Sociedade da Grécia Antiga

Mark Cartwright
por , traduzido por Felipe Carneiro
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Embora a sociedade da Grécia antiga fosse dominada pelo cidadão do sexo masculino, com seu status legal pleno, direito ao voto, apto a ocupar cargos públicos e possuir propriedades, os grupos sociais que formavam a população de uma típica cidade-estado grega ou pólis, eram notavelmente diversificados. Mulheres, crianças, imigrantes (gregos e estrangeiros), trabalhadores e escravos tinham papéis definidos, mas havia interação (muitas vezes ilícita) entre as classes e também alguma movimentação entre os grupos sociais, principalmente de segunda geração de descendentes e durante períodos de estresse, como guerras.

A sociedade da Grécia antiga era composta em grande parte pelos seguintes grupos:

  • cidadãos do sexo masculino - três grupos: aristocratas proprietários de terras (aristoi), agricultores mais pobres (perioikoi) e a classe média (artesãos e comerciantes).
  • trabalhadores semilivres (por exemplo: os hilotas de Esparta).
  • mulheres - pertencentes a todos os grupos masculinos acima, mas sem direitos de cidadão.
  • crianças - categorizadas, geralmente, como menores de 18 anos.
  • escravos - os douloi que tinham deveres civis ou militares.
  • estrangeiros - não residentes (xenoi) ou residentes estrangeiros (metoikoi) com status inferior ao de cidadãos do sexo masculino.
Demeter & Persephone
Deméter e Perséfone Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)
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Classes

Embora o cidadão do sexo masculino tivesse, de longe, a melhor posição na sociedade Grega, havia diferentes classes dentro desse grupo. No topo da árvore social estavam as "melhores pessoas", os aristoi. Possuindo mais dinheiro do que todos os outros, essa classe podia se equipar com armaduras, armas e cavalo quando estavam em campanha militar. Os aristocratas geralmente se dividiam em poderosas facções familiares ou clãs que controlavam todos os cargos políticos importantes na polis. Sua riqueza provinha do fato de terem propriedades e, ainda mais importante, as melhores terras, ou seja, as mais férteis e mais próximas da proteção oferecida pelas muralhas da cidade.

Também existia uma segunda classe de cidadãos mais pobres. Esses eram homens que tinham terras, mas talvez lotes menos produtivos e situados mais longe da cidade, e suas propriedades eram menos protegidas do que as terras nobres próximas à cidade. Essas terras podiam ser tão distantes que os proprietários costumavam morar na própria área ao passo de ir e voltar da cidade. Esses cidadãos eram chamados de perioikoi (aqueles que vivem ao redor) ou, pior ainda, "pés sujos". Por segurança, eles se agrupavam em comunidades de pequenos vilarejos, subordinados à cidade vizinha. À medida que as populações das cidades cresciam e as heranças se dividiam cada vez mais entre os irmãos, essa classe secundária cresceu significativamente.

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Havia um terceiro grupo, a classe dos comerciantes. Envolvidos em fabricação, comércio e negócios, esses eram os novos ricos. No entanto, os aristoi guardavam zelosamente seus privilégios e o monopólio político, garantindo que somente os proprietários de terras pudessem ascender as posições de real poder. No entanto, houve alguma movimentação entre as classes. Alguns poderiam ascender ao acumular riqueza e influência, outros poderiam descer de classe ao falir (o que poderia levar à perda da cidadania ou até mesmo à escravidão). Problemas de saúde, perda de herança, revoltas políticas ou guerra também poderiam fazer com que os "melhores" ficassem com os pés um pouco sujos.

[vídeo:6-1386]

Mulheres

Cidadãs mulheres tinham poucos direitos em comparação com os cidadãos homens. Sem poder votar, possuir terras ou herdar, o lugar da mulher era no lar e seu objetivo na vida era a criação dos filhos. O contato com homens que não pertenciam à família era desencorajado e as mulheres ocupavam seu tempo com atividades internas, como bordado e tecelagem. As mulheres espartanas eram tratadas de forma um pouco diferente de outros estados, por exemplo, elas tinham que fazer treinamento físico (nuas) como os homens, tinham permissão para possuir terras e podiam beber vinho.

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Greek Peplos Dress
Peplos, túnica feminina da Grécia Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

As cidadãs tinham de se casar virgens e o casamento era geralmente organizado pelo pai, que escolhia o marido e aceitava dele um dote. Se a mulher não tivesse pai, então seus interesses (perspectivas de casamento e administração da propriedade) eram cuidados por um guardião (kurios), talvez um tio ou outro parente do sexo masculino. Casados geralmente com treze ou quatorze anos, o amor tinha pouco a ver com a união de marido e mulher. É claro que o amor podia se desenvolver entre o casal, mas o melhor que se poderia esperar era a philia - um sentimento comum de amizade/amor; eros, o amor do desejo, deveria ser encontrado em outro lugar, pelo menos para o homem. Os casamentos podiam ser encerrados por três motivos. A primeira e mais comum era a rejeição pelo marido (apopempsis ou ekpempsis). Não era necessário um motivo, era esperada apenas a devolução do dote. A segunda causa de término era a saída da esposa da casa da família (apoleipsis) e, nesse caso, o novo guardião da mulher era obrigado a agir como seu representante legal. No entanto, essa era uma ocorrência rara e, como resultado, a reputação da mulher na sociedade era prejudicada. O terceiro motivo para o término era quando o pai da noiva pedia a filha de volta (aphairesis), provavelmente para oferecê-la a um outro homem com um dote mais atrativo. Essa última opção só era possível, no entanto, se a esposa não tivesse filhos. Se uma mulher ficasse viúva, era exigido que ela se casasse com um parente próximo para garantir que a propriedade permanecesse na família.

As mulheres, é claro, também estavam presentes nas várias outras classes de não cidadãos. O grupo sobre o qual temos mais informações é o de trabalhadoras do sexo. As mulheres eram divididas em duas categorias. A primeira e talvez a mais comum era a prostituta de bordel (pornē). A segunda era a prostituta de classe alta (hetaira). Essas mulheres eram educadas em música e cultura e, muitas vezes, formaram relacionamentos duradouros com homens casados. Foi também essa classe de mulheres que entreteve os homens (em todos os sentidos) no célebre simpósio.

Crianças e Adolescentes

Os filhos dos cidadãos frequentavam escolas em que o currículo incluía leitura, escrita e matemática. Depois de dominado o básico, os estudos seguiam para literatura (por exemplo, Homero), poesia e música (especialmente a lira). O atletismo também era um elemento essencial na educação dos jovens. Em Esparta, meninos de sete anos de idade eram colocados sob a orientação de um jovem mais velho para passarem por um árduo treinamento físico. Em Atenas, os cidadãos adultos jovens (de 18 a 20 anos) tinham de prestar serviço civil e militar e sua educação continuava com aulas de política, retórica e cultura. As meninas também eram educadas de forma similar aos meninos, mas com maior ênfase em dança, ginástica e música, que podiam ser exibidas em competições musicais e em festivais e cerimônias religiosas. O objetivo final da educação de uma menina era prepará-la para seu papel na criação de uma família.

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Child's Commode
Commode, assento sanitário infantil Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Uma parte importante da educação de um jovem grego envolvia a pederastia, tanto para meninos quanto para meninas. Um relacionamento entre um adulto e um adolescente que incluía relações sexuais, mas, além do relacionamento físico, o parceiro mais velho atuava como mentor do mais jovem e o educava por meio da experiência prática e mundana do mais velho.

Trabalhadores Braçais

A sociedade grega incluía uma proporção significativamente maior de trabalhadores em relação a escravos. Esses eram trabalhadores semilivres, totalmente dependentes de seu empregador. O exemplo mais famoso é a classe dos helot de Esparta. Esses dependentes não eram propriedade de um cidadão em particular - não podiam ser vendidos como um escravo - e geralmente moravam com suas famílias. Em geral, eles faziam acordos com seus empregadores, como dar uma quantidade de sua produção ao proprietário da fazenda e ficar com o restante para si. Às vezes, a cota exigida podia ser alta ou baixa, e também podia haver alguns benefícios extras para os servos, como proteção e segurança quando em grupos. No entanto, a classe servil ou os helots jamais poderiam alcançar segurança de fato, pois recebiam pouco ou nenhum status legal e eram tratados com dureza, eram até mortos em expurgos regulares (especialmente em Esparta), a fim de instilar o medo que garantiria a subordinação contínua à classe dominante. Em certos períodos, como na guerra, os helots eram obrigados a servir nas forças armadas e, lutando bem, podiam ganhar o direito de deixar essa classe e se juntar aos grupos sociais intermediários que existiam abaixo do nível de cidadão pleno e incluíam indivíduos como crianças com pais de status misto (por exemplo: pai-cidadão, mãe-helots).

Escravos

Na sociedade grega, os escravos eram vistos como uma parte necessária e perfeitamente normal da vida na cidade. Adquiridos por meio de guerras e conquistas, sequestros e compras, os escravos estavam simplesmente entre os perdedores da vida. Havia até mesmo argumentos intelectuais de filósofos como Aristóteles, que propunham a crença de que os escravos eram comprovadamente inferiores, um produto de seu ambiente e de suas características herdadas. Os gregos se convenceram que tinham o melhor ambiente, as melhores características e a linhagem mais pura e, portanto, haviam nascido para governar.

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Red-figure Tondo Depicting a Youth
Tondo, arte representando um jovem Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

É impossível dizer com exatidão quantos escravos (douloi) havia na sociedade grega e que proporção da população eles representavam. É improvável, devido aos custos, que cada cidadão tivesse seu próprio escravo, mas alguns cidadãos, sem dúvida, possuíam muitos escravos. Dessa forma, as estimativas da população escrava no mundo grego variam entre 15 e 40% da população total. No entanto, um discurso de defesa feito por Lísias em um processo judicial em Atenas - e indícios de outros, como Demóstenes - sugerem fortemente que, se nem todos os cidadãos possuíam escravos, eles certamente os desejavam e ser proprietário de escravos era considerado uma medida de status social. Os escravos não eram apenas propriedade de indivíduos, mas também do Estado, que os usava em projetos municipais, como mineração ou como no caso de Atenas, na força policial.

O relacionamento entre escravos e proprietários parece ter sido como em qualquer outro período da história, uma mistura de desprezo, desconfiança e abuso por parte dos proprietários e desprezo, roubo e sabotagem por parte dos escravizados. O material de origem é sempre do ponto de vista do proprietário de escravo, mas há referências na literatura, especialmente na comédia grega, de amizade e lealdade em alguns relacionamentos entre proprietário e escravo. Embora a flagelação de escravos seja comumente mencionada em peças gregas, também haviam tratados escritos exaltando os benefícios da gentileza e dos incentivos no gerenciamento de escravos.

Os escravos trabalhavam em todas as áreas e mais de 200 ocupações foram identificadas. Isso incluía trabalhar em casa, na agricultura, em oficinas industriais (por exemplo, fabricação de escudos, alimentos, roupas e perfumes), minas, transporte, varejo, bancos, entretenimento, nas forças armadas como assistente de seu proprietário ou como carregadores de bagagem, como remadores em embarcações navais ou até mesmo como lutadores. As fazendas eram geralmente pequenas e até mesmo os cidadãos mais ricos tendiam a possuir várias fazendas pequenas em vez de uma grande propriedade; portanto, os escravos não eram concentrados em grandes grupos como nas sociedades antigas posteriores.

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Symposiast & Hetaira
Simposista e Hetaira Sebastià Giralt (CC BY-NC-SA)

Para os escravos, havia, pelo menos para alguns, um vislumbre de esperança de um dia alcançar a liberdade. Há casos em que os escravos, especialmente aqueles envolvidos na manufatura e na indústria, vivendo separadamente de seus proprietários e com certa independência financeira, podiam pagar por sua liberdade com o dinheiro que haviam economizado. Além disso, os escravos do exército às vezes recebiam a liberdade do Estado após suas façanhas vitoriosas.

Estrangeiros

Além dos escravos, a maioria das poleis Gregas tiveram vários estrangeiros livres (xenoi) que optaram por se realocar de outras áreas da Grécia, do Mediterrâneo e do Oriente Próximo, trazendo consigo habilidades como cerâmica e metalurgia. Esses estrangeiros geralmente tinham que registrar sua residência e, assim, tornavam-se uma classe reconhecida (com status inferior ao dos cidadãos plenos) chamada de metecos (metoikoi). Em troca dos benefícios de cidadão "hóspede", eles tinham que fornecer um patrocínio local, pagar impostos, às vezes pagar impostos adicionais, contribuir com os custos de festivais menores e até mesmo participar de campanhas militares quando necessário. Apesar das suspeitas e preconceitos contra os estrangeiros "bárbaros" que frequentemente aparecem nas fontes literárias, houve casos em que os metoikoi conseguiram se tornar cidadãos plenos após adequada demonstração de lealdade e contribuição para o bem do estado anfitrião. Em seguida, eles recebiam igual status fiscal e o direito de possuir propriedades e terras. Seus filhos também podiam se tornar cidadãos. Entretanto, alguns estados, notadamente Esparta, às vezes desencorajavam ativamente a imigração ou periodicamente expulsavam os xenoi. O relacionamento entre estrangeiros e cidadãos era um tanto tenso, principalmente em tempos de guerras e dificuldades econômicas.

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Sobre o Tradutor

Felipe Carneiro
Oi, me chamo Felipe. Trabalho com tradução e minha paixão por historia me trouxe até aqui para contribuir com a WHE, pois acredito em fazer algo para além de nós mesmos.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, setembro 03). Sociedade da Grécia Antiga. (F. Carneiro, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-483/sociedade-da-grecia-antiga/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Sociedade da Grécia Antiga." Traduzido por Felipe Carneiro. World History Encyclopedia, setembro 03, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-483/sociedade-da-grecia-antiga/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Sociedade da Grécia Antiga." Traduzido por Felipe Carneiro. World History Encyclopedia, 03 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-483/sociedade-da-grecia-antiga/.

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