Senhor, teu Deus, lhe houver concedido. (Deuteronómio 16:16-17, Ibidem, págs. 245-6)
14†Celebrarás três vezes por ano festas em Minha honra. 15(...) ; e niguém se apresentará diante de Mim com as mãos vazias. (...). 17Três vezes por ano, todos os teus varões apresentar-se-ão diante do Senhor. (Êxodo 23:14-17, Ibid., pág. 112).
Estas passagens sugerem que não apenas eram exigidos atos de peregrinação, mas também dízimos e ofertas sacrificiais, como demonstrado em Deuteronómio 12:6:
6Apresentareis ali os vossos holocaustos, os vossos sacrifícios, os vossos dízimos, as vossas ofertas espontâneas, os vossos votos, e as primícias do vosso gado graúdo e miúdo. (Ibid., pág. 240)
Tais passagens demonstram o importante papel económico que o Templo desempenhava no mundo antigo: com o grande afluxo de peregrinos, instituições como albergues, mikva'ot públicos, cambistas e assim por diante, ter-se-iam desenvolvido, em Jerusalém, para acomodar e atender às necessidades das pessoas que viajavam para cumprir os requisitos sacrificiais.
Projeto Arquitetónico
As práticas sacrificiais que ocorriam dentro do Templo refletiam-se no projeto arquitetónico, com a divisão da plataforma do Templo em dois pátios separados: o Pátio Externo (acesso permitido a não judeus e judeus) e o Pátio Interno (acesso permitido apenas a judeus). O Pátio Interno era dividido em três pátios menores, incluindo o Pátio dos Sacerdotes, que consistia no Templo e no altar, bem como o Pátio de Israel e o Pátio das Mulheres. Como resultado, o culto era segregado sexualmente e o acesso ao Santo dos Santos era permitido apenas ao Sumo Sacerdote. Como o Pátio Interno era acessível apenas aos judeus, o Templo era marcado como um espaço exclusivo para os israelitas, demarcando assim a fronteira do ethnos (povo) judeu.
O Fim do Período do Templo
Embora o acesso à antiga sinagoga não fosse restrito apenas aos judeus, vários dos rituais do Templo foram transferidos para a sinagoga após a destruição do Templo no ano de 70. Rituais como o toque do shofar e o aceno do lulav durante o Sukkot eram praticados dentro da sinagoga, preservando as tradições do Templo, bem como um aspecto ritualístico do judaísmo do Templo. Embora o sacrifício fosse permitido apenas nos Templos, as gerações após a destruição do Templo procuraram compromissos e adaptações a fim de preservar a herança cultural e ritualística, e em muitas situações a sinagoga proporcionou um meio de continuidade.

